Une Sacra

A Gênese — XIV. Os fluidos

Ler no Une Sacra

1A ciência deu a chave dos milagres que dependem mais particularmente do elemento material, quer explicando-os, quer demonstrando-lhes a impossibilidade, pelas leis que regem a matéria; mas os fenômenos em que o elemento espiritual tem parte preponderante, não podendo ser explicados apenas pelas leis da matéria, escapam às investigações da ciência: é por isso que eles têm, mais que os outros, os caracteres aparentes do maravilhoso. É, pois, nas leis que regem a vida espiritual que se pode encontrar a chave dos milagres dessa categoria.

2O fluido cósmico universal é, como foi demonstrado, a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade dos corpos da natureza. Enquanto princípio elementar universal, ele apresenta dois estados distintos: o de eterização ou de imponderabilidade, que se pode considerar como o estado normal primitivo, e o de materialização ou de ponderabilidade, que é de certo modo apenas consecutivo. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível; mas, ainda aí, não há transição brusca, pois se podem considerar os nossos fluidos imponderáveis como um termo médio entre os dois estados. (Cap. IV, nºs 10 e seguintes.)
Cada um desses dois estados dá lugar necessariamente a fenômenos especiais: ao segundo pertencem os do mundo visível, e ao primeiro os do mundo invisível. Uns, chamados fenômenos materiais, são da alçada da ciência propriamente dita; os outros, qualificados de fenômenos espirituais ou psíquicos, porque se ligam mais especialmente à existência dos Espíritos, estão nas atribuições do Espiritismo; mas, como a vida espiritual e a vida corporal estão em contato incessante, os fenômenos dessas duas ordens se apresentam muitas vezes simultaneamente. O homem, no estado de encarnação, só pode ter a percepção dos fenômenos psíquicos que se ligam à vida corporal; os que são do domínio exclusivo da vida espiritual escapam aos sentidos materiais, e só podem ser percebidos no estado de Espírito (1).

3No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem deixar de ser etéreo, ele sofre modificações tão variadas em seu gênero, e talvez mais numerosas, quanto no estado de matéria tangível. Essas modificações constituem fluidos distintos que, embora procedendo do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais, e dão lugar aos fenômenos particulares do mundo invisível.
Sendo tudo relativo, esses fluidos têm para os Espíritos, que são eles próprios fluídicos, uma aparência tão material quanto a dos objetos tangíveis para os encarnados, e são para eles o que são para nós as substâncias do mundo terrestre; eles os elaboram, os combinam para produzir efeitos determinados, como fazem os homens com os seus materiais, porém por processos diferentes.
Mas lá, como aqui embaixo, só é dado aos Espíritos mais esclarecidos compreender o papel dos elementos constitutivos do seu mundo. Os ignorantes do mundo invisível são tão incapazes de explicar a si mesmos os fenômenos de que são testemunhas, e para os quais muitas vezes concorrem maquinalmente, quanto os ignorantes da terra o são de explicar os efeitos da luz ou da eletricidade, de dizer como veem e ouvem.

4Os elementos fluídicos do mundo espiritual escapam aos nossos instrumentos de análise e à percepção dos nossos sentidos, feitos para a matéria tangível e não para a matéria etérea. Há alguns que pertencem a um meio tão diferente do nosso, que deles só podemos julgar por comparações tão imperfeitas quanto aquelas pelas quais um cego de nascença procura fazer uma ideia da teoria das cores.
Mas, entre esses fluidos, alguns estão intimamente ligados à vida corporal, e pertencem de certo modo ao meio terrestre. Na falta de percepção direta, podem-se observar os seus efeitos, e adquirir sobre a sua natureza conhecimentos de certa precisão. Esse estudo é essencial, pois é a chave de uma multidão de fenômenos inexplicáveis apenas pelas leis da matéria.

5O ponto de partida do fluido universal é o grau de pureza absoluta, de que nada nos pode dar uma ideia; o ponto oposto é a sua transformação em matéria tangível. Entre esses dois extremos, existem inumeráveis transformações, que se aproximam mais ou menos de um e de outro. Os fluidos mais vizinhos da materialidade, os menos puros por conseguinte, compõem o que se pode chamar a atmosfera espiritual terrestre. É nesse meio, onde se encontram igualmente diferentes graus de pureza, que os Espíritos encarnados e desencarnados da terra haurem os elementos necessários à economia de sua existência. Esses fluidos, por mais sutis e impalpáveis que sejam para nós, nem por isso deixam de ser de uma natureza grosseira em comparação com os fluidos etéreos das regiões superiores.
O mesmo se dá na superfície de todos os mundos, salvo as diferenças de constituição e as condições de vitalidade próprias a cada um. Quanto menos material for ali a vida, menos afinidade têm os fluidos espirituais com a matéria propriamente dita.
A qualificação de fluidos espirituais não é rigorosamente exata, visto que, em definitivo, é sempre matéria mais ou menos quintessenciada. Só há de realmente espiritual a alma ou princípio inteligente. Designam-se assim por comparação, e sobretudo em razão de sua afinidade com os Espíritos. Pode-se dizer que é a matéria do mundo espiritual: é por isso que são chamados fluidos espirituais.

6Quem conhece, aliás, a constituição íntima da matéria tangível? Ela talvez só seja compacta em relação aos nossos sentidos, e o que o provaria é a facilidade com que é atravessada pelos fluidos espirituais e pelos Espíritos, aos quais não opõe mais obstáculos do que os corpos transparentes opõem à luz.
A matéria tangível, tendo por elemento primitivo o fluido cósmico etéreo, deve poder, desagregando-se, voltar ao estado de eterização, como o diamante, o mais duro dos corpos, pode volatilizar-se em gás impalpável. A solidificação da matéria não é, na realidade, mais que um estado transitório do fluido universal, que pode voltar ao seu estado primitivo quando as condições de coesão deixam de existir.
Quem sabe mesmo se, no estado de tangibilidade, a matéria não é suscetível de adquirir uma espécie de eterização que lhe daria propriedades particulares? Certos fenômenos que parecem autênticos tenderiam a fazê-lo supor. Ainda possuímos apenas os marcos do mundo invisível, e o futuro sem dúvida nos reserva o conhecimento de novas leis que nos permitirão compreender o que ainda é para nós um mistério.

7O perispírito, ou corpo fluídico dos Espíritos, é um dos produtos mais importantes do fluido cósmico; é uma condensação desse fluido em torno de um foco de inteligência ou alma. Viu-se que o corpo carnal tem igualmente o seu princípio nesse mesmo fluido transformado e condensado em matéria tangível; no perispírito, a transformação molecular se opera diferentemente, pois o fluido conserva a sua imponderabilidade e as suas qualidades etéreas. O corpo perispiritual e o corpo carnal têm, pois, a sua fonte no mesmo elemento primitivo; um e outro são matéria, embora sob dois estados diferentes.

