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A Gênese — VII. Esboço geológico da Terra

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1A Terra traz em si os vestígios evidentes da sua formação; seguem-se as suas fases com uma precisão matemática nos diferentes terrenos que compõem a sua armação. O conjunto desses estudos constitui a ciência chamada geologia, ciência nascida neste século e que lançou luz sobre a questão tão controvertida da sua origem e da dos seres vivos que a habitam. Aqui não há hipótese; é o resultado rigoroso da observação dos fatos, e diante dos fatos a dúvida não é permitida. A história da formação do globo está escrita nas camadas geológicas de maneira muito mais certa do que nos livros preconcebidos, porque é a própria natureza que fala, que se mostra a descoberto, e não a imaginação dos homens que cria sistemas. Onde se veem os vestígios do fogo, pode-se dizer com certeza que o fogo existiu; onde se veem os da água, diz-se com não menos certeza que a água ali permaneceu; onde se veem os dos animais, diz-se que animais ali viveram.
A geologia é, pois, uma ciência toda de observação; só tira consequências do que vê; sobre os pontos duvidosos nada afirma: emite apenas opiniões discutíveis, cuja solução definitiva espera observações mais completas. Sem as descobertas da geologia, como sem as da astronomia, a Gênese do mundo estaria ainda nas trevas da lenda. Graças a ela, hoje o homem conhece a história da sua habitação, e o andaime das fábulas que cercavam o seu berço desmoronou para não mais se levantar.

2Em toda parte onde existem nos terrenos cortes, escavações naturais ou feitas pelos homens, notam-se o que se chama estratificações, isto é, camadas sobrepostas. Os terrenos que apresentam essa disposição são designados pelo nome de terrenos estratificados. Essas camadas, de espessura muito variável, desde alguns centímetros até 100 metros e mais, distinguem-se entre si pela cor e pela natureza das substâncias de que se compõem. As obras de engenharia, a abertura de poços, a exploração das pedreiras e sobretudo das minas permitiram observá-las até uma profundidade bastante grande.

3As camadas são geralmente homogêneas, isto é, cada uma é formada de uma mesma substância, ou de diversas substâncias que existiram juntas e formaram um todo compacto. A linha de separação que as isola umas das outras é sempre nitidamente marcada, como nas fiadas de um edifício; em parte alguma se veem misturar-se e perder-se uma na outra no lugar dos seus limites respectivos, como acontece, por exemplo, com as cores do prisma e do arco-íris.
Por esses caracteres reconhece-se que foram formadas sucessivamente, depositadas umas sobre as outras em condições e por causas diferentes; as mais profundas foram naturalmente formadas primeiro, e as mais superficiais posteriormente. A última de todas, a que se encontra na superfície, é a camada de terra vegetal, que deve as suas propriedades aos detritos das matérias orgânicas provenientes das plantas e dos animais.
As camadas inferiores, colocadas abaixo da camada vegetal, receberam em geologia o nome de rochas, palavra que, nessa acepção, nem sempre implica a ideia de uma substância pedregosa, mas significa um leito ou banco de uma substância mineral qualquer. Umas são formadas de areia, de argila ou barro, de marga, de seixos rolados; outras, de pedras propriamente ditas, mais ou menos duras, tais como os arenitos, os mármores, o giz, os calcários ou pedras de cal, as pedras molares, o carvão de pedra, os asfaltos etc. Diz-se que uma rocha é mais ou menos possante conforme a sua espessura é mais ou menos considerável.

4Pela inspeção da natureza dessas rochas ou camadas, reconhece-se por sinais certos que umas provêm de matérias fundidas e às vezes vitrificadas pela ação do fogo; outras, de substâncias terrosas depositadas pelas águas; algumas dessas substâncias ficaram desagregadas, como as areias; as outras, primeiro em estado pastoso, sob a ação de certos agentes químicos ou de outras causas, endureceram e adquiriram com o tempo a consistência da pedra. Os bancos de pedras sobrepostos anunciam depósitos sucessivos. O fogo e a água tiveram, pois, a sua parte de ação na formação dos materiais que compõem a armação sólida do globo.

5A posição normal das camadas terrosas ou pedregosas provenientes de depósitos aquosos é a direção horizontal. Quando se veem essas imensas planícies que se estendem às vezes a perder de vista, de uma horizontalidade perfeita, lisas como se tivessem sido niveladas com rolo, ou esses fundos de vales tão planos quanto a superfície de um lago, pode-se ter a certeza de que, numa época mais ou menos remota, esses lugares estiveram muito tempo cobertos por águas tranquilas que, ao se retirarem, deixaram a seco as terras que tinham depositado durante a sua permanência. Depois da retirada das águas, essas terras cobriram-se de vegetação. Se, em vez de terras gordas, limosas, argilosas ou margosas, próprias para assimilar os princípios nutritivos, as águas só depositaram areias silicosas, sem agregação, têm-se essas planícies arenosas e áridas que constituem as charnecas e os desertos. Os depósitos que as inundações parciais deixam, e os que formam os aterros na foz dos rios, podem dar disso uma ideia em pequeno.

6Embora a horizontalidade seja a posição normal e mais geral das formações aquosas, veem-se muitas vezes, em extensões bastante grandes, nos países de montanhas, rochas duras que a sua natureza indica terem sido formadas pelas águas, numa posição inclinada e às vezes até vertical. Ora, como, segundo as leis do equilíbrio dos líquidos e do peso, os depósitos aquosos só podem formar-se em planos horizontais, visto que os que ocorrem em planos inclinados são arrastados para os fundos pelas correntes e pelo próprio peso, fica evidente que esses depósitos devem ter sido levantados por uma força qualquer, depois da sua solidificação ou transformação em pedras.
Dessas considerações pode-se concluir com certeza que todas as camadas pedregosas provenientes de depósitos aquosos numa posição perfeitamente horizontal foram formadas, no decurso dos séculos, por águas tranquilas, e que, todas as vezes que têm uma posição inclinada, é que o solo foi atormentado e deslocado posteriormente por convulsões gerais ou parciais mais ou menos consideráveis.

