A Gênese — XV. Os milagres do Evangelho
Ler no Une Sacra1Os fatos relatados no Evangelho, e que até aqui foram considerados miraculosos, pertencem, na maior parte, à ordem dos fenômenos psíquicos, isto é, dos que têm por causa primeira as faculdades e os atributos da alma. Aproximando-os dos que estão descritos e explicados no capítulo precedente, reconhece-se sem dificuldade que há entre eles identidade de causa e de efeito. A história mostra outros análogos em todos os tempos e em todos os povos, pela razão de que, desde que há almas encarnadas e desencarnadas, os mesmos efeitos devem ter-se produzido. Pode-se, é verdade, contestar nesse ponto a veracidade da história; mas hoje eles se produzem sob os nossos olhos, por assim dizer à vontade, e por indivíduos que nada têm de excepcional. O simples fato da reprodução de um fenômeno em condições idênticas basta para provar que é possível e submetido a uma lei, e que, desde então, não é miraculoso.
O princípio dos fenômenos psíquicos repousa, como se viu, nas propriedades do fluido perispiritual, que constitui o agente magnético; nas manifestações da vida espiritual durante a vida e depois da morte; enfim, no estado constitutivo dos Espíritos e no seu papel como força ativa da natureza. Conhecidos esses elementos e constatados os seus efeitos, têm por consequência fazer admitir a possibilidade de certos fatos que se rejeitavam quando se lhes atribuía uma origem sobrenatural.
2Sem nada prejulgar sobre a natureza do Cristo, que não entra no quadro desta obra examinar, considerando-o, por hipótese, apenas como um Espírito superior, não se pode deixar de reconhecer nele um dos da ordem mais elevada, colocado pelas suas virtudes muito acima da humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo só podia ser uma dessas missões que só são confiadas aos mensageiros diretos da Divindade para o cumprimento dos seus desígnios. Supondo que não fosse o próprio Deus, mas um enviado de Deus para transmitir a sua palavra, seria mais que um profeta, porque seria um Messias divino.
Como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas, como Espírito puro, desprendido da matéria, devia viver da vida espiritual mais que da vida corporal, cujas fraquezas não tinha. A sua superioridade sobre os homens não se prendia às qualidades particulares do seu corpo, mas às do seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à do seu perispírito, tirado da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres (cap. XIV, n.º 9). A sua alma só devia prender-se ao corpo pelos laços estritamente indispensáveis; constantemente desprendida, devia dar-lhe uma dupla vista não só permanente, mas de uma penetração excepcional e muito superior à que se vê nos homens ordinários. O mesmo devia dar-se com todos os fenômenos que dependem dos fluidos perispirituais ou psíquicos. A qualidade desses fluidos dava-lhe um imenso poder magnético, secundado pelo desejo incessante de fazer o bem.
Nas curas que operava, agia como médium? Pode-se considerá-lo um poderoso médium curador? Não; porque o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados. Ora, o Cristo não precisava de assistência, ele que assistia os outros; agia, pois, por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal, como podem fazê-lo os encarnados em certos casos e na medida das suas forças. Que Espírito, aliás, teria ousado insuflar-lhe os próprios pensamentos e encarregá-lo de transmiti-los? Se recebia um influxo estranho, só podia ser de Deus; segundo a definição dada por um Espírito, era médium de Deus.
3José, diz o Evangelho, foi advertido por um anjo que lhe apareceu em sonho e lhe disse que fugisse para o Egito com o menino. (São Mateus, cap. II, v. de 19 a 23.)
As advertências por sonhos desempenham um grande papel nos livros sagrados de todas as religiões. Sem garantir a exatidão de todos os fatos relatados e sem discuti-los, o fenômeno em si mesmo nada tem de anormal, quando se sabe que o tempo do sono é aquele em que o Espírito, desprendendo-se dos laços da matéria, volta momentaneamente à vida espiritual, onde se reencontra com os que conheceu. É muitas vezes esse o momento que os Espíritos protetores escolhem para se manifestarem aos seus protegidos e lhes darem conselhos mais diretos. Os exemplos autênticos de advertências por sonhos são numerosos; mas não se deveria inferir daí que todos os sonhos são advertências, e menos ainda que tudo o que se vê em sonho tem a sua significação. É preciso pôr entre as crenças supersticiosas e absurdas a arte de interpretar os sonhos. (Cap. XIV, n.º 27 e 28.)
4Diz-se que uma estrela apareceu aos magos que vieram adorar Jesus, que ela andou diante deles para lhes indicar o caminho e parou quando chegaram. (São Mateus, cap. II, v. de 1 a 12.)
A questão não é saber se o fato relatado por são Mateus é real, ou se é apenas uma figura para indicar que os magos foram guiados de maneira misteriosa ao lugar onde estava o Menino, visto que não existe nenhum meio de controle, mas sim se um fato dessa natureza é possível.
Uma coisa certa é que, nessa circunstância, a luz não podia ser uma estrela. Podia-se julgá-lo na época em que se pensava que as estrelas são pontos luminosos presos ao firmamento e que podem cair sobre a Terra; mas não hoje, que se conhece a sua natureza.
Por não ter a causa que se lhe atribui, o fato do aparecimento de uma luz com o aspecto de uma estrela não deixa de ser uma coisa possível. Um Espírito pode aparecer sob uma forma luminosa, ou transformar uma parte do seu fluido perispiritual num ponto luminoso. Vários fatos desse gênero, recentes e perfeitamente autênticos, não têm outra causa, e essa causa nada tem de sobrenatural.
5Entrada de Jesus em Jerusalém
Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, perto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois dos seus discípulos — e disse-lhes: Ide a essa aldeia que está diante de vós, e encontrareis logo, ao chegar, uma jumenta presa e o seu jumentinho junto dela; soltai-a e trazei-mos. — Se alguém vos disser alguma coisa, dizei-lhe que o Senhor precisa deles, e logo os deixará levar. — Ora, tudo isso se fez para que se cumprisse esta palavra do profeta: — Dizei à filha de Sião: Eis o vosso rei, que vem a vós, cheio de mansidão, montado numa jumenta e no jumentinho daquela que está sob o jugo.
Os discípulos foram, pois, e fizeram o que Jesus lhes tinha mandado. — E, tendo trazido a jumenta e o jumentinho, cobriram-nos com as suas vestes e fizeram-no montar neles. (São Mateus, cap. XXI, v. de 1 a 7.)
6Beijo de Judas
Levantai-vos, vamos; aquele que deve trair-me está perto daqui. — Ainda não acabara essas palavras, quando Judas, um dos doze, chegou, e com ele uma tropa de gente armada de espadas e de paus, que tinham sido enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. — Ora, aquele que o traía tinha-lhes dado um sinal para reconhecê-lo, dizendo-lhes: Aquele a quem eu beijar, é esse mesmo que procurais; prendei-o. — Logo, pois, aproximou-se de Jesus e disse-lhe: Mestre, eu vos saúdo; e beijou-o. — Jesus respondeu-lhe: Meu amigo, que viestes fazer aqui? E ao mesmo tempo todos os outros, avançando, lançaram-se sobre Jesus e prenderam-no. (São Mateus, cap. XXVI, v. de 46 a 50.)
7Pesca miraculosa
Um dia em que Jesus estava à beira do lago de Genesaré, achando-se oprimido pela multidão do povo, que se apertava para ouvir a palavra de Deus, — viu dois barcos parados à beira do lago, dos quais os pescadores tinham descido e lavavam as suas redes. — Entrou, pois, num desses barcos, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra; e, tendo-se sentado, ensinava o povo de dentro do barco.
Quando acabou de falar, disse a Simão: Avançai para o largo e lançai as vossas redes para pescar. — Simão respondeu-lhe: Mestre, trabalhamos toda a noite sem nada apanhar; mas, não obstante, sobre a vossa palavra lançarei a rede. — Tendo-a, pois, lançado, apanharam tão grande quantidade de peixes que a rede se rompia. — E fizeram sinal aos seus companheiros, que estavam no outro barco, para que viessem ajudá-los. Vieram, e encheram de tal modo os barcos que pouco faltava para que fossem ao fundo. (São Lucas, cap. V, v. de 1 a 7.)
8Vocação de Pedro, André, Tiago, João e Mateus
Ora, Jesus, andando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores; — e disse-lhes: Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens. — Logo eles deixaram as redes e o seguiram.
Dali, avançando, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam num barco com Zebedeu, seu pai, e consertavam as redes; e chamou-os. — No mesmo instante eles deixaram as redes e o pai, e seguiram-no. (São Mateus, cap. IV, v. de 18 a 22.)
Jesus, saindo dali, viu, ao passar, um homem sentado no posto de impostos, chamado Mateus, a quem disse: Segue-me; e ele logo se levantou e o seguiu. (São Mateus, cap. IX, v. 9.)
9Esses fatos nada têm de surpreendente quando se conhece o poder da dupla vista e a causa muito natural dessa faculdade. Jesus possuía-a em grau supremo, e pode-se dizer que era o seu estado normal, o que atesta grande número de atos da sua vida e o que explicam hoje os fenômenos magnéticos e o Espiritismo.
A pesca qualificada de miraculosa explica-se igualmente pela dupla vista. Jesus não produziu espontaneamente peixes onde não os havia; viu, como teria podido fazê-lo um lúcido em vigília, pela vista da alma, o lugar onde eles se encontravam, e pôde dizer com segurança aos pescadores que lançassem ali as suas redes.
A penetração do pensamento e, por conseguinte, certas previsões são consequência da vista espiritual. Quando Jesus chama a si Pedro, André, Tiago, João e Mateus, era preciso que conhecesse as suas disposições íntimas para saber que o seguiriam e que eram capazes de cumprir a missão de que devia encarregá-los. Era preciso que eles mesmos tivessem a intuição dessa missão para se entregarem a ele. O mesmo se dá quando, no dia da Ceia, anuncia que um dos doze o trairá e o designa dizendo que é aquele que põe a mão no prato, e quando diz que Pedro o negará.
Em muitos lugares do Evangelho, está dito: «Mas Jesus, conhecendo o pensamento deles, disse-lhes...» Ora, como podia conhecer o pensamento deles, senão ao mesmo tempo pela irradiação fluídica que lhe trazia esse pensamento e pela vista espiritual que lhe permitia ler no foro íntimo dos indivíduos?
Muitas vezes, quando se julga um pensamento profundamente sepultado nas dobras da alma, não se suspeita que se traz em si um espelho que o reflete, um revelador na própria irradiação fluídica, que está impregnada dele. Se se visse o mecanismo do mundo invisível que nos cerca, as ramificações desses fios condutores do pensamento que ligam todos os seres inteligentes, corporais e incorporais, os eflúvios fluídicos carregados das impressões do mundo moral e que, como correntes aéreas, atravessam o espaço, ficar-se-ia menos surpreendido com certos efeitos que a ignorância atribui ao acaso. (Cap. XIV, n.º 22 e seguintes.)