8Os Espíritos haurem o seu perispírito no meio em que se encontram, isto é, esse envoltório é formado dos fluidos ambientes; disso resulta que os elementos constitutivos do perispírito devem variar segundo os mundos. Sendo Júpiter apresentado como um mundo muito adiantado em comparação com a Terra, onde a vida corporal não tem a materialidade da nossa, os envoltórios perispirituais devem ser ali de uma natureza infinitamente mais quintessenciada do que na terra. Ora, assim como não poderíamos existir naquele mundo com o nosso corpo carnal, os nossos Espíritos não poderiam penetrar nele com o seu perispírito terrestre. Ao deixar a terra, o Espírito deixa nela o seu envoltório fluídico, e reveste outro apropriado ao mundo para onde deve ir.

9A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudá-lo a seu bel-prazer, e, por conseguinte, não podem, à vontade, transportar-se de um mundo para outro. Há aqueles cujo envoltório fluídico, embora etéreo e imponderável em relação à matéria tangível, é ainda pesado demais, se assim se pode exprimir, em relação ao mundo espiritual, para lhes permitir sair do seu meio. É preciso incluir nessa categoria aqueles cujo perispírito é bastante grosseiro para que o confundam com o seu corpo carnal, e que, por essa razão, se julgam sempre vivos. Esses Espíritos, e o seu número é grande, permanecem na superfície da terra como os encarnados, crendo sempre tratar das suas ocupações; outros, um pouco mais desmaterializados, não o são, contudo, bastante para se elevar acima das regiões terrestres (1).
Os Espíritos superiores, ao contrário, podem vir aos mundos inferiores e até encarnar-se neles. Eles haurem, nos elementos constitutivos do mundo em que entram, os materiais do envoltório fluídico ou carnal apropriado ao meio em que se encontram. Fazem como o grande senhor que deixa as suas vestes douradas para se revestir momentaneamente de burel, sem deixar por isso de ser grande senhor.
É assim que Espíritos da ordem mais elevada podem manifestar-se aos habitantes da terra, ou encarnar-se em missão entre eles. Esses Espíritos trazem consigo, não o envoltório, mas a lembrança intuitiva das regiões de onde vêm, e que veem pelo pensamento. São videntes entre cegos.

10A camada dos fluidos espirituais que envolvem a terra pode ser comparada às camadas inferiores da atmosfera, mais pesadas, mais compactas, menos puras que as camadas superiores. Esses fluidos não são homogêneos; são uma mistura de moléculas de diversas qualidades, entre as quais se encontram necessariamente as moléculas elementares que lhes formam a base, porém mais ou menos alteradas. Os efeitos produzidos por esses fluidos estarão em razão da soma das partes puras que eles encerram. Tal é, por comparação, o álcool retificado ou misturado, em diferentes proporções, com água ou outras substâncias: o seu peso específico aumenta por essa mistura, ao mesmo tempo que a sua força e a sua inflamabilidade diminuem, embora no todo haja álcool puro.
Os Espíritos chamados a viver nesse meio haurem nele o seu perispírito; mas, conforme o Espírito seja ele próprio mais ou menos depurado, o seu perispírito se forma das partes mais puras ou das mais grosseiras desse meio. O Espírito produz nele, sempre por comparação e não por assimilação, o efeito de um reagente químico que atrai a si as moléculas assimiláveis à sua natureza.
Disso resulta este fato capital: que a constituição íntima do perispírito não é idêntica em todos os Espíritos encarnados ou desencarnados que povoam a terra ou o espaço circundante. Não se dá o mesmo com o corpo carnal, que, como foi demonstrado, é formado dos mesmos elementos, qualquer que seja a superioridade ou a inferioridade do Espírito. Por isso, em todos, os efeitos produzidos pelo corpo são os mesmos, as necessidades semelhantes, ao passo que diferem em tudo o que é inerente ao perispírito.
Disso resulta ainda que o envoltório perispiritual de um mesmo Espírito se modifica com o progresso moral deste em cada encarnação, embora se encarnando no mesmo meio; que os Espíritos superiores, encarnando-se excepcionalmente em missão num mundo inferior, têm um perispírito menos grosseiro que o dos indígenas desse mundo.

11O meio está sempre em relação com a natureza dos seres que nele devem viver; os peixes estão na água; os seres terrestres estão no ar; os seres espirituais estão no fluido espiritual ou etéreo, mesmo na terra. O fluido etéreo é para as necessidades do Espírito o que a atmosfera é para as necessidades dos encarnados. Ora, assim como os peixes não podem viver no ar, e os animais terrestres não podem viver numa atmosfera rarefeita demais para os seus pulmões, os Espíritos inferiores não podem suportar o brilho e a impressão dos fluidos mais etéreos. Não morreriam ali, porque o Espírito não morre, mas uma força instintiva os mantém afastados deles, como nos afastamos de um fogo ardente demais ou de uma luz ofuscante demais. Eis por que não podem sair do meio apropriado à sua natureza; para mudá-lo, é preciso que primeiro mudem a sua natureza; que se despojem dos instintos materiais que os retêm nos meios materiais; numa palavra, que se depurem e se transformem moralmente; então, gradualmente, eles se identificam com um meio mais depurado, que se torna para eles uma necessidade, uma exigência, como os olhos daquele que viveu longamente nas trevas se habituam insensivelmente à luz do dia e ao brilho do sol.

12Assim tudo se liga, tudo se encadeia no universo; tudo está submetido à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a materialidade mais compacta até a espiritualidade mais pura. A terra é como um vaso de onde se escapa uma fumaça espessa que se aclara à medida que se eleva, e cujas parcelas rarefeitas se perdem no espaço infinito.
O poder divino resplandece em todas as partes desse conjunto grandioso, e se quereria que, para melhor atestar o seu poder, Deus, não contente com o que fez, viesse perturbar essa harmonia! que se rebaixasse ao papel de mágico por efeitos pueris dignos de um prestidigitador! E ousa-se, por acréscimo, dar-lhe por rival em habilidade o próprio Satanás! Jamais, em verdade, se rebaixou mais a majestade divina, e espantam-se com o progresso da incredulidade!
Tendes razão de dizê-lo: “A fé se vai!” mas é a fé em tudo o que choca o bom senso e a razão que se vai; a fé semelhante àquela que outrora fez dizer: “Os deuses se vão!” Mas a fé nas coisas sérias, a fé em Deus e na imortalidade está sempre viva no coração do homem, e, se foi abafada sob as histórias pueris com que a sobrecarregaram, ela se reergue mais forte assim que se vê livre delas, como a planta comprimida se reergue assim que torna a ver o sol!
Sim, tudo é milagre na natureza, porque tudo é admirável e dá testemunho da sabedoria divina! Esses milagres são para todo o mundo, para todos os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir, e não em proveito de alguns. Não! não há milagres no sentido que se atribui a essa palavra, porque tudo decorre das leis eternas da criação.

13Os fluidos espirituais, que constituem um dos estados do fluido cósmico universal, são, pois, a atmosfera dos seres espirituais; são o elemento em que eles haurem os materiais sobre os quais operam; o meio onde se passam os fenômenos especiais, perceptíveis à vista e ao ouvido do Espírito, e que escapam aos sentidos carnais impressionados apenas pela matéria tangível; são, enfim, o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som.

14Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas com o auxílio do pensamento e da vontade. O pensamento e a vontade são para os Espíritos o que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem a esses fluidos tal ou qual direção; aglomeram-nos, combinam-nos ou dispersam-nos; formam com eles conjuntos que têm uma aparência, uma forma, uma cor determinadas; mudam-lhes as propriedades como um químico muda as dos gases ou de outros corpos combinando-os segundo certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.
Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção; muitas vezes, são o produto de um pensamento inconsciente; basta ao Espírito pensar numa coisa para que essa coisa se produza.
É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à vista de um encarnado dotado da vista espiritual, sob as aparências que tinha quando vivo, na época em que o conheceram, ainda que tenha tido várias encarnações depois. Apresenta-se com o traje, os sinais exteriores, enfermidades, cicatrizes, membros amputados etc., que tinha então; um decapitado se apresentará sem a cabeça. Isso não quer dizer que tenha conservado essas aparências; certamente não, pois, como Espírito, ele não é nem coxo, nem maneta, nem caolho, nem decapitado; mas, reportando-se o seu pensamento à época em que era assim, o seu perispírito toma instantaneamente essas aparências, que deixa do mesmo modo instantaneamente. Se, pois, ele foi uma vez negro e outra vez branco, apresentar-se-á como negro ou como branco, conforme aquela dessas duas encarnações sob a qual for evocado e à qual se reportar o seu pensamento.
Por um efeito análogo, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos de que tinha o hábito de se servir; um avarento manuseará ouro, um militar terá as suas armas e o seu uniforme, um fumante o seu cachimbo, um lavrador o seu arado e os seus bois, uma velha a sua roca. Esses objetos fluídicos são tão reais para o Espírito quanto o eram no estado material para o homem vivo; mas, pela mesma razão de serem criados pelo pensamento, a sua existência é tão fugidia quanto o pensamento (1).

15A ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais tem consequências de uma importância direta e capital para os encarnados. Desde o instante em que esses fluidos são o veículo do pensamento, e em que o pensamento lhes pode modificar as propriedades, é evidente que eles devem estar impregnados das qualidades boas ou más dos pensamentos que os põem em vibração, modificados pela pureza ou pela impureza dos sentimentos. Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. Os fluidos que envolvem os maus Espíritos, ou que eles projetam, são, pois, viciados, ao passo que os que recebem a influência dos bons Espíritos são tão puros quanto o comporta o grau de perfeição moral destes.
Seria impossível fazer quer uma enumeração, quer uma classificação dos bons e dos maus fluidos, ou especificar as suas qualidades respectivas, visto que a sua diversidade é tão grande quanto a dos pensamentos.

16Se os fluidos ambientes são modificados pela projeção dos pensamentos do Espírito, o seu envoltório perispiritual, que é parte constituinte do seu ser, que recebe diretamente e de maneira permanente a impressão dos seus pensamentos, deve ainda mais trazer a marca das suas qualidades boas ou más. Os fluidos viciados pelos eflúvios dos maus Espíritos podem depurar-se pelo afastamento destes, mas o perispírito deles será sempre o que é, enquanto o Espírito não se modificar a si mesmo.

17Sendo os homens Espíritos encarnados, eles têm em parte as atribuições da vida espiritual, pois vivem dessa vida tanto quanto da vida corporal, primeiro durante o sono, e muitas vezes no estado de vigília. O Espírito, ao encarnar-se, conserva o seu perispírito com as qualidades que lhe são próprias, e o qual, como se sabe, não está circunscrito pelo corpo, mas irradia ao redor e o envolve como uma atmosfera fluídica.
Por sua união íntima com o corpo, o perispírito desempenha um papel preponderante no organismo; por sua expansão, põe o Espírito encarnado em relação mais direta com os Espíritos livres.
O pensamento do Espírito encarnado age sobre os fluidos espirituais como o dos Espíritos desencarnados; transmite-se de Espírito a Espírito pela mesma via, e, conforme seja bom ou mau, saneia ou vicia os fluidos circundantes.

18Sendo o perispírito dos encarnados de natureza idêntica à dos fluidos espirituais, ele os assimila com facilidade, como uma esponja se embebe de líquido. Esses fluidos têm sobre o perispírito uma ação tanto mais direta quanto, por sua expansão e sua irradiação, ele se confunde com eles.
Agindo esses fluidos sobre o perispírito, este, por sua vez, reage sobre o organismo material com o qual está em contato molecular. Se os eflúvios são de boa natureza, o corpo sente deles uma impressão salutar; se são maus, a impressão é penosa; se os maus são permanentes e enérgicos, podem determinar desordens físicas: certas doenças não têm outra causa.
Os meios onde abundam os maus Espíritos estão, pois, impregnados de maus fluidos, que se absorvem por todos os poros perispirituais, como se absorvem pelos poros do corpo os miasmas pestilenciais.

19O mesmo se dá nas reuniões de encarnados. Uma assembleia é um foco onde irradiam pensamentos diversos. Agindo o pensamento sobre os fluidos como o som age sobre o ar, esses fluidos nos trazem os pensamentos como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundir, como há no ar ondas e raios sonoros.
Uma assembleia é, como uma orquestra, um coro de pensamentos em que cada um produz a sua nota. Disso resulta uma multidão de correntes e de eflúvios fluídicos dos quais cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro de música cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.
Mas, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes, há também pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto é harmônico, a impressão é agradável; se é discordante, a impressão é penosa. Ora, para isso, não é preciso que o pensamento seja formulado em palavras; a irradiação fluídica não deixa de existir, quer ele seja expresso, quer não; mas, se a ele se misturam alguns pensamentos maus, eles produzem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio morno.
Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática, animada de pensamentos bons e benevolentes; reina ali como que uma atmosfera moral salubre, onde se respira à vontade; sai-se dali reconfortado, porque se ficou impregnado de eflúvios fluídicos salutares. Assim se explicam também a ansiedade e o mal-estar indefinível que se sentem num meio antipático, onde pensamentos malévolos provocam como que correntes de ar nauseabundo.

20O pensamento produz, pois, uma espécie de efeito físico que reage sobre o moral; é o que só o Espiritismo podia fazer compreender. O homem o sente instintivamente, visto que procura as reuniões homogêneas e simpáticas onde sabe que pode haurir novas forças morais; poder-se-ia dizer que ali recupera as perdas fluídicas que sofre cada dia pela irradiação do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material. É que, com efeito, o pensamento é uma emissão que ocasiona uma perda real nos fluidos espirituais e, por conseguinte, nos fluidos materiais, de tal sorte que o homem tem necessidade de se reconfortar pelos eflúvios que recebe de fora.
Quando se diz que um médico cura o seu doente com boas palavras, está-se na verdade absoluta, pois o pensamento benevolente traz consigo fluidos reparadores que agem sobre o físico tanto quanto sobre o moral.