7Um fato característico da mais alta importância, pelo testemunho irrecusável que fornece, consiste nos restos fósseis de animais e de vegetais que se encontram em quantidades inumeráveis nas diferentes camadas; e, como esses restos se encontram até nas pedras mais duras, deve-se concluir que a existência desses seres é anterior à formação dessas mesmas pedras; ora, se se considera o número prodigioso de séculos que foram precisos para operar o seu endurecimento e levá-las ao estado em que se encontram desde tempos imemoriais, chega-se a esta consequência forçosa: o aparecimento dos seres orgânicos na Terra perde-se na noite dos tempos e é muito anterior, por conseguinte, à data assinalada pela Gênese (1).
(1) A palavra fóssil, de acepção mais geral, substituiu a de petrificação, que só se aplicava aos corpos transformados em pedra pela infiltração de matérias silicosas ou calcárias nos tecidos orgânicos. Todas as petrificações são necessariamente fósseis, mas nem todos os fósseis são petrificações.
Os objetos que se revestem de uma camada pedregosa, quando mergulhados em certas águas carregadas de substâncias calcárias, não são petrificações propriamente ditas, mas simples incrustações.

8Entre esses restos de vegetais e de animais, há os que foram penetrados em todas as partes da sua substância, sem que a sua forma fosse alterada, por matérias silicosas ou calcárias que os transformaram em pedras, algumas das quais têm a dureza do mármore: são as petrificações propriamente ditas. Outros foram simplesmente envolvidos pela matéria em estado mole; encontram-se intactos, e alguns inteiros, nas pedras mais duras. Outros, enfim, só deixaram impressões, mas de uma nitidez e de uma delicadeza perfeitas. No interior de certas pedras encontrou-se até a impressão de pegadas, e pela forma do pé, dos dedos e das unhas reconheceu-se de que espécie de animal provinham.

9Os fósseis de animais só compreendem, como se concebe, as partes sólidas e resistentes, isto é, as ossadas, as escamas e os chifres; às vezes são esqueletos completos; o mais das vezes, são apenas partes destacadas, mas cuja proveniência é fácil de reconhecer. Pela inspeção de uma mandíbula, de um dente, vê-se logo se pertence a um animal herbívoro ou carnívoro. Como todas as partes do animal têm uma correlação necessária, a forma da cabeça, de uma omoplata, de um osso da perna, de um pé basta para determinar o tamanho, a forma geral, o gênero de vida do animal (1). Os animais terrestres têm uma organização que não permite confundi-los com os animais aquáticos. Os peixes e as conchas fósseis são excessivamente numerosos; só as conchas formam às vezes bancos inteiros de grande espessura. Pela sua natureza, reconhece-se sem dificuldade se são animais marinhos ou de água doce.
(1) Os monumentos, inscrições e objetos de fabricação humana pertencem à arqueologia.

10Os seixos rolados que, em certos lugares, constituem rochas possantes são um indício inequívoco da sua origem. São arredondados como os calhaus da beira-mar, sinal certo do atrito que sofreram por efeito das águas. As regiões onde se encontram enterrados em massas consideráveis foram incontestavelmente ocupadas pelo Oceano ou por águas violentamente agitadas.

11Os terrenos das diversas formações são, além disso, caracterizados pela própria natureza dos fósseis que encerram; os mais antigos contêm espécies animais e vegetais que desapareceram inteiramente da superfície do globo. Certas espécies mais recentes também desapareceram, mas conservaram os seus análogos, que só diferem dos seus troncos pelo tamanho e por algumas nuanças de forma. Outras, enfim, de que vemos os últimos representantes, tendem evidentemente a desaparecer num futuro mais ou menos próximo, tais como os elefantes, os rinocerontes, os hipopótamos etc. Assim, à medida que as camadas terrestres se aproximam da nossa época, as espécies animais e vegetais aproximam-se também das que existem hoje.
As perturbações, os cataclismos que ocorreram na Terra desde a sua origem mudaram, pois, as suas condições de vitalidade e fizeram desaparecer gerações inteiras de seres vivos.

12Interrogando a natureza das camadas geológicas, sabe-se da maneira mais positiva se, na época da sua formação, a região que as encerra estava ocupada pelo mar, por lagos, ou por florestas e planícies povoadas de animais terrestres. Se, pois, numa mesma região, se encontra uma série de camadas sobrepostas, contendo alternadamente fósseis marinhos, terrestres e de água doce, repetidas várias vezes, é uma prova irrecusável de que essa mesma região foi várias vezes invadida pelo mar, coberta de lagos e posta a seco.
E quantos séculos de séculos certamente, quantos milhares de séculos talvez, foram precisos para que cada período se cumprisse! Que força poderosa não foi precisa para deslocar e recolocar o oceano, levantar as montanhas! Por quantas revoluções físicas, por quantas comoções violentas não deve ter passado a Terra antes de ser o que a vemos desde os tempos históricos! E quereriam que isso fosse obra de menos tempo do que é preciso para fazer crescer uma planta!

