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A Gênese — X. Gênese orgânica

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1Houve um tempo em que os animais não existiam; logo, começaram. Viu-se aparecer cada espécie à medida que o globo adquiria as condições necessárias à sua existência: isso é positivo. Como se formaram os primeiros indivíduos de cada espécie? Compreende-se que, dado um primeiro casal, os indivíduos se tenham multiplicado; mas esse primeiro casal, de onde saiu? É esse um dos mistérios que se prendem ao princípio das coisas e sobre os quais só se podem fazer hipóteses. Se a ciência ainda não pode resolver completamente o problema, pode pelo menos pôr no caminho.

2Uma primeira questão que se apresenta é esta: cada espécie animal saiu de um primeiro casal, ou de vários casais criados, ou, se quiserem, germinados simultaneamente em diferentes lugares?
Esta última suposição é a mais provável; pode-se até dizer que ressalta da observação. Com efeito, existe numa mesma espécie uma variedade infinita de gêneros, que se distinguem por caracteres mais ou menos marcados. Era preciso, de toda necessidade, pelo menos um tipo para cada variedade, apropriado ao meio em que era chamada a viver, pois cada uma se reproduz identicamente a mesma.
Por outro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo de um indivíduo nascente, está submetida a tantas eventualidades que toda uma criação poderia ter sido comprometida sem a pluralidade dos tipos primitivos, o que não teria sido segundo a previdência divina. Aliás, se um tipo pôde formar-se num ponto, não há razão para que não se tenha formado em vários pontos pela mesma causa.
Enfim, a observação das camadas geológicas atesta a presença, nos terrenos da mesma formação, e isso em proporções enormes, da mesma espécie nos pontos mais afastados do globo. Essa multiplicação tão geral e de certo modo contemporânea teria sido impossível com um tipo primitivo único.
Tudo concorre, pois, para provar que houve criação simultânea e múltipla dos primeiros casais de cada espécie animal e vegetal.

3A formação dos primeiros seres vivos pode deduzir-se, por analogia, da mesma lei segundo a qual se formaram, e se formam todos os dias, os corpos inorgânicos. À medida que se aprofundam as leis da natureza, veem-se as suas engrenagens, que à primeira vista parecem tão complicadas, simplificarem-se e confundirem-se na grande lei de unidade que preside a toda a obra da criação. Compreender-se-á melhor quando se tiver dado conta da formação dos corpos inorgânicos, que é o seu primeiro grau.

4A química considera elementares certo número de substâncias, tais como o oxigênio, o hidrogênio, o azoto, o carbono, o cloro, o iodo, o flúor, o enxofre, o fósforo e todos os metais. Pela sua combinação, formam os corpos compostos: os óxidos, os ácidos, os álcalis, os sais e as inumeráveis variedades que resultam da combinação destes.
A combinação de dois corpos para formar um terceiro exige um concurso particular de circunstâncias: seja um grau determinado de calor, de secura ou de umidade, seja o movimento ou o repouso, seja uma corrente elétrica etc. Se essas condições não existem, a combinação não se dá.

5Quando há combinação, os corpos componentes perdem as suas propriedades características, ao passo que o composto que resulta deles possui novas, diferentes das dos primeiros. É assim, por exemplo, que o oxigênio e o hidrogênio, que são gases invisíveis, combinados quimicamente, formam a água, que é líquida, sólida ou vaporosa, conforme a temperatura. Na água já não há, propriamente falando, oxigênio e hidrogênio, mas um novo corpo; decomposta essa água, os dois gases, novamente livres, recuperam as suas propriedades, e já não há água. A mesma quantidade de água pode assim ser alternadamente decomposta e recomposta ao infinito.
Na simples mistura, não há produção de um novo corpo, e os princípios misturados conservam as suas propriedades intrínsecas, que são apenas enfraquecidas, como acontece com o vinho misturado com água. É assim que uma mistura de 21 partes de oxigênio e de 79 partes de azoto forma o ar respirável, ao passo que uma combinação química de 5 partes de oxigênio para 2 de azoto produz o ácido nítrico.

