A Gênese — XVII. Predições do Evangelho
Ler no Une Sacra1E, tendo vindo à sua terra, ensinava-os nas suas sinagogas, de sorte que, tomados de espanto, diziam: De onde vieram a este essa sabedoria e esses milagres? — Não é ele o filho desse carpinteiro? A sua mãe não se chama Maria? E os seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? — E as suas irmãs não estão todas entre nós? De onde lhe vêm, pois, todas essas coisas? — E assim tomavam dele motivo de escândalo. Mas Jesus disse-lhes: Um profeta só fica sem honra na sua terra e na sua casa. — E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles. (São Mateus, cap. XIII, v. de 54 a 58.)
2Jesus enunciava aí uma verdade que passou a provérbio, que é de todos os tempos, e à qual se poderia dar mais extensão dizendo que ninguém é profeta em vida.
Na linguagem atual, essa máxima entende-se do crédito de que um homem goza entre os seus e entre aqueles no meio dos quais vive, da confiança que lhes inspira pela superioridade do saber e da inteligência. Se sofre exceções, são raras e, em todo caso, nunca são absolutas; o princípio dessa verdade é uma consequência natural da fraqueza humana e pode explicar-se assim:
O hábito de se verem desde a infância, nas circunstâncias vulgares da vida, estabelece entre os homens uma espécie de igualdade material que faz que muitas vezes se recuse reconhecer uma superioridade moral naquele de quem se foi companheiro ou comensal, que saiu do mesmo meio e de quem se viram as primeiras fraquezas; o orgulho sofre com o ascendente que é obrigado a suportar. Quem quer que se eleve acima do nível comum é sempre alvo do ciúme e da inveja; os que se sentem incapazes de atingir a sua altura esforçam-se por rebaixá-lo pela difamação, pela maledicência e pela calúnia; gritam tanto mais alto quanto mais pequenos se veem, julgando engrandecer-se e eclipsá-lo pelo barulho que fazem. Tal foi e tal será a história da humanidade enquanto os homens não tiverem compreendido a sua natureza espiritual e não tiverem alargado o seu horizonte moral; por isso esse preconceito é próprio dos espíritos estreitos e vulgares, que referem tudo à sua personalidade.
Por outro lado, faz-se geralmente dos homens que só se conhecem pelo seu espírito um ideal que cresce com o afastamento dos tempos e dos lugares. Despojam-se quase da humanidade; parece que não devem nem falar nem sentir como toda a gente, que a sua linguagem e os seus pensamentos devem estar constantemente no diapasão da sublimidade, sem se pensar que o espírito não poderia estar incessantemente tenso e num estado perpétuo de sobre-excitação. No contato diário da vida privada, vê-se demais o homem material, que nada distingue do vulgo. O homem corporal, que impressiona os sentidos, apaga quase o homem espiritual, que só impressiona o espírito: de longe, só se veem os relâmpagos de gênio; de perto, veem-se os repousos do espírito.
Depois da morte, não existindo mais a comparação, o homem espiritual fica sozinho e parece tanto maior quanto mais afastada está a lembrança do homem corporal. Eis por que os homens que marcaram a sua passagem na Terra por obras de valor real são mais apreciados depois da morte do que em vida. São julgados com mais imparcialidade, porque, tendo desaparecido os invejosos e os ciumentos, os antagonismos pessoais já não existem. A posteridade é um juiz desinteressado, que aprecia a obra do espírito, aceita-a sem entusiasmo cego se é boa, rejeita-a sem ódio se é má, abstração feita da individualidade que a produziu.
Jesus podia tanto menos escapar às consequências desse princípio, inerente à natureza humana, quanto vivia num meio pouco esclarecido e entre homens inteiramente entregues à vida material. Os seus compatriotas só viam nele o filho do carpinteiro, o irmão de homens tão ignorantes quanto eles, e perguntavam-se o que podia torná-lo superior a eles e dar-lhe o direito de censurá-los; por isso, vendo que a sua palavra tinha menos crédito entre os seus, que o desprezavam, do que entre os estrangeiros, foi pregar entre os que o escutavam e no meio dos quais encontrava simpatia.
