Ilíada — Canto III
Ler no Une Sacra1Os Teucros em batalha, após seus cabos,
Gritando avançam: tal se eleva às nuvens
Dos grous o grasno, que em aéreas turmas,
Da invernada e friagens desertores,
Contra o povo Pigmeu com ruína e morte,
O Oceano transvoam. Desejosos
De entreajudar-se, tácitos os Gregos,
Força e coragem respirando, marcham.
9Qual se, ingrato ao pastor, Noto enche os cumes
De névoa, mais que a noite ao furto asada,
Pois que a tiro de pedra mal se enxerga;
12Aos pés túrbido pó não menos surge
Dos que iam pelo campo acelerados.
Perto eles já, da prima Tróica fila
Páris nítido sai: com arco e espada,
Pele de um pardo enverga; de ênea ponta
A vibrar dois hastis, os mais valentes
Um por um desafia. Em grave passo
Vendo-o vir Menelau, como esfaimado
Leão exulta que, ao topar fornido
Galheiro cervo ou corpulenta corça,
Ferra-o voraz, embora em cerco o apertem
Viçosos moços, vívidos sabujos.
24Do coche em armas vingativo salta;
Mas Alexandre, que na frente o avista,
Para os seus retraiu-se estremecendo.
27Se alguém no serro ou brenha encontra serpe,
Trépido recuando empalidece:
O deiforme elegante assim do Atrida
Aos soberbos Troianos retrocede.
31Agro o invectiva Heitor: “Funesto Páris,
Mulherengo falaz, nunca nasceras;
Ou solteiro acabar melhor te fora
Que escárnio a todos ser. És sim bonito;
35O Argeu comado, que pugnaz te cria,
Ri de que alma tão vil teu corpo aloje.
A navegar, poltrão, forçaste amigos,
Da Ápia ousando a beleza peregrina,
Consorte e irmã de heróis, trazer contigo?
40E és a teu pai flagelo, aos teus e à pátria,
Mofa de estranhos, de ti mesmo opróbrio?
Fugiste a Menelau? provaras que homem
Houve as primícias da mulher que usurpas:
Cítara, nem madeixas, nem beldade,
Nem Vênus com seus mimos te valera,
No pó submerso. Por devida paga,
Se os nossos Teucros tímidos não fossem,
Tu já vestiras túnica de seixos.”
49E o formoso Alexandre: “Essa fraterna
Mereço, Heitor; mas no âmago tens rijo
Coração, qual secure que, aumentando
Ao pulso a robustez, penetra o lenho,
Talha e em navais aprestos o afeiçoa.
54Da áurea Vênus os prêmios não me exprobres;
Nem são de recusar os dons celestes,
Nem alvedrio é nosso o consegui-los.
57Se me queres na liça, Aqueus e Troas
Sossega: eu só com Menelau a braços
Dispute Helena; o vencedor aceite
E reconduza a dama e os seus tesouros.
61Ferido o pacto, em sólida amizade
Neste pingue torrão fiquem-se os nossos;
De cavalos fecunda aqueles Argos
E Acaia busquem de gentis mulheres.”
65Folga Heitor, e hasta em punho, os seus retendo,
Se adianta; mas alvo era de pedras,
Frechas e lanças, té bradar o Atrida:
“Basta, Aquivos, cessai, crinita gente;
69Que acena o galeato herói Priâmeo.”
Ei-los subitamente se aquietam,
E chama Heitor: “Sabei de mim, Dardânios
E Aqueus de fina greva, o que Alexandre
Propõe, da guerra autor. De parte a parte
Largadas no almo chão fulgúreas armas,
Menelau marcial a sós com ele
Dispute Helena; o vencedor aceite
E reconduza a dama e os seus tesouros;
78Nós outros aliança e paz firamos.”
Calam-se, e Menelau sonoro troa:
“Sede-me atentos; esta angústia é minha.
81Atormenta-me a guerra: Aqueus e Troas
Por mim, por Alexandre origem dela,
Nímio têm padecido! Os mais pactuem;
84Morra qualquer um dos dous que a Parca assine.
Preta imole-se à Terra uma cordeira,
Cordeiro branco ao sol, branco ao Satúrnio.
87Mas Príamo o tratado ratifique;
Seus filhos com perfídia os juramentos
Podem quebrar, sem pejo do Supremo.
90Dos mancebos a mente é sempre instável:
O ancião, reportando-se ao passado,
Olha ao futuro, concilia todos.”
93Alegram-se os Trojúgenas e Aquivos,
Terminar concebendo a luta infausta.
Dos coches apeando, os enfileiram;
96As armas despem, que ante si descansam:
Breve espaço medeia. Dois arautos
Expede logo Heitor, que as reses tragam,
E a Príamo convida. A rês terceira
Manda vir Agamêmnon por Taltíbio,
Que ao rei submisso para as naus caminha.