10Perda de sangue
Então uma mulher, doente de uma perda de sangue havia doze anos, — que sofrera muito nas mãos de vários médicos e que, tendo gasto todos os seus bens, não recebera deles nenhum alívio, mas sempre se achara pior, — tendo ouvido falar de Jesus, veio pela multidão por trás e tocou-lhe a veste; porque dizia: Se eu puder somente tocar a sua veste, ficarei curada. — No mesmo instante, a fonte do sangue que perdia secou, e ela sentiu no corpo que estava curada daquela doença.
Logo Jesus, conhecendo em si mesmo a virtude que saíra dele, voltou-se no meio da multidão e disse: Quem tocou as minhas vestes? — Os seus discípulos disseram-lhe: Vedes que a multidão vos aperta de todos os lados, e perguntais quem vos tocou? — E ele olhava em torno de si para ver aquela que o tinha tocado.
Mas essa mulher, que sabia o que se passara nela, tomada de temor e de espanto, veio lançar-se aos seus pés e declarou-lhe toda a verdade. — E Jesus disse-lhe: Minha filha, a vossa fé vos salvou; ide em paz e ficai curada da vossa doença. (São Marcos, cap. V, v. de 25 a 34.)
11Estas palavras: «Conhecendo em si mesmo a virtude que saíra dele» são significativas; exprimem o movimento fluídico que se operava de Jesus para a mulher doente; ambos sentiram a ação que acabava de produzir-se. É notável que o efeito não foi provocado por nenhum ato da vontade de Jesus; não houve nem magnetização nem imposição das mãos. A irradiação fluídica normal bastou para operar a cura.
Mas por que essa irradiação se dirigiu para essa mulher e não para outras, se Jesus não pensava nela e estava cercado pela multidão?
A razão é bem simples. O fluido, sendo dado como matéria terapêutica, deve atingir a desordem orgânica para repará-la; pode ser dirigido sobre o mal pela vontade do curador, ou atraído pelo desejo ardente, pela confiança, numa palavra, pela fé do doente. Em relação à corrente fluídica, o primeiro faz o efeito de uma bomba premente, e o segundo, de uma bomba aspirante. Às vezes a simultaneidade dos dois efeitos é necessária; outras vezes, um só basta; foi o segundo que se deu nessa circunstância.
Jesus tinha, pois, razão em dizer: «A vossa fé vos salvou.» Compreende-se que aqui a fé não é a virtude mística tal como certas pessoas a entendem, mas uma verdadeira força atrativa, ao passo que aquele que não a tem opõe à corrente fluídica uma força repulsiva, ou pelo menos uma força de inércia que paralisa a ação.
Compreende-se por aí que, de dois doentes atingidos pelo mesmo mal, em presença de um curador, um possa ser curado e o outro não. É esse um dos princípios mais importantes da mediunidade curadora, e que explica, por uma causa muito natural, certas anomalias aparentes. (Cap. XIV, n.º 31, 32, 33.)
12Cego de Betsaida
Tendo chegado a Betsaida, trouxeram-lhe um cego, a quem pediram que tocasse.
E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; pôs-lhe saliva nos olhos e, tendo-lhe imposto as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa. — Esse homem, olhando, disse-lhe: Vejo andar homens, que me parecem como árvores. — Jesus pôs-lhe ainda uma vez as mãos sobre os olhos, e ele começou a ver melhor; e enfim ficou tão bem curado que via distintamente todas as coisas.
Mandou-o em seguida para casa e disse-lhe: Ide para a vossa casa; e, se entrardes na aldeia, não digais a ninguém o que vos aconteceu. (São Marcos, cap. VIII, v. de 22 a 26.)
13Aqui o efeito magnético é evidente; a cura não foi instantânea, mas gradual e em consequência de uma ação sustentada e reiterada, embora mais rápida que na magnetização ordinária. A primeira sensação desse homem é bem a que sentem os cegos ao recuperarem a luz; por um efeito de óptica, os objetos parecem-lhes de um tamanho desmedido.
14Paralítico
Jesus, tendo subido num barco, tornou a passar o lago e veio à sua cidade (Cafarnaum). — E, como lhe tivessem apresentado um paralítico deitado num leito, Jesus, vendo a fé deles, disse a esse paralítico: Meu filho, tende confiança; os vossos pecados vos são perdoados.
Logo alguns dos escribas disseram consigo: Este homem blasfema. — Mas Jesus, tendo conhecido o que pensavam, disse-lhes: Por que tendes maus pensamentos nos vossos corações? — Pois o que é mais fácil: dizer: Os vossos pecados vos são perdoados, ou dizer: Levantai-vos e andai? — Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados: Levantai-vos, disse então ao paralítico; levai o vosso leito e ide para a vossa casa.
O paralítico levantou-se logo e foi para a sua casa. — E o povo, vendo esse milagre, encheu-se de temor e deu glória a Deus por ter dado tal poder aos homens. (São Mateus, cap. IX, v. de 1 a 8.)
15Que podiam significar estas palavras: «Os vossos pecados vos serão perdoados», e de que podiam servir para a cura? O Espiritismo dá a chave delas, como de uma infinidade de outras palavras incompreendidas até hoje; ensina-nos, pela lei da pluralidade das existências, que os males e as aflições da vida são muitas vezes expiações do passado, e que sofremos na vida presente as consequências das faltas que cometemos numa existência anterior, sendo as diferentes existências solidárias umas das outras, até que se tenha pago a dívida das próprias imperfeições.
Se, pois, a doença desse homem era uma punição pelo mal que ele pudera cometer, dizer-lhe: «Os vossos pecados vos são perdoados» era dizer-lhe: «Pagastes a vossa dívida; a causa da vossa doença está apagada pela vossa fé presente; em consequência, mereceis ser libertado da vossa doença.» É por isso que diz aos escribas: «É tão fácil dizer: Os vossos pecados vos são perdoados, quanto: Levantai-vos e andai»; cessando a causa, o efeito deve cessar. O caso é o mesmo que o de um prisioneiro a quem se viesse dizer: «O vosso crime está expiado e perdoado», o que equivaleria a dizer-lhe: «Podeis sair da prisão.»
16Os dez leprosos
Um dia em que ia a Jerusalém e passava pelos confins da Samaria e da Galileia, — estando para entrar numa aldeia, dez leprosos vieram ao seu encontro; e, conservando-se afastados, levantaram a voz e disseram-lhe: Jesus, nosso Mestre, tende piedade de nós. — Quando os viu, disse-lhes: Ide mostrar-vos aos sacerdotes. E, enquanto iam, ficaram curados.
Um deles, vendo que estava curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz; — e veio lançar-se aos pés de Jesus, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e esse era samaritano.
Então Jesus disse: Não foram curados todos os dez? Onde estão, pois, os outros nove? — Não se achou nenhum que tenha voltado e dado glória a Deus, senão este estrangeiro. — E disse-lhe: Levanta-te; vai, a tua fé te salvou. (São Lucas, cap. XVII, v. de 11 a 19.)
17Os samaritanos eram cismáticos, mais ou menos como os protestantes em relação aos católicos, e desprezados pelos judeus como hereges. Jesus, curando indistintamente os samaritanos e os judeus, dava ao mesmo tempo uma lição e um exemplo de tolerância; e, fazendo ressaltar que só o samaritano voltara para dar glória a Deus, mostrava que havia nele mais fé verdadeira e mais reconhecimento do que nos que se diziam ortodoxos. Acrescentando: «A tua fé te salvou», faz ver que Deus olha o fundo do coração, e não a forma exterior da adoração. Entretanto, os outros foram curados; era preciso, para a lição que queria dar e para provar a sua ingratidão; mas quem sabe o que terá resultado disso, e se terão beneficiado do favor que lhes fora concedido? Dizendo ao samaritano: «A tua fé te salvou», Jesus dá a entender que não se dará o mesmo com os outros.
18Mão seca
Jesus entrou outra vez na sinagoga, onde encontrou um homem que tinha uma mão seca. — E observavam-no para ver se o curaria num dia de sábado, a fim de terem motivo para acusá-lo. — Então disse a esse homem que tinha uma mão seca: Levantai-vos, ficai aí no meio. — Depois disse-lhes: É permitido, no dia de sábado, fazer o bem ou o mal, salvar a vida ou tirá-la? E eles ficaram em silêncio. — Mas ele, olhando-os com cólera, aflito como estava pela cegueira do seu coração, disse a esse homem: Estendei a vossa mão. Ele a estendeu, e ela ficou sã.
Logo os fariseus, tendo saído, tiveram conselho contra ele com os herodianos, sobre o meio de perdê-lo. — Mas Jesus retirou-se com os seus discípulos para o mar, onde uma grande multidão de povo o seguiu da Galileia e da Judeia, — de Jerusalém, da Idumeia e de além do Jordão; e os das cercanias de Tiro e de Sídon, tendo ouvido falar das coisas que fazia, vieram em grande número ao seu encontro. (São Marcos, cap. III, v. de 1 a 8.)
19A mulher encurvada
Jesus ensinava numa sinagoga todos os dias de sábado. — E um dia viu nela uma mulher possuída de um Espírito que a tornava doente havia dezoito anos; e estava tão encurvada que não podia de modo algum olhar para cima. — Jesus, vendo-a, chamou-a e disse-lhe: Mulher, estais livre da vossa enfermidade. — Ao mesmo tempo impôs-lhe as mãos; e, sendo logo endireitada, ela deu glória a Deus.
Mas o chefe da sinagoga, indignado por Jesus a ter curado num dia de sábado, disse ao povo: Há seis dias destinados ao trabalho; vinde nesses dias para serdes curados, e não nos dias de sábado.
O Senhor, tomando a palavra, disse-lhe: Hipócritas, haverá algum de vós que não solte o seu boi ou o seu jumento da manjedoura no dia de sábado e não o leve a beber? — Por que, então, não se devia libertar das suas cadeias, num dia de sábado, esta filha de Abraão, que Satanás tinha mantido assim presa durante dezoito anos?
A essas palavras, todos os seus adversários ficaram confundidos, e todo o povo estava encantado de vê-lo fazer tantas ações gloriosas. (São Lucas, cap. XIII, v. de 10 a 17.)
20Esse fato prova que, nessa época, a maior parte das doenças era atribuída ao demônio, e que se confundiam, como hoje, os possessos com os doentes, mas em sentido inverso; isto é, hoje os que não creem nos maus Espíritos confundem as obsessões com as doenças patológicas.