Pode-se julgar de que sentimentos os seus próximos estavam animados para com ele por este fato: os seus próprios irmãos, acompanhados da sua mãe, vieram, numa assembleia em que ele se encontrava, para se apoderarem dele, dizendo que tinha perdido o juízo. (São Marcos, cap. III, v. 20, 21 e de 31 a 35. — O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIV.)
Assim, de um lado, os sacerdotes e os fariseus acusavam Jesus de agir pelo demônio; de outro, era taxado de loucura pelos seus parentes mais próximos. Não é assim que se procede nos nossos dias em relação aos espíritas, e devem estes queixar-se de não serem mais bem tratados pelos seus concidadãos do que o foi Jesus? O que nada tinha de espantoso há dois mil anos, num povo ignorante, é mais estranho no século XIX, nas nações civilizadas.
3(Depois da cura do lunático.) — Todos ficaram espantados com o grande poder de Deus. E, quando todo o mundo estava admirado do que Jesus fazia, disse aos seus discípulos: Ponde bem no vosso coração o que vou dizer-vos. O Filho do homem deve ser entregue nas mãos dos homens. — Mas eles não entendiam essa linguagem; estava-lhes de tal modo oculta que nada compreendiam, e temiam até interrogá-lo a esse respeito. (São Lucas, cap. IX, v. 44, 45.)
4Desde então Jesus começou a revelar aos seus discípulos que era preciso que fosse a Jerusalém; que sofresse muito da parte dos senadores, dos escribas e dos príncipes dos sacerdotes; que fosse morto e que ressuscitasse ao terceiro dia. (São Mateus, cap. XVI, v. 21.)
5Quando estavam na Galileia, Jesus disse-lhes: O Filho do homem deve ser entregue nas mãos dos homens; — e eles o farão morrer, e ele ressuscitará ao terceiro dia; o que os afligiu extremamente. (São Mateus, cap. XVII, v. 21, 22.)
6Ora, Jesus, indo para Jerusalém, tomou à parte os seus doze discípulos e disse-lhes: Vamos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, que o condenarão à morte, — e o entregarão aos gentios, para que o tratem com zombaria, o açoitem e o crucifiquem; e ele ressuscitará ao terceiro dia. (São Mateus, cap. XX, v. 17, 18, 19.)
7Em seguida Jesus, tomando à parte os doze apóstolos, disse-lhes: Eis que vamos a Jerusalém, e tudo o que foi escrito pelos profetas acerca do Filho do homem vai cumprir-se; — porque será entregue aos gentios; zombarão dele, açoitá-lo-ão, cuspir-lhe-ão no rosto. — E, depois que o tiverem açoitado, fá-lo-ão morrer, e ele ressuscitará ao terceiro dia.
Mas eles nada compreenderam de tudo isso: essa linguagem estava-lhes oculta, e não entendiam o que lhes dizia. (São Lucas, cap. XVIII, v. 31 a 34.)
8Jesus, tendo acabado todos os seus discursos, disse aos seus discípulos: Sabeis que a Páscoa se fará dentro de dois dias, e que o Filho do homem será entregue para ser crucificado.
Ao mesmo tempo, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se no pátio do sumo sacerdote chamado Caifás, — e tiveram conselho juntos para encontrar meio de se apoderarem habilmente de Jesus e de fazê-lo morrer. — E diziam: Não convém que seja durante a festa, para que não se levante algum tumulto entre o povo. (São Mateus, cap. XXVI, v. 1 a 5.)
9No mesmo dia, alguns dos fariseus vieram dizer-lhe: Ide-vos, saí deste lugar, porque Herodes quer fazer-vos morrer. — Ele respondeu-lhes: Ide dizer a essa raposa: Tenho ainda de expulsar os demônios e de dar a saúde aos doentes hoje e amanhã, e ao terceiro dia serei consumado pela minha morte. (São Lucas, cap. XIII, v. 31, 32.)
