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A Gênese — XI. Gênese espiritual

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1A existência do princípio espiritual é um fato que, por assim dizer, não precisa de demonstração mais do que o princípio material; é de certo modo uma verdade axiomática; afirma-se pelos seus efeitos, como a matéria pelos que lhe são próprios.
Segundo a máxima: «Tendo todo efeito uma causa, todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente», não há ninguém que não faça a diferença entre o movimento mecânico de um sino agitado pelo vento e o movimento desse mesmo sino destinado a dar um sinal, um aviso, atestando por isso mesmo um pensamento, uma intenção. Ora, como a ninguém pode vir a ideia de atribuir o pensamento à matéria do sino, conclui-se que ele é movido por uma inteligência, à qual serve de instrumento para se manifestar.
Pela mesma razão, ninguém tem a ideia de atribuir o pensamento ao corpo de um homem morto. Se o homem vivo pensa, é, pois, que há nele alguma coisa que já não está ali quando está morto. A diferença que existe entre ele e o sino é que a inteligência que faz mover este está fora dele, ao passo que a que faz agir o homem está nele mesmo.

2O princípio espiritual é o corolário da existência de Deus; sem esse princípio, Deus não teria razão de ser, porque não se poderia conceber a soberana inteligência reinando durante a eternidade apenas sobre a matéria bruta, tanto quanto um monarca terrestre reinando durante toda a vida apenas sobre pedras. Como não se pode admitir Deus sem os atributos essenciais da Divindade — a justiça e a bondade —, essas qualidades seriam inúteis se só devessem exercer-se sobre a matéria.

3Por outro lado, não se poderia conceber um Deus soberanamente justo e bom, criando seres inteligentes e sensíveis para votá-los ao nada depois de alguns dias de sofrimentos sem compensação, recreando a sua vista com essa sucessão indefinida de seres que nascem sem o terem pedido, pensam um instante só para conhecer a dor e se extinguem para sempre depois de uma existência efêmera.
Sem a sobrevivência do ser pensante, os sofrimentos da vida seriam, da parte de Deus, uma crueldade sem fim. Eis por que também o materialismo e o ateísmo são corolários um do outro; negando a causa, não se pode admitir o efeito; negando o efeito, não se pode admitir a causa. O materialismo é, pois, consequente consigo mesmo, se não o é com a razão.

4A ideia da perpetuidade do ser espiritual é inata no homem; está nele no estado de intuição e de aspiração; ele compreende que só aí está a compensação das misérias da vida: é por isso que sempre houve e sempre haverá mais espiritualistas que materialistas, e mais deístas que ateus.
À ideia intuitiva e ao poder do raciocínio, o Espiritismo vem acrescentar a sanção dos fatos, a prova material da existência do ser espiritual, da sua sobrevivência, da sua imortalidade e da sua individualidade; precisa e define o que esse pensamento tinha de vago e de abstrato. Mostra-nos o ser inteligente agindo fora da matéria, seja depois, seja durante a vida do corpo.

5O princípio espiritual e o princípio vital são uma só e mesma coisa?
Partindo, como sempre, da observação dos fatos, diremos que, se o princípio vital fosse inseparável do princípio inteligente, haveria alguma razão para confundi-los; mas, como se veem seres que vivem e não pensam, como as plantas; corpos humanos ainda animados da vida orgânica quando já não existe nenhuma manifestação do pensamento; como se produzem no ser vivo movimentos vitais independentes de todo ato da vontade; como, durante o sono, a vida orgânica está em toda a sua atividade, ao passo que a vida intelectual não se manifesta por nenhum sinal exterior, há motivo para admitir que a vida orgânica reside num princípio inerente à matéria, independente da vida espiritual, que é inerente ao Espírito. Desde que a matéria tem uma vitalidade independente do Espírito, e o Espírito uma vitalidade independente da matéria, fica evidente que essa dupla vitalidade repousa sobre dois princípios diferentes.

6O princípio espiritual teria a sua fonte no elemento cósmico universal? Seria apenas uma transformação, um modo de existência desse elemento, como a luz, a eletricidade, o calor etc.?
Se assim fosse, o princípio espiritual sofreria as vicissitudes da matéria; extinguir-se-ia pela desagregação, como o princípio vital; o ser inteligente só teria uma existência momentânea, como o corpo, e na morte voltaria ao nada, ou, o que daria no mesmo, ao todo universal; seria, numa palavra, a sanção das doutrinas materialistas.
As propriedades sui generis que se reconhecem no princípio espiritual provam que ele tem a sua existência própria, independente, pois, se tivesse a sua origem na matéria, não teria essas propriedades. Desde que a inteligência e o pensamento não podem ser atributos da matéria, chega-se a esta conclusão, remontando dos efeitos às causas: o elemento material e o elemento espiritual são os dois princípios constitutivos do universo. O elemento espiritual individualizado constitui os seres chamados Espíritos, como o elemento material individualizado constitui os diferentes corpos da natureza, orgânicos e inorgânicos.

7Admitido o ser espiritual, e não podendo a sua fonte estar na matéria, qual é a sua origem, o seu ponto de partida?
Aqui os meios de investigação faltam absolutamente, como em tudo o que se prende ao princípio das coisas. O homem só pode constatar o que existe; sobre tudo o mais, só pode emitir hipóteses; e, seja porque esse conhecimento ultrapassa o alcance da sua inteligência atual, seja porque haja para ele inutilidade ou inconveniente em possuí-lo por ora, Deus não lho dá, nem mesmo pela revelação.
O que Deus lhe faz dizer pelos seus mensageiros, e o que, aliás, o homem podia deduzir por si mesmo do princípio da soberana justiça, que é um dos atributos essenciais da Divindade, é que todos têm um mesmo ponto de partida; que todos são criados simples e ignorantes, com igual aptidão para progredir pela sua atividade individual; que todos atingirão o grau de perfeição compatível com a criatura pelos seus esforços pessoais; que todos, sendo filhos de um mesmo pai, são objeto de igual solicitude; que não há nenhum mais favorecido ou mais bem dotado que os outros e dispensado do trabalho que seria imposto a outros para atingir o fim.