13O estudo das camadas geológicas atesta, como foi dito, formações sucessivas que mudaram o aspecto do globo e dividem a sua história em várias épocas. Essas épocas constituem o que se chama períodos geológicos, cujo conhecimento é essencial para o estabelecimento da Gênese. Contam-se seis principais, que se designam pelos nomes de períodos primário, de transição, secundário, terciário, diluviano e pós-diluviano ou atual. Os terrenos formados durante cada período chamam-se também terrenos primitivos, de transição, secundários etc. Diz-se assim que tal ou tal camada ou rocha, tal ou tal fóssil, se encontra nos terrenos de tal ou tal período.

14É essencial notar que o número desses períodos não é absoluto e que depende dos sistemas de classificação. Só se compreendem nos seis principais designados acima os que são marcados por uma mudança notável e geral no estado do globo; mas a observação prova que várias formações sucessivas se operaram durante cada um deles; é por isso que se dividem em subperíodos caracterizados pela natureza dos terrenos, e que elevam a vinte e seis o número das formações gerais bem caracterizadas, sem contar as que provêm de modificações devidas a causas puramente locais.

15O achatamento dos polos e outros fatos concludentes são indícios certos de que a Terra deve ter estado, na sua origem, num estado de fluidez ou de moleza. Esse estado podia ter por causa a matéria liquefeita pelo fogo ou dissolvida pela água.
Diz-se proverbialmente: não há fumaça sem fogo. Essa proposição, rigorosamente verdadeira, é uma aplicação do princípio: não há efeito sem causa. Pela mesma razão, pode-se dizer: não há fogo sem foco. Ora, pelos fatos que se passam sob os nossos olhos, não é somente fumaça que se produz, é fogo bem real, que deve ter um foco; vindo esse fogo do interior da Terra, e não do alto, o foco deve ser interior; sendo o fogo permanente, o foco deve sê-lo igualmente.
O calor que aumenta à medida que se penetra no interior da Terra e que, a certa distância da superfície, atinge uma temperatura muito alta; as fontes termais, tanto mais quentes quanto de maior profundidade vêm; os fogos e as massas de matérias fundidas e abrasadas que escapam dos vulcões, como por vastos respiradouros, ou pelas fendas produzidas em certos terremotos, não podem deixar dúvida sobre a existência de um fogo interior.

16A experiência demonstra que a temperatura se eleva de um grau a cada trinta metros de profundidade; de onde se segue que, a uma profundidade de 300 metros, o aumento é de 10 graus; a 3.000 metros, de 100 graus, temperatura da água fervente; a 30.000 metros, ou 7 a 8 léguas, de 1.000 graus; a 25 léguas, de mais de 3.300 graus, temperatura a que nenhuma matéria conhecida resiste à fusão. Dali até o centro há ainda um espaço de mais de 1.400 léguas, ou seja, 2.800 léguas de diâmetro, que estaria ocupado por matérias fundidas.
Embora isso seja apenas uma conjectura, julgando a causa pelo efeito, tem todos os caracteres da probabilidade, e chega-se a esta conclusão: a Terra é ainda uma massa incandescente recoberta de uma crosta sólida de 25 léguas, no máximo, de espessura, o que é apenas a 120ª parte do seu diâmetro. Proporcionalmente, seria muito menos que a espessura da mais fina casca de laranja.
De resto, a espessura da crosta terrestre é muito variável, porque há regiões, sobretudo nos terrenos vulcânicos, onde o calor e a flexibilidade do solo indicam que ela é muito pouco considerável. A alta temperatura das águas termais é igualmente indício da vizinhança do fogo central.

17Daí fica evidente que o estado primitivo de fluidez ou de moleza da Terra deve ter tido por causa a ação do calor, e não a da água. A Terra era, pois, na sua origem, uma massa incandescente. Em consequência da irradiação do calórico, aconteceu-lhe o que acontece a toda matéria em fusão: resfriou-se pouco a pouco, e o resfriamento começou naturalmente pela superfície, que endureceu, ao passo que o interior permaneceu fluido. Pode-se assim comparar a Terra a um bloco de carvão que sai todo vermelho da fornalha, cuja superfície se apaga e se resfria em contato com o ar, ao passo que, se o quebramos, encontramos o interior ainda em brasa.