21Paralítico da piscina
Depois disso, tendo chegado a festa dos judeus, Jesus foi a Jerusalém. — Ora, havia em Jerusalém a piscina das Ovelhas, que se chama em hebraico Betsaida, que tinha cinco galerias, — nas quais estavam deitados grande número de doentes, de cegos, de coxos e dos que tinham os membros ressequidos, que todos esperavam que a água fosse agitada. — Porque o anjo do Senhor, em certo tempo, descia a essa piscina e agitava a sua água; e aquele que entrava primeiro, depois que a água tinha sido assim agitada, ficava curado, qualquer que fosse a doença que tivesse.
Ora, havia ali um homem que estava doente havia trinta e oito anos. — Jesus, tendo-o visto deitado e sabendo que estava doente havia muito tempo, disse-lhe: Quereis ser curado? — O doente respondeu: Senhor, não tenho ninguém que me lance na piscina depois que a água foi agitada; e, durante o tempo que levo para ir, outro desce antes de mim. — Jesus disse-lhe: Levantai-vos, levai o vosso leito e andai. — No mesmo instante esse homem ficou curado; e, tomando o seu leito, começou a andar. Ora, esse dia era um dia de sábado.
Os judeus disseram, pois, ao que fora curado: Hoje é sábado; não vos é permitido levar o vosso leito. — Ele respondeu-lhes: Aquele que me curou disse-me: Levai o vosso leito e andai. — Perguntaram-lhe: Quem é, pois, esse homem que vos disse: Levai o vosso leito e andai? — Mas o que fora curado não sabia ele mesmo quem era, porque Jesus se retirara da multidão do povo que estava ali.
Depois, Jesus encontrou esse homem no templo e disse-lhe: Vedes que estais curado; não pequeis mais daqui em diante, para que não vos aconteça algo pior.
Esse homem foi ter com os judeus e disse-lhes que fora Jesus quem o curara. — E foi por essa razão que os judeus perseguiam Jesus, porque fazia essas coisas no dia de sábado. — Então Jesus disse-lhes: Meu Pai não cessa de agir até agora, e eu ajo também incessantemente. (São João, cap. V, v. de 1 a 17.)
22Piscina (do latim piscis, peixe) dizia-se, entre os romanos, dos reservatórios ou viveiros onde se criavam peixes. Mais tarde, a acepção dessa palavra foi estendida aos tanques onde as pessoas se banhavam em comum.
A piscina de Betsaida, em Jerusalém, era uma cisterna, perto do Templo, alimentada por uma fonte natural, cuja água parece ter tido propriedades curativas. Era sem dúvida uma fonte intermitente, que, em certas épocas, jorrava com força e agitava a água. Segundo a crença vulgar, esse momento era o mais favorável às curas; talvez na realidade, no momento da sua saída, a água tivesse uma propriedade mais ativa, ou a agitação produzida pela água que jorrava revolvesse o lodo salutar em certas doenças. Esses efeitos são muito naturais e perfeitamente conhecidos hoje; mas então as ciências eram pouco adiantadas, e via-se uma causa sobrenatural na maior parte dos fenômenos incompreendidos. Os judeus atribuíam, pois, a agitação dessa água à presença de um anjo, e essa crença parecia-lhes tanto mais bem fundada quanto, nesse momento, a água era mais salutar.
Depois de ter curado esse homem, Jesus disse-lhe: «Daqui em diante não pequeis mais, para que não vos aconteça algo pior.» Por essas palavras, dá-lhe a entender que a sua doença era uma punição e que, se ele não se melhorar, poderá ser de novo punido ainda mais rigorosamente. Essa doutrina é inteiramente conforme à que o Espiritismo ensina.
23Jesus parecia empenhar-se em operar as suas curas no dia de sábado, para ter ocasião de protestar contra o rigorismo dos fariseus acerca da observação desse dia. Queria mostrar-lhes que a verdadeira piedade não consiste na observância das práticas exteriores e das coisas de forma, mas que está nos sentimentos do coração. Justifica-se dizendo: «Meu Pai não cessa de agir até agora, e eu ajo também incessantemente»; isto é, Deus não suspende as suas obras nem a sua ação sobre as coisas da natureza no dia de sábado; continua a fazer produzir o que é necessário ao vosso alimento e à vossa saúde, e eu sigo o seu exemplo.
24Cego de nascença
Quando Jesus passava, viu um homem que era cego desde o nascimento; — e os seus discípulos fizeram-lhe esta pergunta: Mestre, é o pecado deste homem, ou o pecado dos que o puseram no mundo, que é causa de ter nascido cego?
Jesus respondeu-lhes: Não é que ele tenha pecado, nem os que o puseram no mundo; mas é para que as obras do poder de Deus resplandeçam nele. — É preciso que eu faça as obras daquele que me enviou enquanto é dia; vem a noite, na qual ninguém pode agir. — Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.
Depois de ter dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lama com a saliva, ungiu com essa lama os olhos do cego, — e disse-lhe: Ide lavar-vos na piscina de Siloé, que significa Enviado. Ele foi, pois, lavou-se ali e voltou vendo claro.
Os seus vizinhos e os que o tinham visto antes pedir esmola diziam: Não é esse o que estava sentado e pedia esmola? Uns respondiam: É ele; — outros diziam: Não, é um que se parece com ele. Mas ele dizia-lhes: Sou eu mesmo. — Disseram-lhe, pois: Como se abriram os vossos olhos? — Ele respondeu-lhes: Esse homem a quem chamam Jesus fez lama e ungiu com ela os meus olhos, e disse-me: Ide à piscina de Siloé e lavai-vos ali. Fui, lavei-me e vejo. — Disseram-lhe: Onde está ele? Respondeu-lhes: Não sei.
Então levaram aos fariseus esse homem que fora cego. — Ora, era dia de sábado quando Jesus fizera essa lama e lhe abrira os olhos.
Os fariseus interrogaram-no, pois, também eles, para saber como recuperara a vista. E ele disse-lhes: Pôs-me lama sobre os olhos; lavei-me e vejo. — Sobre o que alguns dos fariseus disseram: Este homem não é enviado de Deus, pois não guarda o sábado. Mas outros diziam: Como poderia um homem mau fazer tais prodígios? E havia sobre isso divisão entre eles.
Disseram, pois, de novo ao cego: E tu, que dizes desse homem que te abriu os olhos? Ele respondeu: Digo que é um profeta. — Mas os judeus não creram que esse homem tivesse sido cego e tivesse recuperado a vista, até que fizeram vir o seu pai e a sua mãe, — a quem interrogaram, dizendo-lhes: É este o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como, então, vê agora? — O pai e a mãe responderam: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; — mas não sabemos como vê agora, e também não sabemos quem lhe abriu os olhos. Interrogai-o; tem idade, que responda por si mesmo.
O seu pai e a sua mãe falavam assim porque temiam os judeus; porque os judeus já tinham resolvido juntos que quem quer que reconhecesse Jesus como o Cristo seria expulso da sinagoga. — Foi o que obrigou o pai e a mãe a responderem: Tem idade, interrogai-o a ele mesmo.
Chamaram, pois, uma segunda vez esse homem que fora cego e disseram-lhe: Dá glória a Deus; sabemos que esse homem é um pecador. — Ele respondeu-lhes: Se é um pecador, nada sei; mas tudo o que sei é que eu era cego e agora vejo. — Disseram-lhe ainda: Que te fez ele, e como te abriu os olhos? — Ele respondeu-lhes: Já vo-lo disse, e ouvistes; por que quereis ouvi-lo mais uma vez? Acaso quereis tornar-vos discípulos dele? — Sobre o que o cobriram de injúrias e lhe disseram: Sê tu mesmo discípulo dele; quanto a nós, somos discípulos de Moisés. — Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, quanto a este, não sabemos de onde saiu.
Esse homem respondeu-lhes: É de espantar que não saibais de onde ele é, e que me tenha aberto os olhos. — Ora, sabemos que Deus não atende os pecadores; mas, se alguém o honra e faz a sua vontade, é a esse que ele atende. — Desde que o mundo existe, nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. — Se esse homem não fosse enviado de Deus, não poderia fazer nada de tudo o que fez.
Responderam-lhe: Tu és todo pecado desde o ventre da tua mãe, e queres ensinar-nos? E expulsaram-no. (São João, cap. IX, v. de 1 a 34.)
25Esse relato, tão simples e tão ingênuo, traz em si um caráter evidente de verdade. Nada de fantástico nem de maravilhoso; é uma cena da vida real apanhada no ato. A linguagem desse cego é bem a desses homens simples nos quais o saber é suprido pelo bom senso, e que retorquem os argumentos dos seus adversários com bonomia e com razões que não carecem nem de justeza nem de propósito. O tom dos fariseus não é o desses orgulhosos que nada admitem acima da sua inteligência e se indignam ao simples pensamento de que um homem do povo possa dar-lhes lições? Salvo a cor local dos nomes, julgar-se-ia estar no nosso tempo.
Ser expulso da sinagoga equivalia a ser posto fora da Igreja; era uma espécie de excomunhão. Os espíritas, cuja doutrina é a do Cristo interpretada segundo o progresso das luzes atuais, são tratados como os judeus que reconheciam Jesus como o Messias; excomungando-os, põem-nos fora da Igreja, como fizeram os escribas e os fariseus com os partidários de Jesus. Assim, eis um homem que é expulso porque não pode crer que aquele que o curou seja um pecador e um possesso do demônio, e porque glorifica a Deus pela sua cura! Não é o que se faz com os espíritas? O que eles obtêm — sábios conselhos dos Espíritos, retorno a Deus e ao bem, curas —, tudo é obra do diabo, e lança-se-lhes o anátema. Não se viram padres dizer, do alto do púlpito, que mais valia permanecer incrédulo do que voltar à fé pelo Espiritismo? Não se viram outros dizer a doentes que não deviam deixar-se curar pelos espíritas que possuem esse dom, porque é um dom satânico? Que diziam e que faziam de mais os sacerdotes judeus e os fariseus? De resto, está dito que tudo deve passar-se hoje como no tempo do Cristo.
Esta pergunta dos discípulos: É o pecado deste homem que é causa de ter nascido cego? indica a intuição de uma existência anterior; de outro modo não teria sentido; porque o pecado que fosse a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e, por conseguinte, numa existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa, ter-lhes-ia dito: «Como poderia esse homem ter pecado antes de ter nascido?» Em vez disso, diz-lhes que, se esse homem é cego, não é que tenha pecado, mas para que o poder de Deus resplandeça nele; isto é, devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se não era uma expiação do passado, era uma prova que devia servir ao seu adiantamento, porque Deus, que é justo, não podia impor-lhe um sofrimento sem compensação.
Quanto ao meio empregado para curá-lo, é evidente que a espécie de lama feita com saliva e terra só podia ter virtude pela ação do fluido curador de que estava impregnada; é assim que as substâncias mais insignificantes, a água, por exemplo, podem adquirir qualidades poderosas e efetivas sob a ação do fluido espiritual ou magnético, a que servem de veículo ou, se quiserem, de reservatório.