8Ao mesmo tempo que Deus criou mundos materiais desde toda a eternidade, criou igualmente seres espirituais desde toda a eternidade: sem isso, os mundos materiais teriam ficado sem fim. Conceber-se-iam antes os seres espirituais sem os mundos materiais do que estes últimos sem os seres espirituais. São os mundos materiais que deviam fornecer aos seres espirituais elementos de atividade para o desenvolvimento da sua inteligência.

9O progresso é a condição normal dos seres espirituais, e a perfeição relativa, o fim que devem atingir; ora, tendo-os Deus criado desde toda a eternidade, e criando-os sem cessar, desde toda a eternidade também houve os que atingiram o ponto culminante da escala.
Antes que a Terra existisse, mundos tinham sucedido a mundos, e, quando a Terra saiu do caos dos elementos, o espaço estava povoado de seres espirituais em todos os graus de adiantamento, desde os que nasciam para a vida até os que, desde toda a eternidade, tinham tomado lugar entre os Espíritos puros, vulgarmente chamados anjos.

10Devendo a matéria ser o objeto do trabalho do Espírito para o desenvolvimento das suas faculdades, era preciso que ele pudesse agir sobre a matéria; é por isso que veio habitá-la, como o lenhador habita a floresta. Devendo esta ser ao mesmo tempo o fim e o instrumento do trabalho, Deus, em vez de uni-lo à pedra rígida, criou para seu uso corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todos os impulsos da sua vontade e de se prestar a todos os seus movimentos.
O corpo é, pois, ao mesmo tempo o envoltório e o instrumento do Espírito, e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste um envoltório apropriado ao novo gênero de trabalho que deve realizar, como se dão a um operário ferramentas menos grosseiras à medida que ele é capaz de fazer uma obra mais cuidada.

11Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio Espírito que modela o seu envoltório e o apropria às suas novas necessidades; aperfeiçoa-o, desenvolve e completa o seu organismo à medida que sente a necessidade de manifestar novas faculdades; numa palavra, põe-no à medida da sua inteligência; Deus fornece-lhe os materiais; cabe a ele pô-los em obra; é assim que as raças adiantadas têm um organismo, ou, se quiserem, um instrumental mais aperfeiçoado que as raças primitivas. Assim se explica igualmente o cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e aos modos do corpo.

12Logo que um Espírito nasce para a vida espiritual, deve, para o seu adiantamento, fazer uso das suas faculdades, a princípio rudimentares; é por isso que reveste um envoltório corporal apropriado ao seu estado de infância intelectual, envoltório que deixa para revestir outro à medida que as suas forças crescem. Ora, como em todos os tempos houve mundos, e esses mundos deram nascimento a corpos organizados próprios para receber Espíritos, em todos os tempos os Espíritos encontraram, qualquer que fosse o seu grau de adiantamento, os elementos necessários à sua vida carnal.

13O corpo, sendo exclusivamente material, sofre as vicissitudes da matéria. Depois de ter funcionado algum tempo, desorganiza-se e decompõe-se; o princípio vital, não encontrando mais elemento para a sua atividade, extingue-se, e o corpo morre. O Espírito, para quem o corpo privado de vida já não tem utilidade, deixa-o, como se deixa uma casa em ruínas ou uma roupa fora de uso.

14O corpo é, pois, apenas um envoltório destinado a receber o Espírito: desde então, pouco importam a sua origem e os materiais de que é construído. Seja ou não o corpo do homem uma criação especial, nem por isso deixa de ser formado dos mesmos elementos que o dos animais, animado do mesmo princípio vital, ou seja, aquecido pelo mesmo fogo, como é iluminado pela mesma luz, sujeito às mesmas vicissitudes e às mesmas necessidades: é um ponto sobre o qual não há contestação.
Considerando apenas a matéria, e fazendo abstração do Espírito, o homem nada tem, pois, que o distinga do animal; mas tudo muda de aspecto se se faz uma distinção entre a habitação e o habitante.
Um grande senhor, numa choupana ou vestido com o burel do camponês, não deixa por isso de ser grande senhor. O mesmo se dá com o homem; não é a sua veste de carne que o eleva acima do bruto e faz dele um ser à parte, é o seu ser espiritual, o seu Espírito.

15Da semelhança de formas exteriores que existe entre o corpo do homem e o do macaco, certos fisiologistas concluíram que o primeiro era apenas uma transformação do segundo. Nisso nada há de impossível, sem que, se assim for, a dignidade do homem tenha de sofrer. Corpos de macacos podem muito bem ter servido de vestes aos primeiros Espíritos humanos, necessariamente pouco adiantados, que vieram encarnar-se na Terra, sendo essas vestes as mais apropriadas às suas necessidades e mais próprias ao exercício das suas faculdades que o corpo de qualquer outro animal. Em vez de uma veste especial ter sido feita para o Espírito, ele teria encontrado uma já pronta. Pôde, pois, vestir-se com a pele do macaco sem deixar de ser Espírito humano, como o homem se veste às vezes com a pele de certos animais sem deixar de ser homem.
Fique bem entendido que só se trata aqui de uma hipótese, que de modo algum é posta como princípio, mas dada apenas para mostrar que a origem do corpo não prejudica o Espírito, que é o ser principal, e que a semelhança do corpo do homem com o corpo do macaco não implica a paridade entre o seu Espírito e o do macaco.

16Admitindo essa hipótese, pode-se dizer que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se nos pormenores, conservando a forma geral do conjunto. Os corpos melhorados, procriando-se, reproduziram-se nas mesmas condições, como acontece com as árvores enxertadas; deram nascimento a uma nova espécie, que se afastou pouco a pouco do tipo primitivo à medida que o Espírito progrediu. O Espírito macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar corpos de macacos para seu uso, como o fruto do arbusto silvestre reproduz arbustos silvestres, e o Espírito humano procriou corpos de homens, variantes do primeiro molde em que se estabeleceu. O tronco bifurcou-se; produziu um rebento, e esse rebento tornou-se tronco.
Como não há transições bruscas na natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram na Terra tenham diferido pouco do macaco pela forma exterior, e sem dúvida não muito também pela inteligência. Há ainda nos nossos dias selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés e pela conformação da cabeça, têm tanto os modos do macaco que só lhes falta serem peludos para completar a semelhança.

