Apocalipse de Paulo
Ler no Une SacraTambém chamado Visão de Paulo, desenvolve o que o apóstolo diz ter visto quando foi "arrebatado ao terceiro céu" (2 Coríntios 12). Escrito no fim do século IV, conta que foi achado sob a casa de Paulo em Tarso. A criação se queixa a Deus dos pecados dos homens; Paulo vê a morte do justo e a do ímpio, visita a Cidade de Cristo, com os seus rios de mel, leite, vinho e azeite, e desce ao inferno, onde cada pena corresponde a uma culpa. Comovido, pede misericórdia e obtém para os condenados descanso aos domingos. Muito lido na Idade Média, Dante o cita no Inferno. James traduz a versão latina longa, que, como a grega e a siríaca, termina de repente numa fala de Elias.
Capítulo 1
1Aqui começa a Visão de São Paulo Apóstolo.
Mas virei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos — se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe — foi arrebatado ao terceiro céu; e sei que esse homem — se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe — foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras secretas que não é lícito ao homem pronunciar. De tal homem me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, a não ser nas minhas fraquezas.
Em que tempo foi isto manifestado? No consulado de Teodósio Augusto, o jovem, e de Cinégio, a um homem honrado que então morava em Tarso, na casa que fora a casa de São Paulo, apareceu de noite um anjo e deu-lhe uma revelação, dizendo que rompesse o alicerce da casa e publicasse o que encontrasse; mas ele julgou que fosse uma visão enganosa.
2Mas pela terceira vez o anjo veio, açoitou-o e obrigou-o a romper o alicerce. E ele cavou e encontrou uma caixa de mármore com inscrições nos lados: nela estava a revelação de São Paulo, e os sapatos com que ele andava quando ensinava a palavra de Deus. Mas teve medo de abrir aquela caixa e levou-a ao juiz; e o juiz tomou-a, selada com chumbo como estava, e enviou-a ao imperador Teodósio, temendo que fosse coisa estranha; e o imperador, quando a recebeu, abriu-a e encontrou a revelação de São Paulo. Uma cópia dela enviou a Jerusalém, e o original guardou consigo. (O grego inverte isto: guardou a cópia e enviou o original. E acrescenta: E nela estava escrito o seguinte.)
3Ora, enquanto eu estava no corpo, no qual fui arrebatado ao terceiro céu, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Fala a este povo: Até quando transgredireis, e acrescentareis pecado sobre pecado, e tentareis o Senhor que vos fez? Dizendo que sois filhos de Abraão, mas fazendo as obras de Satanás (assim o grego; o latim: Sois filhos de Deus, fazendo a obra do diabo), andando na confiança de Deus, gloriando-vos só do vosso nome, mas sendo pobres por causa da matéria do pecado. Lembrai-vos, pois, e sabei que toda a criação está sujeita a Deus, mas só o gênero humano peca. Ele tem domínio sobre toda a criação e peca mais do que toda a natureza.
4Pois muitas vezes o sol, a grande luz, apelou ao Senhor, dizendo: Ó Senhor Deus Todo-Poderoso, olho para a impiedade e a injustiça dos homens. Permite-me, e farei com eles segundo o meu poder, para que saibam que só tu és Deus. E veio-lhe uma voz, que dizia: Todas estas coisas eu sei, pois o meu olho vê e o meu ouvido ouve, mas a minha longanimidade os suporta até que se convertam e se arrependam. Mas, se não voltarem para mim, julgá-los-ei a todos.
5E às vezes a lua e as estrelas apelaram ao Senhor, dizendo: Ó Senhor Deus Todo-Poderoso, a nós deste o domínio sobre a noite; até quando olharemos para as impiedades, e fornicações, e homicídios que os filhos dos homens cometem? Permite-nos fazer com eles segundo os nossos poderes, para que saibam que só tu és Deus. E veio-lhes uma voz, que dizia: Sei todas estas coisas, e o meu olho olha para elas e o meu ouvido ouve, mas a minha longanimidade os suporta até que se convertam e se arrependam. Mas, se não voltarem para mim, julgá-los-ei.
6Muitas vezes também o mar clamou, dizendo: Ó Senhor Deus Todo-Poderoso, os homens profanaram em mim o teu santo nome; permite-me, e levantar-me-ei e cobrirei todo bosque e árvore e o mundo inteiro, até apagar todos os filhos dos homens de diante da tua face, para que saibam que só tu és Deus. E de novo veio uma voz, que dizia: Sei tudo, pois o meu olho vê todas as coisas, e o meu ouvido ouve, mas a minha longanimidade os suporta até que se convertam e se arrependam. Mas, se não voltarem, julgá-los-ei.
Às vezes também as águas apelaram contra os filhos dos homens, dizendo: Ó Senhor Deus Todo-Poderoso, os filhos dos homens contaminaram todos o teu santo nome. E veio uma voz, que dizia: Sei todas as coisas antes que aconteçam, pois o meu olho vê e o meu ouvido ouve todas as coisas; mas a minha longanimidade os suporta até que se convertam. E, se não, julgarei. Muitas vezes também a terra clamou ao Senhor contra os filhos dos homens, dizendo: Ó Senhor Deus Todo-Poderoso, sofro dano mais do que toda a tua criação, suportando as fornicações, adultérios, homicídios, furtos, perjúrios, magias e feitiçarias dos homens, e todos os males que fazem, de modo que o pai se levanta contra o filho, e o filho contra o pai, o estrangeiro contra o estrangeiro, cada um para contaminar a mulher do seu próximo. O pai sobe ao leito do seu filho, e o filho igualmente sobe ao leito do seu pai; e com todos estes males os que oferecem sacrifício ao teu nome profanaram o teu lugar santo. Por isso sofro dano mais do que toda a criação, e não quereria dar a minha excelência e os meus frutos aos filhos dos homens. Permite-me, e destruirei a excelência dos meus frutos. E veio uma voz e disse: Sei todas as coisas, e não há quem se possa esconder do seu pecado. E conheço a sua impiedade; mas a minha santidade os suporta até que se convertam e se arrependam. Mas, se não voltarem para mim, julgá-los-ei.
7Vede, pois, filhos dos homens. A criatura está sujeita a Deus; mas só o gênero humano peca.
Por isso, filhos dos homens, bendizei o Senhor Deus sem cessar, em todas as horas e em todos os dias; mas especialmente quando o sol se põe. Pois nessa hora todos os anjos vão ao Senhor para adorá-lo e apresentar as obras dos homens que cada homem faz desde a manhã até a tarde, sejam boas ou más. E há um anjo que sai alegre do homem em quem habita ‹e outro vai com o semblante triste, gr.›.
Quando, pois, o sol se põe, na primeira hora da noite, nessa mesma hora vai o anjo de cada povo e de cada homem e mulher, que os protegem e guardam, porque o homem é a imagem de Deus; e igualmente à hora da manhã, que é a duodécima hora da noite, todos os anjos dos homens e das mulheres vão ao encontro de Deus e apresentam toda a obra que cada homem fez, seja boa ou má. E todo dia e toda noite os anjos apresentam a Deus a conta de todas as obras do gênero humano. A vós, pois, digo, filhos dos homens: bendizei o Senhor Deus sem cessar todos os dias da vossa vida.
8À hora marcada, pois, todos os anjos, cada um alegrando-se, saem juntos diante de Deus ao seu encontro e o adoram na hora estabelecida; †e eis que de repente, no tempo marcado, houve um encontro,† e os anjos vieram adorar na presença de Deus, e o espírito saiu ao seu encontro, e houve uma voz, que dizia: De onde vindes, nossos anjos, trazendo fardos de notícias?
9Eles responderam e disseram: Vimos dos que renunciaram ao mundo por amor do teu santo nome, andando errantes como estrangeiros e nas cavernas dos rochedos, e chorando a cada hora em que habitam na terra, e tendo fome e sede por amor do teu nome; com os rins cingidos, segurando nas mãos o incenso do seu coração, e orando e bendizendo a cada hora, sofrendo angústia e dominando-se, chorando e lamentando-se mais do que todos os que habitam na terra. E nós, que somos os seus anjos, choramos com eles; para onde, pois, te agradar, manda-nos ir e servir, †para que não façam de outro modo, mas os pobres† mais do que todos os que habitam na terra. (O sentido exigido, como mostra o grego, é que os anjos pedem que estes homens bons continuem no bem.) E a voz de Deus veio a eles, dizendo: Sabei que de agora em diante a minha graça será estabelecida convosco, e o meu auxílio, que é o meu Filho muito amado, estará com eles, governando-os em todo tempo; e ele os servirá e nunca os abandonará, pois o lugar deles é a sua morada.
10Quando, pois, estes anjos partiram, eis que vieram outros anjos para adorar na presença da majestade, para se encontrarem com ela, e choravam. E o espírito de Deus saiu ao seu encontro, e veio a voz de Deus, dizendo: De onde vindes, nossos anjos, trazendo fardos, ministros das notícias do mundo? Eles responderam e disseram na presença de Deus: Vimos dos que invocaram o teu nome; e os laços do mundo os tornaram miseráveis, inventando muitas desculpas em todo tempo, e não fazendo sequer uma oração pura de todo o coração em todo o tempo da sua vida. Por que, pois, temos de estar com homens que são pecadores? E a voz de Deus veio a eles: Deveis servi-los até que se convertam e se arrependam; mas, se não voltarem para mim, julgá-los-ei.
Sabei, pois, filhos dos homens, que tudo o que é feito por vós, os anjos o contam a Deus, seja bom ou mau.