26Numerosas curas de Jesus
Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todos os langores e todas as doenças entre o povo. — E, tendo-se espalhado a sua fama por toda a Síria, apresentavam-lhe todos os que estavam doentes e diversamente afligidos de males e de dores, os possessos, os lunáticos, os paralíticos, e ele os curava; — e uma grande multidão de povo seguiu-o da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão. (São Mateus, cap. IV, v. 23, 24, 25.)
27De todos os fatos que dão testemunho do poder de Jesus, os mais numerosos são, sem contradita, as curas; queria provar com isso que o verdadeiro poder é o que faz o bem, que o seu fim era tornar-se útil, e não satisfazer a curiosidade dos indiferentes com coisas extraordinárias.
Aliviando o sofrimento, prendia a si as pessoas pelo coração e fazia prosélitos mais numerosos e mais sinceros do que se só tivessem sido impressionados pelo espetáculo dos olhos. Por esse meio fazia-se amar, ao passo que, se se tivesse limitado a produzir efeitos materiais surpreendentes, como lhe pediam os fariseus, a maior parte só teria visto nele um feiticeiro ou um hábil prestidigitador, que os ociosos teriam ido ver para se distrair.
Assim, quando João Batista lhe envia os seus discípulos para lhe perguntar se ele é o Cristo, não diz: «Sou eu», porque todo impostor poderia ter dito o mesmo; não lhes fala nem de prodígios nem de coisas maravilhosas, mas responde-lhes simplesmente: «Ide dizer a João: Os cegos veem, os doentes são curados, os surdos ouvem, o Evangelho é anunciado aos pobres.» Era dizer-lhe: «Reconhecei-me pelas minhas obras, julgai a árvore pelo seu fruto», porque aí está o verdadeiro caráter da sua missão divina.
28É também pelo bem que faz que o Espiritismo prova a sua missão providencial. Cura os males físicos, mas cura sobretudo as doenças morais, e esses são os maiores prodígios pelos quais se afirma. Os seus adeptos mais sinceros não são os que só foram impressionados pela vista de fenômenos extraordinários, mas os que foram tocados no coração pela consolação; os que foram libertados das torturas da dúvida; aqueles cuja coragem foi levantada nas aflições, que tiraram a força da certeza do futuro que ele lhes veio trazer, do conhecimento do seu ser espiritual e do seu destino. Eis aqueles cuja fé é inabalável, porque sentem e compreendem.
Os que só veem no Espiritismo efeitos materiais não podem compreender o seu poder moral; por isso os incrédulos, que só o conhecem por fenômenos cuja causa primeira não admitem, só veem nos espíritas prestidigitadores e charlatães. Não é, pois, por prodígios que o Espiritismo triunfará da incredulidade; é multiplicando os seus benefícios morais; porque, se os incrédulos não admitem os prodígios, conhecem, como toda a gente, o sofrimento e as aflições, e ninguém recusa os alívios e as consolações. (Cap. XIV, n.º 30.)
29Vieram em seguida a Cafarnaum; e Jesus, entrando logo, no dia de sábado, na sinagoga, instruía-os; — e estavam espantados com a sua doutrina, porque os instruía como quem tem autoridade, e não como os escribas.
Ora, encontrou-se na sinagoga um homem possuído de um Espírito impuro, que gritou, — dizendo: Que há entre vós e nós, Jesus de Nazaré? Viestes para nos perder? Sei quem sois: sois o santo de Deus. — Mas Jesus, falando-lhe com ameaça, disse-lhe: Cala-te e sai deste homem.
— Então o Espírito impuro, agitando-se com violentas convulsões e soltando um grande grito, saiu dele.
Todos ficaram tão surpreendidos que se perguntavam uns aos outros: Que é isto? E que nova doutrina é esta? Ele manda com império até nos Espíritos impuros, e eles lhe obedecem. (São Marcos, cap. I, v. de 21 a 27.)
30Depois que saíram, apresentaram-lhe um homem mudo possuído do demônio. — Tendo sido expulso o demônio, o mudo falou, e o povo ficou admirado, e diziam: Nunca se viu nada semelhante em Israel.
Mas os fariseus diziam, ao contrário: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios. (São Mateus, cap. IX, v. 32 a 34.)
31Quando chegou ao lugar onde estavam os outros discípulos, viu uma grande multidão de pessoas em torno deles, e escribas que disputavam com eles. — Logo todo o povo, tendo avistado Jesus, foi tomado de espanto e de temor; e, correndo, saudaram-no.
Então perguntou-lhes: Sobre o que disputais juntos? — E um homem do povo, tomando a palavra, disse-lhe: Mestre, trouxe-vos o meu filho, que está possuído de um Espírito mudo; — e, em qualquer lugar em que se apodera dele, lança-o por terra, e o menino escuma, range os dentes e fica todo ressequido. Pedi aos vossos discípulos que o expulsassem, mas não puderam.
Jesus respondeu-lhes: Ó gente incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei? Trazei-mo.
— Trouxeram-lho; e, mal viu Jesus, o Espírito começou a agitá-lo com violência, e ele caiu por terra, onde rolava escumando.
Jesus perguntou ao pai do menino: Há quanto tempo isso lhe acontece? Desde a infância, disse o pai. — E o Espírito lançou-o muitas vezes ora no fogo, ora na água, para fazê-lo perecer; mas, se podeis alguma coisa, tende compaixão de nós e socorrei-nos.
Jesus respondeu-lhe: Se podeis crer, tudo é possível àquele que crê. — Logo o pai do menino, exclamando, disse-lhe com lágrimas: Senhor, eu creio; ajudai-me na minha incredulidade.
E Jesus, vendo que o povo acorria em multidão, falou com ameaças ao Espírito impuro e disse-lhe: Espírito surdo e mudo, sai do menino, eu te ordeno, e não tornes a entrar nele. — Então esse Espírito, tendo soltado um grande grito e tendo-o agitado com violentas convulsões, saiu, e o menino ficou como morto, de sorte que muitos diziam que estava morto. — Mas Jesus, tendo-o tomado pela mão e levantando-o, ele se ergueu.
Quando Jesus entrou na casa, os seus discípulos disseram-lhe em particular: Por que não pudemos expulsar esse demônio? — Ele respondeu-lhes: Essa espécie de demônios não pode ser expulsa por nenhum outro meio senão pela prece e pelo jejum. (São Marcos, cap. IX, v. de 13 a 28.)
32Então apresentaram-lhe um possesso cego e mudo, e ele o curou, de sorte que começou a falar e a ver. — Todo o povo ficou cheio de admiração, e diziam: Não é este o filho de Davi?
Mas os fariseus, ouvindo isso, diziam: Este homem só expulsa os demônios pela virtude de Belzebu, príncipe dos demônios.
Ora, Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa que está dividida contra si mesma não poderá subsistir. — Se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo; como, então, subsistirá o seu reino? — E, se é por Belzebu que eu expulso os demônios, por quem os expulsam os vossos filhos? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. — Se expulso os demônios pelo Espírito de Deus, o reino de Deus chegou, pois, até vós. (São Mateus, cap. XII, v. 22 a 28.)
33As libertações de possessos figuram, com as curas, entre os atos mais numerosos de Jesus. Entre os fatos dessa natureza, há os que, como o que foi relatado acima, n.º 30, a possessão não é evidente. É provável que, nessa época, como ainda acontece nos nossos dias, se atribuíssem à influência dos demônios todas as doenças cuja causa era desconhecida, principalmente a mudez, a epilepsia e a catalepsia. Mas há outros em que a ação dos maus Espíritos não é duvidosa; têm com os de que somos testemunhas uma analogia tão impressionante que se reconhecem neles todos os sintomas desse gênero de afecção. A prova da participação de uma inteligência oculta, em semelhante caso, ressalta de um fato material: são as numerosas curas radicais obtidas, em alguns centros espíritas, pela simples evocação e moralização dos Espíritos obsessores, sem magnetização nem medicamentos, e muitas vezes na ausência e a distância do paciente. A imensa superioridade do Cristo dava-lhe tal autoridade sobre os Espíritos imperfeitos, então chamados demônios, que lhe bastava ordenar-lhes que se retirassem para que não pudessem resistir a essa injunção. (Cap. XIV, n.º 46.)
34O fato de maus Espíritos enviados ao corpo de porcos é contrário a toda probabilidade. Um mau Espírito não deixa de ser um Espírito humano, ainda bastante imperfeito para fazer o mal depois da morte como o fazia antes, e é contra as leis da natureza que possa animar o corpo de um animal; é preciso, pois, ver nisso uma dessas amplificações de um fato real, comuns nos tempos de ignorância e de superstição, ou talvez uma alegoria para caracterizar as inclinações imundas de certos Espíritos.
35Os obsidiados e os possessos parecem ter sido muito numerosos na Judeia no tempo de Jesus, o que lhe dava ocasião de curar muitos deles. Os maus Espíritos tinham sem dúvida invadido esse país e causado uma epidemia de possessões. (Cap. XIV, n.º 49.)
Sem estarem em estado epidêmico, as obsessões individuais são extremamente frequentes e apresentam-se sob aspectos muito variados, que um conhecimento aprofundado do Espiritismo faz reconhecer facilmente; podem muitas vezes ter consequências lamentáveis para a saúde, seja agravando afecções orgânicas, seja determinando-as. Serão incontestavelmente um dia classificadas entre as causas patológicas que requerem, pela sua natureza especial, meios curativos especiais. O Espiritismo, dando a conhecer a causa do mal, abre um novo caminho à arte de curar e fornece à ciência o meio de triunfar onde ela muitas vezes só falha por não atacar a causa primeira do mal. (O Livro dos Médiuns, cap. XXI.)
36Jesus era acusado pelos fariseus de expulsar os demônios pelos demônios; o próprio bem que fazia era, segundo eles, obra de Satanás, sem refletirem que Satanás, expulsando-se a si mesmo, faria um ato de insensato. Essa doutrina é ainda a que a Igreja procura fazer prevalecer hoje contra as manifestações espíritas (1).
(1) «Se Jesus tivesse operado os seus milagres pela virtude do demônio, o demônio teria, pois, trabalhado para destruir o seu império e teria empregado o seu poder contra si mesmo. Certamente, um demônio que procurasse destruir o reino do vício para estabelecer o da virtude seria um estranho demônio. Eis por que Jesus, para repelir a absurda acusação dos judeus, lhes dizia: "Se opero prodígios em nome do demônio, o demônio está, pois, dividido consigo mesmo; procura, pois, destruir-se"; resposta que não admite réplica.»
É precisamente o argumento que os espíritas opõem aos que atribuem ao demônio os bons conselhos que recebem dos Espíritos. O demônio agiria como um ladrão de profissão que devolvesse tudo o que roubou e exortasse os outros ladrões a tornarem-se gente honesta.