18Na época em que o globo terrestre era uma massa incandescente, não continha um átomo a mais nem a menos do que hoje; somente, sob a influência dessa alta temperatura, a maior parte das substâncias que o compõem, e que vemos sob a forma de líquidos ou de sólidos, de terras, de pedras, de metais e de cristais, encontrava-se num estado muito diferente; elas apenas sofreram uma transformação; em consequência do resfriamento e das misturas, os elementos formaram novas combinações. O ar, consideravelmente dilatado, devia estender-se a uma distância incomensurável; toda a água, forçosamente reduzida a vapor, estava misturada ao ar; todas as matérias suscetíveis de volatilizar-se, tais como os metais, o enxofre, o carbono, encontravam-se nele em estado de gás. O estado da atmosfera nada tinha, pois, de comparável ao que é hoje; a densidade de todos os vapores dava-lhe uma opacidade que nenhum raio do sol podia atravessar. Se um ser vivo tivesse podido existir na superfície do globo nessa época, só teria sido iluminado pelo brilho sinistro da fornalha colocada sob os seus pés e da atmosfera abrasada.
Período primário
19. O primeiro efeito do resfriamento foi solidificar a superfície exterior da massa em fusão e formar nela uma crosta resistente, que, delgada a princípio, se espessou pouco a pouco. Essa crosta constitui a pedra chamada granito, de extrema dureza, assim chamada pelo seu aspecto granulado. Distinguem-se nela três substâncias principais: o feldspato, o quartzo ou cristal de rocha e a mica; esta última tem o brilho metálico, embora não seja um metal.
A camada granítica é, pois, a primeira que se formou no globo, que ela envolve por inteiro e do qual constitui, de certo modo, a armação óssea; é o produto direto da matéria em fusão consolidada. Foi sobre ela, e nas cavidades que apresentava a sua superfície atormentada, que se depositaram sucessivamente as camadas dos outros terrenos, formados posteriormente. O que a distingue destes últimos é a ausência de toda estratificação; isto é, forma uma massa compacta e uniforme em toda a sua espessura, e não disposta em camadas. A efervescência da matéria incandescente devia produzir nela numerosas e profundas fendas, pelas quais essa matéria se derramava.
20. O segundo efeito do resfriamento foi liquefazer algumas das matérias contidas no ar em estado de vapores, que se precipitaram na superfície do solo. Houve então chuvas e lagos de enxofre e de betume, verdadeiros riachos de ferro, de chumbo e de outros metais fundidos, que se infiltravam nas fissuras e que constituem hoje os veios e filões metálicos.
Sob a influência desses diversos agentes, a superfície granítica sofreu decomposições alternadas; fizeram-se misturas que formaram os terrenos primitivos propriamente ditos, distintos da rocha granítica, mas em massas confusas e sem estratificações regulares.
Vieram em seguida as águas, que, caindo sobre um solo escaldante, se vaporizavam de novo, voltavam a cair em chuvas torrenciais, e assim por diante, até que a temperatura lhes permitiu permanecer sobre o solo em estado líquido.
É na formação dos terrenos graníticos que começa a série dos períodos geológicos. Aos seis períodos principais conviria, pois, acrescentar o do estado primitivo de incandescência do globo.
21. Tal foi o aspecto desse primeiro período, verdadeiro caos de todos os elementos confundidos, procurando o seu assento, em que nenhum ser vivo podia existir; por isso, um dos seus caracteres distintivos em geologia é a ausência de todo vestígio da vida vegetal e animal.
É impossível assinalar uma duração determinada a esse primeiro período, tanto quanto aos seguintes; mas, pelo tempo que é preciso a uma bala de canhão de um volume dado, aquecida ao rubro-branco, para que a sua superfície esteja bastante resfriada para que uma gota de água permaneça nela em estado líquido, calculou-se que, se essa bala tivesse o tamanho da Terra, seria preciso mais de um milhão de anos.

20No começo do período de transição, a crosta sólida granítica ainda tinha pouca espessura e só oferecia uma resistência bastante fraca à efervescência das matérias abrasadas que recobria e comprimia. Produziam-se nela inchaços e numerosos rasgões, por onde se derramava a lava interior. O solo só apresentava desigualdades pouco consideráveis.
As águas, pouco profundas, cobriam quase toda a superfície do globo, com exceção das partes levantadas, que formavam terrenos baixos frequentemente submersos.
O ar purgara-se pouco a pouco das matérias mais pesadas, momentaneamente em estado gasoso, que, condensando-se por efeito do resfriamento, se tinham precipitado na superfície do solo e depois sido arrastadas e dissolvidas pelas águas.
Quando se fala de resfriamento nessa época, é preciso entender essa palavra num sentido relativo, isto é, em relação ao estado primitivo, porque a temperatura devia ser ainda escaldante.
Os espessos vapores aquosos que se elevavam de todas as partes da imensa superfície líquida voltavam a cair em chuvas abundantes e quentes e obscureciam o ar. Entretanto, os raios do sol começavam a aparecer através dessa atmosfera brumosa.
Uma das últimas substâncias de que o ar deve ter sido purgado, porque está naturalmente em estado gasoso, é o ácido carbônico, que formava então uma das suas partes constituintes.

21Nessa época começaram a formar-se as camadas de terrenos de sedimento, depositadas pelas águas carregadas de lodo e de matérias diversas próprias à vida orgânica.
Aparecem então os primeiros seres vivos do reino vegetal e do reino animal; em pequeno número a princípio, encontram-se os seus vestígios cada vez mais frequentes à medida que se sobe nas camadas dessa formação. É notável que em toda parte a vida se manifesta assim que as condições são propícias à vitalidade, e que cada espécie nasce logo que se produzem as condições próprias à sua existência. Dir-se-ia que os germes estavam latentes e só esperavam as condições favoráveis para eclodir.

22Os primeiros seres orgânicos que apareceram na Terra são os vegetais de organização menos complicada, designados em botânica pelos nomes de criptógamas, acotiledôneas, monocotiledôneas, isto é, os líquens, cogumelos, musgos, fetos e plantas herbáceas. Ainda não se veem árvores de caule lenhoso, mas apenas as do gênero palmeira, cujo caule esponjoso é análogo ao das ervas.
Os animais desse período, que sucederam aos primeiros vegetais, são exclusivamente marinhos; são primeiro pólipos, radiados, zoófitos, animais cuja organização simples e, por assim dizer, rudimentar mais se aproxima dos vegetais; mais tarde vêm crustáceos e peixes cujas espécies já não existem hoje.

23Sob o império do calor e da umidade, e em consequência do excesso de ácido carbônico espalhado no ar, gás impróprio à respiração dos animais terrestres, mas necessário às plantas, os terrenos descobertos cobriram-se rapidamente de uma vegetação possante, ao mesmo tempo que as plantas aquáticas se multiplicavam no seio dos pântanos. Plantas do gênero das que, nos nossos dias, são simples ervas de alguns centímetros atingiam uma altura e uma grossura prodigiosas; assim havia florestas de fetos arborescentes de oito a dez metros de altura e de grossura proporcional; licopódios (pé-de-lobo, gênero de musgo) do mesmo tamanho; cavalinhas (1) de quatro a cinco metros, que hoje têm apenas um. No fim do período começam a aparecer algumas árvores do gênero conífera ou pinheiro.

