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A Gênese — XII. Gênese mosaica

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1Capítulo I. — 1. No princípio Deus criou o céu e a terra. — 2. A terra era informe e toda nua; as trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus era levado sobre as águas. — 3. Ora, Deus disse: Que a luz seja feita; e a luz foi feita. — 4. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. — 5. Deu à luz o nome de dia, e às trevas o nome de noite; e da tarde e da manhã se fez o primeiro dia.
6. Deus disse também: Que o firmamento seja feito no meio das águas e que separe as águas das águas. — 7. E Deus fez o firmamento; e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam acima do firmamento. E assim se fez. — 8. E Deus deu ao firmamento o nome de céu; e da tarde e da manhã se fez o segundo dia.
9. Deus disse ainda: Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam num só lugar, e que o elemento árido apareça. E assim se fez. — 10. Deus deu ao elemento árido o nome de terra, e chamou mares a todas essas águas reunidas. E viu que isso era bom. — 11. Deus disse ainda: Que a terra produza erva verde que dê semente, e árvores frutíferas que deem fruto, cada uma segundo a sua espécie, e que encerrem em si mesmas a sua semente, para se reproduzirem sobre a terra. E assim se fez.
12. A terra produziu, pois, erva verde que dava semente segundo a sua espécie, e árvores frutíferas que encerravam em si mesmas a sua semente, cada uma segundo a sua espécie. E Deus viu que isso era bom. — 13. E da tarde e da manhã se fez o terceiro dia.
14. Deus disse também: Que corpos de luz sejam feitos no firmamento do céu, a fim de que separem o dia da noite, e que sirvam de sinal para marcar o tempo e as estações, os dias e os anos. — 15. Que brilhem no firmamento do céu e iluminem a terra. E assim se fez. — 16. Deus fez, pois, dois grandes corpos luminosos, um maior para presidir ao dia, e outro menor para presidir à noite; fez também as estrelas; — 17. E pô-los no firmamento do céu para brilharem sobre a terra, — 18. Para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom. — 19. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.
20. Deus disse ainda: Que as águas produzam animais vivos que nadem na água, e aves que voem sobre a terra, sob o firmamento do céu. — 21. Deus criou, pois, os grandes peixes e todos os animais que têm a vida e o movimento, que as águas produziram, cada um segundo a sua espécie, e criou também todas as aves segundo a sua espécie. Viu que isso era bom. — 22. E abençoou-os, dizendo: Crescei e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar; e que as aves se multipliquem sobre a terra. — 23. E da tarde e da manhã se fez o quinto dia.
24. Deus disse também: Que a terra produza animais vivos, cada um segundo a sua espécie: os animais domésticos, os répteis e os animais selvagens da terra, segundo as suas diferentes espécies. E assim se fez. — 25. Deus fez, pois, os animais selvagens da terra segundo as suas espécies, os animais domésticos e todos os répteis, cada um segundo a sua espécie. E Deus viu que isso era bom.
26. Disse em seguida: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e que ele mande nos peixes do mar, nas aves do céu, nos animais, em toda a terra e em todos os répteis que se movem sobre a terra. — 27. Deus criou, pois, o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, e criou-o macho e fêmea. — 28. Deus abençoou-os e disse-lhes: Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra. — 29. Deus disse ainda: Dei-vos todas as ervas que dão a sua semente sobre a terra e todas as árvores que encerram em si mesmas a sua semente, cada uma segundo a sua espécie, a fim de que vos sirvam de alimento; — 30. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu, a tudo o que se move sobre a terra e que é vivo e animado, a fim de que tenham com que se alimentar. E assim se fez. — 31. Deus viu todas as coisas que tinha feito, e eram muito boas. — 32. E da tarde e da manhã se fez o sexto dia.
Capítulo II. — 1. O céu e a terra foram, pois, assim acabados, com todos os seus ornamentos. — 2. Deus terminou no sétimo dia toda a obra que tinha feito, e repousou nesse sétimo dia, depois de ter acabado todas as suas obras. — 3. Abençoou o sétimo dia e santificou-o, porque nesse dia cessara de produzir todas as obras que tinha criado. — 4. Tal é a origem do céu e da terra, e foi assim que foram criados no dia em que o Senhor Deus fez um e outra, — 5. E criou todas as plantas dos campos antes que tivessem saído da terra, e todas as ervas do campo antes que tivessem brotado. Porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para lavrá-la; — 6. Mas elevava-se da terra uma fonte que regava toda a sua superfície.
7. O Senhor Deus formou, pois, o homem do limo da terra, e soprou-lhe no rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se vivo e animado.

2Depois dos desenvolvimentos contidos nos capítulos precedentes sobre a origem e a constituição do universo, segundo os dados fornecidos pela ciência para a parte material e segundo o Espiritismo para a parte espiritual, era útil pôr em paralelo o próprio texto da Gênese de Moisés, a fim de que cada um pudesse estabelecer uma comparação e julgar com conhecimento de causa; algumas explicações suplementares bastarão para fazer compreender as partes que precisam de esclarecimentos especiais.