10Guardai-vos dos homens, porque vos farão comparecer nas suas assembleias e vos farão açoitar nas suas sinagogas; e sereis apresentados, por minha causa, aos governadores e aos reis, para lhes servirdes de testemunho, assim como às nações. (São Mateus, cap. X, v. 17, 18.)
11Expulsar-vos-ão das sinagogas; e vem o tempo em que quem quer que vos faça morrer julgará fazer uma coisa agradável a Deus. — Tratar-vos-ão assim porque não conhecem nem meu Pai nem a mim. — Ora, digo-vos estas coisas a fim de que, quando chegar o tempo, vos lembreis de que vo-las disse. (São João, cap. XVI, v. 1 a 4.)
12Sereis traídos e entregues aos magistrados por vossos pais e vossas mães, por vossos irmãos, por vossos parentes, por vossos amigos, e farão morrer muitos de vós; — e sereis odiados por todo o mundo por causa do meu nome. — Entretanto, não se perderá um cabelo da vossa cabeça. — É pela vossa paciência que possuireis as vossas almas. (São Lucas, cap. XXI, v. 16 a 19.)
13(Martírio de são Pedro.) Em verdade, em verdade vos digo, quando éreis mais moço, cingíeis-vos a vós mesmo e íeis aonde queríeis; mas, quando fordes velho, estendereis as mãos, e outro vos cingirá e vos levará aonde não quereríeis. — Ora, dizia isso para indicar por que morte ele devia glorificar a Deus. (São João, cap. XXI, v. 18, 19.)
14Cidades impenitentes
Então começou a censurar as cidades em que fizera muitos milagres, por não terem feito penitência.
Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se os milagres que foram feitos no meio de vós tivessem sido feitos em Tiro e em Sídon, há muito tempo teriam feito penitência no saco e na cinza. — Por isso vos declaro que, no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas menos rigorosamente que vós.
E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás sempre até o céu? Serás rebaixada até o fundo do inferno; porque, se os milagres que foram feitos no meio de ti tivessem sido feitos em Sodoma, ela talvez subsistisse ainda hoje. — Por isso te declaro que, no dia do juízo, a terra de Sodoma será tratada menos rigorosamente que tu. (São Mateus, cap. XI, v. 20 a 24.)
15Quando Jesus saiu do Templo para ir-se, os seus discípulos aproximaram-se dele para lhe fazer notar a estrutura e a grandeza desse edifício. — Mas ele disse-lhes: Vedes todas essas construções? Eu vos digo, em verdade, serão de tal modo destruídas que não ficará ali pedra sobre pedra. (São Mateus, cap. XXIV, v. 1, 2.)
16Tendo chegado em seguida perto de Jerusalém, e olhando a cidade, chorou sobre ela, dizendo: — Ah! se ao menos conhecesses, neste dia que ainda te é dado, o que pode proporcionar-te a paz! Mas agora tudo isso está oculto aos teus olhos. — Por isso virá para ti um tempo desgraçado, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, te encerrarão e te apertarão por todos os lados; — derrubar-te-ão por terra, a ti e aos teus filhos que estão no meio de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que Deus te visitou. (São Lucas, cap. XIX, v. de 41 a 44.)
17Entretanto, é preciso que eu continue a andar hoje e amanhã e no dia seguinte, porque não convém que um profeta sofra a morte fora de Jerusalém.
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis reunir os teus filhos, como uma galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste! — Aproxima-se o tempo em que a vossa casa ficará deserta. Ora, digo-vos, em verdade, que não me vereis mais daqui em diante, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor. (São Lucas, cap. XIII, v. 33, 34, 35.)
18Quando virdes um exército cercar Jerusalém, sabei que a sua desolação está próxima. — Então, que os que estão na Judeia fujam para os montes; que os que se encontrarem no meio dela se retirem, e que os que estiverem nas cercanias não entrem nela. — Porque serão então os dias da vingança, a fim de que se cumpra tudo o que está na Escritura. — Ai das que estiverem grávidas ou amamentando nesses dias, porque esta terra será acabrunhada de males, e a cólera do céu cairá sobre este povo. — Passarão ao fio da espada; serão levados cativos para todas as nações, e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que se cumpra o tempo das nações. (São Lucas, cap. XXI, v. de 20 a 24.)