21É sem dúvida possível, dir-se-á, evitar os homens que se sabem mal-intencionados, mas como subtrair-se à influência dos maus Espíritos que pululam ao nosso redor e se insinuam por toda parte sem ser vistos?
O meio é muito simples, pois depende da vontade do próprio homem, que traz em si o preservativo necessário. Os fluidos se unem em razão da semelhança de sua natureza; os fluidos dessemelhantes se repelem; há incompatibilidade entre os bons e os maus fluidos, como entre o óleo e a água.
Que se faz quando o ar está viciado? saneia-se, depura-se, destruindo o foco dos miasmas, expulsando os eflúvios malsãos por correntes de ar salubre mais fortes. À invasão dos maus fluidos é preciso, pois, opor os bons fluidos; e, como cada um tem no seu próprio perispírito uma fonte fluídica permanente, traz-se o remédio em si mesmo; trata-se apenas de depurar essa fonte e de lhe dar qualidades tais que sejam para as más influências uma força repulsiva, em vez de serem uma força atrativa. O perispírito é, pois, uma couraça à qual é preciso dar a melhor têmpera possível; ora, como as qualidades do perispírito estão em razão das qualidades da alma, é preciso trabalhar pela própria melhoria, pois são as imperfeições da alma que atraem os maus Espíritos.
As moscas vão aonde os focos de corrupção as atraem; destruí esses focos, e as moscas desaparecerão. Do mesmo modo, os maus Espíritos vão aonde o mal os atrai; destruí o mal, e eles se afastarão. Os Espíritos realmente bons, encarnados ou desencarnados, nada têm a temer da influência dos maus Espíritos.

22EXPLICAÇÃO DE ALGUNS FATOS REPUTADOS SOBRENATURAIS
O perispírito é o traço de união entre a vida corporal e a vida espiritual: é por ele que o Espírito encarnado está em contínua relação com os Espíritos; é por ele, enfim, que se realizam no homem fenômenos especiais que não têm a sua causa primeira na matéria tangível, e que, por essa razão, parecem sobrenaturais.
É nas propriedades e na irradiação do fluido perispiritual que se deve procurar a causa da dupla vista, ou vista espiritual, que também se pode chamar vista psíquica, de que muitas pessoas são dotadas, muitas vezes sem o saberem, assim como da vista sonambúlica.
O perispírito é o órgão sensitivo do Espírito; é por seu intermédio que o Espírito encarnado tem a percepção das coisas espirituais que escapam aos sentidos carnais. Pelos órgãos do corpo, a vista, a audição e as diversas sensações são localizadas e limitadas à percepção das coisas materiais; pelo sentido espiritual, elas são generalizadas; o Espírito vê, ouve e sente por todo o seu ser o que está na esfera de irradiação do seu fluido perispiritual.
Esses fenômenos são, no homem, a manifestação da vida espiritual; é a alma que age fora do organismo. Na dupla vista, ou percepção pelo sentido espiritual, ele não vê pelos olhos do corpo, embora muitas vezes, por hábito, os dirija para o ponto a que se volta a sua atenção; vê pelos olhos da alma, e a prova disso é que vê igualmente bem com os olhos fechados, e além do alcance do raio visual (1).

23Embora, durante a vida, o Espírito esteja preso ao corpo pelo perispírito, não é tão escravo que não possa alongar a sua corrente e transportar-se para longe, seja sobre a terra, seja a algum ponto do espaço. O Espírito só a contragosto está ligado ao seu corpo, porque a sua vida normal é a liberdade, ao passo que a vida corporal é a do servo preso à gleba.
O Espírito fica, pois, feliz de deixar o seu corpo, como o pássaro deixa a sua gaiola; aproveita todas as ocasiões de se libertar dele, e se vale para isso de todos os instantes em que a sua presença não é necessária à vida de relação. É o fenômeno designado sob o nome de emancipação da alma; ele sempre ocorre no sono: todas as vezes que o corpo repousa e que os sentidos estão na inatividade, o Espírito se desprende. (O Livro dos Espíritos, cap. VIII.)
Nesses momentos, o Espírito vive da vida espiritual, ao passo que o corpo vive apenas da vida vegetativa; ele está em parte no estado em que estará depois da morte; percorre o espaço, conversa com os seus amigos e com outros Espíritos livres ou encarnados como ele.
O laço fluídico que o retém ao corpo só é definitivamente rompido na morte; a separação completa só ocorre pela extinção absoluta da atividade do princípio vital. Enquanto o corpo vive, o Espírito, a qualquer distância que esteja, é instantaneamente chamado de volta a ele assim que a sua presença é necessária; então retoma o curso da vida exterior de relação. Às vezes, ao despertar, conserva das suas peregrinações uma lembrança, uma imagem mais ou menos precisa, que constitui o sonho; em todo caso, traz delas intuições que lhe sugerem ideias e pensamentos novos, e justificam o provérbio: A noite é boa conselheira.
Assim se explicam igualmente certos fenômenos característicos do sonambulismo natural e magnético, da catalepsia, da letargia, do êxtase etc., que não são outra coisa senão as manifestações da vida espiritual (1).

24Visto que a vista espiritual não se efetua pelos olhos do corpo, é que a percepção das coisas não ocorre pela luz comum; com efeito, a luz material é feita para o mundo material; para o mundo espiritual, existe uma luz especial cuja natureza nos é desconhecida, mas que é sem dúvida uma das propriedades do fluido etéreo destinada às percepções visuais da alma. Há, pois, a luz material e a luz espiritual. A primeira tem focos circunscritos nos corpos luminosos; a segunda tem o seu foco em toda parte: é a razão pela qual não há obstáculos para a vista espiritual; ela não é detida nem pela distância, nem pela opacidade da matéria; a obscuridade não existe para ela. O mundo espiritual é, pois, iluminado pela luz espiritual, que tem os seus efeitos próprios, como o mundo material é iluminado pela luz solar.

25A alma, envolta em seu perispírito, traz assim em si o seu princípio luminoso; penetrando a matéria em virtude da sua essência etérea, não há corpos opacos para a sua vista.
Entretanto, a vista espiritual não tem nem a mesma extensão nem a mesma penetração em todos os Espíritos; só os Espíritos puros a possuem em todo o seu poder; nos Espíritos inferiores, ela é enfraquecida pela grosseria relativa do perispírito, que se interpõe como uma espécie de nevoeiro.
Ela se manifesta em diferentes graus nos Espíritos encarnados pelo fenômeno da segunda vista, seja no sonambulismo natural ou magnético, seja no estado de vigília. Conforme o grau de poder da faculdade, diz-se que a lucidez é maior ou menor. É com o auxílio dessa faculdade que certas pessoas veem o interior do organismo e descrevem a causa das doenças.

26A vista espiritual dá, pois, percepções especiais que, não tendo por sede os órgãos materiais, se operam em condições inteiramente diferentes das da vista corporal. Por essa razão, não se podem esperar dela efeitos idênticos nem experimentá-la pelos mesmos processos. Realizando-se fora do organismo, ela tem uma mobilidade que frustra todas as previsões. É preciso estudá-la nos seus efeitos e nas suas causas, e não por assimilação com a vista comum, que ela não se destina a suprir, salvo em casos excepcionais que não se poderiam tomar por regra.