3Em alguns pontos, há certamente uma concordância notável entre a Gênese de Moisés e a doutrina científica; mas seria um erro julgar que basta substituir os seis dias de vinte e quatro horas da criação por seis períodos indeterminados para encontrar uma analogia completa; seria um erro não menor julgar que, salvo o sentido alegórico de algumas palavras, a Gênese e a ciência se seguem passo a passo e são apenas a paráfrase uma da outra.

4Notemos primeiro, como foi dito (cap. VII, n.º 14), que o número dos seis períodos geológicos é arbitrário, pois se contam mais de vinte e cinco formações bem caracterizadas. Esse número só marca as grandes fases gerais; só foi adotado, no princípio, para se ajustar o mais possível ao texto bíblico, numa época, de resto pouco afastada, em que se julgava dever controlar a ciência pela Bíblia. É por isso que os autores da maior parte das teorias cosmogônicas, com vista a se fazerem aceitar mais facilmente, se esforçaram por pôr-se de acordo com o texto sagrado. Quando a ciência se apoiou no método experimental, sentiu-se mais forte e emancipou-se; hoje é a Bíblia que se controla pela ciência.
Por outro lado, a geologia, tomando o seu ponto de partida apenas na formação dos terrenos graníticos, não compreende no número dos seus períodos o estado primitivo da Terra. Também não se ocupa do sol, da lua e das estrelas, nem do conjunto do universo, que pertencem à astronomia. Para se ajustar ao quadro da Gênese, convém, pois, acrescentar um primeiro período que abarque essa ordem de fenômenos, e que se poderia chamar período astronômico.
Além disso, o período diluviano não é considerado por todos os geólogos como um período distinto, mas como um fato transitório e passageiro, que não mudou notavelmente o estado climático do globo nem marcou uma nova fase nas espécies vegetais e animais, pois, com poucas exceções, as mesmas espécies se encontram antes e depois do dilúvio. Pode-se, pois, fazer abstração dele sem se afastar da verdade.

5O quadro comparativo seguinte, em que estão resumidos os fenômenos que caracterizam cada um dos seis períodos, permite abarcar o conjunto e julgar as relações e as diferenças que existem entre eles e a Gênese bíblica:
I. Período astronômico. — Aglomeração da matéria cósmica universal num ponto do espaço, numa nebulosa que deu nascimento, pela condensação da matéria em diversos pontos, às estrelas, ao sol, à Terra, à Lua e a todos os planetas. Estado primitivo fluídico e incandescente da Terra. — Atmosfera imensa, carregada de toda a água em vapor e de todas as matérias volatilizáveis. — Gênese: 1º dia. — O céu e a terra. — A luz.
II. Período primário. — Endurecimento da superfície da Terra pelo resfriamento; formação das camadas graníticas. — Atmosfera espessa e escaldante, impenetrável aos raios do sol. — Precipitação gradual da água e das matérias sólidas volatilizadas no ar. — Ausência de toda vida orgânica. — Gênese: 2º dia. — O firmamento. — Separação das águas que estão debaixo do firmamento das que estão acima.
III. Período de transição. — As águas cobrem toda a superfície do globo. — Primeiros depósitos de sedimento formados pelas águas. — Calor úmido. — O sol começa a atravessar a atmosfera brumosa. — Primeiros seres organizados, da constituição mais rudimentar. — Líquens, musgos, fetos, licopódios, plantas herbáceas. Vegetação colossal. — Primeiros animais marinhos: zoófitos, pólipos, crustáceos. — Depósitos de hulha. — Gênese: 3º dia. — As águas que estão debaixo do firmamento reúnem-se; o elemento árido aparece. — A terra e os mares. — As plantas.
IV. Período secundário. — Superfície da Terra pouco acidentada; águas pouco profundas e pantanosas. Temperatura menos escaldante; atmosfera mais depurada. Depósitos consideráveis de calcários pelas águas. — Vegetação menos colossal; novas espécies; plantas lenhosas; primeiras árvores. — Peixes; cetáceos; animais de concha; grandes répteis aquáticos e anfíbios. — Gênese: 4º dia. — O sol, a lua e as estrelas.
V. Período terciário. — Grandes levantamentos da crosta sólida; formação dos continentes. Retirada das águas para os lugares baixos; formação dos mares. — Atmosfera depurada; temperatura atual pelo calor solar. — Animais terrestres gigantescos. Vegetais e animais atuais. Aves. — Gênese: 5º dia. — Os peixes e as aves.
Dilúvio universal.
VI. Período quaternário ou pós-diluviano. — Terrenos de aluvião. Vegetais e animais atuais. O homem. — Gênese: 6º dia. — Os animais terrestres. — O homem.
6. Um primeiro fato que ressalta do quadro comparativo acima é que a obra de cada um dos seis dias não corresponde de maneira rigorosa, como muitos julgam, a cada um dos seis períodos geológicos. A concordância mais notável é a da sucessão dos seres orgânicos, que é com pouca diferença a mesma, e a do aparecimento do homem em último lugar; ora, esse é um fato importante.
Há igualmente coincidência, não com a ordem numérica dos períodos, mas quanto ao fato, na passagem em que se diz que, no terceiro dia, «as águas que estão debaixo do céu se reuniram num só lugar, e o elemento árido apareceu». É a expressão do que se deu no período terciário, quando os levantamentos da crosta sólida puseram a descoberto os continentes e repeliram as águas que formaram os mares. Foi só então que apareceram os animais terrestres, segundo a geologia e segundo Moisés.