37Filha de Jairo
Tendo Jesus passado de novo de barco para a outra margem, quando estava junto ao mar, uma grande multidão de povo juntou-se em torno dele. E um chefe de sinagoga, chamado Jairo, veio procurá-lo; e, encontrando-o, lançou-se aos seus pés — e suplicava-lhe com grande insistência, dizendo-lhe: Tenho uma filha que está nas últimas; vinde impor-lhe as mãos para curá-la e salvar-lhe a vida.
Jesus foi com ele, e era seguido por uma grande multidão de povo, que o apertava.
Quando ele (Jairo) ainda falava, vieram pessoas do chefe da sinagoga, que lhe disseram: A vossa filha está morta; por que quereis dar ao Mestre o trabalho de ir mais longe? — Mas Jesus, tendo ouvido essa palavra, disse ao chefe da sinagoga: Não temais, crede somente. — E não permitiu a ninguém que o seguisse, senão a Pedro, a Tiago e a João, irmão de Tiago.
Tendo chegado à casa desse chefe da sinagoga, viu ali uma multidão confusa de pessoas que choravam e davam grandes gritos; — e, entrando, disse-lhes: Por que fazeis tanto barulho e por que chorais? Esta menina não está morta, está apenas dormindo. — E zombavam dele. Tendo feito sair toda a gente, tomou o pai e a mãe da menina e os que tinham vindo com ele, e entrou no lugar onde a menina estava deitada. — Tomou-a pela mão e disse-lhe: Talitha cumi, isto é: Minha filha, levantai-vos, eu vo-lo ordeno.
— No mesmo instante a menina levantou-se e começou a andar, porque tinha doze anos; e ficaram maravilhosamente espantados. (São Marcos, cap. V, v. de 21 a 43.)
Filho da viúva de Naim
38. No dia seguinte, Jesus ia a uma cidade chamada Naim, e os seus discípulos acompanhavam-no com uma grande multidão de povo. — Quando estava perto da porta da cidade, aconteceu que levavam a enterrar um morto, que era filho único da sua mãe, e essa mulher era viúva, e havia com ela grande quantidade de pessoas da cidade. — O Senhor, tendo-a visto, foi tocado de compaixão por ela e disse-lhe: Não choreis. — Depois, aproximando-se, tocou o caixão, e os que o levavam pararam. Então disse: Jovem, levantai-vos, eu vo-lo ordeno. — Ao mesmo tempo o morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe.
Todos os que estavam presentes foram tomados de temor e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus visitou o seu povo. — A notícia desse milagre que ele fizera espalhou-se por toda a Judeia e por todos os países das cercanias. (São Lucas, cap. VII, v. de 11 a 17.)
39O fato do retorno à vida corporal de um indivíduo realmente morto seria contrário às leis da natureza e, por conseguinte, miraculoso. Ora, não é necessário recorrer a essa ordem de fatos para explicar as ressurreições operadas pelo Cristo.
Se, entre nós, as aparências enganam às vezes os profissionais, os acidentes dessa natureza deviam ser muito mais frequentes num país onde não se tomava nenhuma precaução e onde o sepultamento era imediato (1). Há, pois, toda a probabilidade de que, nos dois exemplos acima, só houvesse síncope ou letargia. O próprio Jesus o diz positivamente da filha de Jairo: Esta menina, diz ele, não está morta; está apenas dormindo.
Dado o poder fluídico que Jesus possuía, nada há de espantoso em que o fluido vivificante, dirigido por uma forte vontade, tenha reanimado os sentidos entorpecidos; que tenha até podido chamar de volta ao corpo o Espírito prestes a deixá-lo, enquanto o laço perispiritual não estava definitivamente rompido. Para os homens daquele tempo, que julgavam o indivíduo morto desde que não respirava mais, havia ressurreição, e puderam afirmá-lo de muito boa-fé; mas havia na realidade cura, e não ressurreição na acepção da palavra.
(1) ... «Ananias, tendo ouvido essas palavras, caiu e entregou o Espírito; e todos os que ouviram falar disso foram tomados de grande temor. — Logo alguns jovens vieram tomar o seu corpo e, tendo-o levado, enterraram-no. — Cerca de três horas depois, a sua mulher (Safira), que não sabia o que tinha acontecido, entrou. — E Pedro disse-lhe... etc. — No mesmo momento ela caiu aos seus pés e entregou o Espírito. Esses jovens, tendo entrado, encontraram-na morta e, levando-a, enterraram-na junto do seu marido.»
40A ressurreição de Lázaro, digam o que disserem, de modo algum infirma esse princípio. Estava, diz-se, havia quatro dias no sepulcro; mas sabe-se que há letargias que duram oito dias e mais. Acrescenta-se que cheirava mal, o que é sinal de decomposição. Essa alegação também nada prova, visto que, em certos indivíduos, há decomposição parcial do corpo até antes da morte, e que exalam um cheiro de podridão. A morte só chega quando os órgãos essenciais à vida são atacados.
E quem podia saber se ele cheirava mal? É a sua irmã Marta que o diz; mas como o sabia ela? Estando Lázaro enterrado havia quatro dias, ela podia supô-lo, mas não ter a certeza. (Cap. XIV, n.º 29.) (1)
41. Logo Jesus obrigou os seus discípulos a subirem no barco e a passarem antes dele para a outra margem, enquanto ele despedia o povo. — Depois de o ter despedido, subiu sozinho a uma montanha para orar; e, tendo chegado a tarde, encontrou-se sozinho naquele lugar.
Entretanto, o barco era muito batido pelas ondas no meio do mar, porque o vento era contrário. — Mas, na quarta vigília da noite, Jesus veio a eles, andando sobre o mar. — Quando o viram andar assim sobre o mar, ficaram perturbados e diziam: É um fantasma; e gritaram de medo. — Logo Jesus lhes falou e disse-lhes: Tranquilizai-vos, sou eu, não temais.
Pedro respondeu-lhe: Senhor, se sois vós, mandai que eu vá a vós andando sobre as águas. — Jesus disse-lhe: Vinde. E Pedro, descendo do barco, andava sobre a água para ir a Jesus. Mas, vendo um grande vento, teve medo; e, começando a afundar, gritou: Senhor, salvai-me. — Logo Jesus, estendendo-lhe a mão, tomou-o e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidastes? — E, tendo subido ao barco, o vento cessou. — Então os que estavam nesse barco, aproximando-se dele, adoraram-no, dizendo-lhe: Sois verdadeiramente filho de Deus. (São Mateus, cap. XIV, v. de 22 a 33.)
(1) O fato seguinte prova que a decomposição precede às vezes a morte. No convento do Bom Pastor, fundado em Toulon pelo abade Marin, capelão das galés, para as moças arrependidas, encontrava-se uma jovem mulher que suportara os mais terríveis sofrimentos com a calma e a impassibilidade de uma vítima expiatória. No meio das dores, parecia sorrir a uma visão celeste; como santa Teresa, pedia para sofrer ainda; a sua carne caía em farrapos, a gangrena ganhava os seus membros; por uma sábia previdência, os médicos tinham recomendado fazer o sepultamento do corpo imediatamente depois do falecimento. Coisa estranha! Mal ela deu o último suspiro, todo trabalho de decomposição parou; as exalações cadavéricas cessaram; durante trinta e seis horas ela ficou exposta às preces e à veneração da comunidade.
42Esse fenômeno encontra a sua explicação natural nos princípios expostos acima, cap. XIV, n.º 43.
Exemplos análogos provam que não é nem impossível nem miraculoso, pois está nas leis da natureza. Pode ter-se produzido de duas maneiras.
Jesus, embora vivo, pôde aparecer sobre a água sob uma forma tangível, enquanto o seu corpo carnal estava noutra parte; é a hipótese mais provável. Podem-se até reconhecer, no relato, certos sinais característicos das aparições tangíveis. (Cap. XIV, n.º 35 e seguintes.)
Por outro lado, o seu corpo poderia ter sido sustentado, e o seu peso neutralizado, pela mesma força fluídica que mantém uma mesa no espaço sem ponto de apoio. O mesmo efeito produziu-se várias vezes em corpos humanos.
43Seis dias depois, Jesus, tendo tomado Pedro, Tiago e João, levou-os sozinhos consigo a uma alta montanha, à parte, e foi transfigurado diante deles. — E, enquanto fazia a sua prece, o seu rosto pareceu inteiramente outro; as suas vestes tornaram-se todas brilhantes de luz e brancas como a neve, de sorte que não há lavandeiro na terra que as possa fazer tão brancas.
— E viram aparecer Elias e Moisés, que conversavam com Jesus.
Então Pedro disse a Jesus: Mestre, estamos bem aqui; façamos aqui três tendas: uma para vós, uma para Moisés e uma para Elias; — porque não sabia o que dizia, de tão assustado que estava.
Ao mesmo tempo apareceu uma nuvem que os cobriu; e saiu dessa nuvem uma voz que fez ouvir estas palavras: Este é o meu filho bem-amado; escutai-o.
Logo, olhando para todos os lados, já não viram ninguém senão Jesus, que ficara sozinho com eles.
Quando desciam da montanha, mandou-lhes que não falassem a ninguém do que tinham visto, até que o Filho do homem tivesse ressuscitado dentre os mortos. — E guardaram a coisa em segredo, perguntando-se uns aos outros o que ele queria dizer com estas palavras: Até que o Filho do homem tivesse ressuscitado dentre os mortos. (São Marcos, cap. IX, v. de 1 a 9.)
44É ainda nas propriedades do fluido perispiritual que se pode encontrar a razão desse fenômeno. A transfiguração, explicada no cap. XIV, n.º 39, é um fato bastante ordinário, que, em consequência da irradiação fluídica, pode modificar a aparência de um indivíduo; mas a pureza do perispírito de Jesus pôde permitir ao seu Espírito dar-lhe um brilho excepcional. Quanto à aparição de Moisés e de Elias, entra inteiramente no caso de todos os fenômenos do mesmo gênero. (Cap. XIV, n.º 35 e seguintes.)
De todas as faculdades que se revelaram em Jesus, não há nenhuma que esteja fora das condições da humanidade e que não se encontre no comum dos homens, porque estão na natureza; mas, pela superioridade da sua essência moral e das suas qualidades fluídicas, atingiam nele proporções acima das do vulgo. Ele nos representava, à parte o seu envoltório carnal, o estado dos Espíritos puros.
45Um dia, tendo subido num barco com os seus discípulos, disse-lhes: Passemos à outra margem do lago. Partiram, pois. — E, enquanto passavam, adormeceu. — Então um grande turbilhão de vento caiu de repente sobre o lago, de sorte que, enchendo-se de água o barco, estavam em perigo. — Aproximaram-se, pois, dele e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, perecemos. Jesus, tendo-se levantado, falou com ameaça aos ventos e às ondas agitadas, e eles se acalmaram, e fez-se uma grande calma. — Então disse-lhes: Onde está, pois, a vossa fé? Mas eles, cheios de temor e de admiração, diziam uns aos outros: Quem é, pois, este, que manda assim nos ventos e nas ondas, e a quem eles obedecem? (São Lucas, cap. VIII, v. de 22 a 25.)