11[Sir. De novo, depois destas coisas, vi um dos espirituais vindo a mim, e ele me arrebatou no espírito e levou-me ao terceiro céu.]
E o anjo respondeu e disse-me: Segue-me, e mostrar-te-ei o lugar dos justos, para onde são levados quando morrem. E depois levar-te-ei ao abismo sem fundo e mostrar-te-ei as almas dos pecadores, a que espécie de lugar são levadas quando morrem.
E fui atrás do anjo, e ele me levou ao céu, e olhei para o firmamento e vi ali os poderes; e havia ali o esquecimento, que engana e atrai a si os corações dos homens, e o espírito da calúnia, e o espírito da fornicação, e o espírito da ira, e o espírito da insolência, e ali estavam os príncipes da maldade. Estas coisas vi debaixo do firmamento do céu.
E de novo olhei e vi anjos sem misericórdia, sem nenhuma piedade, cujos semblantes estavam cheios de fúria, e os seus dentes saíam para fora da boca; os seus olhos brilhavam como a estrela da manhã do oriente, e dos cabelos da sua cabeça e da sua boca saíam faíscas de fogo. E perguntei ao anjo, dizendo: Quem são estes, Senhor? E o anjo respondeu e disse-me: Estes são os que são destinados às almas dos pecadores na hora da necessidade, daqueles que não creram que tinham o Senhor por seu auxílio e não confiaram nele.
12E olhei para o alto e contemplei outros anjos cujos rostos brilhavam como o sol, e os seus rins estavam cingidos com cintos de ouro, segurando palmas nas mãos, e o sinal de Deus, vestidos com roupas em que estava escrito o nome do Filho de Deus, cheios de toda mansidão e misericórdia. E perguntei ao anjo e disse: Quem são estes, Senhor, que são de tão grande beleza e compaixão? E o anjo respondeu e disse-me: Estes são os anjos da justiça, que são enviados para trazer as almas dos justos na hora da necessidade, daqueles que creram que tinham o Senhor por seu auxílio. E eu lhe disse: Os justos e os pecadores encontram necessariamente [testemunhas] quando morrem? E o anjo respondeu e disse-me: O caminho pelo qual todos passam a Deus é um só; mas os justos, tendo consigo um auxiliador santo, não se perturbam quando vão comparecer na presença de Deus.
13E eu disse ao anjo: Quereria ver as almas dos justos e dos pecadores quando partem do mundo. E o anjo respondeu e disse-me: Olha para baixo, para a terra. E olhei do céu para a terra e contemplei o mundo inteiro, e era como nada à minha vista; e vi os filhos dos homens como se nada fossem, e desfalecendo de todo; e admirei-me e disse ao anjo: É esta a grandeza dos homens? E o anjo respondeu e disse-me: É esta, e estes são os que fazem o mal desde a manhã até a tarde. E olhei e vi uma grande nuvem de fogo estendida sobre o mundo inteiro, e disse ao anjo: Que é isto, Senhor? E ele me disse: Esta é a injustiça que é misturada †pelos príncipes dos pecadores† (gr.: misturada com a destruição dos pecadores; sir.: misturada com as orações dos filhos dos homens).
14E eu, quando ouvi isto, suspirei e chorei e disse ao anjo: Quereria esperar pelas almas dos justos e dos pecadores e ver de que modo partem do corpo. E o anjo respondeu e disse-me: Olha de novo para a terra. E olhei e vi o mundo inteiro; e os homens eram como nada e desfaleciam de todo; e olhei e vi um homem prestes a morrer; e o anjo me disse: Aquele que vês é justo. E de novo olhei e vi todas as obras que ele fizera pelo nome de Deus, e todos os seus desejos, de que se lembrava e de que não se lembrava; todos eles estavam diante da sua face na hora da necessidade. E vi que o homem justo crescera em justiça e encontrara repouso e confiança; e, antes que partisse do mundo, estavam junto dele anjos santos e também maus; e vi-os a todos; mas os maus não encontraram morada nele, e os santos tinham poder sobre a sua alma e a governaram até que saiu do corpo. E despertaram a alma, dizendo: Ó alma, toma conhecimento do teu corpo, de onde saíste; pois tens de voltar ao mesmo corpo no dia da ressurreição, para receber o que é prometido a todos os justos. Receberam, pois, a alma do corpo, e logo a beijaram como alguém conhecido deles cada dia, dizendo-lhe: Tem bom ânimo, pois fizeste a vontade de Deus enquanto moravas na terra. E veio ao seu encontro o anjo que a vigiava dia após dia, e disse-lhe: Tem bom ânimo, ó alma, pois me alegro em ti, porque fizeste a vontade de Deus na terra; pois contei a Deus todas as tuas obras, como foram. Do mesmo modo também o espírito saiu ao seu encontro e disse: Ó alma, não temas, nem te perturbes, até chegares a um lugar que nunca conheceste; mas eu serei o teu auxiliador, pois encontrei em ti um lugar de refrigério no tempo em que habitei em ti, quando eu estava (tu estavas?) na terra. E o espírito [dela] a fortaleceu, e o seu anjo a tomou e levou ao céu. †E o anjo disse† (sir.: E saíram ao seu encontro os poderes maus, os que estão debaixo do céu. E chegou a ela o espírito do erro e disse): Para onde corres, ó alma, e ousas entrar no céu? Para e vejamos se há em ti alguma coisa nossa. E eis que nada encontramos em ti. Vejo também o auxílio de Deus e o teu anjo; e o espírito se alegra contigo, porque fizeste a vontade de Deus na terra. (O siríaco tem mais aqui. Há um combate entre os anjos bons e os maus. O espírito do erro primeiro se lamenta. Depois o espírito do tentador e o da fornicação vão ao seu encontro, e ela escapa, e eles se lamentam. Todos os principados e espíritos maus vêm ao seu encontro e nada encontram, e rangem os dentes. O anjo da guarda manda-os voltar: "Tentastes esta alma, e ela não vos quis ouvir." E ouve-se a voz de muitos anjos que se alegram pela alma. Provavelmente isto é matéria original.) E levaram-na até que adorou na presença de Deus. E, quando eles (ela?) cessaram, logo Miguel e toda a hoste dos anjos caíram e adoraram o escabelo dos seus pés e as suas portas, e disseram juntos à alma: Este é o Deus de todos, que te fez à sua imagem e semelhança. E o anjo voltou e declarou, dizendo: Senhor, lembra-te das suas obras; pois esta é a alma cujas obras eu te relatei, Senhor, fazendo segundo o teu juízo. E do mesmo modo o espírito disse: Eu sou o espírito vivificador que soprou sobre ela; pois tive refrigério nela no tempo em que nela habitei, fazendo segundo o teu juízo. E veio a voz de Deus, dizendo: Assim como esta alma não me entristeceu, também eu não a entristecerei; pois, assim como ela teve misericórdia, também eu terei misericórdia. Seja ela, pois, entregue a Miguel, o anjo da aliança, e que ele a leve ao paraíso da alegria, para que se torne co-herdeira com todos os santos. E depois ouvi as vozes de milhares de milhares de anjos e arcanjos, e dos querubins, e dos vinte e quatro anciãos, que entoavam hinos e glorificavam o Senhor e clamavam: Justo és tu, ó Senhor, e justos são os teus juízos, e não há em ti acepção de pessoas, mas recompensas a cada um segundo o teu juízo. E o anjo respondeu e disse-me: Creste e conheceste que tudo o que cada um de vós fez, ele o contempla na hora da sua necessidade? E eu disse: Sim, Senhor.
15E ele me disse: Olha de novo para baixo, para a terra, e espera pela alma de um homem ímpio que sai do corpo, um que provocou o Senhor dia e noite, dizendo: Nada mais conheço neste mundo; comerei, e beberei, e gozarei das coisas que há no mundo. Pois quem é que desceu ao inferno, e subiu, e nos contou que há lá um juízo? E de novo olhei e vi todo o desprezo do pecador e tudo o que ele fez, e estavam juntos diante dele na hora da necessidade; e aconteceu naquela hora, quando era levado do seu corpo ao juízo, que ele (manuscrito: eu) disse: Melhor me (manuscrito: lhe) fora não ter eu (ele) nascido. E depois disso os anjos santos e os maus e a alma do pecador se juntaram, e os anjos santos não encontraram lugar nela. Mas os anjos maus a ameaçaram (tinham poder sobre ela), e, quando a tiraram do corpo, os anjos a advertiram três vezes, dizendo: Ó alma miserável, olha para a tua carne, de onde saíste; pois tens de voltar à tua carne no dia da ressurreição, para receber a devida recompensa pelos teus pecados e pela tua maldade.