7Quando Moisés diz que a criação foi feita em seis dias, quis falar de dias de vinte e quatro horas, ou compreendeu essa palavra no sentido de período, duração, espaço de tempo indeterminado, já que a palavra hebraica traduzida por dia tem essa dupla acepção? A primeira hipótese é a mais provável, se nos reportarmos ao próprio texto. A especificação da tarde e da manhã, que limitam cada um dos seis dias, dá todo motivo para supor que quis falar de dias ordinários. Não se pode mesmo conceber nenhuma dúvida a esse respeito quando diz, no versículo 5: «Deu à luz o nome de dia, e às trevas o nome de noite; e da tarde e da manhã se fez o primeiro dia.» Isso evidentemente só pode aplicar-se ao dia de vinte e quatro horas, dividido pela luz e pelas trevas. O sentido é ainda mais preciso quando diz, no versículo 17, falando do sol, da lua e das estrelas: «Pô-los no firmamento do céu para brilharem sobre a terra; para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas. E da tarde e da manhã se fez o quarto dia.»
De resto, tudo, na criação, era miraculoso, e, desde que se entra no caminho dos milagres, pode-se perfeitamente crer que a Terra se fez em seis vezes vinte e quatro horas, sobretudo quando se ignoram as primeiras leis naturais. Essa crença foi bem partilhada por todos os povos civilizados até o momento em que a geologia veio, com provas na mão, demonstrar a sua impossibilidade.

8Um dos pontos mais criticados na Gênese é a criação do sol depois da luz. Procurou-se explicá-lo, segundo os próprios dados fornecidos pela geologia, dizendo que, nos primeiros tempos da sua formação, a atmosfera terrestre, estando carregada de vapores densos e opacos, não permitia ver o sol, que, desde então, não existia para a Terra. Essa razão seria talvez admissível se, nessa época, tivesse havido habitantes para julgar da presença ou da ausência do sol; ora, segundo o próprio Moisés, ainda só havia plantas, que, todavia, não teriam podido crescer e multiplicar-se sem a ação do calor solar.
Há, pois, evidentemente um anacronismo na ordem que Moisés assinala à criação do sol; mas, involuntariamente ou não, ele não cometeu erro ao dizer que a luz tinha precedido o sol.
O sol não é o princípio da luz universal, mas uma concentração do elemento luminoso num ponto, ou seja, do fluido que, em circunstâncias dadas, adquire as propriedades luminosas. Esse fluido, que é a causa, devia necessariamente existir antes do sol, que é apenas um efeito. O sol é causa para a luz que espalha, mas é efeito em relação à que recebeu.
Num quarto escuro, uma vela acesa é um pequeno sol. Que se fez para acender a vela? Desenvolveu-se a propriedade iluminante do fluido luminoso e concentrou-se esse fluido num ponto; a vela é a causa da luz espalhada no quarto; mas, se o princípio luminoso não tivesse existido antes da vela, esta não poderia ter sido acesa.
O mesmo se dá com o sol. O erro vem da ideia falsa, que se teve por muito tempo, de que o universo inteiro começou com a Terra, e não se compreende que o sol possa ter sido criado depois da luz. Sabe-se agora que, antes do nosso sol e da nossa Terra, milhões de sóis e de terras existiram, que gozavam, por conseguinte, da luz. A asserção de Moisés é, pois, perfeitamente exata em princípio; é falsa no que faz criar a Terra antes do sol; estando a Terra sujeita ao sol no seu movimento de translação, deve ter sido formada depois dele: é o que Moisés não podia saber, pois ignorava a lei da gravitação.
O mesmo pensamento encontra-se na Gênese dos antigos persas, no primeiro capítulo do Vendidad. Ormuzd, contando a origem do mundo, diz: «Criei a luz, que foi iluminar o sol, a lua e as estrelas.» (Dicionário de mitologia universal.) A forma é aqui certamente mais clara e mais científica que em Moisés e não precisa de comentário.