17O Espiritismo ensina-nos de que maneira se opera a união do Espírito e do corpo na encarnação.
O Espírito, pela sua essência espiritual, é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter uma ação direta sobre a matéria; precisava de um intermediário; esse intermediário está no envoltório fluídico, que faz de certo modo parte integrante do Espírito, envoltório semimaterial, isto é, que participa da matéria pela sua origem e da espiritualidade pela sua natureza etérea; como toda matéria, é tirado do fluido cósmico universal, que sofre nessa circunstância uma modificação especial. Esse envoltório, designado pelo nome de perispírito, faz do Espírito, ser abstrato, um ser concreto, definido, apreensível pelo pensamento; torna-o apto a agir sobre a matéria tangível, assim como todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.
O fluido perispiritual é, pois, o traço de união entre o Espírito e a matéria. Durante a sua união com o corpo, é o veículo do seu pensamento para transmitir o movimento às diferentes partes do organismo, que agem sob o impulso da sua vontade, e para repercutir no Espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores. Tem por fios condutores os nervos, como no telégrafo o fluido elétrico tem por condutor o fio metálico.

18Quando o Espírito deve encarnar-se num corpo humano em via de formação, um laço fluídico, que não é outra coisa senão uma expansão do seu perispírito, liga-o ao germe para o qual se acha atraído por uma força irresistível desde o momento da concepção. À medida que o germe se desenvolve, o laço estreita-se; sob a influência do princípio vital material do germe, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, une-se molécula a molécula com o corpo que se forma; de onde se pode dizer que o Espírito, por intermédio do seu perispírito, cria de certo modo raízes nesse germe, como uma planta na terra. Quando o germe está inteiramente desenvolvido, a união é completa, e então ele nasce para a vida exterior.
Por um efeito contrário, essa união do perispírito e da matéria carnal, que se realizara sob a influência do princípio vital do germe, quando esse princípio deixa de agir em consequência da desorganização do corpo, que acarreta a morte — a união, que só era mantida por uma força atuante, cessa quando essa força deixa de agir; então o perispírito desprende-se molécula a molécula, como se unira, e o Espírito é restituído à liberdade. Não é, pois, a partida do Espírito que causa a morte do corpo, mas a morte do corpo que causa a partida do Espírito.

19O Espiritismo ensina-nos, pelos fatos que nos põe em condição de observar, os fenômenos que acompanham essa separação: ela é às vezes rápida, fácil, suave e insensível; outras vezes é muito lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, conforme o estado moral do Espírito, e pode durar meses inteiros.

20Um fenômeno particular, igualmente assinalado pela observação, acompanha sempre a encarnação do Espírito. Logo que este é apanhado pelo laço fluídico que o liga ao germe, a perturbação apodera-se dele; essa perturbação cresce à medida que o laço se estreita, e, nos últimos momentos, o Espírito perde toda consciência de si mesmo, de sorte que nunca é testemunha consciente do seu nascimento. No momento em que a criança respira, o Espírito começa a recuperar as suas faculdades, que se desenvolvem à medida que se formam e se consolidam os órgãos que devem servir à sua manifestação. Aqui ainda brilha a sabedoria que preside a todas as partes da obra da criação. Faculdades ativas demais gastariam e quebrariam órgãos delicados, apenas esboçados; é por isso que a sua energia é proporcional à força de resistência desses órgãos.

21Mas, ao mesmo tempo que o Espírito recupera a consciência de si mesmo, perde a lembrança do seu passado, sem perder as faculdades, as qualidades e as aptidões adquiridas anteriormente, aptidões que tinham ficado momentaneamente em estado latente e que, retomando a sua atividade, vão ajudá-lo a fazer mais e melhor do que fez precedentemente; renasce o que se fez pelo seu trabalho anterior; é para ele um novo ponto de partida, um novo degrau a subir. Aqui ainda se manifesta a bondade do Criador, porque a lembrança de um passado, muitas vezes penoso ou humilhante, juntando-se às amarguras da sua nova existência, poderia perturbá-lo e entravá-lo; só se lembra do que aprendeu, porque isso lhe é útil. Se às vezes conserva uma vaga intuição dos acontecimentos passados, é como a lembrança de um sonho fugidio. É, pois, um homem novo, por mais antigo que seja o seu Espírito; segue por novos caminhos, ajudado pelo que adquiriu. Quando volta à vida espiritual, o seu passado desenrola-se diante dos seus olhos, e ele julga se empregou bem ou mal o seu tempo.

22Não há, pois, solução de continuidade na vida espiritual, apesar do esquecimento do passado; o Espírito é sempre ele mesmo, antes, durante e depois da encarnação; a encarnação é apenas uma fase especial da sua existência. Esse esquecimento só se dá mesmo durante a vida exterior de relação; durante o sono, o Espírito, em parte desprendido dos laços carnais, restituído à liberdade e à vida espiritual, lembra-se; a sua vista espiritual já não está tão obscurecida pela matéria.

23Tomando a humanidade no seu grau mais ínfimo da escala intelectual, entre os selvagens mais atrasados, pergunta-se se é esse o ponto de partida da alma humana.
Segundo a opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, individualiza-se, elabora-se, passando pelos diversos graus da animalidade; é ali que a alma se ensaia para a vida e desenvolve as suas primeiras faculdades pelo exercício; seria, por assim dizer, o seu tempo de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que esse estado comporta, recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual, como há filiação corporal.
Esse sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à criação, responde, é preciso convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma saída, um fim, um destino aos animais, que já não são seres deserdados, mas que encontram, no futuro que lhes está reservado, uma compensação para os seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual não é a sua origem, mas os atributos especiais de que é dotado na sua entrada na humanidade, atributos que o transformam e fazem dele um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga de onde saiu. Por ter passado pela fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; não seria mais animal do que o fruto é raiz, do que o sábio é o feto informe pelo qual começou no mundo.
Mas esse sistema levanta numerosas questões, cujo pró e contra não é oportuno discutir aqui, assim como não o é examinar as diferentes hipóteses que se fizeram a esse respeito. Sem, pois, procurar a origem da alma e as fieiras pelas quais pôde passar, tomamo-la na sua entrada na humanidade, no ponto em que, dotada do senso moral e do livre-arbítrio, começa a incorrer na responsabilidade dos seus atos.