46Ainda não conhecemos bastante os segredos da natureza para afirmar se há, sim ou não, inteligências ocultas que presidem à ação dos elementos.
Nessa hipótese, o fenômeno em questão poderia ser resultado de um ato de autoridade sobre essas mesmas inteligências e provaria um poder que não é dado a nenhum homem exercer.
Em todo caso, Jesus, dormindo tranquilamente durante a tempestade, atesta uma segurança que pode explicar-se pelo fato de o seu Espírito ver que não havia nenhum perigo e que a tempestade ia acalmar-se.
47Esse milagre, mencionado só no Evangelho de são João, é indicado como o primeiro que Jesus fez, e a esse título deveria ter sido tanto mais notado; é preciso que tenha produzido bem pouca sensação, pois nenhum outro evangelista fala dele. Um fato tão extraordinário deveria ter espantado ao mais alto grau os convivas, e sobretudo o dono da casa, que nem sequer parecem ter-se apercebido dele.
Considerado em si mesmo, esse fato tem pouca importância em comparação com os que dão verdadeiramente testemunho das qualidades espirituais de Jesus. Admitindo que as coisas se tenham passado como são relatadas, é notável que seja o único fenômeno desse gênero que ele tenha produzido; era de natureza elevada demais para se prender a efeitos puramente materiais, próprios apenas para excitar a curiosidade da multidão, que o teria assimilado a um mágico; sabia que as coisas úteis lhe conquistariam mais simpatias e lhe trariam mais adeptos do que as que podiam passar por truques de habilidade e não tocavam o coração.
Embora, a rigor, o fato possa explicar-se, até certo ponto, por uma ação fluídica que, como o magnetismo oferece exemplos, teria mudado as propriedades da água, dando-lhe o gosto do vinho, essa hipótese é pouco provável, visto que, em tal caso, a água, tendo apenas o gosto do vinho, teria conservado a sua cor, o que não teria deixado de ser notado. É mais racional ver nisso uma dessas parábolas tão frequentes nos ensinos de Jesus, como a do Filho pródigo, a do festim de núpcias e tantas outras. Ele terá feito, durante a refeição, uma alusão ao vinho e à água, de onde terá tirado uma instrução. O que justifica essa opinião são as palavras que lhe dirige a esse respeito o mestre-sala: «Todo homem serve primeiro o bom vinho e, depois que se bebeu muito, serve então o inferior; mas vós guardastes o bom vinho até esta hora.»
48A multiplicação dos pães é um dos milagres que mais intrigaram os comentadores, ao mesmo tempo que alimentou a verve dos incrédulos. Sem se darem o trabalho de sondar o seu sentido alegórico, estes últimos só viram nela um conto pueril; mas a maior parte das pessoas sérias viu nesse relato, embora sob uma forma diferente da forma ordinária, uma parábola que compara o alimento espiritual da alma ao alimento do corpo.
Pode-se ver nele, entretanto, mais que uma figura, e admitir, de certo ponto de vista, a realidade de um efeito material, sem por isso recorrer ao prodígio. Sabe-se que uma grande preocupação de espírito, a atenção sustentada dada a uma coisa fazem esquecer a fome. Ora, os que seguiam Jesus eram pessoas ávidas de ouvi-lo; não há, pois, nada de espantoso em que, fascinados pela sua palavra e talvez também pela poderosa ação magnética que exercia sobre eles, não tenham sentido a necessidade material de comer.
Jesus, que previa esse resultado, pôde, pois, tranquilizar os seus discípulos dizendo, na linguagem figurada que lhe era habitual, admitindo que se tenham realmente trazido alguns pães, que esses pães bastariam para saciar a multidão. Ao mesmo tempo dava-lhes uma lição: «Dai-lhes vós mesmos de comer», dizia; ensinava-lhes com isso que também eles podiam alimentar pela palavra.
Assim, ao lado do sentido alegórico moral, pôde produzir-se um efeito fisiológico natural muito conhecido. O prodígio, nesse caso, está no ascendente da palavra de Jesus, bastante poderosa para cativar a atenção de uma multidão imensa a ponto de lhe fazer esquecer de comer. Esse poder moral dá testemunho da superioridade de Jesus muito mais que o fato puramente material da multiplicação dos pães, que deve ser considerado uma alegoria.
Essa explicação encontra-se, aliás, confirmada pelo próprio Jesus nas duas passagens seguintes:
49O fermento dos fariseus
Ora, os seus discípulos, tendo passado para o outro lado da água, tinham-se esquecido de levar pães. — Jesus disse-lhes: Tende cuidado de vos guardar do fermento dos fariseus e dos saduceus. — Mas eles pensavam e diziam entre si: É porque não trouxemos pães.
Jesus, conhecendo-o, disse-lhes: Homens de pouca fé, por que conversais entre vós por não terdes trazido pães? Ainda não compreendeis, e não vos lembrais de que cinco pães bastaram para cinco mil homens, e quantos cestos levastes deles? — E de que sete pães bastaram para quatro mil homens, e quantas cestas levastes deles? — Como não compreendeis que não era de pão que eu vos falava, quando vos disse que vos guardásseis do fermento dos fariseus e dos saduceus?
Então compreenderam que ele não lhes tinha dito que se guardassem do fermento que se põe no pão, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus. (São Mateus, cap. XVI, v. de 5 a 12.)
50No dia seguinte, o povo, que ficara do outro lado do mar, notou que não houvera ali outro barco e que Jesus não entrara nele com os seus discípulos, mas que só os discípulos tinham partido; — e, como tinham chegado depois outros barcos de Tiberíades, perto do lugar onde o Senhor, depois de ter dado graças, os alimentara com cinco pães; — e, como reconheceram enfim que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, entraram nesses barcos e vieram a Cafarnaum procurar Jesus. — E, tendo-o encontrado do outro lado do mar, disseram-lhe: Mestre, quando viestes para aqui?
Jesus respondeu-lhes: Em verdade, em verdade vos digo, vós me procurais não por causa dos milagres que vistes, mas porque vos dei pão para comer e ficastes saciados. — Trabalhai para ter não o alimento que perece, mas o que permanece para a vida eterna, e que o Filho do homem vos dará, porque foi nele que Deus Pai imprimiu o seu selo e o seu caráter.
Disseram-lhe: Que faremos para fazer obras de Deus? — Jesus respondeu-lhes: A obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou.
Disseram-lhe: Que milagre fazeis, então, para que, vendo-o, creiamos em vós? Que fazeis de extraordinário? —
Os nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu.
Jesus respondeu-lhes: Em verdade, em verdade vos digo, Moisés não vos deu o pão do céu; mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. — Porque o pão de Deus é aquele que desceu do céu e que dá a vida ao mundo.
Disseram-lhe, pois: Senhor, dai-nos sempre desse pão.
Jesus respondeu-lhes: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim nunca terá sede. — Mas já vo-lo disse: vós me vistes e não credes.
Em verdade, em verdade vos digo, aquele que crê em mim tem a vida eterna. — Eu sou o pão da vida. — Os vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. — Mas eis o pão que desceu do céu, a fim de que aquele que dele comer não morra. (São João, cap. VI, v. de 22 a 36 e de 47 a 50.)
51Na primeira passagem, Jesus, lembrando o efeito produzido anteriormente, dá claramente a entender que não se tratara de pães materiais; de outro modo, a comparação que estabelece com o fermento dos fariseus teria sido sem objeto. «Ainda não compreendeis, diz ele, e não vos lembrais de que cinco pães bastaram para cinco mil homens, e que sete pães bastaram para quatro mil homens? Como não compreendeis que não era de pão que eu vos falava, quando vos disse que vos guardásseis do fermento dos fariseus?» Essa aproximação não tinha nenhuma razão de ser na hipótese de uma multiplicação material. O fato teria sido bastante extraordinário em si mesmo para ter impressionado a imaginação dos seus discípulos, que, entretanto, não pareciam lembrar-se dele.
É o que ressalta não menos claramente do discurso de Jesus sobre o pão do céu, no qual se empenha em fazer compreender o verdadeiro sentido do alimento espiritual.
«Trabalhai, diz ele, não para ter o alimento que perece, mas o que permanece para a vida eterna, e que o Filho do homem vos dará.» Esse alimento é a sua palavra, que é o pão descido do céu e que dá a vida ao mundo. «Eu sou, diz ele, o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim nunca terá sede.»
Mas essas distinções eram sutis demais para essas naturezas rudes, que só compreendiam as coisas tangíveis. O maná que alimentara o corpo dos seus antepassados era para eles o verdadeiro pão do céu; aí estava o milagre. Se, pois, o fato da multiplicação dos pães tivesse ocorrido materialmente, como esses mesmos homens, em cujo proveito se teria produzido poucos dias antes, teriam ficado tão pouco impressionados com ele para dizerem a Jesus: «Que milagre fazeis, então, para que, vendo-o, creiamos em vós? Que fazeis de extraordinário?» É que entendiam por milagres os prodígios que os fariseus pediam, isto é, sinais no céu operados por ordem, como pela varinha de um encantador. O que Jesus fazia era simples demais e não se afastava bastante das leis da natureza; as próprias curas não tinham um caráter bastante estranho, bastante extraordinário; os milagres espirituais não tinham corpo bastante para eles.
52Jesus transportado pelo diabo ao alto do Templo, depois a uma montanha, e tentado por ele, é uma dessas parábolas que lhe eram tão familiares e que a credulidade pública transformou em fatos materiais.
53«Jesus não foi arrebatado, mas queria fazer compreender aos homens que a humanidade está sujeita a falir e que deve estar sempre em guarda contra as más inspirações, às quais a sua natureza fraca a leva a ceder. A tentação de Jesus é, pois, uma figura, e seria preciso ser cego para tomá-la ao pé da letra. Como quereríeis que o Messias, o Verbo de Deus encarnado, tivesse sido submetido por um tempo, por mais curto que fosse, às sugestões do demônio, e que, como diz o Evangelho de Lucas, o demônio o tivesse deixado por um tempo, o que daria a pensar que ainda estaria submetido ao seu poder? Não; compreendei melhor os ensinos que vos foram dados. O Espírito do mal nada podia sobre a essência do bem. Ninguém diz ter visto Jesus na montanha nem no alto do Templo; certamente teria sido um fato de natureza a espalhar-se entre todos os povos. A tentação não foi, pois, um ato material e físico. Quanto ao ato moral, podeis admitir que o Espírito das trevas pudesse dizer àquele que conhecia a sua origem e o seu poder: "Adora-me, e eu te darei todos os reinos da terra"? O demônio teria, pois, ignorado quem era aquele a quem fazia tais ofertas, o que não é provável; se o conhecia, a sua proposta era um contrassenso, porque sabia bem que seria repelido por aquele que vinha arruinar o seu império sobre os homens.