6A composição e a decomposição dos corpos dão-se em consequência do grau de afinidade que os princípios elementares têm uns pelos outros. A formação da água, por exemplo, resulta da afinidade recíproca do oxigênio e do hidrogênio; mas, se se põe em contato com a água um corpo que tenha pelo oxigênio mais afinidade do que este tem pelo hidrogênio, a água decompõe-se; o oxigênio é absorvido, o hidrogênio torna-se livre, e já não há água.

7Os corpos compostos formam-se sempre em proporções definidas, isto é, pela combinação de uma quantidade determinada dos princípios constituintes. Assim, para formar a água é preciso uma parte de oxigênio e duas de hidrogênio. Ainda que se pusesse, nas mesmas condições, uma proporção maior de um ou de outro dos dois gases, só seria absorvida a quantidade necessária, e o excesso ficaria livre. Se, em outras condições, houver duas partes de oxigênio combinadas com duas de hidrogênio, em vez de água obtém-se o deutóxido de hidrogênio, líquido corrosivo, formado, contudo, dos mesmos elementos que a água, mas noutra proporção.

8Tal é, em poucas palavras, a lei que preside à formação de todos os corpos da natureza. A inumerável variedade desses corpos resulta de um número muito pequeno de princípios elementares combinados em proporções diferentes.
Assim, o oxigênio combinado em certas proporções com o carbono, o enxofre e o fósforo forma os ácidos carbônico, sulfúrico e fosfórico; o oxigênio e o ferro formam o óxido de ferro ou ferrugem; o oxigênio e o chumbo, ambos inofensivos, dão lugar aos óxidos de chumbo, tais como o litargírio, o alvaiade e o mínio, que são venenosos. O oxigênio, com os metais chamados cálcio, sódio e potássio, forma a cal, a soda e a potassa. A cal unida ao ácido carbônico forma os carbonatos de cal ou pedras calcárias, tais como o mármore, o giz, a pedra de construção, as estalactites das grutas; unida ao ácido sulfúrico, forma o sulfato de cal ou gesso, e o alabastro; ao ácido fosfórico, o fosfato de cal, base sólida dos ossos; o hidrogênio e o cloro formam o ácido clorídrico; o ácido clorídrico e a soda formam o cloridrato de soda ou sal marinho.

9Todas essas combinações, e milhares de outras, obtêm-se artificialmente, em pequeno, nos laboratórios de química; operam-se espontaneamente, em grande, no grande laboratório da natureza.
A Terra, no seu princípio, não continha essas matérias combinadas, mas somente os seus princípios constituintes volatilizados. Quando as terras calcárias e outras, tornadas com o tempo pedregosas, se depositaram na sua superfície, não existiam já formadas; mas no ar encontravam-se, em estado gasoso, todas as substâncias primitivas; essas substâncias, precipitadas por efeito do resfriamento, sob o império de circunstâncias favoráveis, combinaram-se segundo o grau da sua afinidade molecular; foi então que se formaram as diferentes variedades de carbonatos, de sulfatos etc., primeiro em dissolução nas águas, depois depositadas na superfície do solo.
Suponhamos que, por uma causa qualquer, a Terra voltasse ao seu estado de incandescência primitiva: tudo isso se decomporia; os elementos separar-se-iam; todas as substâncias fusíveis se fundiriam; todas as que são volatilizáveis se volatilizariam. Depois, um segundo resfriamento traria uma nova precipitação, e as antigas combinações formar-se-iam de novo.

10Essas considerações provam quanto a química era necessária para a inteligência da Gênese. Antes do conhecimento das leis da afinidade molecular, era impossível compreender a formação da Terra. Essa ciência iluminou a questão com uma luz inteiramente nova, como a astronomia e a geologia o fizeram sob outros pontos de vista.