24A obrigação, para o Espírito encarnado, de prover à alimentação do corpo, à sua segurança, ao seu bem-estar, obriga-o a aplicar as suas faculdades em pesquisas, a exercê-las e a desenvolvê-las. A sua união com a matéria é, pois, útil ao seu adiantamento; eis por que a encarnação é uma necessidade. Além disso, pelo trabalho inteligente que realiza em seu proveito sobre a matéria, ajuda a transformação e o progresso material do globo que habita; é assim que, progredindo ele mesmo, concorre para a obra do Criador, de quem é o agente inconsciente.

25Mas a encarnação do Espírito não é nem constante nem perpétua; é apenas transitória; ao deixar um corpo, não toma outro instantaneamente; durante um lapso de tempo mais ou menos considerável, vive da vida espiritual, que é a sua vida normal; de tal sorte que a soma do tempo passado nas diferentes encarnações é pouca coisa comparada à do tempo que passa no estado de Espírito livre.
No intervalo das suas encarnações, o Espírito progride igualmente, no sentido de que aproveita, para o seu adiantamento, os conhecimentos e a experiência adquiridos durante a vida corporal — falamos do Espírito chegado ao estado de alma humana, que tem a liberdade de ação e a consciência dos seus atos. Examina o que fez durante a sua permanência terrestre, passa em revista o que aprendeu, reconhece as suas faltas, traça os seus planos e toma as resoluções pelas quais conta guiar-se numa nova existência, procurando fazer melhor. É assim que cada existência é um passo adiante no caminho do progresso, uma espécie de escola de aplicação.
A encarnação não é, pois, normalmente uma punição para o Espírito, como alguns pensaram, mas uma condição inerente à inferioridade do Espírito e um meio de progredir.
À medida que o Espírito progride moralmente, desmaterializa-se, isto é, subtraindo-se à influência da matéria, depura-se; a sua vida espiritualiza-se, as suas faculdades e as suas percepções alargam-se; a sua felicidade está em razão do progresso realizado. Mas, como age em virtude do seu livre-arbítrio, pode, por negligência ou má vontade, retardar o seu adiantamento; prolonga, por conseguinte, a duração das suas encarnações materiais, que se tornam então para ele uma punição, pois, por sua culpa, fica nas fileiras inferiores, obrigado a recomeçar a mesma tarefa. Depende, pois, do Espírito abreviar, pelo seu trabalho de depuração sobre si mesmo, a duração do período das encarnações.

26O progresso material de um globo segue o progresso moral dos seus habitantes; ora, como a criação dos mundos e dos Espíritos é incessante, e estes progridem mais ou menos rapidamente em virtude do seu livre-arbítrio, resulta que há mundos mais ou menos antigos, em diferentes graus de adiantamento físico e moral, onde a encarnação é mais ou menos material e onde, por conseguinte, o trabalho, para os Espíritos, é mais ou menos rude. Desse ponto de vista, a Terra é um dos menos adiantados; povoada de Espíritos relativamente inferiores, a vida corporal é nela mais penosa do que em outros, assim como há outros mais atrasados, onde é mais penosa ainda do que na Terra, e para os quais a Terra seria relativamente um mundo feliz.

27Quando os Espíritos adquiriram num mundo a soma de progresso que o estado desse mundo comporta, deixam-no para se encarnarem noutro mais adiantado, onde adquirem novos conhecimentos, e assim por diante, até que, não lhes sendo mais útil a encarnação num corpo material, vivem exclusivamente da vida espiritual, onde progridem ainda noutro sentido e por outros meios. Chegados ao ponto culminante do progresso, gozam da suprema felicidade; admitidos nos conselhos do Todo-Poderoso, têm o seu pensamento e tornam-se os seus mensageiros, os seus ministros diretos para o governo dos mundos, tendo sob as suas ordens os Espíritos em diferentes graus de adiantamento.
Assim, todos os Espíritos, encarnados ou desencarnados, a qualquer grau da hierarquia que pertençam, desde o menor até o maior, têm as suas atribuições no grande mecanismo do universo; todos são úteis ao conjunto, ao mesmo tempo que são úteis a si mesmos; aos menos adiantados, como a simples serventes, incumbe uma tarefa material, primeiro inconsciente, depois gradualmente inteligente. Em toda parte, atividade no mundo espiritual; em parte nenhuma, a ociosidade inútil.
A coletividade dos Espíritos é de certo modo a alma do universo; é o elemento espiritual que age em tudo e por toda parte, sob o impulso do pensamento divino. Sem esse elemento, só há a matéria inerte, sem fim, sem inteligência, sem outro motor além das forças materiais, que deixam uma multidão de problemas insolúveis; pela ação do elemento espiritual individualizado, tudo tem um fim, uma razão de ser, tudo se explica; eis por que, sem a espiritualidade, se esbarra em dificuldades insuperáveis.

28Quando a Terra se encontrou nas condições climáticas próprias à existência da espécie humana, Espíritos vieram encarnar-se nela; e, se se admite que encontraram envoltórios já prontos, que só tiveram de apropriar ao seu uso, compreende-se melhor ainda que tenham podido nascer simultaneamente em vários pontos do globo.

29Embora os primeiros que vieram devessem ser pouco adiantados, pela própria razão de que deviam encarnar-se em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis nos caracteres e nas aptidões, segundo o grau do seu desenvolvimento moral e intelectual; os Espíritos semelhantes agruparam-se naturalmente por analogia e simpatia. A Terra achou-se assim povoada de diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso. Recebendo os corpos o cunho do caráter do Espírito, e procriando-se esses corpos segundo o seu tipo respectivo, daí resultaram diferentes raças, no físico como no moral. Os Espíritos semelhantes, continuando a encarnar-se de preferência entre os seus semelhantes, perpetuaram o caráter distintivo físico e moral das raças e dos povos, que só se perde com o tempo pela sua fusão e pelo progresso dos Espíritos. (Revista Espírita, julho de 1860, p. 198: Frenologia e fisiognomonia.)

30Podem comparar-se os Espíritos que vieram povoar a Terra a essas levas de emigrantes de origens diversas que vão estabelecer-se numa terra virgem. Encontram nela a madeira e a pedra para fazer as suas habitações, e cada um dá à sua um cunho diferente, segundo o grau do seu saber e da sua inteligência. Agrupam-se por analogia de origens e de gostos; esses grupos acabam por formar tribos, depois povos, cada um com os seus costumes e o seu caráter próprios.