9Moisés partilhava evidentemente as crenças mais primitivas sobre a cosmogonia. Como os homens do seu tempo, cria na solidez da abóbada celeste e em reservatórios superiores para as águas. Esse pensamento está expresso sem alegoria nem ambiguidade nesta passagem (versículos 6 e seguintes): «Deus disse: Que o firmamento seja feito no meio das águas e que separe as águas das águas. Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam acima do firmamento.» (Ver cap. V, Sistemas do mundo antigos e modernos, n.º 3, 4, 5.)
Uma antiga crença fazia considerar a água como o princípio, o elemento gerador primitivo; por isso Moisés não fala da criação das águas, que parecem ter existido já. «As trevas cobriam o abismo», isto é, as profundezas do espaço, que a imaginação representava vagamente ocupadas pelas águas e nas trevas antes da criação da luz; eis por que Moisés diz que «o Espírito de Deus era levado sobre as águas». Supondo-se a Terra formada no meio das águas, era preciso isolá-la; supôs-se, pois, que Deus tinha feito o firmamento, abóbada sólida que separava as águas de cima das que tinham ficado sobre a Terra.
Para compreender certas partes da Gênese, é preciso necessariamente colocar-se do ponto de vista das ideias cosmogônicas do tempo de que ela é o reflexo.

10Desde os progressos da física e da astronomia, semelhante doutrina não é sustentável. Entretanto, Moisés atribui essas palavras ao próprio Deus; ora, já que exprimem um fato notoriamente falso, de duas uma: ou Deus enganou-se no relato que faz da sua obra, ou esse relato não é uma revelação divina. Não sendo admissível a primeira suposição, deve-se concluir que Moisés exprimiu as suas próprias ideias. (Cap. I, n.º 3.)

11Moisés está mais na verdade quando diz que Deus formou o homem com o limo da terra. A ciência mostra-nos, com efeito (cap. X), que o corpo do homem é composto de elementos tirados da matéria inorgânica, ou seja, do limo da terra.
A mulher formada de uma costela de Adão é uma alegoria, pueril na aparência, se tomada ao pé da letra, mas profunda pelo sentido. Tem por fim mostrar que a mulher é da mesma natureza que o homem, sua igual, por conseguinte, perante Deus, e não uma criatura à parte, feita para ser escravizada e tratada como hilota. Saída da sua própria carne, a imagem da igualdade é muito mais impressionante do que se tivesse sido formada separadamente do mesmo limo; é dizer ao homem que ela é sua igual, e não sua escrava, e que ele deve amá-la como uma parte de si mesmo.

12Para espíritos incultos, sem nenhuma ideia das leis gerais, incapazes de abarcar o conjunto e de conceber o infinito, essa criação miraculosa e instantânea tinha algo de fantástico, que impressionava a imaginação. O quadro do universo tirado do nada em alguns dias, por um único ato da vontade criadora, era para eles o sinal mais brilhante do poder de Deus. Que pintura, com efeito, mais sublime e mais poética desse poder do que estas palavras: «Deus disse: Que a luz seja, e a luz foi!» Deus criando o universo pelo cumprimento lento e gradual das leis da natureza ter-lhes-ia parecido menos grande e menos poderoso; precisavam de algo maravilhoso, que saísse dos caminhos ordinários; de outro modo teriam dito que Deus não era mais hábil que os homens. Uma teoria científica e raciocinada da criação tê-los-ia deixado frios e indiferentes.
Os homens primitivos são como crianças, a quem só se deve dar o alimento intelectual que a sua inteligência comporta. Hoje, que estamos esclarecidos pelas luzes da ciência, apontemos os erros materiais do relato de Moisés, mas não o censuremos por ter falado a linguagem do seu tempo, sem o que não teria sido nem compreendido nem aceito.
Respeitemos esses quadros, que hoje nos parecem pueris, como respeitamos os apólogos que iluminaram a nossa primeira infância e abriram a nossa inteligência, ensinando-nos a pensar. Foi com esses quadros que Moisés inculcou no coração dos primeiros homens a fé em Deus e no seu poder, fé ingênua que devia depurar-se mais tarde ao facho da ciência. Porque sabemos ler correntemente, não desprezemos o livro em que aprendemos a soletrar.
Não rejeitemos, pois, a Gênese bíblica; estudemo-la, ao contrário, como se estuda a história da infância dos povos. É uma epopeia rica em alegorias, cujo sentido oculto é preciso procurar; que é preciso comentar e explicar com o auxílio das luzes da razão e da ciência. Ao mesmo tempo que se fazem ressaltar as suas belezas poéticas e as instruções veladas sob a forma figurada, é preciso demonstrar francamente os seus erros, no próprio interesse da religião. Respeitá-la-ão melhor quando esses erros não forem impostos à fé como verdades, e Deus só parecerá maior e mais poderoso quando o seu nome não estiver misturado a fatos inventados.