11Na formação dos corpos sólidos, um dos fenômenos mais notáveis é o da cristalização, que consiste na forma regular que tomam certas substâncias na sua passagem do estado líquido ou gasoso ao estado sólido. Essa forma, que varia segundo a natureza da substância, é geralmente a de sólidos geométricos, tais como o prisma, o romboedro, o cubo, a pirâmide. Todos conhecem os cristais de açúcar-cande; os cristais de rocha, ou sílica cristalizada, são prismas de seis faces terminados por uma pirâmide igualmente hexagonal. O diamante é carbono puro, ou carvão cristalizado. Os desenhos que se produzem nas vidraças no inverno são devidos à cristalização do vapor de água sob a forma de agulhas prismáticas.
A disposição regular dos cristais prende-se à forma particular das moléculas de cada corpo; essas parcelas, infinitamente pequenas para nós, mas que nem por isso deixam de ocupar certo espaço, solicitadas umas para as outras pela atração molecular, arranjam-se e justapõem-se, segundo a exigência da sua forma, de maneira a tomar cada uma o seu lugar em torno do núcleo ou primeiro centro de atração e a formar um conjunto simétrico.
A cristalização só se opera sob o império de certas circunstâncias favoráveis, fora das quais não pode dar-se; o grau da temperatura e o repouso são condições essenciais. Compreende-se que um calor forte demais, mantendo as moléculas afastadas, não lhes permitiria condensar-se, e que a agitação, opondo-se ao seu arranjo simétrico, faria que só formassem uma massa confusa e irregular e, portanto, nenhuma cristalização propriamente dita.

12A lei que preside à formação dos minerais conduz naturalmente à formação dos corpos orgânicos.
A análise química mostra-nos todas as substâncias vegetais e animais compostas dos mesmos elementos que os corpos inorgânicos. Os desses elementos que desempenham o papel principal são o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono; os outros só se encontram neles acessoriamente. Como no reino mineral, a diferença de proporção na combinação desses elementos produz todas as variedades de substâncias orgânicas e as suas diversas propriedades, tais como os músculos, os ossos, o sangue, a bílis, os nervos, a matéria cerebral, a gordura, nos animais; a seiva, a madeira, as folhas, os frutos, as essências, os óleos, as resinas etc., nos vegetais. Assim, na formação dos animais e das plantas não entra nenhum corpo especial que não se encontre igualmente no reino mineral (1).
(1) O quadro abaixo, da análise de algumas substâncias, mostra a diferença de propriedades que resulta só da diferença na proporção dos elementos constituintes. Em 100 partes (carbono, hidrogênio, oxigênio, azoto):
Açúcar de cana: 42.470 de carbono, … de hidrogênio, 50.030 de oxigênio, sem azoto.
Açúcar de uva: 30.710 de carbono, 6.780 de hidrogênio, 56.510 de oxigênio, sem azoto.
Álcool: 51.980 de carbono.
Azeite de oliva: 77.210 de carbono.
Óleo de nozes: 79.774 de carbono.
Gordura: 78.996 de carbono.
Fibrina: 53.360 de carbono.
(Os demais valores do quadro estão ilegíveis no original digitalizado.)

13Alguns exemplos usuais farão compreender as transformações que se operam no reino orgânico apenas pela modificação dos elementos constitutivos.
No suco da uva ainda não há nem vinho nem álcool, mas simplesmente água e açúcar. Quando esse suco chegou à maturidade e se encontra colocado em circunstâncias propícias, produz-se nele um trabalho íntimo, a que se dá o nome de fermentação. Nesse trabalho, uma parte do açúcar decompõe-se; o oxigênio, o hidrogênio e o carbono separam-se e combinam-se nas proporções necessárias para fazer álcool; de sorte que, bebendo suco de uva, não se bebe realmente álcool, pois ainda não existe.
No pão e nos legumes que se comem, não há certamente nem carne, nem sangue, nem ossos, nem bílis, nem matéria cerebral, e, no entanto, esses mesmos alimentos vão, decompondo-se e recompondo-se pelo trabalho da digestão, produzir essas diferentes substâncias apenas pela transmutação dos seus elementos constitutivos.
Na semente de uma árvore também não há nem madeira, nem folhas, nem flores, nem frutos, e é um erro pueril julgar que a árvore inteira, sob forma microscópica, se encontra na semente; nem sequer há nessa semente, longe disso, a quantidade de oxigênio, de hidrogênio e de carbono necessária para formar uma folha da árvore. A semente encerra um germe que eclode quando ela se encontra em condições favoráveis; esse germe cresce pelos sucos que tira da terra e pelos gases que aspira do ar; esses sucos, que não são nem madeira, nem folhas, nem flores, nem frutos, infiltrando-se na planta, formam a sua seiva, como os alimentos, nos animais, formam o sangue. Essa seiva, levada pela circulação a todas as partes do vegetal, segundo os órgãos a que chega e onde sofre uma elaboração especial, transforma-se em madeira, folhas, frutos, como o sangue se transforma em carne, ossos, bílis etc., e, no entanto, são sempre os mesmos elementos: oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono, diversamente combinados.