31O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes adiantaram-se naturalmente às outras, sem contar que Espíritos recém-nascidos para a vida espiritual, tendo vindo encarnar-se na Terra depois dos primeiros que chegaram, tornam mais sensível a diferença de progresso. Seria impossível, com efeito, dar a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos e aos chineses, e menos ainda aos europeus civilizados.
Esses Espíritos de selvagens, entretanto, também pertencem à humanidade; atingirão um dia o nível dos seus irmãos mais velhos, mas não será certamente em corpos da mesma raça física, impróprios a certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento já não estiver em relação com o seu desenvolvimento, emigrarão desse meio para se encarnarem num grau superior, e assim por diante, até terem conquistado todos os graus terrestres, depois do que deixarão a Terra para passar a mundos cada vez mais adiantados. (Revista Espírita, abril de 1862, p. 97: Perfectibilidade da raça negra.)

32O princípio da reencarnação é uma consequência fatal da lei do progresso. Sem a reencarnação, como explicar a diferença que existe entre o estado social atual e o dos tempos de barbárie? Se as almas são criadas ao mesmo tempo que os corpos, as que nascem hoje são tão novas, tão primitivas quanto as que viviam há mil anos; acrescentemos que não há entre elas nenhuma conexão, nenhuma relação necessária; que são completamente independentes umas das outras; por que, então, as almas de hoje seriam mais bem dotadas por Deus que as suas predecessoras? Por que compreendem melhor? Por que têm instintos mais depurados, costumes mais brandos? Por que têm a intuição de certas coisas sem as terem aprendido? Desafiamos a sair daí, a menos que se admita que Deus cria almas de diversas qualidades, segundo os tempos e os lugares, proposição inconciliável com a ideia de uma soberana justiça.
Dizei, ao contrário, que as almas de hoje já viveram nos tempos remotos; que puderam ser bárbaras como o seu século, mas que progrediram; que a cada nova existência trazem o adquirido das existências anteriores; que, por conseguinte, as almas dos tempos civilizados são almas não criadas mais perfeitas, mas que se aperfeiçoaram a si mesmas com o tempo, e tereis a única explicação plausível da causa do progresso social. (O Livro dos Espíritos, cap. IV e V.) (1)
(1) ... Essa doutrina seria admissível se todos os habitantes da Terra estivessem exatamente no mesmo nível intelectual e moral; só poderiam então progredir indo para outro mundo, e a sua reencarnação na Terra seria sem utilidade; ora, Deus nada faz de inútil. Desde o instante em que nela se encontram todos os graus de inteligência e de moralidade, desde a selvageria que beira o animal até a civilização mais adiantada, ela oferece um vasto campo ao progresso; perguntar-se-ia por que o selvagem seria obrigado a ir procurar noutra parte o grau acima dele, quando o encontra ao seu lado, e assim sucessivamente; por que o homem adiantado só teria podido fazer as suas primeiras etapas em mundos inferiores, quando os análogos de todos esses mundos estão em torno dele; quando há diferentes graus de adiantamento, não só de povo a povo, mas no mesmo povo e na mesma família? Se assim fosse, Deus teria feito algo inútil pondo lado a lado a ignorância e o saber, a barbárie e a civilização, o bem e o mal, ao passo que é precisamente esse contato que faz avançar os atrasados.
Não há, pois, mais necessidade de que os homens mudem de mundo a cada etapa do que de que um aluno mude de colégio a cada classe; longe de ser isso uma vantagem para o progresso, seria um entrave, porque o Espírito ficaria privado do exemplo que lhe oferece a vista dos graus superiores e da possibilidade de reparar os seus erros no mesmo meio e em relação àqueles que ofendeu, possibilidade que é para ele o mais poderoso meio de adiantamento moral. Depois de uma curta coabitação, dispersando-se os Espíritos e tornando-se estranhos uns aos outros, os laços de família e de amizade, não tendo tido tempo de se consolidar, seriam rompidos.
Que os Espíritos deixem, por um mundo mais adiantado, aquele em que já nada podem adquirir, isso deve ser e é; tal é o princípio. Se há os que o deixam antes, é sem dúvida por causas individuais que Deus pesa na sua sabedoria.
Tudo tem um fim na criação; sem isso Deus não seria nem prudente nem sábio; ora, se a Terra só devesse ser uma única etapa para o progresso de cada indivíduo, que utilidade haveria para as crianças que morrem em tenra idade em virem passar nela alguns anos, alguns meses, algumas horas, durante as quais nada podem adquirir? O mesmo se dá com os idiotas e os cretinos. Uma teoria só é boa com a condição de resolver todas as questões que se prendem a ela. A questão das mortes prematuras foi uma pedra de tropeço para todas as doutrinas, exceto para a doutrina espírita, a única que a resolveu de maneira racional.
Para os que percorrem na Terra uma carreira normal, há, para o seu progresso, uma vantagem real em se reencontrarem no mesmo meio, para continuarem o que deixaram inacabado, muitas vezes na mesma família ou em contato com as mesmas pessoas, para repararem o mal que puderam fazer, ou para sofrerem a pena de talião.

33No intervalo das suas existências corporais, os Espíritos estão no estado de erraticidade e compõem a população espiritual ambiente do globo. Pelas mortes e pelos nascimentos, essas duas populações derramam-se incessantemente uma na outra; há, pois, diariamente emigrações do mundo corporal para o mundo espiritual e imigrações do mundo espiritual para o mundo corporal: é o estado normal.

34Em certas épocas, reguladas pela sabedoria divina, essas emigrações e essas imigrações operam-se em massas mais ou menos consideráveis, em consequência das grandes revoluções que fazem partir ao mesmo tempo quantidades inumeráveis, que logo são substituídas por quantidades equivalentes de encarnações. É preciso, pois, considerar os flagelos destruidores e os cataclismos como ocasiões de chegadas e de partidas coletivas, meios providenciais de renovar a população corporal do globo, de retemperá-la pela introdução de novos elementos espirituais mais depurados. Se nessas catástrofes há destruição de grande número de corpos, só há vestes rasgadas, mas nenhum Espírito perece: apenas mudam de meio; em vez de partirem isoladamente, partem em número, eis toda a diferença, porque, partindo por uma causa ou por outra, não deixam por isso de ter de partir fatalmente, cedo ou tarde.
As renovações rápidas e quase instantâneas que se operam no elemento espiritual da população, em consequência dos flagelos destruidores, apressam o progresso social; sem as emigrações e as imigrações que vêm de tempos em tempos dar-lhe um impulso violento, ele marcharia com extrema lentidão.
É notável que todas as grandes calamidades que dizimam as populações são sempre seguidas de uma era de progresso na ordem física, intelectual ou moral e, por conseguinte, no estado social das nações em que se cumprem. É que têm por fim operar uma remodelação na população espiritual, que é a população normal e ativa do globo.