24Em consequência do deslocamento das águas, os terrenos que produziam essas massas de vegetais foram várias vezes submersos e recobertos de novos sedimentos terrosos, enquanto os que eram postos a seco se adornavam por sua vez de semelhante vegetação. Houve assim várias gerações de vegetais alternadamente aniquiladas e renovadas. O mesmo não se deu com os animais, que, sendo todos aquáticos, não podiam sofrer com essas alternativas.
Esses restos, acumulados durante uma longa série de séculos, formaram camadas de grande espessura. Sob a ação do calor, da umidade, da pressão exercida pelos depósitos terrosos posteriores e, sem dúvida, também de diversos agentes químicos, dos gases, dos ácidos e dos sais produzidos pela combinação dos elementos primitivos, essas matérias vegetais sofreram uma fermentação que as converteu em hulha ou carvão de pedra. As minas de hulha são, pois, o produto direto da decomposição dos montões de vegetais acumulados durante o período de transição; é por isso que se encontram em quase todas as regiões.

25Encontrando-se hoje os restos fósseis da vegetação possante dessa época tanto sob os gelos das terras polares quanto na zona tórrida, deve-se concluir que, sendo a vegetação uniforme, a temperatura devia sê-lo igualmente. Os polos não estavam, pois, cobertos de gelo como agora. É que a Terra tirava então o seu calor de si mesma, do fogo central, que aquecia de maneira igual toda a camada sólida, ainda pouco espessa. Esse calor era muito superior ao que podiam dar os raios solares, enfraquecidos, aliás, pela densidade da atmosfera. Só mais tarde, quando o calor central já não pôde exercer sobre a superfície exterior do globo senão uma ação fraca ou nula, o do sol se tornou preponderante, e as regiões polares, recebendo apenas raios oblíquos que davam muito pouco calor, cobriram-se de gelo. Compreende-se que, na época de que falamos, e ainda muito tempo depois, o gelo fosse desconhecido na Terra.

26Esse período deve ter sido muito longo, a julgar pelo número e pela espessura das camadas de hulha (1).
Com o período de transição desaparecem a vegetação colossal e os animais que caracterizavam essa época, seja porque as condições atmosféricas já não eram as mesmas, seja porque uma série de cataclismos aniquilou tudo o que tinha vida na Terra. É provável que as duas causas tenham contribuído para essa mudança, porque, de um lado, o estudo dos terrenos que marcam o fim desse período atesta grandes convulsões causadas pelos levantamentos e pelas erupções que derramaram sobre o solo grandes quantidades de lavas, e, de outro, mudanças notáveis se operaram nos três reinos.
(1) ... Supondo apenas mil anos para a formação de cada um desses níveis, seriam já 68.000 anos só para essa camada de hulha.

27O período secundário é caracterizado, do ponto de vista mineral, por camadas numerosas e possantes, que atestam uma formação lenta no seio das águas e marcam diferentes épocas bem caracterizadas.
A vegetação é menos rápida e menos colossal do que no período precedente, sem dúvida em consequência da diminuição do calor e da umidade, e das modificações ocorridas nos elementos constitutivos da atmosfera. Às plantas herbáceas e polposas juntam-se as de caule lenhoso e as primeiras árvores propriamente ditas.

28Os animais são ainda aquáticos, ou quando muito anfíbios; a vida animal na terra firme faz poucos progressos. Uma prodigiosa quantidade de animais de concha desenvolve-se no seio dos mares, em consequência da formação das matérias calcárias; novos peixes, de organização mais aperfeiçoada que no período precedente, nascem; veem-se aparecer os primeiros cetáceos. Os animais mais característicos dessa época são os répteis monstruosos, entre os quais se notam:
O ictiossauro, espécie de peixe-lagarto que atingia até dez metros de comprimento, e cujas mandíbulas, prodigiosamente alongadas, estavam armadas de cento e oitenta dentes. A sua forma geral lembra um pouco a do crocodilo, mas sem couraça escamosa; os seus olhos tinham o volume da cabeça de um homem; tinha barbatanas como a baleia e expelia a água por respiradouros como esta.
O plesiossauro, outro réptil marinho, tão grande quanto o ictiossauro, cujo pescoço excessivamente longo se dobrava como o do cisne e lhe dava a aparência de uma enorme serpente presa a um corpo de tartaruga. Tinha a cabeça do lagarto e os dentes do crocodilo; a sua pele devia ser lisa como a do precedente, porque não se encontrou nenhum vestígio de escamas nem de carapaça.
O teleossauro aproxima-se mais dos crocodilos atuais, que parecem ser os seus diminutivos; como estes, tinha uma couraça escamosa e vivia ao mesmo tempo na água e na terra; o seu tamanho era de cerca de dez metros, dos quais três ou quatro só para a cabeça; a sua enorme goela tinha dois metros de abertura.
O megalossauro, grande lagarto, espécie de crocodilo de 14 a 15 metros de comprimento, essencialmente carnívoro, que se alimentava de répteis, pequenos crocodilos e tartarugas.
A sua formidável mandíbula estava armada de dentes em forma de lâmina de podão, de dois gumes, recurvados para trás, de tal sorte que, uma vez entrados na presa, era impossível a esta soltar-se.
O iguanodonte, o maior dos lagartos que apareceram na Terra; tinha de 20 a 25 metros da cabeça à ponta da cauda. O seu focinho era encimado por um chifre ósseo semelhante ao da iguana dos nossos dias, da qual parece diferir apenas pelo tamanho, tendo esta apenas um metro de comprimento. A forma dos dentes prova que era herbívoro, e a dos pés, que era um animal terrestre.
O pterodáctilo, animal bizarro do tamanho de um cisne, que tinha ao mesmo tempo algo do réptil pelo corpo, da ave pela cabeça e do morcego pela membrana carnosa que ligava os seus dedos, de comprimento prodigioso, e lhe servia de paraquedas quando se precipitava sobre a presa do alto de uma árvore ou de um rochedo. Não tinha bico córneo como as aves, mas os ossos das mandíbulas, tão longos quanto a metade do corpo e guarnecidos de dentes, terminavam em ponta como um bico.