27A vista espiritual é necessariamente incompleta e imperfeita nos Espíritos encarnados, e por conseguinte sujeita a aberrações. Tendo a sua sede na própria alma, o estado da alma deve influir sobre as percepções que ela dá. Conforme o grau do seu desenvolvimento, as circunstâncias e o estado moral do indivíduo, ela pode dar, seja no sono, seja no estado de vigília: 1º a percepção de certos fatos materiais reais, como o conhecimento de acontecimentos que se passam ao longe, os detalhes descritivos de uma localidade, as causas de uma doença e os remédios convenientes; 2º a percepção de coisas igualmente reais do mundo espiritual, como a vista dos Espíritos; 3º imagens fantásticas criadas pela imaginação, análogas às criações fluídicas do pensamento. (Vede acima, nº 14.) Essas criações estão sempre em relação com as disposições morais do Espírito que as gera. É assim que o pensamento de pessoas fortemente imbuídas e preocupadas com certas crenças religiosas lhes apresenta o inferno, as suas fornalhas, as suas torturas e os seus demônios, tais como elas os imaginam: é às vezes toda uma epopeia; os pagãos viam o Olimpo e o Tártaro, como os cristãos veem o Inferno e o Paraíso. Se, ao despertar, ou ao sair do êxtase, essas pessoas conservam uma lembrança precisa das suas visões, tomam-nas por realidades e por confirmações das suas crenças, ao passo que não são mais que um produto dos seus próprios pensamentos (1). Há, pois, uma escolha muito rigo- (1) É assim que se podem explicar as visões da irmã Elmé- rosa a fazer nas visões extáticas antes de aceitá-las. O remédio para a credulidade excessiva, a esse respeito, é o estudo das leis que regem o mundo espiritual.

28Os sonhos propriamente ditos apresentam as três naturezas de visões descritas acima. É às duas primeiras que pertencem os sonhos de previsões, pressentimentos e advertências; é na terceira, isto é, nas criações fluídicas do pensamento, que se pode encontrar a causa de certas imagens fantásticas que nada têm de real em relação à vida material, mas que têm, para o Espírito, uma realidade às vezes tal que o corpo sofre o seu contragolpe, e que já se viram cabelos embranquecerem sob a impressão de um sonho. Essas criações podem ser provocadas: pelas crenças exaltadas; por lembranças retrospectivas; pelos gostos, os desejos, as paixões, o medo, os remorsos; pelas preocupações habituais; pelas necessidades do corpo, ou por um embaraço nas funções do organismo; enfim, por outros Espíritos, com um fim benevolente ou malévolo, conforme a sua natureza (1).

29A matéria inerte é insensível; o fluido perispiritual também o é, mas transmite a sensação ao centro sensitivo, que é o Espírito. As lesões dolorosas do corpo repercutem-se, pois, no Espírito como um choque elétrico, por intermédio do fluido perispiritual, do qual os nervos parecem ser os fios condutores. É o influxo nervoso dos fisiologistas, que, não conhecendo rich, que, reportando-se ao tempo da Paixão do Cristo, diz ter visto coisas materiais que nunca existiram senão nos livros que ela leu; as da senhora Cantanille (Revista Espírita, agosto de 1866, p. 240), e uma parte das de Swedenborg. as relações desse fluido com o princípio espiritual, não puderam explicar todos os seus efeitos.
Essa interrupção pode ocorrer pela separação de um membro, ou pelo corte de um nervo, mas também, parcialmente ou de maneira geral, e sem nenhuma lesão, nos momentos de emancipação, de grande superexcitação ou preocupação do Espírito. Nesse estado, o Espírito já não pensa no corpo, e, na sua febril atividade, atrai, por assim dizer, a si o fluido perispiritual, que, retirando-se da superfície, produz ali uma insensibilidade momentânea. É assim que, no ardor do combate, um militar muitas vezes não percebe que está ferido; que uma pessoa cuja atenção está concentrada num trabalho não ouve o ruído que se faz ao seu redor. É um efeito análogo, porém mais pronunciado, que ocorre em certos sonâmbulos, na letargia e na catalepsia. É assim, enfim, que se pode explicar a insensibilidade dos convulsionários e de certos mártires. (Revista Espírita, janeiro de 1868: Estudo sobre os Aïssaouas.)
A paralisia não tem de modo algum a mesma causa: aqui o efeito é todo orgânico; são os próprios nervos, os fios condutores, que já não são aptos à circulação fluídica; são as cordas do instrumento que estão alteradas.

30Em certos estados patológicos, quando o Espírito já não está no corpo e o perispírito só adere a ele por alguns pontos, o corpo tem todas as aparências da morte, e está-se na verdade absoluta ao dizer que a vida está por um fio. Esse estado pode durar mais ou menos tempo; certas partes do corpo podem até entrar em decomposição, sem que a vida esteja definitivamente extinta. Enquanto o último fio não estiver rompido, o Espírito pode, seja por uma ação enérgica da sua própria vontade, seja por um influxo fluídico estranho, igualmente poderoso, ser chamado de volta ao corpo. Assim se explicam certos prolongamentos da vida contra toda probabilidade, e certas pretensas ressurreições. É a planta que às vezes torna a brotar de uma única fibrila da raiz; mas, quando as últimas moléculas do corpo fluídico se desprenderam do corpo carnal, ou quando este se encontra num estado de degradação irreparável, todo retorno à vida se torna impossível (1).

31O fluido universal é, como se viu, o elemento primitivo do corpo carnal e do perispírito, que não são mais que transformações dele. Pela identidade da sua natureza, esse fluido pode fornecer ao corpo os princípios reparadores. Estando condensado no perispírito, o agente propulsor é o Espírito, encarnado ou desencarnado, que infiltra num corpo deteriorado uma parte da substância do seu envoltório fluídico. A cura se opera pela substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. O poder curador estará, pois, em razão da pureza da substância inoculada; depende ainda da energia da vontade, que provoca uma emissão fluídica mais abundante e dá ao fluido uma maior força de penetração; enfim, das intenções que animam aquele que quer curar, seja ele homem ou Espírito. Os fluidos que emanam de uma fonte impura são como substâncias medicamentosas alteradas.
Os efeitos da ação fluídica sobre os doentes são extremamente variados, conforme as circunstâncias; essa ação é algumas vezes lenta e requer um tratamento continuado, como no magnetismo comum; outras vezes, é rápida como uma corrente elétrica. Há pessoas dotadas de um poder tal que operam em certos doentes curas instantâneas pela simples imposição das mãos, ou mesmo por um só ato da vontade. Entre os dois polos extremos dessa faculdade há nuances ao infinito. Todas as curas desse gênero são variedades do magnetismo e só diferem pelo poder e pela rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: é o fluido que desempenha o papel de agente terapêutico, e cujo efeito está subordinado à sua qualidade e a circunstâncias especiais.