13Capítulo II. — 8. Ora, o Senhor Deus tinha plantado desde o princípio um jardim delicioso, no qual pôs o homem que tinha formado. — 9. O Senhor Deus tinha também produzido da terra toda espécie de árvores belas à vista e cujo fruto era agradável ao gosto, e a árvore da vida no meio do paraíso, com a árvore da ciência do bem e do mal. (Fez sair, Jeová Eloim, da terra (min haadama) toda árvore bela de ver e boa de comer, e a árvore da vida (vehetz hachayim) no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal.)
15. O Senhor tomou, pois, o homem e pô-lo no paraíso de delícias, para que o cultivasse e guardasse. — 16. Deu-lhe também este mandamento, dizendo-lhe: Comei de todas as árvores do paraíso. (Ordenou, Jeová Eloim, ao homem (hau haadam), dizendo: De toda árvore do jardim (hagan) podes comer.) — 17. Mas não comais do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, no mesmo tempo em que dele comerdes, morrereis certissimamente. (E da árvore da ciência do bem e do mal (oumehetz hadaat tob vara) não comerás, porque no dia em que dela comeres morrerás.)
Capítulo III. — 1. Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais que o Senhor Deus tinha formado sobre a terra. E disse à mulher: Por que vos mandou Deus que não comêsseis do fruto de todas as árvores do paraíso? (E a serpente era astuta mais que todos os animais terrestres que fizera Jeová Eloim; disse à mulher (et haischa): Acaso disse Eloim: Não comereis de nenhuma árvore do jardim?)
2. A mulher respondeu-lhe: Comemos dos frutos de todas as árvores que estão no paraíso. (Disse a mulher à serpente: Do fruto (miperi) das árvores do jardim podemos comer.) — 3. Mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do paraíso, Deus mandou-nos que não comêssemos dele e que não lhe tocássemos, para que não corrêssemos perigo de morrer. — 4. A serpente replicou à mulher: Certamente não morrereis; — 5. Mas é que Deus sabe que, logo que tiverdes comido desse fruto, os vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.
6. A mulher considerou, pois, que o fruto dessa árvore era bom para comer, que era belo e agradável à vista. E, tendo-o tomado, comeu dele e deu-o ao marido, que também comeu. (Viu a mulher que era boa a árvore como alimento, e que era desejável a árvore para compreender (leaskil), e tomou do seu fruto etc.)
8. E, como tivessem ouvido a voz do Senhor Deus, que passeava no paraíso depois do meio-dia, quando se levanta um vento brando, retiraram-se para o meio das árvores do paraíso, para se esconderem da sua face.
9. Então o Senhor Deus chamou Adão e disse-lhe: Onde estás? — 10. Adão respondeu-lhe: Ouvi a vossa voz no paraíso e tive medo, porque estava nu; por isso me escondi. — 11. O Senhor replicou-lhe: E como soubestes que estáveis nu, senão por terdes comido do fruto da árvore de que vos proibira comer? — 12. Adão respondeu-lhe: A mulher que me destes por companheira apresentou-me do fruto dessa árvore, e eu comi. — 13. O Senhor Deus disse à mulher: Por que fizestes isso? Ela respondeu: A serpente enganou-me, e comi desse fruto.

14Então o Senhor Deus disse à serpente: Porque fizeste isso, és maldita entre todos os animais e todas as bestas da terra; rastejarás sobre o ventre e comerás terra todos os dias da tua vida. — 15. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a sua descendência e a tua. Ela te esmagará a cabeça, e tu procurarás mordê-la no calcanhar.
16. Deus disse também à mulher: Afligir-vos-ei com muitos males durante a vossa gravidez; dareis à luz na dor; estareis sob o domínio do vosso marido, e ele vos dominará.
17. Disse em seguida a Adão: Porque escutastes a voz da vossa mulher e comestes do fruto da árvore de que vos proibira comer, a terra será maldita por causa do que fizestes, e só com muito trabalho tirareis dela com que vos alimentar durante toda a vossa vida. — 18. Ela vos produzirá espinhos e abrolhos, e alimentar-vos-eis da erva da terra. — 19. E comereis o vosso pão com o suor do vosso rosto, até que volteis à terra de onde fostes tirado, porque sois pó e ao pó voltareis.
20. E Adão deu à sua mulher o nome de Eva, que significa a vida, porque era a mãe de todos os viventes.
21. O Senhor Deus fez também para Adão e para a sua mulher vestes de peles, com que os vestiu. — 22. E disse: Eis Adão tornado como um de nós, sabendo o bem e o mal. Impeçamos, pois, agora que ele leve a mão à árvore da vida, que tome também do seu fruto e que, comendo desse fruto, viva eternamente. (Disse Jeová Eloim: Eis que o homem foi como um de nós para o conhecimento do bem e do mal; e agora pode estender a mão e tomar da árvore da vida (veata pen ischlach yado velakach mehetz hachayim); comerá dela e viverá eternamente.)
23. O Senhor Deus fê-lo sair do jardim de delícias, para que fosse trabalhar na cultura da terra de onde tinha sido tirado. — 24. E, tendo-o expulsado, pôs querubins diante do jardim de delícias, que faziam faiscar uma espada de fogo, para guardar o caminho que conduzia à árvore da vida.