16E, quando a tiraram, o anjo costumeiro (isto é, o da guarda) foi adiante dela e disse-lhe: Ó alma miserável, eu sou o anjo que se apegou a ti e dia após dia relatei ao Senhor as tuas más obras, tudo o que fizeste de noite ou de dia; e, se estivesse em meu poder, não te teria servido nem um só dia; mas nisto nada pude fazer, pois Deus é misericordioso e juiz justo, e mandou-nos que não deixássemos de servir a vossa alma até que vos arrependêsseis; mas tu perdeste o tempo do arrependimento. Eu, na verdade, tornei-me estranho para ti, e tu para mim. Vamos, pois, ao juiz justo; não te deixarei até que eu saiba que desde este dia me tornei estranho para ti. (Aqui o copta insere uma fala bem semelhante do espírito à alma, que pode ser original.) E o espírito a confundiu, e o anjo a perturbou. Quando, pois, chegaram aos principados, e ela já ia entrar no céu, foi-lhe imposto um fardo (trabalho, sofrimento) depois de outro: o erro, e o esquecimento, e a murmuração vieram ao seu encontro, e o espírito da fornicação e os demais poderes, e disseram-lhe: Para onde vais, alma miserável, e ousas correr para o céu? Para, para que vejamos se temos em ti alguma propriedade nossa, pois não vemos contigo um auxiliador santo. (O siríaco acrescenta: E o anjo respondeu e disse: Sabei que é uma alma do Senhor, e ele não a rejeitará, nem eu entregarei a imagem de Deus na mão do maligno. O Senhor me sustentou todos os dias da vida da alma, e pode sustentar-me e ajudar-me; e não a rejeitarei até que suba diante do trono de Deus no alto. Quando ele a vir, tem poder sobre ela e a enviará para onde lhe aprouver.) E depois disso ouvi vozes no alto dos céus, que diziam: Apresentai esta alma miserável a Deus, para que saiba que há um Deus, a quem ela desprezou. Quando, pois, ela entrou no céu, todos os anjos, milhares de milhares, a viram, e todos clamaram a uma só voz, dizendo: Ai de ti, alma miserável, pelas tuas obras que fizeste na terra; que resposta darás a Deus quando te aproximares para adorá-lo? O anjo que estava com ela respondeu e disse: Chorai comigo, meus muito amados, pois não encontrei repouso nesta alma. E os anjos lhe responderam e disseram: Seja esta alma tirada do nosso meio, pois, desde que entrou, o seu fedor passou sobre nós, os anjos. E depois disso foi apresentada para adorar na presença de Deus; e o anjo mostrou-lhe o Senhor Deus, que a fizera à sua própria imagem e semelhança. E o seu anjo correu adiante dela, dizendo: Ó Senhor Deus Todo-Poderoso, eu sou o anjo desta alma, cujas obras te apresentei dia e noite, não agindo segundo o teu juízo. E do mesmo modo o espírito disse: Eu sou o espírito que habitou nela desde que foi feita, e conheço-a em si mesma, e ela não seguiu a minha vontade; julga-a, Senhor, segundo o teu juízo. E a voz de Deus veio a ela e disse: Onde está o teu fruto que produziste, digno dos bens que recebeste? Pus eu distância sequer de um dia entre ti e os justos? Não fiz o sol nascer sobre ti como sobre os justos? E ela calou-se, não tendo nada que responder; e de novo veio a voz, dizendo: Justo é o juízo de Deus, e não há acepção de pessoas junto de Deus, pois de quem praticou a misericórdia ele terá misericórdia, e de quem não teve misericórdia também Deus não terá misericórdia. Seja ele, pois, entregue ao anjo Tartaruco (gr. Temeluco), que está posto sobre os tormentos, e que este o lance nas trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes, e que fique lá até o grande dia do juízo. E depois disso ouvi a voz dos anjos e arcanjos, que diziam: Justo és tu, ó Senhor, e justo é o teu juízo.
17E de novo contemplei, e eis uma alma que era trazida por dois anjos, chorando e dizendo: Tem misericórdia de mim, Deus justo, ó Deus juiz; pois hoje faz sete dias que saí do meu corpo, e fui entregue a estes dois anjos, e eles me trouxeram a estes lugares que eu nunca vira. E Deus, o juiz justo, disse-lhe: Que fizeste? Pois nunca praticaste a misericórdia; por isso foste entregue a tais anjos, que não têm misericórdia, e, porque não fizeste o que é reto, por isso também eles não te trataram com piedade na hora da tua necessidade. Confessa, pois, os teus pecados que cometeste quando estavas no mundo. E ela respondeu e disse: Senhor, não pequei. E o justo Senhor Deus irou-se com indignação quando ela disse: Não pequei; pois mentia. E Deus disse: Pensas que ainda estás no mundo? Se cada um de vós lá, quando peca, esconde e oculta o seu pecado do seu próximo, aqui, porém, nada fica escondido, pois, quando as almas vêm adorar diante do trono, tanto as boas obras como os pecados de cada um são manifestados. E, quando a alma ouviu isto, calou-se, não tendo resposta. E ouvi o Senhor Deus, o juiz justo, dizer de novo: Vem, anjo desta alma, e põe-te no meio. E veio o anjo da alma pecadora, tendo um escrito nas mãos, e disse: Estes, Senhor, que estão nas minhas mãos, são todos os pecados desta alma desde a sua juventude até este dia, desde os dez anos do seu nascimento; e, se mo mandares, Senhor, posso contar os seus atos desde que começou a ter quinze anos. E o Senhor Deus, o juiz justo, disse: Digo-te, ó anjo, não quero de ti a conta desde que começou a ter quinze anos; mas declara os seus pecados dos cinco anos antes de morrer e vir para cá. E de novo Deus, o juiz justo, disse: Pois por mim mesmo juro, e pelos meus santos anjos, e pelo meu poder, que, se ela se tivesse arrependido cinco anos antes de morrer, ainda que pela conduta de um só ano, haveria esquecimento de todo o mal que cometeu antes, e ela teria perdão e remissão dos pecados; mas agora pereça. E o anjo da alma pecadora respondeu e disse: Manda, Senhor, que (tal e tal) anjo traga aquelas (tais e tais) almas.
18E naquela mesma hora as almas foram trazidas para o meio, e a alma do pecador as reconheceu. E o Senhor disse à alma do pecador: Digo-te, ó alma, confessa as tuas ações que praticaste contra estas almas que vês, quando estavam no mundo. E ela respondeu e disse: Senhor, ainda não faz um ano inteiro que matei esta e derramei o seu sangue sobre a terra, e com outra cometi fornicação; e não só isso, mas fiz-lhe muito mal, tirando-lhe os seus bens. E o Senhor Deus, o juiz justo, disse: Não sabias que, quando alguém faz violência a outro, se o que sofreu a violência morre primeiro, é guardado neste lugar até que morra aquele que o feriu, e então ambos comparecem diante do juiz? E agora cada um recebeu conforme fez. E ouvi uma voz que dizia: Seja aquela alma entregue nas mãos de Tartaruco, e tem de ser levada para baixo, ao inferno. Que ele a leve à prisão inferior, e que seja lançada nos tormentos e deixada lá até o grande dia do juízo. E de novo ouvi milhares de milhares de anjos cantando um hino ao Senhor e dizendo: Justo és tu, ó Senhor, e justos são os teus juízos.
19O anjo respondeu e disse-me: Percebeste todas estas coisas? E eu disse: Sim, Senhor. E ele me disse: Segue-me de novo, e levar-te-ei e mostrar-te-ei os lugares dos justos. E segui o anjo, e ele me levou ao terceiro céu e pôs-me diante da porta de um portão; e olhei para ele e vi, e o portão era de ouro, e havia duas colunas de ouro cheias de letras de ouro; e o anjo voltou-se de novo para mim e disse: Bem-aventurado és se entrares por estas portas, pois a ninguém é permitido entrar, senão só aos que guardaram a bondade e a pureza dos seus corpos em todas as coisas. E perguntei ao anjo e disse: Senhor, dize-me por que motivo estão postas estas letras sobre estas tábuas? O anjo respondeu e disse-me: Estes são os nomes dos justos que servem a Deus de todo o coração e que habitam na terra. E de novo eu disse: Senhor, então os seus nomes ‹estão escritos enquanto ainda estão na terra? E ele disse: Não só estão escritos os seus nomes, mas› também o seu rosto e a semelhança dos que servem a Deus estão no céu, e são conhecidos dos anjos; pois eles conhecem os que de todo o coração servem a Deus antes que partam do mundo.
20E, quando entrei pela porta do paraíso, veio ao meu encontro um ancião cujo rosto brilhava como o sol, e ele me abraçou e disse: Salve, Paulo, muito amado de Deus. E beijou-me com o semblante alegre, mas chorava, e eu lhe disse: Pai (lat.: irmão), por que choras? E de novo, suspirando e chorando, disse: Porque somos afligidos pelos homens, e eles nos entristecem muito; pois muitos são os bens que o Senhor preparou, e grandes são as suas promessas, mas muitos não os recebem. E perguntei ao anjo e disse: Quem é este, Senhor? E ele me disse: Este é Enoque, o escriba da justiça.
E entrei naquele lugar e logo vi Elias, e ele veio e saudou-me com alegria e regozijo. E, quando me viu, voltou-se e chorou e disse-me: Paulo, que recebas a recompensa do teu trabalho que fizeste entre os homens. Quanto a mim, vi grandes e múltiplos bens que Deus preparou para todos os justos, e grandes são as promessas de Deus, mas a maior parte não as recebe; sim, a custo, com muito trabalho, um e outro entra nestes lugares.
21E o anjo respondeu e disse-me: Tudo o que agora te mostro aqui, e tudo o que ouves, não o reveles a ninguém na terra. E conduziu-me e mostrou-me; e ouvi ali palavras que não é lícito ao homem pronunciar; e de novo disse: Segue-me ainda, e mostrar-te-ei o que deves relatar e dizer abertamente.