29Durante esse período, que deve ter sido muito longo, como o atestam o número e a possança das camadas geológicas, a vida animal tomou um imenso desenvolvimento no seio das águas, como se dera com a vegetação no período precedente. O ar, mais depurado e mais próprio à respiração, começa a permitir a alguns animais viverem em terra. O mar foi várias vezes deslocado, mas, ao que parece, sem abalos violentos. Com esse período desaparecem por sua vez essas raças de gigantescos animais aquáticos, substituídas mais tarde por espécies análogas, de formas menos desproporcionadas e de tamanho infinitamente menor.

30O orgulho fez o homem dizer que todos os animais foram criados na sua intenção e para as suas necessidades. Mas qual é o número dos que lhe servem diretamente, que ele pôde sujeitar, comparado ao número incalculável daqueles com os quais nunca teve nem jamais terá nenhuma relação? Como sustentar semelhante tese diante dessas inumeráveis espécies que, sozinhas, povoaram a Terra milhares de milhares de séculos antes que ele mesmo viesse a ela, e que desapareceram? Pode-se dizer que foram criadas em seu proveito? Entretanto, essas espécies tinham todas a sua razão de ser, a sua utilidade. Deus não pôde criá-las por um capricho da sua vontade e para se dar o prazer de aniquilá-las; porque todas tinham a vida, instintos, o sentimento da dor e do bem-estar. Com que fim o fez? Esse fim deve ser soberanamente sábio, embora ainda não o compreendamos. Talvez um dia seja dado ao homem conhecê-lo, para confundir o seu orgulho; mas, enquanto isso, como as ideias se engrandecem diante desses horizontes novos em que lhe é permitido agora mergulhar os olhares, e que desenrolam diante dele o espetáculo imponente dessa criação, tão majestosa na sua lentidão, tão admirável na sua previdência, tão pontual, tão precisa e tão invariável nos seus resultados!

31Com o período terciário começa para a Terra uma nova ordem de coisas; o estado da sua superfície muda completamente de aspecto; as condições de vitalidade são profundamente modificadas e aproximam-se do estado atual. Os primeiros tempos desse período são assinalados por uma parada na produção vegetal e animal; tudo traz os vestígios de uma destruição quase geral dos seres vivos, e então aparecem sucessivamente novas espécies, cuja organização mais perfeita está adaptada à natureza do meio em que são chamadas a viver.

32Durante os períodos precedentes, a crosta sólida do globo, em razão da sua pouca espessura, apresentava, como foi dito, uma resistência bastante fraca à ação do fogo interior; esse envoltório, facilmente rasgado, permitia às matérias em fusão derramarem-se livremente na superfície do solo. Já não foi assim quando adquiriu certa espessura; as matérias abrasadas, comprimidas por todos os lados, como a água em ebulição num vaso fechado, acabaram por fazer uma espécie de explosão; a massa granítica, violentamente quebrada numa multidão de pontos, foi sulcada de fendas como um vaso rachado. Ao longo dessas fendas, a crosta sólida, levantada e erguida, formou os picos, as cadeias de montanhas e as suas ramificações. Certas partes do envoltório não rasgadas foram simplesmente elevadas, ao passo que, em outros pontos, se produziram afundamentos e escavações.
A superfície do solo tornou-se então muito desigual; as águas, que até esse momento o cobriam de maneira quase uniforme na maior parte da sua extensão, foram repelidas para as partes mais baixas, deixando a seco vastos continentes, ou cumes de montanhas isoladas, que formaram ilhas.
Tal é o grande fenômeno que se cumpriu no período terciário e que transformou o aspecto do globo. Não se produziu nem instantânea nem simultaneamente em todos os pontos, mas sucessivamente e em épocas mais ou menos afastadas.

33Uma das primeiras consequências desses levantamentos foi, como se disse, a inclinação das camadas de sedimento, primitivamente horizontais, que permaneceram nessa posição em toda parte onde o solo não foi convulsionado. É, pois, nos flancos e nas vizinhanças das montanhas que essas inclinações são mais pronunciadas.

34Nas regiões onde as camadas de sedimento conservaram a sua horizontalidade, para atingir as de primeira formação é preciso atravessar todas as outras, muitas vezes até uma profundidade considerável, ao cabo da qual se encontra inevitavelmente a rocha granítica. Mas, quando essas camadas foram levantadas em montanhas, foram levadas acima do seu nível normal, e às vezes a uma altura muito grande, de tal sorte que, se se faz um corte vertical no flanco da montanha, elas se mostram a descoberto em toda a sua espessura, sobrepostas como as fiadas de um edifício.
É assim que se encontram em grandes altitudes bancos consideráveis de conchas, primitivamente formados no fundo dos mares. Está perfeitamente reconhecido hoje que em nenhuma época o mar pôde atingir tal altura, porque todas as águas que existem na Terra não bastariam, ainda que houvesse cem vezes mais. Seria, pois, preciso supor que a quantidade de água diminuiu, e então se perguntaria em que se tornou a porção desaparecida. Os levantamentos, que são hoje um fato incontestável e demonstrado pela ciência, explicam de maneira tão lógica quanto rigorosa os depósitos marinhos que se encontram em certas montanhas. Esses terrenos estiveram evidentemente submersos durante uma longa série de séculos, mas no seu nível primitivo, e não no lugar que ocupam agora.
É exatamente como se uma porção do fundo de um lago se achasse levantada a vinte e cinco ou trinta metros acima da superfície da água; o cume dessa elevação traria os restos das plantas e dos animais que jaziam outrora no fundo da água, o que de modo algum implicaria que as águas do lago se tivessem elevado a essa altura.