15Sob uma imagem pueril e às vezes ridícula, se nos detivermos na forma, a alegoria esconde muitas vezes as maiores verdades. Haverá fábula mais absurda, à primeira vista, que a de Saturno, um deus que devora pedras que toma pelos seus filhos? Mas, ao mesmo tempo, que há de mais profundamente filosófico e verdadeiro que essa figura, se se procura o seu sentido moral! Saturno é a personificação do tempo; sendo todas as coisas obra do tempo, ele é o pai de tudo o que existe, mas também tudo se destrói com o tempo. Saturno devorando pedras é o emblema da destruição, pelo tempo, dos corpos mais duros, que são seus filhos, pois se formaram com o tempo. E quem escapa a essa destruição, segundo essa mesma alegoria? Júpiter, o emblema da inteligência superior, do princípio espiritual, que é indestrutível. Essa imagem é até tão natural que, na linguagem moderna, sem alusão à fábula antiga, diz-se de uma coisa deteriorada com o tempo que está devorada pelo tempo, roída, devastada pelo tempo.

16Toda a mitologia pagã não é, na realidade, senão um vasto quadro alegórico dos diversos lados bons e maus da humanidade. Para quem procura o seu espírito, é um curso completo da mais alta filosofia, como acontece com as nossas fábulas modernas. O absurdo era tomar a forma pelo fundo; mas os sacerdotes pagãos só ensinavam a forma, seja porque alguns não sabiam mais do que isso, seja porque tinham interesse em manter o povo em crenças que, favorecendo a sua dominação, lhes eram mais rendosas que a filosofia. A veneração do povo pela forma era uma fonte inesgotável de riquezas, pelos dons acumulados nos templos, pelas oferendas e pelos sacrifícios feitos em intenção dos deuses, mas na realidade em proveito dos seus representantes. Um povo menos crédulo teria dado menos às imagens, às estátuas, aos emblemas e aos oráculos; por isso Sócrates foi condenado, como ímpio, a beber a cicuta, por ter querido estancar essa fonte, pondo a verdade no lugar do erro. Ainda não era então costume queimar vivos os hereges; e, cinco séculos mais tarde, o Cristo foi condenado a uma morte infamante, como ímpio, por ter querido, como Sócrates, substituir a letra pelo espírito, e porque a sua doutrina, toda espiritual, arruinava a supremacia dos escribas, dos fariseus e dos doutores da lei.

17O mesmo se dá com a Gênese, em que é preciso ver grandes verdades morais sob figuras materiais que, tomadas ao pé da letra, seriam tão absurdas quanto se, nas nossas fábulas, se tomassem ao pé da letra as cenas e os diálogos atribuídos aos animais.
Adão é a personificação da humanidade; a sua falta individualiza a fraqueza do homem, em quem predominam os instintos materiais, aos quais não sabe resistir.
A árvore, como árvore da vida, é o emblema da vida espiritual; como árvore da ciência, é o da consciência que o homem adquire do bem e do mal pelo desenvolvimento da sua inteligência, e o do livre-arbítrio, em virtude do qual escolhe entre os dois; marca o ponto em que a alma do homem, deixando de ser guiada só pelos instintos, toma posse da sua liberdade e incorre na responsabilidade dos seus atos.
O fruto da árvore é o emblema do objeto dos desejos materiais do homem; é a alegoria da cobiça; resume sob uma mesma figura os motivos de arrastamento ao mal; comer dele é sucumbir à tentação (1). Cresce no meio do jardim de delícias para mostrar que a sedução está no próprio seio dos prazeres, e para lembrar ao mesmo tempo que, se o homem dá a preponderância aos gozos materiais, prende-se à terra e afasta-se do seu destino espiritual.
A morte de que é ameaçado, se infringir a proibição que lhe é feita, é uma advertência das consequências inevitáveis, físicas e morais, que acarreta a violação das leis divinas que Deus gravou na sua consciência. É bem evidente que não se trata aqui da morte corporal, pois, depois da sua falta, Adão viveu ainda muito tempo, mas da morte espiritual, ou seja, da perda dos bens que resultam do adiantamento moral, perda de que a sua expulsão do jardim de delícias é a imagem.
A serpente está longe de passar hoje pelo tipo da astúcia; é, pois, aqui, em relação à sua forma, mais do que ao seu caráter, uma alusão à perfídia dos maus conselhos, que se insinuam como a serpente e dos quais, por essa razão, muitas vezes não se desconfia. Aliás, se a serpente, por ter enganado a mulher, foi condenada a rastejar sobre o ventre, isso quereria dizer que antes tinha pernas, e então já não era uma serpente. Por que, então, impor à fé ingênua e crédula das crianças, como verdades, alegorias tão evidentes, e que, falseando o seu juízo, as fazem mais tarde olhar a Bíblia como um tecido de fábulas absurdas?
(1) ... cada um o entende como quer, contanto que a interpretação não seja contrária à gramática. A palavra peri foi traduzida em latim por malum, que se diz da maçã e de toda espécie de frutos. É derivada do grego melon, particípio do verbo melo, interessar, cuidar, atrair.