E fez-me descer do terceiro céu, e levou-me ao segundo céu, e de novo me levou ao firmamento, e do firmamento me levou às portas do céu. E o princípio do seu alicerce estava sobre o rio que rega toda a terra. E perguntei ao anjo e disse: Senhor, que rio de água é este? E ele me disse: Este é o Oceano. E de repente saí do céu e percebi que é a luz do céu que brilha sobre toda a terra (ou: toda aquela terra). E ali a terra era sete vezes mais brilhante do que a prata. E eu disse: Senhor, que lugar é este? E ele me disse: Esta é a terra da promessa. Ainda não ouviste o que está escrito: Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra? As almas, pois, dos justos, quando saem do corpo, são enviadas por um tempo a este lugar. E eu disse ao anjo: Será então esta terra manifestada depois (lat.: antes) de um tempo? O anjo respondeu e disse-me: Quando Cristo, a quem pregas, vier reinar, então, por decreto de Deus, a primeira terra será dissolvida, e então esta terra da promessa será mostrada e será como orvalho ou uma nuvem; e então o Senhor Jesus Cristo, o rei eterno, será manifestado e virá com todos os seus santos para habitar nela; e reinará sobre eles mil anos, e eles comerão dos bens que agora te mostrarei.
22E olhei em volta daquela terra e vi um rio que corria com leite e mel. E havia à beira do rio árvores plantadas, cheias de frutos: cada árvore dava doze frutos por ano, e tinham frutos vários e diversos; e vi a forma (criação) daquele lugar e toda a obra de Deus, e ali vi palmeiras de vinte côvados e outras de dez côvados; e aquela terra era sete vezes mais brilhante do que a prata. E as árvores estavam cheias de frutos desde a raiz até os ramos mais altos. (O latim é confuso aqui. O copta tem: Da raiz de cada árvore até o seu coração havia dez mil ramos com dezenas de milhares de cachos, [e havia dez mil cachos em cada ramo,] e havia dez mil tâmaras em cada cacho. E assim era também com as videiras. Cada videira tinha dez mil ramos, e cada ramo tinha dez mil cachos de uvas, e cada cacho tinha dez mil uvas. E havia ali outras árvores, miríades de miríades delas, e o seu fruto estava na mesma proporção.) E eu disse ao anjo: Por que cada árvore produz milhares de frutos? O anjo respondeu e disse-me: Porque o Senhor Deus, pela sua liberalidade, dá os seus dons em abundância aos dignos; pois também eles, por sua própria vontade, se afligiram quando estavam no mundo, fazendo todas as coisas por amor do seu santo nome.
E de novo eu disse ao anjo: Senhor, são estas as únicas promessas que o santíssimo Senhor Deus promete? E ele respondeu e disse-me: Não; pois há outras sete vezes maiores do que estas. Mas eu te digo que, quando os justos saírem do corpo e virem as promessas e os bens que Deus lhes preparou, ainda de novo suspirarão e clamarão, dizendo: Por que proferimos da nossa boca uma palavra para provocar o nosso próximo, ainda que por um dia? E perguntei de novo e disse: São estas as únicas promessas de Deus? E o anjo respondeu e disse-me: Estas que agora vês são para os que são casados e guardam a pureza do seu matrimônio, sendo continentes. Mas às virgens, e aos que têm fome e sede de justiça e se afligem pelo nome do Senhor, Deus dará coisas sete vezes maiores do que estas, que agora te mostrarei.
E depois disso tirou-me daquele lugar onde vi estas coisas, e eis um rio, e as suas águas eram extremamente brancas, mais do que o leite; e eu disse ao anjo: Que é isto? E ele me disse: Este é o lago Aquerusa, onde está a cidade de Cristo; mas não a todo homem é permitido entrar naquela cidade; pois este é o caminho que leva a Deus, e, se alguém for fornicador ou ímpio e se converter, e se arrepender, e der frutos dignos de arrependimento, primeiro, quando sair do corpo, é levado e adora a Deus, e então, por ordem do Senhor, é entregue ao anjo Miguel, e este o lava no lago Aquerusa e assim o introduz na cidade de Cristo com os que não cometeram pecado. E maravilhei-me e bendisse o Senhor Deus por todas as coisas que vi.
23E o anjo respondeu e disse-me: Segue-me, e levar-te-ei à cidade de Cristo. E ele parou junto ao (sobre o) lago Aquerusa, e pôs-me num barco de ouro, e anjos, como três mil, cantavam um hino diante de mim até que cheguei à cidade de Cristo. E os que habitavam na cidade de Cristo alegraram-se muito por mim quando cheguei a eles, e entrei e vi a cidade de Cristo. E era toda de ouro, e doze muros a rodeavam, e havia doze torres dentro (uma torre em cada muro, copta; 12.000 torres, sir.), e entre cada muro havia um estádio (isto é, os muros distavam um estádio uns dos outros, assim o sir.; copta: a circunferência de cada um era de 100 estádios) em volta; e eu disse ao anjo: Senhor, quanto é um estádio? O anjo respondeu e disse-me: É tanto quanto há entre o Senhor Deus e os homens que estão na terra, pois a grande cidade de Cristo é única. E havia doze portas no circuito da cidade, de grande beleza, e quatro rios que a rodeavam. Havia um rio de mel, e um rio de leite, e um rio de vinho, e um rio de azeite. E eu disse ao anjo: Que rios são estes que rodeiam esta cidade? E ele me diz: Estes são os quatro rios que correm abundantemente para os que estão nesta terra da promessa, cujos nomes são estes: o rio de mel chama-se Fison, e o rio de leite Eufrates, e o rio de azeite Geon, e o rio de vinho Tigre. Já que, pois, os justos, quando estavam no mundo, não usaram do seu poder sobre estas coisas, mas tiveram fome e se afligiram por amor do Senhor Deus, por isso, quando entrarem nesta cidade, o Senhor lhes dará estas coisas sem número (?) e sem medida alguma.
24E eu, quando entrei pela porta, vi diante das portas da cidade árvores grandes e altas, que não tinham frutos, mas só folhas. E vi uns poucos homens espalhados no meio das árvores, e lamentavam-se muito quando viam algum homem entrar na cidade. E aquelas árvores faziam penitência por eles, humilhando-se e curvando-se, e de novo erguendo-se.
E eu o contemplei e chorei com eles, e perguntei ao anjo e disse: Senhor, quem são estes, a quem não é permitido entrar na cidade de Cristo? E ele me disse: Estes são os que renunciaram com fervor ao mundo dia e noite com jejum, mas tinham um coração orgulhoso acima dos outros homens, glorificando-se e louvando-se a si mesmos, e nada fazendo pelos seus próximos. Pois a uns saudavam amigavelmente, mas a outros nem sequer diziam "Salve", e a quem queriam abriam, e, se faziam alguma pequena coisa pelo seu próximo, enchiam-se de orgulho. E eu disse: Que é isto, Senhor? O seu orgulho os impediu de entrar na cidade de Cristo? E o anjo respondeu e disse-me: A raiz de todos os males é o orgulho. São eles melhores do que o Filho de Deus, que veio aos judeus com grande humildade? E perguntei-lhe e disse: Por que é então que as árvores se humilham e de novo se erguem? E o anjo respondeu e disse-me: Todo o tempo que estes passaram na terra (outrora estavam na terra, copta) servindo a Deus (serviam a Deus); mas, por causa da vergonha e das injúrias dos homens, envergonharam-se (coraram) por um tempo e humilharam-se; mas não se entristeceram nem se arrependeram, para deixar este orgulho que havia neles (e um dia se curvaram por causa da desonra do homem, pois não podem suportar o orgulho que há nele, copta). Esta é a causa por que as árvores se humilham e de novo se erguem. E perguntei e disse: Por que motivo são deixados às portas da cidade? O anjo respondeu e disse-me: Por causa da grande bondade de Deus, e porque esta é a entrada de todos os seus santos que entram nesta cidade. Por isso são deixados neste lugar, para que, quando Cristo, o rei eterno, entrar com os seus santos, quando ele entrar, todos os justos intercedam por eles; e então entrarão na cidade com eles; contudo nenhum deles é capaz de ter uma confiança como a que têm os que se humilharam, servindo o Senhor Deus toda a sua vida.
25Mas eu avancei, e o anjo me conduziu e levou-me ao rio de mel, e vi ali Isaías, e Jeremias, e Ezequiel, e Amós, e Miqueias, e Zacarias, os profetas menores e maiores, e eles me saudaram na cidade. Eu disse ao anjo: Que caminho é este? E ele me disse: Este é o caminho dos profetas: todo aquele que afligiu a sua alma e não fez a sua própria vontade por amor de Deus, quando partiu do mundo e foi levado ao Senhor Deus e o adorou, então, por ordem de Deus, é entregue a Miguel, e este o introduz na cidade, neste lugar dos profetas, e eles o saúdam como seu amigo e próximo, porque cumpriu a vontade de Deus.
26De novo me levou aonde estava o rio de leite, e vi naquele lugar todas as crianças que o rei Herodes matou por causa do nome de Cristo, e elas me saudaram, e o anjo me disse: Todos os que guardam a castidade com pureza, quando saem do corpo, depois de adorarem o Senhor Deus, são entregues a Miguel e levados às crianças; e elas os saúdam, dizendo: São nossos irmãos, e amigos, e membros; entre eles herdarão as promessas de Deus.
27De novo me tomou e levou-me ao lado norte da cidade, e conduziu-me aonde estava o rio de vinho; e vi ali Abraão, Isaac e Jacó, Ló e Jó e outros santos, e eles me saudaram. E perguntei e disse: Que lugar é este, Senhor? O anjo respondeu e disse-me: Todos os que são hospitaleiros para com os estrangeiros, quando partem do mundo, primeiro adoram o Senhor Deus, e depois são entregues a Miguel e levados por este caminho à cidade, e todos os justos o saúdam como filho e irmão e lhe dizem: Porque guardaste a benevolência e a hospitalidade para com os estrangeiros, vem e tem uma herança na cidade do nosso Senhor Deus. Cada um dos justos receberá os bens de Deus na cidade segundo as suas obras.