19(Jesus caminhando para o suplício.) Ora, era seguido por uma grande multidão de povo e de mulheres que batiam no peito e choravam. — Mas Jesus, voltando-se, disse-lhes: Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre os vossos filhos; — porque virá um tempo em que se dirá: Felizes as estéreis, e as entranhas que não geraram filhos, e os seios que não amamentaram. — Começarão então a dizer aos montes: Caí sobre nós! E às colinas: Cobri-nos! — Porque, se tratam assim a lenha verde, como será tratada a lenha seca? (São Lucas, cap. XXIII, v. de 27 a 31.)
20A faculdade de pressentir as coisas futuras é um dos atributos da alma e explica-se pela teoria da presciência. Jesus possuía-a, como todas as outras, em grau eminente. Pôde, pois, prever os acontecimentos que se seguiriam à sua morte, sem que haja nesse fato nada de sobrenatural, pois se vê reproduzir-se sob os nossos olhos nas condições mais vulgares. Não é raro que indivíduos anunciem com precisão o instante da sua morte: é que a sua alma, no estado de desprendimento, é como o homem da montanha (cap. XVI, n.º 1); abarca o caminho a percorrer e vê o seu termo.
Assim devia dar-se tanto melhor com Jesus quanto, tendo consciência da missão que vinha cumprir, sabia que a morte pelo suplício era a sua consequência necessária. A vista espiritual, que nele era permanente, assim como a penetração do pensamento, devia mostrar-lhe as suas circunstâncias e a época fatal. Pela mesma razão, podia prever a ruína do Templo, a de Jerusalém, as desgraças que iam ferir os seus habitantes e a dispersão dos judeus.
21A incredulidade, que não admite a vida espiritual independente da matéria, não pode dar conta da presciência; é por isso que a nega, atribuindo ao acaso os fatos autênticos que se cumprem sob os seus olhos. É notável que ela recue diante do exame de todos os fenômenos psíquicos que se produzem por toda parte, sem dúvida com receio de ver neles a alma surgir e dar-lhe um desmentido.
22(João Batista.) Vendo vários dos fariseus e dos saduceus que vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que deve cair sobre vós? — Fazei, pois, frutos dignos de penitência; — e não penseis dizer convosco: Temos Abraão por pai; porque eu vos declaro que Deus pode fazer nascer destas mesmas pedras filhos de Abraão; — porque o machado já está posto à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bons frutos será cortada e lançada ao fogo. (São Mateus, cap. III, v. 7 a 10.)
23Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o reino dos céus; porque vós mesmos não entrareis nele e ainda vos opondes aos que desejam entrar!
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque, a pretexto das vossas longas preces, devorais as casas das viúvas; é por isso que recebereis um juízo mais rigoroso!
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito e, depois que ele o é, o tornais digno do inferno duas vezes mais que vós!
Ai de vós, condutores cegos, que dizeis: Se um homem jura pelo templo, isso nada é; mas quem quer que jure pelo ouro do templo está obrigado ao seu juramento! — Insensatos e cegos que sois! O que se deve estimar mais: o ouro, ou o templo que santifica o ouro? — E, se um homem, dizeis vós, jura pelo altar, isso nada é; mas quem quer que jure pela oferta que está sobre o altar está obrigado ao seu juramento. — Cegos que sois! O que se deve estimar mais: a oferta, ou o altar que santifica a oferta?
— Aquele, pois, que jura pelo altar, jura pelo altar e por tudo o que está sobre ele; — e quem quer que jure pelo templo, jura pelo templo e por aquele que nele habita; — e aquele que jura pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que nele está sentado.
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e abandonastes o que há de mais importante na lei, a saber: a justiça, a misericórdia e a fé! Eram essas as coisas que era preciso praticar, sem, no entanto, omitir as outras. — Condutores cegos, que tendes grande cuidado em coar o que bebeis, para não engolir um mosquito, e engolis um camelo!