14As diferentes combinações dos elementos para a formação das substâncias minerais, vegetais e animais só podem, pois, operar-se nos meios e nas circunstâncias propícias; fora dessas circunstâncias, os princípios elementares estão numa espécie de inércia. Mas, logo que as circunstâncias são favoráveis, começa um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento, agitam-se, atraem-se, aproximam-se, separam-se em virtude da lei das afinidades e, pelas suas combinações múltiplas, compõem a variedade infinita das substâncias. Cessem essas condições, e o trabalho é subitamente detido, para recomeçar quando elas se apresentarem de novo. É assim que a vegetação se ativa, se retarda, cessa e recomeça, sob a ação do calor, da luz, da umidade, do frio ou da secura; que tal planta prospera num clima ou num terreno e definha ou perece em outro.

15O que se passa diariamente sob os nossos olhos pode pôr-nos no caminho do que se passou na origem dos tempos, porque as leis da natureza são sempre as mesmas.
Já que os elementos constitutivos dos seres orgânicos e dos seres inorgânicos são os mesmos, e que os vemos incessantemente, sob o império de certas circunstâncias, formar as pedras, as plantas e os frutos, pode-se concluir que os corpos dos primeiros seres vivos se formaram como as primeiras pedras, pela reunião das moléculas elementares em virtude da lei de afinidade, à medida que as condições de vitalidade do globo se tornaram propícias a tal ou tal espécie.
A semelhança de forma e de cores, na reprodução dos indivíduos de cada espécie, pode ser comparada à semelhança de forma de cada espécie de cristal. As moléculas, justapondo-se sob o império da mesma lei, produzem um conjunto análogo.

16Dizendo que as plantas e os animais são formados dos mesmos princípios constituintes que os minerais, é preciso entendê-lo no sentido exclusivamente material; por isso só se trata aqui do corpo.
Sem falar do princípio inteligente, que é uma questão à parte, há na matéria orgânica um princípio especial, inapreensível, que ainda não pôde ser definido: é o princípio vital. Esse princípio, que é ativo no ser vivo, está extinto no ser morto, mas nem por isso deixa de dar à substância propriedades características que a distinguem das substâncias inorgânicas. A química, que decompõe e recompõe a maior parte dos corpos inorgânicos, pôde decompor os corpos orgânicos, mas nunca conseguiu reconstituir nem sequer uma folha morta, prova evidente de que há nestes alguma coisa que não existe nos outros.

17O princípio vital é alguma coisa de distinto, que tem uma existência própria? Ou, para entrar no sistema da unidade do elemento gerador, é apenas um estado particular, uma das modificações do fluido cósmico universal, que se torna princípio de vida como se torna luz, fogo, calor, eletricidade? É neste último sentido que a questão é resolvida pelas comunicações relatadas acima (cap. VI, Uranografia geral).
Mas, qualquer que seja a opinião que se faça sobre a natureza do princípio vital, ele existe, pois se veem os seus efeitos. Pode-se, pois, admitir logicamente que, ao se formarem, os seres orgânicos assimilaram o princípio vital que era necessário à sua destinação; ou, se quiserem, que esse princípio se desenvolveu em cada indivíduo pelo próprio efeito da combinação dos elementos, como se vê, sob o império de certas circunstâncias, desenvolverem-se o calor, a luz e a eletricidade.

18O oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono, combinando-se sem o princípio vital, só teriam formado um mineral ou corpo inorgânico; o princípio vital, modificando a constituição molecular desse corpo, dá-lhe propriedades especiais. Em vez de uma molécula mineral, tem-se uma molécula de matéria orgânica.
A atividade do princípio vital é mantida durante a vida pela ação do funcionamento dos órgãos, como o calor pelo movimento de rotação de uma roda; cesse essa ação pela morte, e o princípio vital extingue-se, como o calor quando a roda deixa de girar. Mas o efeito produzido sobre o estado molecular do corpo pelo princípio vital subsiste depois da extinção desse princípio, como a carbonização da madeira persiste depois da extinção do calor e da cessação do movimento da roda. Na análise dos corpos orgânicos, a química reencontra bem os elementos constituintes — oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono —, mas não pode reconstituí-los, porque, não existindo mais a causa, não pode reproduzir o efeito, ao passo que pode reconstituir uma pedra.