28E de novo me levou ao rio de azeite, do lado oriental da cidade. E vi ali homens que se alegravam e cantavam salmos, e disse: Quem são estes, Senhor? E o anjo me disse: Estes são os que se consagraram a Deus de todo o coração e não tinham em si orgulho. Pois todos os que se alegram no Senhor Deus e cantam louvores ao Senhor de todo o coração são trazidos aqui, a esta cidade.
29E levou-me ao meio da cidade, junto aos doze muros (ao duodécimo muro, copta). Ora, havia naquele lugar um muro mais alto; e perguntei e disse: Há na cidade de Cristo um muro mais excelente em honra do que este lugar? E o anjo respondeu e disse-me: O segundo é melhor do que o primeiro, e igualmente o terceiro do que o segundo; pois um excede o outro até o duodécimo muro. E eu disse: Por que, Senhor, um excede o outro em glória? Mostra-mo. E o anjo respondeu e disse-me: Todos os que têm em si ainda que um pouco de maledicência, ou de inveja, ou de orgulho, perdem alguma coisa da glória, ainda que estejam na cidade de Cristo. Olha para trás de ti.
E voltei-me e vi tronos de ouro postos em cada uma das portas, e sobre eles homens que tinham coroas de ouro e joias; e olhei e vi dentro, entre os doze homens, tronos postos noutra ordem (fila, maneira?), que pareciam de muita glória, de modo que ninguém é capaz de declarar o seu louvor. E perguntei ao anjo e disse: Senhor, quem está sobre o trono? E o anjo respondeu e disse-me: Estes são os tronos dos que tinham bondade e entendimento de coração e, no entanto, se fizeram loucos por amor do Senhor Deus, não conhecendo nem as Escrituras nem muitos salmos, mas, guardando na memória um capítulo dos preceitos de Deus, cumpriram-no com grande diligência e tiveram uma intenção reta diante do Senhor Deus; e por estes uma grande admiração se apoderará de todos os santos diante do Senhor Deus, que falarão uns com os outros, dizendo: Parai e vede os ignorantes que nada [mais] sabem, como mereceram tal e tão bela veste e tão grande glória por causa da sua inocência.
E vi no meio da cidade um altar extremamente alto. E havia alguém de pé junto ao altar, cujo rosto brilhava como o sol, e segurava nas mãos um saltério e uma harpa e cantava louvores, dizendo: Aleluia. E a sua voz enchia toda a cidade. E, quando todos os que estavam sobre as torres e as portas o ouviram, responderam: Aleluia, de modo que os alicerces da cidade foram abalados. E perguntei ao anjo e disse: Quem é este, Senhor, que é de tão grande poder? E o anjo me disse: Este é Davi. Esta é a cidade de Jerusalém; e, quando Cristo, o rei da eternidade, vier na plenitude (confiança, liberdade) do seu reino, ele irá de novo adiante dele para cantar louvores, e todos os justos juntos cantarão louvores, respondendo: Aleluia. E eu disse: Senhor, como é que só Davi, acima dos demais santos, faz (fez) o começo do canto dos louvores? E o anjo respondeu e disse-me: Quando (ou: porque) Cristo, o Filho de Deus, se senta à direita de seu Pai, este Davi cantará louvores diante dele no sétimo céu; e, como se faz nos céus, assim também embaixo; pois sem Davi não é lícito oferecer sacrifício a Deus, mas é necessário que Davi cante louvores na hora da oferta do corpo e do sangue de Cristo: como se realiza no céu, assim também na terra.
30E eu disse ao anjo: Senhor, que é Aleluia? E o anjo respondeu e disse-me: Examinas e indagas todas as coisas. E disse-me: Aleluia é dito em hebraico, que é a língua de Deus e dos anjos; ora, a interpretação de Aleluia é esta: tecel. cat. marith. macha (gr. thebel marematha). E eu disse: Senhor, que é tecel cat marith macha? E o anjo respondeu e disse-me: Isto é tecel cat marith macha: Bendigamo-lo todos juntos. Perguntei ao anjo e disse: Senhor, todos os que dizem Aleluia bendizem a Deus? E o anjo respondeu e disse-me: Assim é; e, além disso, se alguém canta Aleluia e os que estão presentes não cantam com ele, cometem pecado por não cantarem com ele. E eu disse: Senhor, peca igualmente um homem se estiver caduco ou muito velho? O anjo respondeu e disse-me: Não é assim; mas aquele que pode e não canta com ele, sabei que tal homem é desprezador da palavra, pois seria orgulhoso e indigno que não bendissesse o Senhor Deus, seu criador.
31E, quando ele acabou de me falar, levou-me para fora da cidade pelo meio das árvores e de volta do lugar da terra dos bens (ou: dos homens) e pôs-me junto ao rio de leite e de mel; e depois disso me conduziu ao oceano que sustenta os alicerces do céu.
O anjo respondeu e disse-me: Percebes que vais daqui? E eu disse: Sim, Senhor. E ele me disse: Vem, segue-me, e mostrar-te-ei as almas dos ímpios e dos pecadores, para que saibas que espécie de lugar têm. E fui com o anjo, e ele me levou pelo caminho do poente, e vi o começo do céu, fundado sobre um grande rio de água, e perguntei: Que rio de água é este? E ele me disse: Este é o oceano que rodeia toda a terra. E, quando passei além do (para fora do) oceano, olhei, e não havia luz naquele lugar, mas trevas, e dor, e tristeza; e suspirei.
E vi ali um rio de fogo ardendo de calor, e nele havia uma multidão de homens e mulheres mergulhados até os joelhos, e outros homens até o umbigo; outros também até os lábios, e outros até os cabelos; e perguntei ao anjo e disse: Senhor, quem são estes no rio de fogo? E o anjo respondeu e disse-me: Não são nem quentes nem frios, pois não foram achados nem no número dos justos nem no número dos ímpios; pois passaram o tempo da sua vida na terra passando alguns dias em oração, mas outros dias em pecados e fornicações, até a sua morte. E perguntei e disse: Quem são estes, Senhor, que estão mergulhados até os joelhos no fogo? Ele respondeu e disse-me: Estes são os que, quando saem da igreja, se ocupam em disputar com conversas ociosas (estranhas). Mas estes que estão mergulhados até o umbigo são os que, depois de receberem o corpo e o sangue de Cristo, vão e cometem fornicação, e não cessaram dos seus pecados até morrerem; e os que estão mergulhados até os lábios são os que caluniaram uns aos outros quando se reuniam na igreja de Deus; mas os que estão mergulhados até as sobrancelhas são os que fazem sinais uns aos outros e tramam às escondidas o mal contra os seus próximos.
32E vi do lado norte um lugar de tormentos vários e diversos, cheio de homens e mulheres, e um rio de fogo corria sobre eles. E olhei e vi covas extremamente profundas, e nelas muitas almas juntas, e a profundidade daquele lugar era como de três mil côvados; e vi-as gemendo, e chorando, e dizendo: Tem misericórdia de nós, Senhor. E ninguém tinha misericórdia delas. E perguntei ao anjo e disse: Quem são estes, Senhor? E o anjo respondeu e disse-me: Estes são os que não confiaram no Senhor, que o poderiam ter por seu auxílio. E indaguei e disse: Senhor, se estas almas continuarem assim, sendo lançadas umas sobre as outras por trinta ou quarenta gerações, se (a não ser que?) forem lançadas ainda mais fundo, creio que as covas não as conteriam. E ele me disse: O abismo não tem medida; pois debaixo dele segue ainda o que está debaixo; e é assim: se um homem forte tomasse uma pedra e a lançasse num poço extremamente profundo, e depois de muitas horas (muito tempo) ela chegasse ao fundo, assim também é o abismo. Pois, quando as almas são lançadas nele, a custo chegam ao fundo depois de quinhentos anos.
33E eu, quando o ouvi, chorei e lamentei pela raça dos homens. O anjo respondeu e disse-me: Por que choras? És tu mais misericordioso do que Deus? Pois, sendo Deus bom e sabendo que há tormentos, suporta com paciência o gênero humano, deixando cada um fazer a sua própria vontade pelo tempo em que habita na terra.
34De novo olhei para o rio de fogo e vi ali um homem agarrado pela garganta (copta: um ancião que era arrastado, e mergulharam-no até os joelhos. E o anjo Aftemelukos veio com um grande forcado de fogo etc. O siríaco é semelhante. Algumas frases se perderam no latim) por anjos, guardas do inferno (Tartarucos), que tinham nas mãos um ferro de três ganchos com que furavam as entranhas daquele ancião. E perguntei ao anjo e disse: Senhor, quem é este ancião a quem são infligidos tais tormentos? E o anjo respondeu e disse-me: Este que vês foi um sacerdote que não cumpriu bem o seu ministério, pois, enquanto comia, e bebia, e fornicava, oferecia o sacrifício ao Senhor no seu santo altar.
35E vi não longe outro ancião, que quatro anjos maus traziam, correndo depressa, e mergulharam-no até os joelhos no rio de fogo, e feriram-no com pedras, e machucaram-lhe o rosto como uma tempestade, e não o deixavam dizer: Tem misericórdia de mim. E perguntei ao anjo, e ele me disse: Este que vês foi um bispo, e não cumpriu bem o seu episcopado; pois recebeu de fato um grande nome, mas não entrou na (não andou na) santidade daquele que lhe deu esse nome em toda a sua vida; pois não deu juízo justo e não teve compaixão das viúvas e dos órfãos; mas agora lhe é retribuído segundo a sua iniquidade e as suas obras.