102A Helena bracicândida vem Íris,
Nas feições de Laódice, do Antenório
Príncipe Helicaon dileta esposa,
E a mais bela de Príamo gerada.
106Acha-a tecendo em casa dupla trama,
Luzida e larga, onde as ações bordava
Que arnesados Aqueus e éqüites Frígios
Sustentavam por ela encruecidos.
110Chega a núncia veloz: “Sus, ninfa amada,
Contempla e admira os Graios e os Troianos:
Não há muito, em combates lagrimosos
Ardiam por matanças; quedos ora,
Sem contenda, arrimados aos escudos,
Os longos piques junto a si pregaram.
116Só lança a lança Menelau com Páris
Vai duelar: do que vencer o nome
Terás de queridíssima consorte.”
119Assim na alma a saudade se lhe estampa
Do marido e dos lares e parentes.
De véu cândido ao rosto, água nos olhos,
Saiu do gineceu; não vai sozinha,
Vai com fâmulas duas, a Pitéia
Etra e Climene de bovinos lumes.
125Às portas Ceias já de assento encontra
A Príamo na torre, e Panto e Clício,
Hiceteon belaz, Timetes, Lampo,
Mais Antenor e Ucalegon sisudos,
Que por velhos abstinham-se da guerra;
130Porém, bons oradores, semelhavam
A cigarras que, nárvore pousadas,
A selva adoçam com suave canto.
133À torre vendo aproximar-se Helena,
Dizem baixo entre si: “Não sem motivo
Povos rivais aturam tantos males!
136Que porte e garbo! efígie é das deidades.
Mas, tal qual seja, embarque; a nós de exício
Não continue a ser e a nossos filhos.”
139Então chamou-a Príamo: “Anda, ó cara,
Teu cônjuge primeiro e afins e amigos
Atenta ao pé de mim. Não és culpada;
142Guerra tão crua, os deuses ma enviaram.
Aquele Argeu quem é, bizarro e esbelto?
Outros se lhe avantajam na estatura;
145Mas nunca os olhos meus tamanho viram
Decoro e majestade: um rei parece.”
Respondeu-lhe a mais nobre das mulheres:
“Amado sogro, temo-te e venero;
149Oh! morte eu padecera, antes que o toro
Por teu Páris tivesse abandonado,
E os irmãos e a só filha e as companheiras!
152Eu vivo e em mesto pranto me definho.
Mas vou satisfazer-te: o herói que apontas
É rei sublime e campeão tremendo,
O pujante Agamêmnon; que vergonha!
156Se um dia o mereci, foi meu cunhado.”
Pasma e exclama o ancião: “Feliz Atrida!
Mimoso da fortuna, que em florentes
Graios dominas! Muitos vi peritos
Cavaleiros da Frígia pampinosa,
E as de Migdon divino e Otreu falanges,
Que do Sangário às bordas acampavam;
163Lá como auxiliar no ataque estive
Das viris Amazonas: mor quantia
De olhi-negros Aquivos se apresentam.”
166Prossegue a interrogá-la: “A quem do Atrida
Sobrepuja a cabeça, dize ó filha,
E é dos peitos mais largo e das espáduas?
169Em terra as armas, as fileiras corre:
De espessa lã guieiro se me antolha
Que entre infindo passeia alvo rebanho.”
172Torna a Dial vergôntea: “Esse o prudente
Laércio Ulisses é, de Ítaca rude,
Em todo estratagema e ardis sabido.”
175E Antenor: “A verdade, ó mulher, falas.
Por teu respeito aqui já veio Ulisses
De embaixador com Menelau: prestei-lhes
Uma franca e amigável hospedagem.
179Discerni a cordura e o gênio de ambos.
Eles em pé, dos Teucros no conselho,
Menelau sobranceiros tinha os ombros;
182Sentados, o Laércio mais nobreza.
Não multíloquo e vago, embora jovem,
Sim conciso os discursos bem tecendo,
Razões argutas Menelau volvia.
186Mas, se o Ítaco a orar se levantava,
No chão pregada a vista, o cetro imóvel,
Direito e sem pender, o creras homem
Inexperto, iracundo, ou quase louco;
190Do imo ao soltar a voz, qual neve hiberna
As palavras em flocos lhe choviam:
Com ele então ninguém se comparasse;
193Na facúndia e no gesto era um portento.”
“Quem é, pergunta Príamo, o guerreiro
Que, espadaúdo e grande, a fronte acima
Dos Dânaos assoberba?” - “É, disse a nora,
Ajax, dos Gregos fortaleza e muro.
198Idomeneu Cretense ali dos cabos,
Como um deus, se rodeia: ao vir de Creta,
De Menelau nos paços o acolhíamos.