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, e estais por dentro cheios de rapina e de impureza! — Fariseus cegos! Limpai primeiro o interior do copo e do prato, a fim de que o exterior fique limpo também.
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados, que, por fora, parecem belos aos olhos dos homens, mas que, por dentro, estão cheios de ossadas de mortos e de toda espécie de podridão!
— Assim, por fora, pareceis justos, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidades.
Ai de vós, escribas e fariseus, que edificais túmulos aos profetas e adornais os monumentos dos justos, — e que dizeis: Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, não nos teríamos juntado a eles para derramar o sangue dos profetas! — Acabai, pois, também de encher a medida dos vossos pais. — Serpentes, raça de víboras, como podereis evitar ser condenados ao inferno? — É por isso que vou enviar-vos profetas, sábios e escribas, e matareis uns, crucificareis outros, açoitareis outros nas vossas sinagogas e persegui-los-eis de cidade em cidade; — a fim de que todo o sangue inocente que foi derramado sobre a terra recaia sobre vós, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o templo e o altar! — Digo-vos, em verdade, que tudo isso virá cair sobre esta raça que existe hoje. (São Mateus, cap. XXIII, v. de 13 a 36.)
24Então os seus discípulos, aproximando-se, disseram-lhe: Sabeis que os fariseus, tendo ouvido o que acabais de dizer, se escandalizaram? — Mas ele respondeu: Toda planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada. — Deixai-os; são cegos que conduzem cegos; se um cego conduz outro, caem ambos no fosso. (São Mateus, cap. XV, v. 12, 13, 14.)
25O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão. (São Mateus, cap. XXIV, v. 33.)
26As palavras de Jesus não passarão, porque serão verdadeiras em todos os tempos; o seu código moral será eterno, porque encerra as condições do bem que conduz o homem ao seu destino eterno. Mas as suas palavras chegaram até nós puras de toda mistura e de falsas interpretações? Todas as seitas cristãs apreenderam o seu espírito? Nenhuma desviou o seu verdadeiro sentido, em consequência dos preconceitos e da ignorância das leis da natureza? Nenhuma fez delas um instrumento de dominação para servir a ambição e os interesses materiais, um degrau, não para se elevar ao céu, mas para se elevar na terra?
Todas se propuseram como regra de conduta a prática das virtudes de que ele fez a condição expressa da salvação? Todas estão isentas das censuras que ele dirigia aos fariseus do seu tempo? Todas, enfim, são, em teoria como na prática, a expressão pura da sua doutrina?
Sendo a verdade una, não pode encontrar-se em afirmações contrárias, e Jesus não pode ter querido dar um duplo sentido às suas palavras. Se, pois, as diferentes seitas se contradizem; se umas consideram verdadeiro o que outras condenam como heresias, é impossível que estejam todas na verdade. Se todas tivessem tomado o sentido verdadeiro do ensino evangélico, ter-se-iam encontrado no mesmo terreno, e não teria havido seitas.
O que não passará é o sentido verdadeiro das palavras de Jesus; o que passará é o que os homens construíram sobre o sentido falso que deram a essas mesmas palavras.
Tendo Jesus a missão de trazer aos homens o pensamento de Deus, só a sua doutrina pura pode ser a expressão desse pensamento; é por isso que disse: Toda planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada.
27Nunca lestes esta palavra nas Escrituras: A pedra que foi rejeitada pelos que construíam tornou-se a principal pedra do ângulo? Foi o Senhor que fez isso, e os nossos olhos o veem com admiração. — Por isso vos declaro que o reino de Deus vos será tirado e será dado a um povo que produzirá os seus frutos. — Aquele que cair sobre essa pedra despedaçar-se-á, e ela esmagará aquele sobre quem cair.
Os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, tendo ouvido essas palavras de Jesus, conheceram que era deles que falava; — e, querendo apoderar-se dele, temeram o povo, porque este o considerava um profeta. (São Mateus, cap. XXI, v. de 42 a 46.)