19Tomamos para comparação o calor desenvolvido pelo movimento de uma roda porque é um efeito vulgar, conhecido de todos e mais fácil de compreender; mas teria sido mais exato dizer que, na combinação dos elementos para formar os corpos orgânicos, se desenvolve eletricidade. Os corpos orgânicos seriam assim verdadeiras pilhas elétricas, que funcionam enquanto os elementos dessas pilhas estão nas condições necessárias para produzir eletricidade — é a vida —, e que param quando cessam essas condições — é a morte. Segundo isso, o princípio vital não seria outro senão a espécie particular de eletricidade designada pelo nome de eletricidade animal, desprendida durante a vida pela ação dos órgãos, e cuja produção é detida na morte pela cessação dessa ação.

20Pergunta-se naturalmente por que já não se formam seres vivos nas mesmas condições que os primeiros que apareceram na Terra.
A questão da geração espontânea, que preocupa hoje a ciência, embora ainda resolvida de maneiras diversas, não pode deixar de lançar luz sobre esse assunto. O problema proposto é este: formam-se espontaneamente nos nossos dias seres orgânicos apenas pela união dos elementos constitutivos, sem germes prévios produzidos pela geração ordinária, ou seja, sem pais nem mães?
Os partidários da geração espontânea respondem afirmativamente e apoiam-se em observações diretas que parecem concludentes. Outros pensam que todos os seres vivos se reproduzem uns pelos outros, e apoiam-se neste fato, constatado pela experiência: os germes de certas espécies vegetais e animais, estando dispersos, podem conservar uma vitalidade latente durante um tempo considerável, até que as circunstâncias sejam favoráveis à sua eclosão. Essa opinião deixa sempre subsistir a questão da formação dos primeiros tipos de cada espécie.

21Sem discutir os dois sistemas, convém notar que o princípio da geração espontânea só pode evidentemente aplicar-se aos seres das ordens mais inferiores do reino vegetal e do reino animal, àqueles em que a vida começa a despontar e cujo organismo, extremamente simples, é de certo modo rudimentar. São efetivamente os primeiros que apareceram na Terra, e cuja geração deve ter sido espontânea. Assistiríamos assim a uma criação permanente, análoga à que se deu nas primeiras idades do mundo.

22Mas então por que não se veem formar-se da mesma maneira os seres de organização complexa? Esses seres nem sempre existiram, é um fato positivo; logo, começaram. Se o musgo, o líquen, o zoófito, o infusório, os vermes intestinais e outros podem produzir-se espontaneamente, por que não se dá o mesmo com as árvores, os peixes, os cães, os cavalos?
Aqui param, por ora, as investigações; o fio condutor perde-se e, até que seja encontrado, o campo está aberto às hipóteses; seria, pois, imprudente e prematuro dar sistemas como verdades absolutas.

23Se o fato da geração espontânea for demonstrado, por mais limitado que seja, nem por isso deixará de ser um fato capital, um marco posto que pode pôr no caminho de novas observações. Se os seres orgânicos complexos não se produzem dessa maneira, quem sabe como começaram? Quem conhece o segredo de todas as transformações? Quando se vê o carvalho e a bolota, quem pode dizer se não existe um laço misterioso do pólipo ao elefante?
Deixemos ao tempo o cuidado de levar a luz ao fundo desse abismo, se um dia puder ser sondado. Esses conhecimentos são interessantes, sem dúvida, do ponto de vista da ciência pura, mas não são dos que influem nos destinos do homem.