201Outros vejo daqui de negros olhos,
Que eu fácil nomeara; mas não vejo
Castor na picaria, insigne Pólux
No pugilato, príncipes das gentes,
Maternos meus irmãos: ou não largaram
Da leda Esparta, ou nos baixéis detidos,
Pejam-se de empenhar-se nas pelejas
Que, por meu vitupério, se prolongam.”
209Oculto lhe era que ambos já na doce
Pátria Lacedemônia descansavam.
Traziam da cidade os mensageiros
As hóstias e odre cheio de jucundo
Bom licor de natio; Ideu cratera
Também traz luzidia e copos de ouro,
E assim convida o rei: “Sus, Laomedôncio;
216Magnatas Frígios e emalhados Gregos
Rogam desças e o pacto nos confirmes.
De hastas com Menelau contenda Páris:
Quem vencer haja Helena e seus tesouros.
220Ferida a paz, em Tróia ficaremos;
De cavalos fecunda aqueles Argos
E Acaia busquem de gentis mulheres.”
223Manda o coche arrear trêmulo o velho:
Obedecem-lhe; sobe e os loros tira;
Sobe Antenor com ele; os corredores,
Das portas Ceias despedidos, param.
227Já do assento vistoso desmontados,
Entre Aqueus e Troianos caminhavam;
Ergue-se o mor Atrida e o cauto Ulisses.
230Prestes as reses, na cratera o vinho
Os arautos resplêndidos misturam,
Água às mãos régias cristalina vertem.
233Puxa Agamêmnon do cutelo, apenso
Da bainha da espada formidável,
Raspa a moleira às vítimas, e o pêlo
Os arautos aos próceres dividem;
237Ele alça deprecando a voz e as palmas:
“Do Ida augusto senhor, máximo padre,
Sol que vês e ouves tudo, rios, Terra,
Vós que no inferno castigais perjuros,
Desta aliança fiadores sede.
242Se Páris vence a Menelau, conserve
Toda a riqueza e a dama, e nós voguemos;
Se o vence o louro Atrida, aqui nos rendam
Helena e o seu tesouro, e por memória
Multa condigna paguem: morto Páris,
Se Príamo e seus filhos ma refusam,
Té que os force ao dever, não largo as armas.”
249Nisto, as gargantas aos cordeiros sangra:
Exânimes no solo e palpitantes,
Do éreo instrumento ao gume a vida perdem.
252Rasos os copos, a cratera esgotam,
E ao Supremo libando o voto expressam,
Ou cada Argivo ou Teucro: “Jove eterno
E mais deuses, no chão, como este vinho,
Dos que primeiro o pacto violarem
Esparjam-se os miolos e os dos filhos,
Sejam dos outros as mulheres suas.”
259Nada firma o Satúrnio, e o rei Dardânio:
“Ó Troas, balbucia, Aqueus, ouvi-me:
Volto a Ílion ventosa; que estes olhos
Entre o rival belígero e o meu Páris
O duelo cruel suster não podem.
264Júpiter sabe e os imortais qual deles
Chamam seus fados.” - O varão divino
Monta, no coche as vítimas coloca;
267Tem consigo Antenor, e as rédeas bate:
Ambos à desfilada se recolhem.
Eis Ulisses e Heitor o espaço medem,
Eis num elmo sorteiam quem da lança
Aênea encete o bote. Frígio ou Graio,
Súplice as mãos estende e aos céus implora:
“Do Ida augusto senhor, máximo padre,
Quem quer que o mal causasse, a Dite o entregues;
275Nós de amizade o pacto mantenhamos.”
Sacode o elmo Heitor, e o rosto vira;
Sai o nome de Páris. Em fieira,
Têm seus donos ao pé cavalos e armas.
279Arnesa-se Alexandre, o pulcro esposo
Da emadeixada Helena: as caneleiras
Com prata afivelando, ao peito a coura
Do irmão seu Licaon, que bem lhe quadra,
Lâmina aênea claviargêntea ombreia,
De grande escudo sólido se adarga;
285Flutua-lhe à cabeça o capacete,
De crina e hórrida crista, primoroso;
Pique válido empunha. De iguais armas
Galhardo Menelau se adorna e veste.
289De ponto em branco, ao meio avançam torvos:
Frio estupor, a tal conspecto, assalta
Bem grevados Aqueus e éqüites Frígios.
292Sanhudos no recinto se acometem,
Hastas brandindo. A sua arroja Páris;
Rasca o broquel do Atrida sem rompê-lo,
Na brônzea rigidez se amolga a ponta.
296Menelau, por seu turno, impreca: “Ó Jove,
Dá-me a injúria anular que hauri primeira;
No sacrílego autor meu braço a puna.