32A ação magnética pode produzir-se de várias maneiras: 1º pelo próprio fluido do magnetizador; é o magnetismo propriamente dito, ou magnetismo humano, cuja ação está subordinada ao poder e sobretudo à qualidade do fluido.
2º Pelo fluido dos Espíritos agindo diretamente e sem intermediário sobre um encarnado, seja para curar ou acalmar um sofrimento, seja para provocar o sono sonambúlico espontâneo, seja para exercer sobre o indivíduo uma influência física ou moral qualquer. É o magnetismo espiritual, cuja qualidade está em razão das qualidades do Espírito (1).
3º Pelo fluido que os Espíritos derramam sobre o magnetizador e para o qual este serve de condutor. É o magnetismo misto, semiespiritual ou, se se quiser, humano-espiritual. O fluido espiritual, combinado com o fluido humano, dá a este último as qualidades que lhe faltam. O concurso dos Espíritos, em semelhante circunstância, é às vezes espontâneo, mas na maioria das vezes é provocado pelo apelo do magnetizador.

34A faculdade de curar pelo influxo fluídico é muito comum, e pode desenvolver-se pelo exercício, mas a de curar instantaneamente pela imposição das mãos é mais rara, e o seu apogeu pode ser considerado excepcional. Entretanto, viram-se em diversas épocas, e em quase todos os povos, indivíduos que a possuíam em grau eminente. Nestes últimos tempos, viram-se vários exemplos notáveis, cuja autenticidade não pode ser contestada. Visto que essas espécies de curas repousam sobre um princípio natural, e que o poder de operá-las não é um privilégio, é que elas não saem da natureza e só têm de miraculoso a aparência (1).

35O perispírito é invisível para nós no seu estado normal, mas, como é formado de matéria etérea, o Espírito pode, em certos casos, fazê-lo sofrer, por um ato da sua vontade, uma modificação molecular que o torne momentaneamente visível. É assim que se produzem as aparições, que, não mais que os outros fenômenos, estão fora das leis da natureza. Este não é mais extraordinário que o do vapor, que é invisível quando está muito rarefeito, e que se torna visível quando está condensado.
Conforme o grau de condensação do fluido perispiritual, a aparição é algumas vezes vaga e vaporosa; outras vezes, é mais nitidamente definida; outras vezes, enfim, tem todas as aparências da matéria tangível; pode mesmo chegar até a tangibilidade real, a ponto de alguém se enganar sobre a natureza do ser que tem diante de si.
As aparições vaporosas são frequentes, e acontece muitas vezes que indivíduos se apresentam assim, depois da morte, às pessoas a quem estimaram. As aparições tangíveis são mais raras, embora delas haja exemplos bastante numerosos, perfeitamente autênticos. Se o Espírito quer fazer-se reconhecer, dará ao seu envoltório todos os sinais exteriores que tinha quando vivo.

36Deve-se notar que as aparições tangíveis só têm as aparências da matéria carnal, mas não poderiam ter as suas qualidades; em razão da sua natureza fluídica, não podem ter a mesma coesão, porque, na realidade, não são carne. Formam-se instantaneamente e desaparecem do mesmo modo, ou se evaporam pela desagregação das moléculas fluídicas. Os seres que se apresentam nessas condições não nascem nem morrem como os outros homens; são vistos e deixam de ser vistos, sem que se saiba de onde vêm, como vieram, nem para onde vão; não se poderia matá-los, nem acorrentá-los, nem encarcerá-los, visto que não têm corpo carnal; os golpes que se lhes desferissem bateriam no vazio.
Tal é o caráter dos agêneres, com os quais se pode conversar sem suspeitar do que eles são, mas que nunca fazem longas permanências, e não podem tornar-se os comensais habituais de uma casa, nem figurar entre os membros de uma família.
Há, aliás, em toda a sua pessoa, nas suas maneiras, alguma coisa de estranho e de insólito, que participa da materialidade e da espiritualidade; o seu olhar, ao mesmo tempo vaporoso e penetrante, não tem a nitidez do olhar pelos olhos da carne; a sua linguagem breve e quase sempre sentenciosa nada tem do brilho e da volubilidade da linguagem humana; a sua aproximação faz experimentar uma sensação particular e indefinível de surpresa que inspira uma espécie de temor, e, embora tomando-os por indivíduos semelhantes a todo o mundo, diz-se involuntariamente: Eis um ser singular (1).

37Sendo o perispírito o mesmo nos encarnados e nos desencarnados, por um efeito completamente idêntico um Espírito encarnado pode aparecer, num momento de liberdade, num ponto diferente daquele onde o seu corpo repousa, com os seus traços habituais e com todos os sinais da sua identidade. É esse fenômeno, de que se têm exemplos autênticos, que deu lugar à crença nos homens duplos (2).

38Um efeito particular a essas espécies de fenômenos é que as aparições vaporosas e mesmo tangíveis não são perceptíveis indistintamente por todo o mundo; os Espíritos só se mostram quando querem e a quem querem. Um Espírito poderia, pois, aparecer numa assembleia a um ou a vários assistentes, e não ser visto pelos outros. Isso vem de que essas espécies de percepções se efetuam pela vista espiritual, e não pela vista carnal: pois não somente a vista espiritual não é dada a todo o mundo, como pode, se necessário, ser retirada, pela vontade do Espírito, daquele a quem ele não quer mostrar-se, assim como pode dá-la momentaneamente, se o julgar necessário.
A condensação do fluido perispiritual nas aparições, mesmo até a tangibilidade, não tem, pois, as propriedades da matéria comum: sem isso, as aparições, sendo perceptíveis pelos olhos do corpo, o seriam por todas as pessoas presentes (1).

39Podendo o Espírito operar transformações na contextura do seu envoltório perispiritual, e irradiando esse envoltório em torno do corpo como uma atmosfera fluídica, um fenômeno análogo ao das aparições pode produzir-se na própria superfície do corpo. Sob a camada fluídica, a figura real do corpo pode apagar-se mais ou menos completamente e revestir outros traços; ou então os traços primitivos, vistos através da camada fluídica modificada, como através de um prisma, podem tomar outra expressão. Se o Espírito, saindo do terra a terra, se identifica com as coisas do mundo espiritual, a expressão de uma figura feia pode tornar-se bela, radiante, e às vezes até luminosa; se, ao contrário, o Espírito é exaltado por más paixões, uma figura bela pode tomar um aspecto hediondo.
É assim que se operam as transfigurações, que são sempre um reflexo das qualidades e dos sentimentos predominantes do Espírito. Esse fenômeno é, pois, o resultado de uma transformação fluídica; é uma espécie de aparição perispiritual que se produz sobre o próprio corpo vivo e algumas vezes no momento da morte, em vez de se produzir ao longe, como nas aparições propriamente ditas. O que distingue as aparições desse gênero é que geralmente são perceptíveis por todos os assistentes e pelos olhos do corpo, precisamente porque têm por base a matéria carnal visível, ao passo que, nas aparições puramente fluídicas, não há matéria tangível (1).