35Essa transfusão que se opera entre a população encarnada e a população desencarnada de um mesmo globo opera-se igualmente entre os mundos, seja individualmente, nas condições normais, seja em massas, em circunstâncias especiais. Há, pois, emigrações e imigrações coletivas de um mundo para outro. Daí resulta a introdução, na população de um globo, de elementos inteiramente novos; novas raças de Espíritos, vindo misturar-se às raças existentes, constituem novas raças de homens. Ora, como os Espíritos nunca perdem o que adquiriram, trazem consigo a inteligência e a intuição dos conhecimentos que possuem; imprimem, por conseguinte, o seu caráter à raça corporal que vêm animar. Não precisam, para isso, que novos corpos sejam criados especialmente para seu uso; já que a espécie corporal existe, encontram corpos já prontos para recebê-los. São, pois, simplesmente novos habitantes; chegando à Terra, fazem primeiro parte da sua população espiritual, depois encarnam-se como os outros.

36Segundo o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos vindos de outra esfera, que deu nascimento à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão, chamada raça adâmica. Quando ela chegou, a Terra estava povoada desde tempos imemoriais, como a América quando para lá vieram os europeus.
A raça adâmica, mais adiantada que as que a tinham precedido na Terra, é com efeito a mais inteligente; é ela que impele todas as outras ao progresso. A Gênese no-la mostra, desde os seus começos, industriosa, apta às artes e às ciências, sem ter passado pela infância intelectual, o que não é próprio das raças primitivas, mas o que concorda com a opinião de que se compunha de Espíritos que já tinham progredido. Tudo prova que não é antiga na Terra, e nada se opõe a que esteja nela apenas há alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos nem com as observações antropológicas, e tenderia, ao contrário, a confirmá-los.

37A doutrina que faz proceder todo o gênero humano de uma única individualidade, há seis mil anos, não é admissível no estado atual dos conhecimentos. As principais considerações que a contradizem, tiradas da ordem física e da ordem moral, resumem-se nos pontos seguintes:

38Do ponto de vista fisiológico, certas raças apresentam tipos particulares característicos, que não permitem atribuir-lhes uma origem comum. Há diferenças que evidentemente não são efeito do clima, pois os brancos que se reproduzem no país dos negros não se tornam negros, e reciprocamente. O ardor do sol queima e bronzeia a epiderme, mas nunca transformou um branco em negro, achatou o nariz, mudou a forma dos traços da fisionomia, nem tornou crespos e lanosos cabelos longos e sedosos. Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido particular subcutâneo, que se prende à espécie.
É preciso, pois, considerar as raças negras, mongólicas e caucásicas como tendo a sua origem própria e como tendo nascido simultânea ou sucessivamente em diferentes partes do globo; o seu cruzamento produziu as raças mistas secundárias. Os caracteres fisiológicos das raças primitivas são o indício evidente de que provêm de tipos especiais. As mesmas considerações existem, pois, para o homem como para os animais, quanto à pluralidade dos troncos.

39Adão e os seus descendentes são representados na Gênese como homens essencialmente inteligentes, pois, desde a segunda geração, constroem cidades, cultivam a terra, trabalham os metais. Os seus progressos nas artes e nas ciências são rápidos e constantemente sustentados. Não se conceberia, pois, que esse tronco tivesse tido por rebentos povos numerosos tão atrasados, de uma inteligência tão rudimentar, que ainda nos nossos dias beiram a animalidade, e que teriam perdido todo vestígio e até a menor lembrança tradicional do que faziam os seus pais. Uma diferença tão radical nas aptidões intelectuais e no desenvolvimento moral atesta, com não menos evidência, uma diferença de origem.

40Independentemente dos fatos geológicos, a prova da existência do homem na Terra antes da época fixada pela Gênese é tirada da população do globo.
Sem falar da cronologia chinesa, que remonta, dizem, a trinta mil anos, documentos mais autênticos atestam que o Egito, a Índia e outras regiões estavam povoados e florescentes pelo menos três mil anos antes da era cristã, isto é, mil anos depois da criação do primeiro homem, segundo a cronologia bíblica. Documentos e observações recentes parecem não deixar hoje nenhuma dúvida sobre as relações que existiram entre a América e os antigos egípcios; de onde se deve concluir que essa região já estava povoada nessa época. Seria preciso, pois, admitir que em mil anos a posteridade de um único homem pôde cobrir a maior parte da Terra; ora, tal fecundidade seria contrária a todas as leis antropológicas. A própria Gênese não atribui aos primeiros descendentes de Adão uma fecundidade anormal, pois dá deles a enumeração nominal até Noé.

41A impossibilidade torna-se ainda mais evidente se se admite, com a Gênese, que o dilúvio destruiu todo o gênero humano, com exceção de Noé e da sua família, que não era numerosa, no ano do mundo 1656, ou seja, 2348 anos antes de Jesus Cristo. Seria, pois, na realidade, só a partir de Noé que dataria o povoamento do globo; ora, por essa época, a história designa Menés como rei do Egito. Quando os hebreus se estabeleceram neste último país, 642 anos depois do dilúvio, era já um poderoso império, que teria sido povoado, sem falar das outras regiões, em menos de seis séculos, apenas pelos descendentes de Noé, o que não é admissível.
Notemos, de passagem, que os egípcios acolheram os hebreus como estrangeiros; seria espantoso que tivessem perdido a lembrança de uma comunidade de origem tão próxima, quando conservavam religiosamente os monumentos da sua história.
Uma lógica rigorosa, corroborada pelos fatos, demonstra, pois, da maneira mais peremptória, que o homem está na Terra há um tempo indeterminado, muito anterior à época assinalada pela Gênese. O mesmo se dá com a diversidade dos troncos primitivos, porque demonstrar a impossibilidade de uma proposição é demonstrar a proposição contrária. Se a geologia descobrir vestígios autênticos da presença do homem antes do grande período diluviano, a demonstração será ainda mais absoluta.