«Compreendei, pois, o sentido dessa parábola, porque é uma, tanto quanto as do Filho pródigo e do Bom samaritano. Uma nos mostra os perigos que os homens correm se não resistem a essa voz íntima que lhes grita sem cessar: "Podes ser mais do que és; podes possuir mais do que possuis; podes crescer, adquirir; cede à voz da ambição, e todos os teus desejos serão satisfeitos." Ela vos mostra o perigo e o meio de evitá-lo, dizendo às más inspirações: Retira-te, Satanás! ou, por outras palavras: Para trás, tentação!
«Pesai bem os ensinos dados nos Evangelhos; sabei distinguir o que está no sentido próprio ou no sentido figurado, e os erros que vos cegaram durante tantos séculos se apagarão pouco a pouco, para dar lugar à brilhante luz da verdade.» (Bordéus, 1862. João Evangelista.)
54Prodígios na morte de Jesus
Ora, desde a sexta hora do dia até a nona, toda a terra foi coberta de trevas.
Ao mesmo tempo o véu do Templo rasgou-se em dois, de alto a baixo; a terra tremeu, as pedras fenderam-se; — os sepulcros abriram-se, e vários corpos dos santos, que estavam no sono da morte, ressuscitaram; — e, saindo dos seus túmulos depois da sua ressurreição, vieram à cidade santa e foram vistos por várias pessoas. (São Mateus, cap. XXVII, v. 45, 51, 52, 53.)
55É estranho que tais prodígios, cumprindo-se no próprio momento em que a atenção da cidade estava fixada no suplício de Jesus, que era o acontecimento do dia, não tenham sido notados, pois nenhum historiador faz menção deles. Parece impossível que um terremoto, e toda a terra coberta de trevas durante três horas, num país onde o céu é sempre de uma limpidez perfeita, tenham podido passar despercebidos.
A duração dessa obscuridade é bem mais ou menos a de um eclipse do sol, mas essas espécies de eclipses só se produzem na lua nova, e a morte de Jesus deu-se durante a lua cheia, no dia 14 do mês de nissan, dia da Páscoa dos judeus.
O obscurecimento do sol pode também ser produzido pelas manchas que se notam na sua superfície. Em tal caso, o brilho da luz é sensivelmente enfraquecido, mas nunca a ponto de produzir a obscuridade e as trevas. Supondo que um fenômeno desse gênero tenha ocorrido nessa época, teria tido uma causa perfeitamente natural (1).
Quanto aos mortos ressuscitados, pode ser que algumas pessoas tenham tido visões ou aparições, o que não é excepcional; mas, como então não se conhecia a causa desse fenômeno, imaginava-se que os indivíduos aparecidos saíam do sepulcro.
Os discípulos de Jesus, comovidos com a morte do seu mestre, ligaram a ela sem dúvida alguns fatos particulares, aos quais não teriam prestado nenhuma atenção em outros tempos. Terá bastado que um fragmento de rochedo se tenha desprendido nesse momento para que pessoas predispostas ao maravilhoso tenham visto nisso um prodígio e que, ampliando o fato, tenham dito que as pedras se tinham fendido.
Jesus é grande pelas suas obras, e não pelos quadros fantásticos com que um entusiasmo pouco esclarecido julgou dever cercá-lo.
(1) Há constantemente na superfície do sol manchas fixas, que seguem o seu movimento de rotação e serviram para determinar a sua duração. Mas essas manchas aumentam às vezes em número, em extensão e em intensidade, e é então que se produz uma diminuição na luz e no calor. Esse aumento no número das manchas parece coincidir com certos fenômenos astronômicos e com a posição relativa de alguns planetas, o que acarreta o seu retorno periódico. A duração desse obscurecimento é muito variável; às vezes é apenas de duas ou três horas; mas, em 535, houve um que durou catorze meses.
56Mas Maria (Madalena) ficou do lado de fora, perto do sepulcro, derramando lágrimas. E, enquanto chorava, tendo-se inclinado para olhar no sepulcro, — viu dois anjos vestidos de branco, sentados no lugar onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeça e outro aos pés. — Disseram-lhe: Mulher, por que chorais? Ela respondeu-lhes: É que levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.
Tendo dito isso, voltou-se e viu Jesus de pé, sem saber, contudo, que era Jesus. — Então Jesus disse-lhe: Mulher, por que chorais? A quem procurais? Ela, pensando que fosse o jardineiro, disse-lhe: Senhor, se fostes vós que o levastes, dizei-me onde o pusestes, e eu o levarei.
Jesus disse-lhe: Maria. Logo ela se voltou e disse-lhe: Rabôni, isto é, meu Mestre. — Jesus respondeu-lhe: Não me toqueis, porque ainda não subi para meu Pai; mas ide ter com os meus irmãos e dizei-lhes da minha parte: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus.
Maria Madalena veio, pois, dizer aos discípulos que vira o Senhor e que ele lhe dissera essas coisas. (São João, cap. XX, v. de 11 a 18.)
57. Nesse mesmo dia, dois dentre eles iam a uma aldeia chamada Emaús, distante sessenta estádios de Jerusalém, — falando juntos de tudo o que se passara. — E aconteceu que, enquanto conversavam e conferenciavam juntos sobre isso, o próprio Jesus veio juntar-se a eles e pôs-se a andar com eles; — mas os seus olhos estavam retidos, para que não pudessem reconhecê-lo. — E disse-lhes: De que falais assim, andando, e por que estais tão tristes?
Um deles, chamado Cléofas, tomando a palavra, disse-lhe: Sois vós o único estrangeiro em Jerusalém que não saiba o que nela se passou nestes dias? — E o quê? disse-lhes. Responderam-lhe: Acerca de Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso diante de Deus e de todo o povo; — e de que maneira os príncipes dos sacerdotes e os nossos senadores o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. — Ora, esperávamos que fosse ele quem resgataria Israel, e, entretanto, depois de tudo isso, eis o terceiro dia que essas coisas se passaram. — É verdade que algumas mulheres das que estavam conosco nos espantaram; porque, tendo ido antes do dia ao seu sepulcro, — e não tendo encontrado ali o seu corpo, vieram dizer que até anjos lhes apareceram, que lhes disseram que ele está vivo. — E alguns dos nossos, tendo ido também ao sepulcro, encontraram todas as coisas como as mulheres lhes tinham contado; mas a ele não o encontraram.
Então disse-lhes: Ó insensatos, cujo coração é tardio para crer tudo o que os profetas disseram! Não era preciso que o Cristo sofresse todas essas coisas e que entrasse assim na sua glória? — E, começando por Moisés e depois por todos os profetas, explicava-lhes em todas as Escrituras o que fora dito dele.
Quando estavam perto da aldeia aonde iam, fez menção de ir mais longe. — Mas eles obrigaram-no a ficar, dizendo-lhe: Ficai conosco, porque é tarde e o dia já declina; e entrou com eles. — Estando com eles à mesa, tomou o pão e abençoou-o, e, tendo-o partido, deu-lho. — Ao mesmo tempo os seus olhos abriram-se, e reconheceram-no; mas ele desapareceu de diante dos seus olhos.
Então disseram um ao outro: Não é verdade que o nosso coração ardia dentro de nós, quando ele nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras? — E, levantando-se na mesma hora, voltaram a Jerusalém e encontraram reunidos os onze apóstolos e os que estavam com eles, — que diziam: O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão. — Então contaram também eles o que lhes acontecera no caminho, e como o tinham reconhecido ao partir o pão.
Enquanto assim conversavam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco; sou eu; não tenhais medo. — Mas, na perturbação e no temor de que estavam tomados, imaginaram ver um Espírito.
E Jesus disse-lhes: Por que vos perturbais? E por que se levantam tantos pensamentos nos vossos corações? — Olhai as minhas mãos e os meus pés, e reconhecei que sou eu mesmo; tocai-me e considerai que um Espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. — Depois de ter dito isso, mostrou-lhes as mãos e os pés.
Mas, como ainda não criam, de tão transportados que estavam de alegria e de admiração, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa para comer? — Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado e um favo de mel. — Ele comeu diante deles e, tomando o que sobrou, deu-lho e disse-lhes: Eis o que eu vos dizia quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito de mim na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos.
Ao mesmo tempo abriu-lhes o espírito, para que entendessem as Escrituras; — e disse-lhes: Assim está escrito, e assim era preciso que o Cristo sofresse e ressuscitasse dentre os mortos ao terceiro dia; — e que se pregasse em seu nome a penitência e a remissão dos pecados em todas as nações, começando por Jerusalém. — Ora, vós sois testemunhas dessas coisas. — E vou enviar-vos o dom de meu Pai, que vos foi prometido; mas, entretanto, ficai na cidade até que sejais revestidos da força do alto. (São Lucas, cap. XXIV, v. de 13 a 49.)
58Ora, Tomé, um dos doze apóstolos, chamado Dídimo, não estava com eles quando Jesus veio. — Os outros discípulos disseram-lhe, pois: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir nas suas mãos a marca dos cravos que as perfuraram, e se não puser o meu dedo no buraco dos cravos e a minha mão na chaga do seu lado, não crerei.
Oito dias depois, estando os discípulos ainda no mesmo lugar, e Tomé com eles, Jesus veio, estando as portas fechadas, e pôs-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco.
Disse em seguida a Tomé: Ponde aqui o vosso dedo e considerai as minhas mãos; aproximai também a vossa mão e ponde-a no meu lado; e não sejais incrédulo, mas fiel. — Tomé respondeu-lhe e disse-lhe: Meu Senhor e meu Deus! — Jesus disse-lhe: Crestes, Tomé, porque vistes; felizes os que creram sem terem visto! (São João, cap. XX, v. de 20 a 29.)
59Jesus fez-se ver ainda depois aos seus discípulos à beira do mar de Tiberíades, e fez-se ver desta maneira:
Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois dos seus discípulos estavam juntos. — Simão Pedro disse-lhes: Vou pescar. Disseram-lhe: Vamos também contigo. Foram, pois, e entraram num barco; mas naquela noite nada apanharam.
Tendo chegado a manhã, Jesus apareceu na praia, sem que os seus discípulos soubessem que era Jesus. — Jesus disse-lhes, pois: Filhos, não tendes nada para comer? Responderam-lhe: Não. — Disse-lhes: Lançai a rede do lado direito do barco, e encontrareis. Lançaram-na logo, e já não podiam retirá-la, de tão carregada de peixes que estava.