35Nos lugares onde o levantamento da rocha primitiva produziu um rasgão completo do solo, seja pela sua rapidez, seja pela forma, pela altura e pelo volume da massa levantada, o granito mostrou-se a nu, como um dente que fura a gengiva. As camadas que o recobriam, levantadas, quebradas, erguidas, foram postas a descoberto; é assim que terrenos pertencentes às formações mais antigas, que se encontravam, na sua posição primitiva, a grande profundidade, formam hoje o solo de certas regiões.

36A massa granítica, deslocada por efeito dos levantamentos, deixou em alguns lugares fissuras por onde escapa o fogo interior e escorrem as matérias em fusão: são os vulcões. Os vulcões são como as chaminés dessa imensa fornalha, ou, melhor ainda, são válvulas de segurança que, dando saída ao excesso das matérias ígneas, preservam de comoções muito mais terríveis; de onde se pode dizer que o número dos vulcões em atividade é uma causa de segurança para o conjunto da superfície do solo.
Pode-se fazer uma ideia da intensidade desse fogo pensando que há vulcões que se abrem no próprio seio do mar, e que a massa de água que os recobre e neles penetra não basta para apagá-los.

37Os levantamentos operados na massa sólida deslocaram necessariamente as águas, que foram repelidas para as partes ocas, tornadas mais profundas pela elevação dos terrenos emersos e pelos afundamentos. Mas esses mesmos baixios, levantados por sua vez, ora num lugar, ora noutro, expulsaram as águas, que refluíram para outra parte, e assim por diante, até que estas puderam tomar um assento mais estável.
Os deslocamentos sucessivos dessa massa líquida lavraram e atormentaram forçosamente a superfície do solo. As águas, ao escoarem, arrastaram uma parte dos terrenos de formações anteriores postos a descoberto pelos levantamentos, desnudaram certas montanhas que estavam recobertas deles e puseram à luz a sua base granítica ou calcária; vales profundos foram cavados e outros entulhados.
Há, pois, montanhas formadas diretamente pela ação do fogo central: são principalmente as montanhas graníticas; outras são devidas à ação das águas, que, arrastando as terras móveis e as matérias solúveis, cavaram vales em torno de uma base resistente, calcária ou outra.
As matérias arrastadas pela corrente das águas formaram as camadas do período terciário, que se distinguem facilmente das precedentes, menos pela sua composição, que é quase a mesma, do que pela sua disposição.
As camadas dos períodos primário, de transição e secundário, formadas sobre uma superfície pouco acidentada, são quase uniformes por toda a Terra; as do período terciário, ao contrário, formadas sobre uma base muito desigual e pelo arrastamento das águas, têm um caráter mais local. Em toda parte, cavando a certa profundidade, encontram-se todas as camadas anteriores, na ordem da sua formação, ao passo que não se encontra em toda parte o terreno terciário, nem todas as camadas deste.

38Durante as convulsões do solo que ocorreram no início desse período, concebe-se que a vida orgânica deve ter sofrido uma parada, o que se reconhece pela inspeção dos terrenos privados de fósseis. Mas, logo que veio um estado mais calmo, os vegetais e os animais reapareceram. Estando mudadas as condições de vitalidade e mais depurada a atmosfera, viram-se formar novas espécies, de organização mais perfeita. As plantas, quanto à sua estrutura, diferem pouco das dos nossos dias.

39Durante os dois períodos precedentes, os terrenos não cobertos pelas águas ofereciam pouca extensão, e ainda assim eram pantanosos e frequentemente submersos; é por isso que só havia animais aquáticos ou anfíbios. O período terciário, que viu formarem-se vastos continentes, é caracterizado pelo aparecimento dos animais terrestres.
Assim como o período de transição viu nascer uma vegetação colossal, e o período secundário répteis monstruosos, este vê produzirem-se mamíferos gigantescos, tais como o elefante, o rinoceronte, o hipopótamo, o paleotério, o megatério, o dinotério, o mastodonte, o mamute etc. Viu nascer igualmente as aves, assim como a maior parte das espécies que vivem ainda nos nossos dias. Algumas das espécies dessa época sobreviveram aos cataclismos posteriores; outras, que se designam pela qualificação genérica de animais antediluvianos, desapareceram completamente, ou foram substituídas por espécies análogas, de formas menos pesadas e menos maciças, das quais os primeiros tipos foram como os esboços; tais são o felis spelaea, animal carnívoro do tamanho de um touro, com os caracteres anatômicos do tigre e do leão; o cervus megaceros, variedade do cervo, cujas galhadas, de 3 metros de comprimento, estavam espaçadas de 3 a 4 metros nas extremidades.

40Julgou-se durante muito tempo que o macaco e as diversas variedades de quadrúmanos, animais que mais se aproximam do homem pela conformação, ainda não existiam; mas descobertas recentes parecem não deixar dúvida sobre a presença desses animais, pelo menos para o fim do período.

41Esse período é marcado por um dos maiores cataclismos que convulsionaram o globo, mudaram mais uma vez o aspecto da superfície e destruíram sem retorno uma multidão de espécies vivas, de que só se encontram os restos. Por toda parte deixou vestígios que atestam a sua generalidade. As águas, violentamente expulsas do seu leito, invadiram os continentes, arrastando consigo as terras e os rochedos, desnudando as montanhas, desenraizando as florestas seculares. Os novos depósitos que formaram são designados em geologia pelo nome de terrenos diluvianos.