299De atraiçoar vindouros estremeçam
O hóspede lhano que os receba amigo.”
A lança aqui desfere, que no instante
Ao Priâmeo entra aguda o reforçado
Fúlgido escudo, rasga-lhe a excelente
Loriga e malha, a túnica penetra
No quadril: curva-se ele e a morte esquiva.
306De argênteos cravos puxa o Atrida o gládio,
Que na cimeira voa-lhe em pedaços;
Fitando os céus então, suspira e geme:
“És o mais sevo nume, ó tu Satúrnio,
Cuidei nesse traidor vingar a afronta:
Estalou-me nas mãos, oh! raiva, a espada,
E arremessei frustrâneo um tiro cego.”
313Nisto, pelo cocar o aferra e empuxa
Para os Aqueus: o pespontado loro
Que ao mento o elmo liga, a mole goela
Cerra e o sufoca; eterna glória obtendo,
Firme o arrastara, se a Dial Ciprina
Rapidamente não quebrasse o atilho,
De hóstia bovina espólio. O herói, sacado
O elmo vazio, a revoltões remete-o
Aos contentes consócios, que o recadam.
322Por matá-lo inda enrista acesa lança;
Mas fácil, como deusa, em névoa grossa
Vênus o leva ao tálamo fragrante.
325À torre mesma corre, onde acha Helena
Entre as Dardânias: unectário peplo
Abanando-lhe, o vulto imita e as rugas
Da fiel cardadeira que na Esparta
As lãs curava e as boas lhe escolhia;
330Disfarçada comete-a: “Vem, que Páris
No toro conjugal te aguarda, filha:
Enfeitado e gentil, não de um combate
Livre o julgaras, sim que a dança o espera,
E que já de um folguedo refocila.”
335A Helena isto comove; mas, donoso
Vendo-lhe o seio, o colo de alabastro,
Dos olhos o fulgor, pávida exclama:
“Bárbara, em fascinar-me assim prossegues?
339Rojar-me intentas à Meônia ou Frígia?
Lá tens algum mimoso entre esses povos?
Quando, o guapo Alexandre hoje abatido,
Ré Menelau me aceita e me perdoa,
Traças com teus enganos empecer-nos?
344Vai tu própria; não ponhas pés no Olimpo.
Esquece os deuses, dele sempre ao lado,
Suporta-lhe o desdém, até que esposa
Tu sejas de um mortal, ou sua escrava.
348Não mais, desse cobarde o leito ornando
Quero a fábula ser das Teucras damas,
Curtir nova desonra e mágoas novas.”
351E a deusa irada: “Não me apures, teme
Que eu te persiga, mísera, e aborreça
Quanto hoje te amo: excitarei discórdia,
Que os Dardânios e os Gregos exaspere,
E vítima serás de horrendos fados.”
356Estremece a Ledéia, e silenciosa,
Do peplo candidíssimo velada,
Às Troadas se furta, e a guia Vênus.
359No palácio elegante apenas entram,
As servas todas no lavor se apressam;
Monta à câmara sua Helena bela.
362Numa sede a coloca a mãe dos risos
Em face de Alexandre; aversa olhando
A do Egífero neta o argúi severa:
“Pois te salvaste? aos golpes sucumbisses
Do meu primeiro esposo! Em destra lança
E em força te gabavas de excedê-lo:
Anda, provoca a Menelau brioso,
Torna ao duelo agora. Estulto, crê-me,
O louro Menelau nem mais encares,
Que da hasta e forte mão serás prostrado.”
372Brando se escusa Páris: “Doce Helena,
Com essas lancetadas não me punjas:
Venceu-me o Atrida por favor de Palas;
375Deuses mais faustos me farão vencê-lo.
Vamos em nossa cama congraçar-nos:
Tal ardor nunca tive e tais desejos;
378Nem quando, arrebatada à meiga Esparta,
Velejava contigo, e a vez primeira
Na ilha Cranaé do amor gozamos;
381Hoje mais te apeteço e mais te anelo.”
Então sobe adiante, e o segue a esposa;
No entalhado seu leito adormeceram.
384Menelau, como fera, escuma e vaga
Em busca do formoso e divo Páris:
Nem Troa algum, nem ínclito aliado
Ao valente rival mostrá-lo pôde;
388Que nenhum o escondera, a todos sendo
Ódio mortal. - Bradou-lhes Agamêmnon:
“Teucros e auxiliares, atendei-me:
Claro a vitória a Menelau pertence;
392Rendei pois a riqueza e Helena Argiva,
Multa pagai-nos que o porvir memore.”
Dos seus o aplauso unânime retumba.
Versão: Tradução de Odorico Mendes (1874) — Manuel Odorico Mendes
Edição: 1
Fonte: Wikisource
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