36E vi outro homem no rio de fogo mergulhado até os joelhos; e as suas mãos estavam estendidas e ensanguentadas, e vermes saíam da sua boca e das suas narinas, e ele gemia, e se lamentava, e clamava, e dizia: Tem misericórdia de mim, pois sofro mais do que os demais que estão neste tormento. E perguntei: Quem é este, Senhor? E ele me disse: Este que vês foi um diácono, que devorava as ofertas, e cometia fornicação, e não fazia o que é reto aos olhos de Deus; por isso paga a pena sem cessar.
E olhei e vi junto dele outro homem, que trouxeram às pressas e lançaram no rio de fogo, e ele estava ali até os joelhos; e o anjo que estava sobre os tormentos veio, tendo uma grande navalha em brasa, e com ela cortou os lábios daquele homem e também a língua. E suspirei, e chorei, e perguntei: Quem é este homem, Senhor? E ele me disse: Este que vês foi um leitor e lia ao povo; mas não guardou os mandamentos de Deus; agora também ele paga a sua própria pena.
37E vi outra multidão de covas no mesmo lugar, e no meio delas um rio cheio de uma multidão de homens e mulheres, e vermes os devoravam. Mas eu chorei, e suspirei, e perguntei ao anjo: Senhor, quem são estes? E ele me disse: Estes são os que extorquiram juros sobre juros e confiaram nas suas riquezas, não tendo esperança em Deus, de que ele era o seu auxílio.
E depois disso olhei e vi um lugar muito estreito, e havia como que um muro, e à volta dele fogo. E vi dentro homens e mulheres mordendo a língua, e perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os que zombaram da palavra de Deus na igreja, não lhe prestando atenção, mas como que desprezando a Deus e aos seus anjos; por isso agora igualmente pagam a devida pena.
38E olhei para dentro e vi outro tanque (lat.: ancião!) embaixo, na cova, e a sua aparência era como de sangue; e perguntei e disse: Senhor, que lugar é este? E ele me disse: Para esta cova correm todos os tormentos. E vi homens e mulheres mergulhados até os lábios, e perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os feiticeiros que deram a homens e mulheres encantamentos mágicos, e não encontraram descanso (isto é, não cessaram?) até morrerem.
E de novo vi homens e mulheres de semblante muito negro numa cova de fogo, e suspirei, e chorei, e perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os fornicadores e adúlteros que, tendo as suas próprias mulheres, cometeram adultério, e igualmente as mulheres, do mesmo modo, cometeram adultério, tendo os seus próprios maridos; por isso pagam a pena sem cessar.
39E vi ali moças vestidas com roupas negras, e quatro anjos terríveis que tinham nas mãos correntes em brasa, e puseram-nas sobre os seus pescoços (cabeças) e levaram-nas para as trevas. E de novo chorei e perguntei ao anjo: Quem são estas, Senhor? E ele me disse: Estas são as que, sendo virgens, mancharam a sua virgindade, e os seus pais não o souberam; por isso pagam sem cessar a devida pena.
E de novo contemplei ali homens e mulheres com as mãos e os pés cortados e nus, num lugar de gelo e neve, e vermes os devoravam. E, quando o vi, chorei e perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os que fizeram mal aos órfãos, e às viúvas, e aos pobres, e não confiaram no Senhor; por isso pagam sem cessar a devida pena.
E olhei e vi outros pendurados sobre um canal de água, e as suas línguas estavam extremamente secas, e muitos frutos estavam postos à sua vista, e não lhes era permitido tomar deles. E perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os que quebraram o jejum antes do tempo marcado; por isso pagam sem cessar esta pena.
E vi outros homens e mulheres pendurados pelas sobrancelhas e pelos cabelos, e um rio de fogo os arrastava, e eu disse: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os que não se entregaram aos seus próprios maridos e mulheres, mas a adúlteros, e por isso pagam sem cessar a devida pena. (Em lugar disto o copta tem: homens e mulheres pendurados de cabeça para baixo, tochas ardendo diante dos seus rostos, serpentes enroladas à sua volta, devorando-os. Estas são as mulheres que se embelezavam com pinturas e unguentos e iam à igreja para enlaçar os homens. O siríaco e o grego omitem.)
E vi outros homens e mulheres cobertos de pó, e a sua aparência era como sangue, e estavam numa cova de piche e enxofre e eram arrastados num rio de fogo. E perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os que cometeram a maldade de Sodoma e Gomorra, homens com homens; por isso pagam a pena sem cessar. (O copta, o siríaco e o grego omitem este parágrafo.)
40E olhei e vi homens e mulheres vestidos com roupas brancas (brilhantes), e os seus olhos eram cegos, e estavam postos numa cova, e perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os pagãos que davam esmolas e não conheceram o Senhor Deus; por isso pagam sem cessar a devida pena.
E olhei e vi outros homens e mulheres sobre um espeto de fogo, e animais os despedaçavam, e não lhes era permitido dizer: Senhor, tem misericórdia de nós. E vi o anjo dos tormentos (Aftemelukos, copta) infligindo-lhes os tormentos mais ferozes e dizendo: Reconhecei o Filho de Deus. Pois isso vos foi dito antes, mas, quando as Escrituras de Deus vos eram lidas, não prestastes atenção; por isso o juízo de Deus é justo, pois as vossas más obras vos apanharam e vos trouxeram a estes tormentos. Mas eu suspirei e chorei; e indaguei e disse: Quem são estes homens e mulheres que são estrangulados no fogo e pagam a pena? E ele me respondeu: Estas são as mulheres que mancharam a criação de Deus quando deram à luz filhos do ventre, e estes são os homens que se deitaram com elas. Mas os seus filhos apelaram ao Senhor Deus e aos anjos que estão sobre os tormentos, dizendo: Vingai-nos dos nossos pais, pois mancharam a criação de Deus. Tendo o nome de Deus, mas não observando os seus mandamentos, deram-nos como alimento aos cães e para sermos pisados pelos porcos, e a outros lançaram no rio (o copta acrescenta: e não nos permitiram crescer para sermos homens justos e servir a Deus). Mas aquelas crianças foram entregues aos anjos do Tártaro (gr.: a um anjo), para que as levassem a um lugar espaçoso de misericórdia; mas os seus pais e mães foram arrastados (estrangulados) para o tormento eterno.
E depois disso vi homens e mulheres vestidos de trapos cheios de piche e de enxofre de fogo, e havia dragões enrolados nos seus pescoços, e ombros, e pés, e anjos que tinham chifres de fogo os apertavam, e os feriam, e lhes tapavam as narinas, dizendo-lhes: Por que não conhecestes o tempo em que era justo arrepender-vos e servir a Deus, e não o fizestes? E perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele me disse: Estes são os que pareciam renunciar ao mundo (lat.: a Deus), vestindo o nosso hábito, mas os laços do mundo os tornaram miseráveis; não mostraram caridade e não tiveram piedade das viúvas e dos órfãos; o estrangeiro e o peregrino não os acolheram, nem ofereceram uma só oblação, nem tiveram piedade do seu próximo; e a sua oração não subiu pura ao Senhor Deus nem um só dia; mas os muitos laços do mundo os retiveram, e não foram capazes de fazer o que é reto aos olhos de Deus. E os anjos os levaram em volta (lat.: rodearam-nos) pelo lugar dos tormentos; e os que estavam nos tormentos os viram e lhes disseram: Nós, de fato, quando vivíamos no mundo, descuidamos de Deus, e vós fizestes o mesmo. E nós, quando estávamos no mundo, sabíamos que éramos pecadores, mas de vós se dizia: Estes são justos e servos de Deus; agora sabemos que só éreis chamados pelo nome do Senhor. Por isso também eles pagam a devida pena.
E suspirei, e chorei, e disse: Ai dos homens! Ai dos pecadores! Para que nasceram? E o anjo respondeu e disse-me: Por que choras? És tu mais misericordioso do que o Senhor Deus, que é bendito para sempre, que estabeleceu o juízo e deixou cada homem, pela sua própria vontade, escolher o bem ou o mal e fazer como lhe agrada? De novo chorei muito amargamente, e ele me disse: Choras, quando ainda não viste os tormentos maiores? Segue-me, e verás tormentos sete vezes maiores do que estes.
41E levou-me do lado norte (para o ocidente, sir.) e pôs-me sobre um poço, e encontrei-o selado com sete selos. E o anjo que estava comigo respondeu e disse ao anjo daquele lugar: Abre a boca do poço, para que Paulo, o muito amado de Deus, contemple; pois foi-lhe dado poder para ver todos os tormentos do inferno. E o anjo me disse: Fica de longe, para que possas suportar o fedor deste lugar. Quando, pois, o poço foi aberto, logo subiu dele um fedor duro e extremamente mau, que superava todos os tormentos; e olhei para o poço e vi massas (blocos) de fogo ardendo por todos os lados, e angústia, e havia estreiteza na boca da cova, de modo a só caber um homem. E o anjo respondeu e disse-me: Se alguém for lançado no poço do abismo, e ele for selado sobre ele, nunca se fará memória dele na presença do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, nem dos santos anjos. E eu disse: Quem são, Senhor, os que são lançados neste poço? E ele me disse: São todos os que não confessam que Cristo veio na carne e que a Virgem Maria o deu à luz, e todos os que dizem do pão e do cálice da bênção da Eucaristia que não é o corpo e o sangue de Cristo.