18Se a falta de Adão é literalmente ter comido um fruto, não poderia incontestavelmente, pela sua natureza quase pueril, justificar o rigor com que foi castigada. Também não se poderia racionalmente admitir que seja o fato que geralmente se supõe; de outro modo, Deus, considerando esse fato um crime irremissível, teria condenado a sua própria obra, pois criara o homem para a propagação. Se Adão tivesse entendido nesse sentido a proibição de tocar no fruto da árvore, e se se tivesse conformado escrupulosamente a ela, onde estaria a humanidade, e que teria sido dos desígnios do Criador? Se assim fosse, Deus teria criado o imenso aparelho do universo para dois indivíduos, e a humanidade teria vindo contra a sua vontade e as suas previsões.
Deus não tinha criado Adão e Eva para ficarem sozinhos na Terra; e a prova disso está nas próprias palavras que lhes dirige imediatamente depois da sua formação, quando ainda estavam no paraíso terrestre: «Deus abençoou-os e disse-lhes: Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a.» (Cap. I, v. 28.) Já que a multiplicação do homem era uma lei desde o paraíso terrestre, a sua expulsão não pode ter por causa o fato suposto.
O que deu crédito a essa suposição é o sentimento de vergonha de que Adão e Eva foram tomados à vista de Deus e que os levou a se cobrirem. Mas essa própria vergonha é uma figura por comparação: simboliza a confusão que todo culpado sente na presença daquele que ofendeu.

19Qual é, pois, afinal, essa falta tão grande que pôde ferir de reprovação perpétua todos os descendentes daquele que a cometeu? Caim, o fratricida, não foi tratado tão severamente. Nenhum teólogo pôde defini-la logicamente, porque todos, não saindo da letra, giraram num círculo vicioso.
Hoje sabemos que essa falta não é um ato isolado, pessoal de um indivíduo, mas que compreende, sob um fato alegórico único, o conjunto das prevaricações de que pode tornar-se culpada a humanidade ainda imperfeita da Terra, e que se resumem nestas palavras: infração à lei de Deus. Eis por que a falta do primeiro homem, que simboliza a humanidade, é simbolizada ela mesma por um ato de desobediência.

20Dizendo a Adão que tirará o seu alimento da terra com o suor do seu rosto, Deus simboliza a obrigação do trabalho; mas por que faz do trabalho uma punição? Que seria a inteligência do homem se ele não a desenvolvesse pelo trabalho? Que seria a terra se não fosse fecundada, transformada, saneada pelo trabalho inteligente do homem?
Está dito (cap. II, v. 5 e 7): «O Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para lavrá-la. O Senhor formou, pois, o homem do limo da terra.» Essas palavras, aproximadas destas outras: Enchei a terra, provam que o homem era, desde a origem, destinado a ocupar toda a terra e a cultivá-la; e, além disso, que o paraíso não era um lugar circunscrito num canto do globo. Se a cultura da terra devesse ser uma consequência da falta de Adão, resultaria que, se Adão não tivesse pecado, a terra não teria sido cultivada, e os desígnios de Deus não se teriam cumprido.
Por que diz à mulher que, por ter cometido a falta, dará à luz na dor? Como pode a dor do parto ser um castigo, se é uma consequência do organismo e está fisiologicamente provado que é necessária? Como pode uma coisa que está segundo as leis da natureza ser uma punição? É o que os teólogos ainda não explicaram, e o que não poderão fazer enquanto não saírem do ponto de vista em que se colocaram; e, no entanto, essas palavras, que parecem tão contraditórias, podem ser justificadas.

21Notemos primeiro que, se no momento da criação de Adão e de Eva a sua alma acabava de ser tirada do nada, como se ensina, deviam ser noviços em todas as coisas; não deviam saber o que é morrer. Estando sozinhos na Terra, enquanto viveram no paraíso terrestre, não tinham visto ninguém morrer; como, então, teriam podido compreender em que consistia a ameaça de morte que Deus lhes fazia? Como teria Eva podido compreender que dar à luz na dor seria uma punição, se, acabando de nascer para a vida, nunca tinha tido filhos e era a única mulher do mundo?
As palavras de Deus não deviam, pois, ter para Adão e Eva nenhum sentido. Mal tirados do nada, não deviam saber nem por que nem como tinham saído dele; não deviam compreender nem o Criador nem o fim da proibição que lhes fazia. Sem nenhuma experiência das condições da vida, pecaram como crianças que agem sem discernimento, o que torna mais incompreensível ainda a terrível responsabilidade que Deus fez pesar sobre eles e sobre a humanidade inteira.