24Entre o reino vegetal e o reino animal não há delimitação nitidamente marcada. Nos confins dos dois reinos estão os zoófitos, ou animais-plantas, cujo nome indica que participam de um e de outro: é o traço de união.
Como os animais, as plantas nascem, vivem, crescem, alimentam-se, respiram, reproduzem-se e morrem. Como eles, para viver, precisam de luz, de calor e de água; se são privadas deles, definham e morrem; a absorção de um ar viciado e de substâncias deletérias envenena-as. O seu caráter distintivo mais marcado é estarem presas ao solo e tirarem dele o seu alimento sem se deslocarem.
O zoófito tem a aparência exterior da planta; como planta, está preso ao solo; como animal, a vida é nele mais acentuada; tira o seu alimento do meio ambiente.
Um grau acima, o animal é livre e vai procurar o seu alimento; são primeiro as inumeráveis variedades de pólipos de corpo gelatinoso, sem órgãos bem distintos, que só diferem das plantas pela locomoção; depois vêm, na ordem do desenvolvimento dos órgãos, da atividade vital e do instinto: os helmintos ou vermes intestinais; os moluscos, animais carnosos, sem ossos, uns nus, como as lesmas e os polvos, outros providos de conchas, como os caracóis e as ostras; os crustáceos, cuja pele é revestida de uma crosta dura, como os lagostins e as lagostas; os insetos, nos quais a vida toma uma atividade prodigiosa e se manifesta o instinto industrioso, como a formiga, a abelha, a aranha. Alguns sofrem uma metamorfose, como a lagarta, que se transforma em elegante borboleta. Vem em seguida a ordem dos vertebrados, animais de armação óssea, que compreende os peixes, os répteis, as aves e, enfim, os mamíferos, cuja organização é a mais completa.

25O homem
Do ponto de vista corporal e puramente anatômico, o homem pertence à classe dos mamíferos, dos quais só difere por nuanças na forma exterior; de resto, a mesma composição química que todos os animais, os mesmos órgãos, as mesmas funções e os mesmos modos de nutrição, de respiração, de secreção, de reprodução; nasce, vive, morre nas mesmas condições, e na sua morte o seu corpo decompõe-se como o de tudo o que vive. Não há no seu sangue, na sua carne, nos seus ossos um átomo a mais nem a menos do que no corpo dos animais; como estes, ao morrer, devolve à terra o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono que se tinham combinado para formá-lo, e que vão, por novas combinações, formar novos corpos minerais, vegetais e animais. A analogia é tão grande que se estudam as suas funções orgânicas em certos animais, quando as experiências não podem ser feitas nele mesmo.

26Na classe dos mamíferos, o homem pertence à ordem dos bímanos. Imediatamente abaixo dele vêm os quadrúmanos (animais de quatro mãos) ou macacos, alguns dos quais, como o orangotango, o chimpanzé, o jocko, têm certos modos de andar do homem, a tal ponto que por muito tempo foram designados pelo nome de homens dos bosques; como ele, andam eretos, servem-se do bastão e levam os alimentos à boca com a mão, sinais característicos.

27Por pouco que se observe a escala dos seres vivos do ponto de vista do organismo, reconhece-se que, desde o líquen até a árvore, e desde o zoófito até o homem, há uma cadeia que se eleva por graus, sem solução de continuidade, e da qual todos os elos têm um ponto de contato com o elo precedente; seguindo passo a passo a série dos seres, dir-se-ia que cada espécie é um aperfeiçoamento, uma transformação da espécie imediatamente inferior. Já que o corpo do homem está em condições idênticas às dos outros corpos, química e constitucionalmente, e que nasce, vive e morre da mesma maneira, deve ter-se formado nas mesmas condições.

28Por mais que isso possa custar ao seu orgulho, o homem deve resignar-se a ver no seu corpo material apenas o último elo da animalidade na Terra. O inexorável argumento dos fatos aí está, contra o qual protestaria em vão.
Mas, quanto mais o corpo diminui de valor aos seus olhos, mais o princípio espiritual cresce em importância; se o primeiro o põe no nível do bruto, o segundo eleva-o a uma altura incomensurável. Vemos o círculo em que para o animal; não vemos o limite que pode atingir o Espírito do homem.

29O materialismo pode ver por aí que o Espiritismo, longe de temer as descobertas da ciência e o seu positivismo, vai ao encontro delas e as provoca, porque está certo de que o princípio espiritual, que tem a sua existência própria, não pode sofrer com elas nenhum golpe.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês

Fonte: Internet Archive — La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme (Paris, Librairie internationale, 1868), OCR corrigé avec les numérisations bub_gb_KzDGY2nT08AC et bub_gb_hupkPNggu5sC

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