42E olhei do norte para o ocidente e vi ali o verme que não dorme, e naquele lugar havia ranger de dentes. E os vermes eram do tamanho de um côvado, e tinham duas cabeças; e vi ali homens e mulheres no frio e no ranger de dentes. E perguntei e disse: Senhor, quem são os que estão neste lugar? E ele me disse: Estes são os que dizem que Cristo não ressuscitou dos mortos e que esta carne não ressuscita. E indaguei e disse: Senhor, não há fogo nem calor neste lugar? E ele me disse: Neste lugar não há outra coisa senão frio e neve. E de novo me disse: Ainda que o sol (sete sóis, copta) nascesse sobre eles, não se aqueceriam, por causa do frio excessivo deste lugar e da neve. E, quando ouvi isto, estendi as mãos, e chorei, e suspirei, e de novo disse: Melhor nos fora não ter nascido, a todos nós que somos pecadores.
43Mas, quando os que estavam naquele lugar me viram chorando com o anjo, também eles clamaram e choraram, dizendo: Senhor Deus, tem misericórdia de nós.
E depois disso contemplei o céu aberto e o arcanjo Miguel descendo do céu, e com ele toda a hoste dos anjos; e vieram até os que estavam postos no tormento. E eles, quando os viram, choraram de novo, e clamaram, e disseram: Tem misericórdia de nós, ó Miguel, arcanjo, tem misericórdia de nós e da raça dos homens, pois é pelas tuas orações que a terra se mantém. Vimos agora o juízo e conhecemos o Filho de Deus. Não nos era possível orar por isto antes de virmos a este lugar; pois ouvimos que havia um juízo, antes de partirmos do mundo, mas os laços e a vida do mundo não nos deixaram arrepender-nos. E Miguel respondeu e disse: Escutai quando Miguel fala: eu sou o que está sempre na presença de Deus. Pela vida do Senhor, diante de cuja face estou, não cesso nem um dia nem uma noite de orar continuamente pela raça dos homens; e eu, de fato, oro pelos que estão na terra, mas eles não cessam de cometer maldades e fornicação. E não produzem nada de bom enquanto estão na terra; e vós gastastes em vaidade o tempo em que devíeis ter-vos arrependido. Mas eu orei sempre, e agora rogo que Deus mande o orvalho e que a chuva seja enviada sobre a terra, e oro ainda até que a terra dê os seus frutos; e digo que, se algum homem faz ainda que um pouco de bem, lutarei por ele e o protegerei até que escape do juízo do tormento. Onde estão, então, as vossas orações? Onde estão os vossos arrependimentos? Perdestes o tempo vergonhosamente. Contudo, chorai agora, e eu chorarei convosco, e os anjos que estão comigo, junto com o muito amado Paulo, para ver se porventura o Deus misericordioso terá piedade e vos concederá refrigério. E eles, quando ouviram estas palavras, clamaram e choraram amargamente, e todos disseram a uma só voz: Tem misericórdia de nós, ó Filho de Deus. E eu, Paulo, suspirei e disse: Ó Senhor Deus, tem misericórdia da tua criatura, tem misericórdia dos filhos dos homens, tem misericórdia da tua imagem.
44Olhei e vi o céu tremer como uma árvore que é agitada pelo vento; e de repente lançaram-se com o rosto em terra diante do trono; e vi os vinte e quatro anciãos e os quatro animais adorando a Deus; e vi o altar, e o véu, e o trono, e todos se alegravam, e a fumaça de um suave odor subia junto ao altar do trono de Deus; e ouvi uma voz que dizia: Por que motivo me rogais, nossos anjos e nossos ministros? E eles clamaram, dizendo: Rogamos-te, vendo a tua grande bondade para com o gênero humano. E depois disso vi o Filho de Deus descendo do céu, e sobre a sua cabeça havia uma coroa. E, quando os que estavam nos tormentos o viram, todos clamaram a uma só voz, dizendo: Tem misericórdia de nós, ó excelso Filho de Deus (ou: Filho do Deus Altíssimo); tu és aquele que concedeste refrigério a todos os que estão no céu e na terra; tem misericórdia de nós igualmente, pois, desde que te vimos, fomos aliviados. E saiu uma voz do Filho de Deus por todos os tormentos, dizendo: Que boas obras fizestes, para me pedirdes refrigério? O meu sangue foi derramado por vós, e nem assim vos arrependestes; por vossa causa levei uma coroa de espinhos na minha cabeça, por vós recebi bofetadas nas minhas faces, e nem assim vos arrependestes. Pedi água quando estava pendurado na cruz, e deram-me vinagre misturado com fel; com uma lança abriram o meu lado direito; por causa do meu nome mataram os meus servos, os profetas, e os justos; e por todas estas coisas vos dei um lugar de arrependimento, e não quisestes. Contudo agora, por causa de Miguel, o arcanjo da minha aliança, e dos anjos que estão com ele, e por causa de Paulo, o meu muito amado, a quem não quero entristecer, e por causa dos vossos irmãos que estão no mundo e oferecem oblações, e por causa dos vossos filhos, pois neles estão os meus mandamentos, e mais ainda por causa da minha própria bondade: no dia em que ressuscitei dos mortos concedo a todos vós que estais no tormento refrigério por um dia e uma noite para sempre. E todos clamaram e disseram: Bendizemos-te, ó Filho de Deus, porque nos concedeste repouso por um dia e uma noite; pois melhor nos é o refrigério de um só dia do que todo o tempo da nossa vida em que estivemos na terra; e, se tivéssemos sabido claramente que este lugar estava destinado aos que pecam, não teríamos feito outra obra qualquer, nem comerciado, nem feito maldade alguma. Pois de que nos serviu o nosso orgulho no mundo? (Copta: De que nos serviu nascer no mundo?) Pois este nosso orgulho foi levado cativo, ele que subia da nossa boca contra o nosso próximo (copta: a nossa vida é como o sopro da nossa boca); e esta dor, e a nossa dura angústia, e as lágrimas, e os vermes que estão debaixo de nós, estas coisas nos são piores do que os tormentos que †sofremos†. (Isto mal faz sentido, mas o copta concorda; não deveria ter sido "estas coisas são piores do que não ter nascido"?) E, enquanto assim falavam, os anjos do tormento e os anjos maus se iraram contra eles e disseram: Até quando chorastes e suspirastes? Pois não tivestes misericórdia. Pois este é o juízo de Deus sobre quem não teve misericórdia. Contudo recebestes esta grande graça, o refrigério da noite e do dia do domingo, por causa de Paulo, o muito amado de Deus, que desceu até vós.
45E depois destas coisas o anjo me disse: Viste todas estas coisas? E eu disse: Sim, Senhor. E ele me disse: Segue-me, e levar-te-ei ao Paraíso, para que os justos que lá estão te vejam; pois eis que esperam ver-te e estão prontos para vir ao teu encontro com alegria e exultação. E segui o anjo na rapidez do Espírito Santo, e ele me pôs no Paraíso e disse-me: Este é o Paraíso, em que Adão e a sua mulher erraram. E entrei no Paraíso e vi a nascente das águas, e o anjo me fez sinal e disse-me: Vê, diz ele, estas águas: pois este é o rio Fison, que rodeia toda a terra de Havilá, e este outro é o Geon, que rodeia toda a terra do Egito e da Etiópia, e este outro é o Tigre, que está defronte dos assírios, e este outro é o Eufrates, que rega a terra da Mesopotâmia. E entrei mais para dentro e vi uma árvore plantada, de cujas raízes corriam águas, e dela era o princípio dos quatro rios, e o Espírito de Deus repousava sobre aquela árvore, e, quando o espírito soprava, as águas corriam; e eu disse: Senhor, é esta árvore que faz as águas correrem? E ele me disse: Porque no princípio, antes que o céu e a terra aparecessem, e todas as coisas eram invisíveis, o Espírito de Deus se movia (era levado) sobre as águas; mas, desde que, por ordem de Deus, o céu e a terra apareceram, o espírito repousa sobre esta árvore; por isso, quando o espírito sopra, as águas correm da árvore. E tomou-me pela mão e levou-me à árvore do conhecimento do bem e do mal, e disse: Esta é a árvore pela qual a morte entrou no mundo, e Adão, tomando dela da mão da sua mulher, comeu, e a morte entrou no mundo. E mostrou-me outra árvore no meio do Paraíso e disse-me: Esta é a árvore da vida.
46E, enquanto eu ainda olhava para a árvore, vi uma virgem vindo de longe, e duzentos anjos diante dela cantando hinos; e indaguei e disse: Senhor, quem é esta que vem com tal glória? E ele me disse: Esta é Maria, a virgem, a mãe do Senhor. E ela se aproximou e saudou-me e disse: Salve, Paulo, muito amado de Deus, e dos anjos, e dos homens. Pois todos os santos suplicaram ao meu filho Jesus, que é o meu Senhor, que viesses aqui no corpo, para que te vissem antes que partisses do mundo. E o Senhor lhes disse: Esperai e tende paciência; ainda um pouco, e o vereis, e ele estará convosco para sempre. E de novo todos, de comum acordo, lhe disseram: Não nos entristeças, pois desejamos vê-lo enquanto está na carne, pois por ele o teu nome foi grandemente glorificado no mundo, e vimos que ele superou (deixou para trás) todas as obras, tanto dos menores como dos maiores. Pois perguntamos aos que chegam aqui, dizendo: Quem é que vos guiou no mundo? E eles nos disseram: Há no mundo alguém cujo nome é Paulo; ele anuncia Cristo, pregando-o, e cremos que pelo poder e pela doçura da sua palavra muitos entraram no reino. Eis que todos os justos estão atrás de mim, vindo ao teu encontro. Mas eu te digo, Paulo, que por esta causa venho primeiro ao encontro dos que cumpriram a vontade do meu filho e meu Senhor Jesus Cristo; sim, venho primeiro ao seu encontro e não os deixo como estrangeiros, até que se encontrem com ele em paz.