Então o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor. E Simão Pedro, tendo sabido que era o Senhor, vestiu a sua roupa (porque estava nu) e lançou-se ao mar. — Os outros discípulos vieram com o barco; e, como só estavam afastados da terra cerca de duzentos côvados, puxaram para ela a rede cheia de peixes. (São João, cap. XXI, v. de 1 a 8.)
60Depois disso, levou-os para fora, para Betânia; e, tendo levantado as mãos, abençoou-os; — e, enquanto os abençoava, separou-se deles e foi elevado ao céu.
Quanto a eles, depois de o terem adorado, voltaram a Jerusalém cheios de alegria; — e estavam sem cessar no Templo, louvando e bendizendo a Deus. Amém. (São Lucas, cap. XXIV, v. de 50 a 53.)
61As aparições de Jesus depois da sua morte são relatadas por todos os evangelistas com pormenores circunstanciados, que não permitem duvidar da realidade do fato. Explicam-se, aliás, perfeitamente pelas leis fluídicas e pelas propriedades do perispírito, e nada apresentam de anormal em relação aos fenômenos do mesmo gênero, de que a história antiga e contemporânea oferece numerosos exemplos, sem excetuar a tangibilidade. Se se observam as circunstâncias que acompanharam as suas diversas aparições, reconhecem-se nele, nesses momentos, todos os caracteres de um ser fluídico. Aparece inopinadamente e desaparece da mesma forma; é visto por uns e não por outros, sob aparências que não o fazem reconhecer nem pelos seus discípulos; mostra-se em lugares fechados onde um corpo carnal não poderia ter penetrado; a sua própria linguagem não tem a verve da de um ser corporal; tem o tom breve e sentencioso próprio dos Espíritos que se manifestam dessa maneira; todos os seus modos, numa palavra, têm algo que não é do mundo terrestre. A sua vista causa ao mesmo tempo surpresa e temor; os seus discípulos, vendo-o, não lhe falam com a mesma liberdade; sentem que já não é o homem.
Jesus mostrou-se, pois, com o seu corpo perispiritual, o que explica que só tenha sido visto por aqueles a quem quis fazer-se ver; se tivesse tido o seu corpo carnal, teria sido visto pelo primeiro que aparecesse, como em vida. Os seus discípulos, ignorando a causa primeira do fenômeno das aparições, não se davam conta dessas particularidades, que provavelmente não notavam; viam Jesus e tocavam-no; para eles, devia ser o seu corpo ressuscitado. (Cap. XIV, n.º 14, e de 35 a 38.)
62Enquanto a incredulidade rejeita todos os fatos realizados por Jesus que têm uma aparência sobrenatural e os considera, sem exceção, lendários, o Espiritismo dá da maior parte desses fatos uma explicação natural; prova a sua possibilidade, não só pela teoria das leis fluídicas, mas pela sua identidade com os fatos análogos produzidos por uma multidão de pessoas nas condições mais vulgares. Já que esses fatos estão de certo modo no domínio público, nada provam, em princípio, acerca da natureza excepcional de Jesus (1).
(1) Os numerosos fatos contemporâneos de curas, aparições, possessões, dupla vista e outros, que são relatados na Revista Espírita e lembrados nas notas acima, oferecem, até nas circunstâncias de pormenor, uma analogia tão impressionante com os que o Evangelho relata que a semelhança dos efeitos e das causas permanece evidente. Pergunta-se, pois, por que o mesmo fato teria uma causa natural hoje e sobrenatural outrora, diabólica em uns e divina em outros. Se tivesse sido possível pô-los aqui uns diante dos outros, a comparação teria sido mais fácil; mas o seu número e os desenvolvimentos que a maior parte exige não o permitiram.
63O maior dos milagres que Jesus fez, aquele que atesta verdadeiramente a sua superioridade, é a revolução que os seus ensinos operaram no mundo, apesar da exiguidade dos seus meios de ação.
Com efeito, Jesus, obscuro, pobre, nascido na condição mais humilde, num pequeno povo quase ignorado e sem preponderância política, artística ou literária, só prega três anos; durante esse curto espaço de tempo, é desconhecido e perseguido pelos seus concidadãos, caluniado, tratado de impostor; é obrigado a fugir para não ser apedrejado; é traído por um dos seus apóstolos, negado por outro, abandonado por todos no momento em que cai nas mãos dos seus inimigos. Só fazia o bem, e isso não o punha ao abrigo da malevolência, que voltava contra ele os próprios serviços que prestava. Condenado ao suplício reservado aos criminosos, morre ignorado do mundo, porque a história contemporânea se cala a seu respeito. Nada escreveu e, no entanto, ajudado por alguns homens obscuros como ele, a sua palavra bastou para regenerar o mundo; a sua doutrina matou o paganismo onipotente e tornou-se o facho da civilização. Tinha, pois, contra si tudo o que pode fazer fracassar os homens; é por isso que dizemos que o triunfo da sua doutrina é o maior dos seus milagres, ao mesmo tempo que ela prova a sua missão divina. Se, em vez de princípios sociais e regeneradores, fundados no futuro espiritual do homem, só tivesse tido a oferecer à posteridade alguns fatos maravilhosos, talvez hoje mal o conhecessem pelo nome.
64O desaparecimento do corpo de Jesus depois da sua morte foi objeto de numerosos comentários; é atestado pelos quatro evangelistas, segundo o relato das mulheres que se apresentaram ao sepulcro no terceiro dia e não o encontraram ali. Uns viram nesse desaparecimento um fato miraculoso; outros supuseram um roubo clandestino.
Segundo outra opinião, Jesus não teria revestido um corpo carnal, mas somente um corpo fluídico; não teria sido, durante toda a sua vida, senão uma aparição tangível, numa palavra, uma espécie de agênere. O seu nascimento, a sua morte e todos os atos materiais da sua vida teriam sido apenas aparência. Foi assim, dizem, que o seu corpo, voltando ao estado fluido, pôde desaparecer do sepulcro, e foi com esse mesmo corpo que se teria mostrado depois da sua morte.
Sem dúvida, semelhante fato não é radicalmente impossível, segundo o que se sabe hoje sobre as propriedades dos fluidos; mas seria pelo menos inteiramente excepcional e em oposição formal com o caráter dos agêneres (cap. XIV, n.º 36). A questão é, pois, saber se tal hipótese é admissível, se é confirmada ou contraditada pelos fatos.
65A permanência de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que se seguiu à sua morte. No primeiro, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, na mãe, como nas condições ordinárias da vida. Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo, nos seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias da sua vida, apresenta os caracteres inequívocos da corporeidade. Os fenômenos de ordem psíquica que se produzem nele são acidentais e nada têm de anormal, pois se explicam pelas propriedades do perispírito e se encontram em diferentes graus em outros indivíduos. Depois da sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. A diferença entre os dois estados é tão marcada que não é possível assimilá-los.
O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propriamente dita, que diferem essencialmente das dos fluidos etéreos; a desorganização opera-se nele pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material, divide os seus tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, o seu funcionamento para, e segue-se a morte, isto é, a morte do corpo. Não existindo essa coesão nos corpos fluídicos, a vida não repousa no funcionamento de órgãos especiais, e não podem produzir-se neles desordens análogas; um instrumento cortante, ou qualquer outro, penetra neles como num vapor, sem ocasionar nenhuma lesão. Eis por que essas espécies de corpos não podem morrer, e por que os seres fluídicos designados pelo nome de agêneres não podem ser mortos.
Depois do suplício de Jesus, o seu corpo ficou ali, inerte e sem vida; foi sepultado como os corpos ordinários, e cada um pôde vê-lo e tocá-lo. Depois da sua ressurreição, quando quer deixar a Terra, não morre; o seu corpo eleva-se, esvaece-se e desaparece sem deixar nenhum vestígio, prova evidente de que esse corpo era de outra natureza que o que pereceu na cruz; de onde se deve concluir que, se Jesus pôde morrer, é que tinha um corpo carnal.
Em consequência das suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas, que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Não é o corpo que sofre; é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo privado do Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito, que não tem corpo material, não pode sentir os sofrimentos que resultam da alteração da matéria; de onde se deve igualmente concluir que, se Jesus sofreu materialmente, como não se poderia duvidar, é que tinha um corpo material de natureza semelhante à do corpo de todo o mundo.
66Aos fatos materiais vêm juntar-se considerações morais todo-poderosas.
Se Jesus tivesse estado, durante a sua vida, nas condições dos seres fluídicos, não teria sentido nem a dor nem nenhuma das necessidades do corpo; supor que assim foi é tirar-lhe todo o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse apenas aparência, todos os atos da sua vida, o anúncio reiterado da sua morte, a cena dolorosa do jardim das Oliveiras, a sua prece a Deus para afastar o cálice dos seus lábios, a sua paixão, a sua agonia, tudo, até o seu último grito no momento de entregar o Espírito, teria sido apenas um vão simulacro para enganar sobre a sua natureza e fazer crer no sacrifício ilusório da sua vida, uma comédia indigna de um simples homem honesto, e com mais forte razão de um ser tão superior; numa palavra, teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais são as consequências lógicas desse sistema, consequências que não são admissíveis, porque é rebaixá-lo moralmente, em vez de elevá-lo.
Jesus teve, pois, como todo o mundo, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos psíquicos que assinalaram a sua vida.
67Em que se tornou o corpo carnal? É um problema cuja solução só se pode deduzir, até nova ordem, por hipóteses, por falta de elementos suficientes para assentar uma convicção. Essa solução, aliás, é de importância secundária e nada acrescentaria aos méritos do Cristo, nem aos fatos que atestam, de maneira muito mais peremptória, a sua superioridade e a sua missão divina.
Só pode haver, pois, sobre a maneira como esse desaparecimento se operou, opiniões pessoais, que só teriam valor na medida em que fossem sancionadas por uma lógica rigorosa e pelo ensino geral dos Espíritos; ora, até agora, nenhuma das que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle.
Se os Espíritos ainda não resolveram a questão pela unanimidade do seu ensino, é sem dúvida que o momento de resolvê-la ainda não chegou, ou que ainda faltam os conhecimentos com o auxílio dos quais se poderá resolvê-la por si mesmo. Enquanto isso, se se afasta a suposição de um roubo clandestino, poder-se-ia encontrar, por analogia, uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno dos transportes e da invisibilidade. (O Livro dos Médiuns, cap. IV e V.)
68Essa ideia sobre a natureza do corpo de Jesus não é nova. No século IV, Apolinário de Laodiceia, chefe da seita dos apolinaristas, pretendia que Jesus não tomara um corpo como o nosso, mas um corpo impassível, que descera do céu ao seio da santa Virgem e não nascera dela; que assim Jesus só nascera, sofrera e morrera em aparência. Os apolinaristas foram anatematizados no concílio de Alexandria em 360, no de Roma em 374 e no de Constantinopla em 381.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês
Licença: Domínio público