40Os fenômenos das mesas girantes e falantes, da suspensão etérea dos corpos pesados, da escrita mediúnica, tão antigos quanto o mundo, mas hoje vulgarizados, dão a chave de alguns fenômenos análogos espontâneos, aos quais, na ignorância da lei que os rege, se havia atribuído um caráter sobrenatural e miraculoso. Esses fenômenos repousam sobre as propriedades do fluido perispiritual, quer dos encarnados, quer dos Espíritos livres.

41É com o auxílio do seu perispírito que o Espírito agia sobre o seu corpo vivo; é ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte, que produz os ruídos, os movimentos de mesas e de outros objetos que levanta, derruba ou transporta. Esse fenômeno nada tem de surpreendente, se se considerar que, entre (1) Exemplo e teoria da transfiguração, Revista Espírita, março de 1859, página 62. (O Livro dos Médiuns, cap. VII, página 142.) nós, os mais poderosos motores se encontram nos fluidos mais rarefeitos e até imponderáveis, como o ar, o vapor e a eletricidade.
É igualmente com o auxílio do seu perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem, falarem ou desenharem; não tendo corpo tangível para agir ostensivamente quando quer manifestar-se, serve-se do corpo do médium, cujos órgãos toma emprestados e faz agir como se fossem o seu próprio corpo, e isso pelo eflúvio fluídico que derrama sobre ele.

42É pelo mesmo meio que o Espírito age sobre a mesa, seja para fazê-la mover-se sem significação determinada, seja para fazê-la dar pancadas inteligentes indicando as letras do alfabeto, para formar palavras e frases, fenômeno designado sob o nome de tiptologia. A mesa não é aqui mais que um instrumento de que ele se serve, como faz com o lápis para escrever; dá-lhe uma vitalidade momentânea pelo fluido com que a penetra, mas não se identifica de modo algum com ela. As pessoas que, na sua emoção, vendo manifestar-se um ser que lhes é caro, abraçam a mesa, praticam um ato ridículo, pois é absolutamente como se abraçassem o bastão de que um amigo se serve para dar pancadas. O mesmo se dá com aquelas que dirigem a palavra à mesa, como se o Espírito estivesse encerrado na madeira, ou como se a madeira se tivesse tornado Espírito.
Quando comunicações ocorrem por esse meio, é preciso representar o Espírito, não na mesa, mas ao lado dela, tal como era quando vivo, e tal como o veríamos se, nesse momento, ele pudesse tornar-se visível. A mesma coisa ocorre nas comunicações pela escrita; veríamos o Espírito ao lado do médium, dirigindo-lhe a mão ou transmitindo-lhe o pensamento por uma corrente fluídica.

43Quando a mesa se destaca do chão e flutua no espaço sem ponto de apoio, o Espírito não a levanta à força de braços, mas a envolve e a penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o efeito da gravitação, como faz o ar com os balões e as pipas. O fluido de que ela está penetrada lhe dá momentaneamente uma leveza específica maior. Quando ela está pregada ao chão, encontra-se num caso análogo ao da campânula pneumática sob a qual se faz o vácuo. Estas não são aqui mais que comparações para mostrar a analogia dos efeitos, e não a semelhança absoluta das causas. (O Livro dos Médiuns, cap. IV.)
Compreende-se, por isso, que não é mais difícil ao Espírito levantar uma pessoa do que levantar uma mesa, transportar um objeto de um lugar para outro, ou lançá-lo a alguma parte; esses fenômenos se produzem pela mesma lei (1).
Quando a mesa persegue alguém, não é o Espírito que corre, pois ele pode permanecer tranquilamente no mesmo (1) Tal é o princípio do fenômeno dos transportes; fenômeno muito real, mas que convém só aceitar com extrema reserva, pois é um dos que mais se prestam à imitação e à trapaça. A honorabilidade irrecusável da pessoa que os obtém, o seu desinteresse absoluto, material e moral, e o concurso das circunstâncias acessórias devem ser tomados em séria consideração. É preciso sobretudo desconfiar da facilidade grande demais com que tais efeitos são produzidos, e ter por suspeitos os que se renovam com frequência excessiva e, por assim dizer, à vontade; os prestidigitadores fazem coisas mais extraordinárias.
O levantamento de uma pessoa é um fato não menos positivo, mas talvez muito mais raro, porque é mais difícil de imitar. É notório que o Sr. Home se elevou mais de uma vez até o teto, dando a volta da sala. Diz-se que São Cupertino tinha a mesma faculdade, o que não é mais miraculoso para um do que para o outro. lugar, mas lhe dá o impulso por uma corrente fluídica com o auxílio da qual a faz mover-se à sua vontade.
Quando pancadas se fazem ouvir na mesa ou em outra parte, o Espírito não bate nem com a mão nem com um objeto qualquer; dirige sobre o ponto de onde parte o ruído um jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico. Ele modifica o ruído, como se podem modificar os sons produzidos pelo ar (1).

44Um fenômeno muito frequente na mediunidade é a aptidão de certos médiuns para escrever numa língua que lhes é estranha; para tratar pela palavra ou pela escrita de assuntos fora do alcance da sua instrução. Não é raro ver alguns que escrevem correntemente sem ter aprendido a escrever; outros que fazem poesia sem jamais terem sabido fazer um verso na vida; outros desenham, pintam, esculpem, compõem música, tocam um instrumento, sem conhecer o desenho, a pintura, a escultura ou a ciência musical. É muito frequente que um médium escrevente reproduza, a ponto de enganar, a letra e a assinatura que os Espíritos que se comunicam por ele tinham quando vivos, embora nunca os tenha conhecido.
Esse fenômeno não é mais maravilhoso do que ver (1) Exemplos de manifestações materiais e de perturbações pelos Espíritos: Revista Espírita, moça dos Panoramas, janeiro de 1858, página 13; — senhorita Clairon, fevereiro de 1858, página 44; — Espírito batedor de Bergzabern, relato completo, maio, junho, julho de 1858, páginas 125, 153, 184; — Dibbelsdorf, agosto de 1858, página 219; — Padeiro de Dieppe, março de 1860, página 76; — Comerciante de São Petersburgo, abril de 1860, página 115; — rua des Noyers, agosto de 1860, p. 236; — Espírito batedor do Aube, janeiro de 1861, página 23; — Id. no século XVI, janeiro de 1864, página 32; — Poitiers, maio de 1864, página 156, e maio de 1865, página 134; — irmã Maria, junho de 1864, página 185; — Marselha, abril de 1865, página 121; — Fives, agosto de 1865, página 225; — os ratos de Équihem, fevereiro de 1866, página 55. uma criança escrever quando se lhe conduz a mão; pode-se assim fazê-la executar tudo o que se quer. Pode-se fazer qualquer pessoa escrever numa língua qualquer ditando-lhe as palavras letra por letra. Compreende-se que o mesmo possa acontecer na mediunidade, se se considerar a maneira pela qual os Espíritos se comunicam com os médiuns, que não são para eles, na realidade, mais que instrumentos passivos. Mas, se o médium possui o mecanismo, se venceu as dificuldades práticas, se as expressões lhe são familiares, se tem enfim no seu cérebro os elementos do que o Espírito quer fazê-lo executar, ele está na posição do homem que sabe ler e escrever correntemente; o trabalho é mais fácil e mais rápido; o Espírito só tem de transmitir o pensamento que o seu intérprete reproduz pelos meios de que dispõe.
A aptidão de um médium para coisas que lhe são estranhas se deve muitas vezes também aos conhecimentos que ele possuiu em outra existência, e dos quais o seu Espírito conservou a intuição. Se foi poeta ou músico, por exemplo, terá mais facilidade em assimilar o pensamento poético ou musical que se lhe quer fazer reproduzir. A língua que ele hoje ignora pode ter-lhe sido familiar em outra existência: daí, para ele, uma aptidão maior para escrever mediunicamente nessa língua (1).