42A palavra anjo, como muitas outras, tem várias acepções: toma-se indiferentemente em bom e em mau sentido, pois se diz: os bons e os maus anjos, o anjo de luz e o anjo das trevas; de onde se segue que, na sua acepção geral, significa simplesmente Espírito.
Os anjos não são seres fora da humanidade, criados perfeitos, mas Espíritos chegados à perfeição, como todas as criaturas, pelos seus esforços e pelo seu mérito. Se os anjos fossem seres criados perfeitos, sendo a rebelião contra Deus um sinal de inferioridade, os que se revoltaram não podiam ser anjos. A rebelião contra Deus não se conceberia da parte de seres que ele tivesse criado perfeitos, ao passo que se concebe da parte de seres ainda atrasados.
Pela sua etimologia, a palavra anjo (do grego aggelos) significa enviado, mensageiro; ora, não é racional supor que Deus tenha tomado os seus mensageiros entre seres bastante imperfeitos para se revoltarem contra ele.

43Até que os Espíritos tenham atingido certo grau de perfeição, estão sujeitos a falir, seja no estado de erraticidade, seja no estado de encarnação. Falir é infringir a lei de Deus; embora essa lei esteja inscrita no coração de todos os homens, a fim de que não precisem da revelação para conhecer os seus deveres, o Espírito só a compreende gradualmente e à medida que a sua inteligência se desenvolve. Aquele que infringe essa lei por ignorância e por falta da experiência, que só se adquire com o tempo, só incorre numa responsabilidade relativa; mas, da parte daquele cuja inteligência está desenvolvida, que, tendo todos os meios de se esclarecer, infringe a lei voluntariamente e faz o mal com conhecimento de causa, é uma revolta, uma rebelião contra o autor da lei.
(1) Quando, na Revista de janeiro de 1862, publicamos um artigo sobre a interpretação da doutrina dos anjos decaídos, só apresentamos essa teoria como uma hipótese, que tinha apenas a autoridade de uma opinião pessoal controversa, porque então nos faltavam elementos bastante completos para uma afirmação absoluta; demo-la a título de ensaio, com vista a provocar o seu exame, bem decididos a abandoná-la ou a modificá-la se houvesse motivo. Hoje, essa teoria sofreu a prova do controle universal; não só foi acolhida pela grande maioria dos espíritas como a mais racional e a mais conforme à soberana justiça de Deus, mas foi confirmada pela generalidade das instruções dadas pelos Espíritos sobre esse assunto. O mesmo se dá com a que diz respeito à origem da raça adâmica.

44Os mundos progridem fisicamente pela elaboração da matéria e moralmente pela depuração dos Espíritos que os habitam. A felicidade está neles em razão da predominância do bem sobre o mal, e a predominância do bem é resultado do adiantamento moral dos Espíritos. O progresso intelectual não basta, pois, com a inteligência, eles podem fazer o mal.
Quando, pois, um mundo chegou a um dos seus períodos de transformação, que deve fazê-lo subir na hierarquia, operam-se mutações na sua população encarnada e desencarnada; é então que se dão as grandes emigrações e imigrações. Os que, apesar da sua inteligência e do seu saber, perseveraram no mal, na sua revolta contra Deus e as suas leis, seriam doravante um entrave para o progresso moral ulterior, uma causa permanente de perturbação para o repouso e a felicidade dos bons; é por isso que são excluídos dele e enviados a mundos menos adiantados; ali aplicarão a sua inteligência e a intuição dos conhecimentos adquiridos ao progresso daqueles entre os quais são chamados a viver, ao mesmo tempo que expiarão, numa série de existências penosas e por um duro trabalho, as suas faltas passadas e o seu endurecimento voluntário.
Que serão eles entre esses povos novos para eles, ainda na infância da barbárie, senão anjos ou Espíritos decaídos enviados em expiação? A terra de onde são expulsos não é para eles um paraíso perdido? Não era para eles um lugar de delícias, em comparação com o meio ingrato em que vão encontrar-se relegados durante milhares de séculos, até o dia em que tiverem merecido a sua libertação? A vaga lembrança intuitiva que conservam dela é para eles como uma miragem longínqua, que lhes lembra o que perderam por sua culpa.

45Mas, ao mesmo tempo que os maus partiram do mundo que habitavam, são substituídos por Espíritos melhores, vindos seja da erraticidade desse mesmo mundo, seja de um mundo menos adiantado que mereceram deixar, e para os quais a sua nova morada é uma recompensa. Renovada assim a população espiritual e purgada dos seus piores elementos, ao cabo de algum tempo o estado moral do mundo acha-se melhorado.
Essas mutações são às vezes parciais, isto é, limitadas a um povo, a uma raça; outras vezes, são gerais, quando chegou para o globo o período de renovação.

46A raça adâmica tem todos os caracteres de uma raça proscrita; os Espíritos que a compõem foram exilados na Terra, já povoada, mas de homens primitivos, mergulhados na ignorância, e que tiveram por missão fazer progredir, trazendo entre eles as luzes de uma inteligência desenvolvida. Não é esse, com efeito, o papel que essa raça desempenhou até hoje? A sua superioridade intelectual prova que o mundo de onde saíram era mais adiantado que a Terra; mas, devendo esse mundo entrar numa nova fase de progresso, e não tendo esses Espíritos, dada a sua obstinação, sabido pôr-se a essa altura, estariam ali deslocados e teriam sido um entrave à marcha providencial das coisas; é por isso que foram excluídos dele, enquanto outros mereceram substituí-los.
Relegando essa raça a esta terra de labor e de sofrimentos, Deus teve razão em dizer-lhe: «Tirarás dela o teu alimento com o suor do teu rosto.» Na sua mansidão, prometeu-lhe que lhe enviaria um Salvador, isto é, aquele que devia esclarecê-la sobre o caminho a seguir para sair deste lugar de miséria, deste inferno, e chegar à felicidade dos eleitos. Esse Salvador, enviou-lho na pessoa do Cristo, que ensinou a lei de amor e de caridade, desconhecida por eles, e que devia ser a verdadeira âncora de salvação. O Cristo não só ensinou a lei, mas deu o exemplo da prática dessa lei, pela sua mansidão, pela sua humildade, pela sua paciência em sofrer sem murmurar os tratamentos mais ignominiosos e as maiores dores. Para que tal missão fosse cumprida sem desvios, era preciso um Espírito acima das fraquezas humanas.
É igualmente com vista a fazer a humanidade avançar num sentido determinado que Espíritos superiores, sem terem as qualidades do Cristo, se encarnam de tempos em tempos na Terra para cumprir nela missões especiais, que aproveitam ao seu adiantamento pessoal, se as cumprirem segundo os desígnios do Criador.