22O que é um beco sem saída para a teologia, o Espiritismo explica-o sem dificuldade e de maneira racional pela anterioridade da alma e pela pluralidade das existências, lei sem a qual tudo é mistério e anomalia na vida do homem. Com efeito, admitamos que Adão e Eva já tivessem vivido: tudo fica justificado; Deus não lhes fala como a crianças, mas como a seres em condição de o compreender e que o compreendem, prova evidente de que têm um adquirido anterior. Admitamos, além disso, que tenham vivido num mundo mais adiantado e menos material que o nosso, onde o trabalho do Espírito supria o trabalho do corpo; que, pela sua rebelião contra a lei de Deus, figurada pela desobediência, tenham sido excluídos dele e exilados por punição na Terra, onde o homem, em consequência da natureza do globo, está sujeito a um trabalho corporal; Deus tinha razão em dizer-lhes: No mundo onde ides viver doravante, «cultivareis a terra e tirareis dela o vosso alimento com o suor do vosso rosto»; e à mulher: «Dareis à luz na dor», porque tal é a condição deste mundo. (Cap. XI, n.º 31 e seguintes.)
O paraíso terrestre, de que inutilmente se procuraram os vestígios na Terra, era, pois, a figura do mundo feliz onde tinha vivido Adão, ou antes a raça dos Espíritos de que ele é a personificação. A expulsão do paraíso marca o momento em que esses Espíritos vieram encarnar-se entre os habitantes deste mundo, e a mudança de situação que daí resultou. O anjo armado de uma espada flamejante que defende a entrada do paraíso simboliza a impossibilidade em que estão os Espíritos dos mundos inferiores de penetrar nos mundos superiores antes de o terem merecido pela sua depuração. (Ver adiante cap. XIV, n.º 9 e seguintes.)

23Caim (depois do assassínio de Abel) respondeu ao Senhor:
A minha iniquidade é grande demais para que eu possa obter o perdão dela. — Expulsais-me hoje de sobre a terra, e irei esconder-me da vossa face. Serei fugitivo e vagabundo sobre a terra; quem quer que me encontre, pois, me matará. — O Senhor respondeu-lhe: Não, isso não será; porque quem quer que matar Caim será punido muito severamente. E o Senhor pôs um sinal em Caim, a fim de que os que o encontrassem não o matassem.
Caim, tendo-se retirado da face do Senhor, foi vagabundo sobre a terra e habitou na região oriental do Éden. — E, tendo conhecido a sua mulher, ela concebeu e deu à luz Enoque. Edificou em seguida uma cidade, a que chamou Enoque (Enochia), do nome do seu filho. (Cap. IV, versículos de 13 a 16.)

24Se nos reportarmos à letra da Gênese, eis a que consequências se chega: Adão e Eva estavam sozinhos no mundo depois da sua expulsão do paraíso terrestre; só posteriormente tiveram por filhos Caim e Abel. Ora, Caim, tendo matado o irmão e tendo-se retirado para outra região, não tornou a ver o pai e a mãe, que ficaram de novo sozinhos; só muito tempo depois, na idade de cento e trinta anos, Adão teve um terceiro filho, chamado Sete. Depois do nascimento de Sete, viveu ainda, segundo a genealogia bíblica, oitocentos anos, e teve filhos e filhas.
Quando Caim veio estabelecer-se a oriente do Éden, só havia, pois, na Terra três pessoas: o pai e a mãe, e ele só, do seu lado. Entretanto, teve uma mulher e um filho; quem podia ser essa mulher e onde a teria podido tomar? Edificou uma cidade; mas uma cidade supõe habitantes, porque não é de presumir que a tenha feito para si, para a sua mulher e para o seu filho, nem que a tenha podido construir sozinho.
É preciso, pois, inferir desse próprio relato que a região estava povoada; ora, não podia sê-lo pelos descendentes de Adão, que então não tinha outro senão Caim.
A presença de outros habitantes ressalta igualmente desta palavra de Caim: «Serei fugitivo e vagabundo, e quem quer que me encontre me matará», e da resposta que Deus lhe deu. Por quem podia temer ser morto, e de que servia o sinal que Deus pôs nele para preservá-lo, se não devia encontrar ninguém? Se, pois, havia na Terra outros homens fora da família de Adão, é que estavam nela antes dele; de onde esta consequência, tirada do próprio texto da Gênese: Adão não é nem o primeiro nem o único pai do gênero humano. (Cap. XI, n.º 34.)

25Eram precisos os conhecimentos que o Espiritismo trouxe acerca das relações do princípio espiritual e do princípio material; sobre a natureza da alma, a sua criação no estado de simplicidade e de ignorância, a sua união com o corpo, a sua marcha progressiva indefinida através de existências sucessivas e através dos mundos, que são outros tantos degraus no caminho do aperfeiçoamento; a sua libertação gradual da influência da matéria pelo uso do seu livre-arbítrio; a causa das suas inclinações boas ou más e das suas aptidões; o fenômeno do nascimento e da morte; o estado do Espírito na erraticidade; enfim, o futuro, que é o prêmio dos seus esforços para melhorar-se e da sua perseverança no bem — para lançar luz sobre todas as partes da Gênese espiritual.
Graças a essa luz, o homem sabe doravante de onde vem, para onde vai, por que está na Terra e por que sofre; sabe que o seu futuro está nas suas mãos, e que a duração do seu cativeiro aqui embaixo depende dele. A Gênese, saída da alegoria estreita e mesquinha, aparece-lhe grande e digna da majestade, da bondade e da justiça do Criador. Considerada desse ponto de vista, a Gênese confundirá a incredulidade e a vencerá.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês

Fonte: Internet Archive — La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme (Paris, Librairie internationale, 1868), OCR corrigé avec les numérisations bub_gb_KzDGY2nT08AC et bub_gb_hupkPNggu5sC

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