45Os maus Espíritos pululam em torno da terra, em consequência da inferioridade moral dos seus habitantes. A sua ação malfazeja faz parte dos flagelos a que a humanidade está exposta aqui embaixo. A obsessão, que é um dos efeitos dessa ação, como as doenças e todas as tribulações da vida, deve, pois, ser considerada como uma prova ou uma expiação, e aceita como tal.
A obsessão é a ação persistente que um mau Espírito exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diferentes, desde a simples influência moral sem sinais exteriores sensíveis, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. Ela oblitera todas as faculdades mediúnicas; na mediunidade auditiva e psicográfica, traduz-se pela obstinação de um Espírito em manifestar-se com exclusão de todos os outros.

46Assim como as doenças são o resultado das imperfeições físicas que tornam o corpo acessível às influências perniciosas exteriores, a obsessão é sempre o de uma imperfeição moral que dá azo a um mau Espírito. A uma causa física opõe-se uma força física; a uma causa moral é preciso opor uma força moral. Para preservar das doenças, fortifica-se o corpo; para garantir contra a obsessão, é preciso fortificar a alma; daí, para o obsidiado, a necessidade de trabalhar pela própria melhoria, o que basta na maioria das vezes para livrá-lo do obsessor, sem o socorro de pessoas estranhas. Esse socorro torna-se necessário quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, pois então o paciente perde às vezes a sua vontade e o seu livre-arbítrio.
A obsessão é quase sempre obra de uma vingança exercida por um Espírito, e que na maioria das vezes tem a sua fonte nas relações que o obsidiado teve com ele numa existência precedente.
Nos casos de obsessão grave, o obsidiado está como que envolto e impregnado de um fluido pernicioso que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É desse fluido que é preciso livrá-lo; ora, um mau fluido não pode ser repelido por um mau fluido. Por uma ação idêntica à do médium curador nos casos de doença, é preciso expulsar o fluido mau com o auxílio de um fluido melhor.
Essa é a ação mecânica, mas que nem sempre basta; é preciso também, e sobretudo, agir sobre o ser inteligente, ao qual é preciso ter o direito de falar com autoridade, e essa autoridade só é dada à superioridade moral; quanto maior for esta, maior é a autoridade.
Isso ainda não é tudo; para assegurar a libertação, é preciso levar o Espírito perverso a renunciar aos seus maus desígnios; é preciso fazer nascer nele o arrependimento e o desejo do bem, com o auxílio de instruções habilmente dirigidas, em evocações particulares feitas em vista da sua educação moral; então se pode ter a dupla satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito.
A tarefa torna-se mais fácil quando o obsidiado, compreendendo a sua situação, traz o seu concurso de vontade e de prece; não é assim quando este, seduzido pelo Espírito enganador, se ilude quanto às qualidades do seu dominador e se compraz no erro em que este o mergulha; pois então, longe de secundar, repele toda assistência. É o caso da fascinação, sempre infinitamente mais rebelde que a subjugação mais violenta. (O Livro dos Médiuns, cap. XXI.)
Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso auxiliar para agir contra o Espírito obsessor.

47Na obsessão, o Espírito age exteriormente com o auxílio do seu perispírito, que identifica com o do encarnado; este se encontra então enlaçado como numa rede e constrangido a agir contra a sua vontade.
Na possessão, em vez de agir exteriormente, o Espírito livre se substitui, por assim dizer, ao Espírito encarnado; faz do corpo deste o seu domicílio, sem que, contudo, este o deixe definitivamente, o que só pode ocorrer na morte. A possessão é, pois, sempre temporária e intermitente, pois um Espírito desencarnado não pode tomar definitivamente o lugar de um Espírito encarnado, visto que a união molecular do perispírito e do corpo só se pode operar no momento da concepção. (Cap. XI, nº 18.)
O Espírito, em posse momentânea do corpo, serve-se dele como do seu próprio; fala pela sua boca, vê pelos seus olhos, age com os seus braços, como o teria feito quando vivo. Já não é como na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala transmitindo o pensamento de um Espírito desencarnado; é este mesmo que fala e que age, e, se o conhecemos quando vivo, reconhecemo-lo pela sua linguagem, pela sua voz, pelos seus gestos e até pela expressão da sua fisionomia.

48A obsessão é sempre obra de um Espírito malévolo. A possessão pode ser obra de um bom Espírito que quer falar e, para causar mais impressão nos seus ouvintes, toma emprestado o corpo de um encarnado, que este lhe empresta voluntariamente, como se empresta uma roupa. Isso se faz sem nenhuma perturbação nem mal-estar, e durante esse tempo o Espírito se encontra em liberdade como no estado de emancipação, e na maioria das vezes se mantém ao lado do seu substituto para escutá-lo.
Quando o Espírito possessor é mau, as coisas se passam de outro modo; ele não toma o corpo emprestado, apodera-se dele, se o titular não tem força moral para lhe resistir. Fá-lo por maldade para com este, que tortura e martiriza de todas as maneiras, até querer fazê-lo perecer, seja por estrangulamento, seja impelindo-o ao fogo ou a outros lugares perigosos. Servindo-se dos membros e dos órgãos do infeliz paciente, blasfema; injuria e maltrata os que o cercam; entrega-se a excentricidades e a atos que têm todos os caracteres da loucura furiosa.
Os fatos desse gênero, em diferentes graus de intensidade, são muito numerosos, e muitos casos de loucura não têm outra causa. Muitas vezes a eles se juntam desordens patológicas que são apenas consecutivas, e contra as quais os tratamentos médicos são impotentes enquanto subsiste a causa primeira. O Espiritismo, dando a conhecer essa fonte de uma parte das misérias humanas, indica o meio de remediá-la; esse meio é agir sobre o autor do mal, que, sendo um ser inteligente, deve ser tratado pela inteligência (1).

49A obsessão e a possessão são na maioria das vezes individuais; mas às vezes são epidêmicas. Quando uma nuvem de maus Espíritos se abate sobre uma localidade, é como quando uma tropa de inimigos vem invadi-la. Nesse caso, o número dos indivíduos atingidos pode ser considerável (2).

‹ XIII. Caracteres dos milagresXV. Os milagres do Evangelho ›

Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês

Fonte: Internet Archive — La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme (Paris, Librairie internationale, 1868), OCR corrigé avec les numérisations bub_gb_KzDGY2nT08AC et bub_gb_hupkPNggu5sC

Licença: Domínio público