47Sem a reencarnação, a missão do Cristo seria um contrassenso, assim como a promessa feita por Deus. Suponhamos, com efeito, que a alma de cada homem seja criada no nascimento do seu corpo e que apenas apareça e desapareça na Terra: não há nenhuma relação entre as que vieram desde Adão até Jesus Cristo, nem entre as que vieram depois; são todas estranhas umas às outras. A promessa de um Salvador feita por Deus não podia aplicar-se aos descendentes de Adão, se as suas almas ainda não estavam criadas. Para que a missão do Cristo pudesse ligar-se às palavras de Deus, era preciso que estas pudessem aplicar-se às mesmas almas. Se essas almas são novas, não podem estar maculadas pela falta do primeiro pai, que é apenas o pai carnal e não o pai espiritual; de outro modo, Deus teria criado almas maculadas por uma falta que não teriam cometido. A doutrina vulgar do pecado original implica, pois, a necessidade de uma relação entre as almas do tempo do Cristo e as do tempo de Adão e, por conseguinte, da reencarnação.
Dizei que todas essas almas faziam parte da colônia de Espíritos exilados na Terra no tempo de Adão, e que estavam maculadas pela falta que as fizera excluir de um mundo melhor, e tereis a única interpretação racional do pecado original, pecado próprio de cada indivíduo, e não resultado da responsabilidade pela falta de outro que ele nunca conheceu; dizei que essas almas ou Espíritos renascem várias vezes na Terra para a vida corporal, para progredir e se depurar; que o Cristo veio esclarecer essas mesmas almas não só para as suas vidas passadas, mas para as suas vidas ulteriores, e só então dais à sua missão um fim real e sério, aceitável pela razão.

48Um exemplo familiar, impressionante pela sua analogia, fará compreender melhor ainda os princípios que acabam de ser expostos.
A 24 de maio de 1861, a fragata Iphigénie levou à Nova Caledônia uma companhia disciplinar composta de 291 homens. O comandante da colônia dirigiu-lhes, à sua chegada, uma ordem do dia assim concebida:
«Pondo o pé nesta terra longínqua, já compreendestes o papel que vos está reservado.
«A exemplo dos nossos bravos soldados da marinha que servem sob os vossos olhos, ajudar-nos-eis a levar com brilho, no meio das tribos selvagens da Nova Caledônia, o facho da civilização. Não é essa uma bela e nobre missão, pergunto-vos? Vós a cumprireis dignamente.
«Escutai a voz e os conselhos dos vossos chefes. Estou à frente deles; que as minhas palavras sejam bem entendidas.
«A escolha do vosso comandante, dos vossos oficiais, dos vossos suboficiais e cabos é um penhor seguro de todos os esforços que serão tentados para fazer de vós excelentes soldados; digo mais: para vos elevar à altura de bons cidadãos e vos transformar em colonos honrados, se o desejardes.
«A vossa disciplina é severa; deve sê-lo. Posta nas nossas mãos, será firme e inflexível, sabei-o bem; como também, justa e paternal, saberá distinguir o erro do vício e da degradação...»
Eis, pois, homens expulsos, pela sua má conduta, de um país civilizado e enviados, por punição, a um povo bárbaro. Que lhes diz o chefe? «Infringistes as leis do vosso país; fostes nele uma causa de perturbação e de escândalo, e expulsaram-vos dele; enviam-vos para aqui, mas podeis resgatar aqui o vosso passado; podeis, pelo trabalho, criar-vos aqui uma posição honrada e tornar-vos cidadãos honestos. Tendes aqui uma bela missão a cumprir: a de levar a civilização a essas tribos selvagens. A disciplina será severa, mas justa, e saberemos distinguir os que se conduzirem bem.»
Para esses homens relegados ao seio da selvageria, a mãe-pátria não é um paraíso perdido por sua culpa e pela sua rebelião contra a lei? Nessa terra longínqua, não são anjos decaídos? A linguagem do chefe não é a que Deus fez ouvir aos Espíritos exilados na Terra: «Desobedecestes às minhas leis, e é por isso que vos expulsei do mundo onde podíeis viver felizes e em paz; aqui sereis condenados ao trabalho, mas podereis, pela vossa boa conduta, merecer o vosso perdão e reconquistar a pátria que perdestes por vossa culpa, isto é, o céu»?

49À primeira vista, a ideia de decadência parece em contradição com o princípio de que os Espíritos não podem retrogradar; mas é preciso considerar que não se trata de um retorno ao estado primitivo; o Espírito, embora numa posição inferior, nada perde do que adquiriu; o seu desenvolvimento moral e intelectual é o mesmo, qualquer que seja o meio em que se encontre colocado. Está na posição do homem do mundo condenado às galés pelos seus delitos; certamente, decaiu do ponto de vista social, mas não se torna nem mais estúpido nem mais ignorante.
50. Crê-se agora que esses homens enviados à Nova Caledônia vão transformar-se subitamente em modelos de virtudes? Que vão abjurar de repente os seus erros passados? Seria preciso não conhecer a humanidade para supô-lo. Pela mesma razão, os Espíritos da raça adâmica, uma vez transplantados para a terra de exílio, não se despojaram instantaneamente do seu orgulho e dos seus maus instintos; por muito tempo ainda conservaram as tendências da sua origem, um resto do velho fermento; ora, não é isso o pecado original? A mancha que trazem ao nascer é a da raça de Espíritos culpados e punidos a que pertencem; mancha que podem apagar pelo arrependimento, pela expiação e pela renovação do seu ser moral. O pecado original, considerado como a responsabilidade por uma falta cometida por outro, é um contrassenso e a negação da justiça de Deus; considerado, ao contrário, como consequência e resquício de uma imperfeição primeira do indivíduo, não só a razão o admite, mas acha-se de toda justiça a responsabilidade que dele decorre.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês

Fonte: Internet Archive — La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme (Paris, Librairie internationale, 1868), OCR corrigé avec les numérisations bub_gb_KzDGY2nT08AC et bub_gb_hupkPNggu5sC

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