47Enquanto ela ainda falava, vi três homens vindo de longe, muito belos, à semelhança de Cristo, e as suas formas brilhavam, e os seus anjos; e perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele respondeu: Estes são os pais do povo, Abraão, Isaac e Jacó. E aproximaram-se e saudaram-me e disseram: Salve, Paulo, muito amado de Deus e dos homens; bem-aventurado aquele que sofre violência por amor do Senhor. E Abraão me respondeu e disse: Este é o meu filho Isaac, e Jacó, o meu muito amado, e nós conhecemos o Senhor e o seguimos. Bem-aventurados todos os que creram na tua palavra, para que herdem o reino de Deus pelo trabalho, e pela abnegação (renúncia), e pela santificação, e pela humildade, e pela caridade, e pela mansidão, e pela fé reta no Senhor; e também nós tivemos devoção ao Senhor que pregas, comprometendo-nos a vir a cada alma dos que creem nele e servi-la como os pais servem aos seus filhos.
Enquanto eles ainda falavam, vi doze homens vindo de longe com honra, e perguntei: Quem são estes, Senhor? E ele disse: Estes são os patriarcas. E vieram e saudaram-me e disseram: Salve, Paulo, muito amado de Deus e dos homens. O Senhor não nos entristeceu, e assim pudemos ver-te ainda estando no corpo, antes que partisses do mundo. E cada um deles me indicou o seu nome por ordem, de Rúben até Benjamim; e José me disse: Eu sou aquele que foi vendido; e digo-te, Paulo, que, por tudo o que os meus irmãos me fizeram, em nada os tratei mal, nem em todo o trabalho que me impuseram, nem os feri em coisa alguma (copta: não guardei contra eles nenhum mau pensamento) desde a manhã até a tarde. Bem-aventurado aquele que é ferido por amor do Senhor e suportou, pois o Senhor o recompensará muitas vezes mais quando partir do mundo.
48Enquanto ele ainda falava, vi outro vindo de longe, belo, e os seus anjos cantando hinos, e perguntei: Quem é este, Senhor, que é de bela aparência? E ele me disse: Não o conheces? E eu disse: Não, Senhor. E ele me disse: Este é Moisés, o legislador, a quem Deus deu a lei. E, quando ele estava perto de mim, logo chorou, e depois disso me saudou; e eu lhe disse: Por que choras? Pois ouvi que excedes todos os homens em mansidão. E ele respondeu, dizendo: Choro por aqueles que plantei com muito trabalho, pois não deram fruto, nem algum deles faz o bem. E vi que todas as ovelhas que apascentei estão dispersas e se tornaram como quem não tem pastor, e que todos os trabalhos que suportei pelos filhos de Israel deram em nada, e, por maiores que fossem as maravilhas que fiz no meio deles, [e] não compreenderam; e admiro-me de como os estrangeiros, e incircuncisos, e idólatras se convertem e entraram nas promessas de Deus, mas Israel não entrou; e agora te digo, ó irmão Paulo, que naquela hora em que o povo pendurou Jesus, a quem pregas, Deus, o Pai de todos, que me deu a lei, e Miguel, e todos os anjos e arcanjos, e Abraão, e Isaac, e Jacó, e todos os justos choraram pelo Filho de Deus pendurado na cruz. E naquela hora todos os santos se voltaram para mim, olhando para mim e dizendo: Vê, Moisés, o que os do teu povo fizeram ao Filho de Deus. Por isso bem-aventurado és tu, ó Paulo, e bem-aventurada a geração e o povo que creram na tua palavra.
49Enquanto ele ainda falava, vieram outros doze, e viram-me, e disseram: És tu Paulo, que é glorificado no céu e na terra? E eu respondi e disse: Quem sois vós? O primeiro respondeu e disse: Eu sou Isaías, cuja cabeça Manassés cortou com uma serra de madeira. E o segundo disse do mesmo modo: Eu sou Jeremias, que foi apedrejado pelos filhos de Israel e morto. E o terceiro disse: Eu sou Ezequiel, a quem os filhos de Israel arrastaram pelos pés sobre as pedras no monte até espalharem os meus miolos; e todos nós suportamos estes trabalhos, desejando salvar os filhos de Israel; e digo-te que, depois dos sofrimentos que me impuseram, eu me lançava com o rosto em terra diante do Senhor, orando por eles e dobrando os joelhos até a segunda hora do dia do Senhor, até que Miguel vinha e me levantava da terra. Bem-aventurado és tu, Paulo, e bem-aventurado o povo que creu por teu intermédio.
E, enquanto eles passavam, vi outro, de bela aparência, e perguntei: Quem é este, Senhor? [E, quando me viu, alegrou-se] e ele me disse: Este é Ló, que foi achado justo em Sodoma. E aproximou-se e saudou-me e disse: Bem-aventurado és tu, Paulo, e bem-aventurada a geração a quem serviste. E eu respondi e disse-lhe: És tu Ló, que foste achado justo em Sodoma? E ele disse: Hospedei anjos na minha casa como estrangeiros, e, quando os da cidade lhes quiseram fazer violência, ofereci-lhes as minhas duas filhas, virgens, que nunca tinham conhecido homem, e entreguei-lhas, dizendo: Usai delas como quiserdes, somente não façais mal a estes homens, pois por isso entraram debaixo do teto da minha casa. Por isso devemos ter confiança e saber que, tudo o que alguém fez, Deus o recompensa muitas vezes mais quando ele chega (eles chegam) a ele. Bem-aventurado és tu, Paulo, e bem-aventurada a geração que creu na tua palavra.
Quando, pois, ele acabou de me falar, vi outro vindo de longe, de rosto muito belo, e sorrindo, e os seus anjos cantando hinos, e eu disse ao anjo que estava comigo: Tem então cada um dos justos um anjo por companheiro? E ele me diz: Cada um dos santos tem o seu, que está junto dele e canta hinos, e um não se afasta do outro. E eu disse: Quem é este, Senhor? E ele disse: Este é Jó. E ele se aproximou e saudou-me e disse: Irmão Paulo, tens grande louvor junto de Deus e dos homens. Ora, eu sou Jó, que sofri muito durante trinta anos pelo corrimento de uma chaga; e no princípio as pústulas que saíam do meu corpo eram como grãos de trigo; mas no terceiro dia tornaram-se como o casco de um jumento, e os vermes que caíam delas tinham quatro dedos de comprimento; e três vezes o diabo me apareceu e me disse: Dize uma palavra contra o Senhor e morre. Mas eu lhe disse: Se esta é a vontade de Deus, que eu continue na chaga todo o tempo da minha vida até morrer, não deixarei de bendizer o Senhor Deus, e receberei maior recompensa. Pois sei que os sofrimentos deste mundo não são nada comparados com o refrigério que vem depois; por isso bem-aventurado és tu, Paulo, e bem-aventurado o povo que creu por teu meio.
50Enquanto ele ainda falava, veio outro clamando de longe e dizendo: Bem-aventurado és tu, Paulo, e bem-aventurado sou eu, que te vi, o amado do Senhor. E perguntei ao anjo: Quem é este, Senhor? E ele respondeu e disse-me: Este é Noé, dos dias do dilúvio. E logo nos saudamos um ao outro, e ele, alegrando-se muito, me disse: Tu és (ou: És tu) Paulo, o muito amado de Deus. E perguntei-lhe: Quem és tu? E ele disse: Eu sou Noé, que vivi nos dias do dilúvio; mas digo-te, Paulo, que passei cem anos fazendo a arca, sem tirar a túnica que vestia, e não cortei o cabelo da minha cabeça. Além disso guardei a continência, não me aproximando da minha própria mulher, e naqueles cem anos o cabelo da minha cabeça não cresceu em tamanho, nem a minha roupa se sujou. E roguei aos homens naquele tempo, dizendo: Arrependei-vos, pois um dilúvio de águas vem sobre vós. Mas eles zombaram de mim e escarneceram das minhas palavras; e de novo me disseram: Este é o tempo dos que querem divertir-se e pecar quanto quiserem, que têm licença para fornicar não pouco (o latim é confuso; as outras versões omitem); pois Deus não olha para estas coisas, nem sabe o que é feito por nós, homens, e, além disso, não há dilúvio de águas vindo sobre este mundo. E não cessaram dos seus pecados até que Deus exterminou toda carne que tinha em si o sopro da vida. Mas sabe que Deus ama um só homem justo mais do que todo o mundo dos ímpios. Por isso bem-aventurado és tu, ó Paulo, e bem-aventurado o povo que creu por teu meio.
51E voltei-me e vi outros justos vindo de longe, e perguntei ao anjo: Quem são estes, Senhor? E ele me respondeu: Estes são Elias e Eliseu. E eles me saudaram, e eu lhes disse: Quem sois vós? E um deles respondeu e disse: Eu sou Elias, o profeta de Deus. Eu sou Elias, que orei, e por causa da minha palavra o céu não choveu durante três anos e seis meses, por causa das iniquidades dos homens. Justo e verdadeiro é Deus, que faz a vontade dos seus servos; pois muitas vezes os anjos suplicaram ao Senhor por chuva, e ele disse: Tende paciência até que o meu servo Elias ore e suplique por isto, e enviarei chuva sobre a terra.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir da versão inglesa de Montague Rhodes James
Fonte: Wikisource — The Apocryphal New Testament (1924)
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