42Um dos vestígios mais significativos desse grande desastre são as rochas chamadas blocos erráticos. Chamam-se assim rochedos de granito que se encontram isolados nas planícies, repousando sobre terrenos terciários e no meio dos terrenos diluvianos, às vezes a várias centenas de léguas das montanhas de que foram arrancados. É evidente que só puderam ser transportados a tão grandes distâncias pela violência das correntes.

43Um fato não menos característico, e de que ainda não se explica a causa, é que é nos terrenos diluvianos que se encontram os primeiros aerólitos; foi, pois, só nessa época que começaram a cair. A causa que os produz não existia, portanto, anteriormente.

44É ainda por essa época que os polos começam a cobrir-se de gelos e que se formam as geleiras das montanhas, o que indica uma mudança notável na temperatura do globo. Essa mudança deve ter sido súbita, porque, se se tivesse operado gradualmente, os animais, tais como os elefantes, que hoje só vivem nos climas quentes e que se encontram em tão grande número em estado fóssil nas terras polares, teriam tido tempo de retirar-se pouco a pouco para as regiões mais temperadas. Tudo prova, ao contrário, que devem ter sido apanhados bruscamente por um grande frio e envolvidos pelos gelos.

45Foi, pois, esse o verdadeiro dilúvio universal. As opiniões estão divididas sobre as causas que o puderam produzir; mas, quaisquer que sejam, o fato nem por isso deixa de existir.
Supõe-se bastante geralmente que ocorreu uma mudança brusca na posição do eixo da Terra, em consequência da qual os polos foram deslocados; daí uma projeção geral das águas sobre a superfície. Se essa mudança se tivesse operado com lentidão, as águas ter-se-iam deslocado gradualmente, sem abalo, ao passo que tudo indica uma comoção violenta e súbita. Na ignorância em que se está da verdadeira causa, só se podem emitir hipóteses.
O deslocamento súbito das águas pode também ter sido ocasionado pelo levantamento de certas partes da crosta sólida e pela formação de novas montanhas no seio dos mares, como aconteceu no começo do período terciário; mas, além de que o cataclismo não teria sido geral, isso não explicaria a mudança súbita da temperatura dos polos.

46Na tormenta causada pela convulsão das águas, muitos animais pereceram; outros, para escapar à inundação, retiraram-se para as alturas, para cavernas e fendas, onde pereceram em massa, seja pela fome, seja devorando-se uns aos outros, seja talvez também pela irrupção das águas nos lugares onde se tinham refugiado e de onde não tinham podido escapar. Assim se explica a grande quantidade de ossadas de animais diversos, carnívoros e outros, que se encontram de mistura em certas cavernas, chamadas por essa razão cavernas ou brechas ósseas. Encontram-se nelas o mais das vezes sob as estalagmites. Em algumas, as ossadas parecem ter sido arrastadas para ali pela corrente das águas.

47Uma vez restabelecido o equilíbrio na superfície do globo, a vida animal e vegetal retomou prontamente o seu curso. O solo, firmado, tomara um assento mais estável; o ar, mais depurado, convinha a órgãos mais delicados. O sol, que brilhava com todo o seu esplendor através de uma atmosfera límpida, espalhava, com a luz, um calor menos sufocante e mais vivificante que o da fornalha interior. A Terra povoava-se de animais menos ferozes e mais sociáveis; os vegetais, mais suculentos, ofereciam uma alimentação menos grosseira; tudo, enfim, estava preparado na Terra para o novo hóspede que devia habitá-la. Foi então que apareceu o homem, o último ser da criação, aquele cuja inteligência devia doravante concorrer para o progresso geral, progredindo ele mesmo.

48O homem só existe realmente na Terra desde o período diluviano, ou apareceu antes dessa época? Essa questão é muito controvertida hoje; mas a sua solução, qualquer que seja, tem apenas uma importância secundária, porque nada mudaria no conjunto dos fatos estabelecidos.
O que fizera pensar que o aparecimento dos homens é posterior ao dilúvio é que não se tinha encontrado nenhum vestígio autêntico da sua existência durante o período anterior. As ossadas descobertas em diversos lugares, que fizeram crer na existência de uma pretensa raça de gigantes antediluvianos, foram reconhecidas como ossadas de elefantes.
O que não é duvidoso é que o homem não existia nem no período primário, nem no de transição, nem no período secundário, não só porque não se encontra dele nenhum vestígio, mas porque as condições de vitalidade não existiam para ele. Se apareceu no período terciário, só pode ter sido para o fim, e ainda assim devia ser pouco numeroso; de outro modo, já que se encontram os vestígios mais delicados de tão grande número de animais que viveram nessa época, não se compreenderia que os homens não tivessem deixado nenhum indício da sua presença, seja pelos restos do corpo, seja por trabalhos quaisquer.
De resto, o período diluviano, tendo sido curto, não trouxe mudanças notáveis nas condições climáticas e atmosféricas; os animais e os vegetais eram os mesmos antes e depois; não há, pois, impossibilidade material em que o aparecimento do homem tenha precedido esse grande cataclismo; a presença do macaco nessa época aumenta a probabilidade do fato, que descobertas recentes parecem confirmar (1).
Seja como for, quer o homem tenha aparecido antes, quer não, do grande dilúvio universal, é certo que o seu papel humanitário só começou realmente a desenhar-se no período pós-diluviano; pode-se, pois, considerá-lo caracterizado pela sua presença.
(1) Ver os trabalhos do Sr. Boucher de Perthes.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês

Fonte: Internet Archive — La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme (Paris, Librairie internationale, 1868), OCR corrigé avec les numérisations bub_gb_KzDGY2nT08AC et bub_gb_hupkPNggu5sC

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