28A palavra de Jesus tornou-se a pedra angular, isto é, a pedra de consolidação do novo edifício da fé, erguido sobre as ruínas do antigo; tendo os judeus, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus rejeitado essa palavra, ela os esmagou, como esmagará os que depois a desconheceram ou desnaturaram o seu sentido em proveito da sua ambição.
29Havia um pai de família que, tendo plantado uma vinha, a cercou com uma sebe; e, cavando na terra, construiu nela uma torre; depois, tendo-a arrendado a vinhateiros, partiu para um país distante.
Ora, aproximando-se o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos vinhateiros para recolher o fruto da sua vinha. — Mas os vinhateiros, tendo agarrado os seus servos, bateram num, mataram outro e apedrejaram outro. — Enviou-lhes ainda outros servos, em maior número que os primeiros, e trataram-nos da mesma maneira. — Enfim enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo consigo: Terão algum respeito pelo meu filho. — Mas os vinhateiros, vendo o filho, disseram entre si: Eis o herdeiro; vinde, matemo-lo, e seremos senhores da sua herança. — Assim, tendo-o agarrado, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando, pois, vier o senhor da vinha, como tratará esses vinhateiros? — Responderam-lhe: Fará perecer miseravelmente esses maus e arrendará a sua vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no seu tempo. (São Mateus, cap. XXI, v. de 33 a 41.)
30O pai de família é Deus; a vinha que plantou é a lei que estabeleceu; os vinhateiros a quem arrendou a sua vinha são os homens que devem ensinar e praticar a sua lei; os servos que enviou a eles são os profetas que eles fizeram perecer; o seu filho, que envia enfim, é Jesus, que eles fizeram perecer da mesma maneira. Como, pois, o Senhor tratará os seus mandatários prevaricadores da sua lei? Tratá-los-á como eles trataram os seus enviados e chamará outros, que lhe prestarão melhores contas do seu bem e da condução do seu rebanho.
Assim aconteceu com os escribas, com os príncipes dos sacerdotes e com os fariseus; assim acontecerá quando ele vier de novo pedir contas a cada um do que fez da sua doutrina; tirará a autoridade a quem dela tiver abusado, porque quer que o seu campo seja administrado segundo a sua vontade.
Depois de dezoito séculos, a humanidade, chegada à idade viril, está madura para compreender o que o Cristo apenas aflorou, porque, como ele mesmo diz, não teria sido compreendido. Ora, a que resultado chegaram os que, durante esse longo período, foram encarregados da sua educação religiosa? A ver a indiferença suceder à fé e a incredulidade erigir-se em doutrina. Em nenhuma outra época, com efeito, o ceticismo e o espírito de negação estiveram mais espalhados em todas as classes da sociedade.
Mas, se algumas das palavras do Cristo estão veladas sob a alegoria, para tudo o que diz respeito à regra de conduta, às relações de homem para homem, aos princípios de moral de que faz a condição expressa da salvação (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XV), ele é claro, explícito e sem ambiguidade.
Que se fez das suas máximas de caridade, de amor e de tolerância; das recomendações que fez aos seus apóstolos de converter os homens pela brandura e pela persuasão; da simplicidade, da humildade, do desinteresse e de todas as virtudes de que deu o exemplo? Em seu nome, os homens lançaram-se o anátema e a maldição; degolaram-se em nome daquele que disse: Todos os homens são irmãos. Fez-se um Deus ciumento, cruel, vingativo e parcial daquele que ele proclamou infinitamente justo, bom e misericordioso; sacrificou-se a esse Deus de paz e de verdade, nas fogueiras, pelas torturas e pelas perseguições, mais milhares de vítimas do que jamais sacrificaram os pagãos aos falsos deuses; venderam-se as preces e os favores do céu em nome daquele que expulsou os vendedores do Templo e que disse aos seus discípulos: Dai gratuitamente o que recebestes gratuitamente.
Que diria o Cristo se vivesse hoje entre nós? Se visse os seus representantes ambicionarem as honras, as riquezas, o poder e o fausto dos príncipes do mundo, ao passo que ele, mais rei que os reis da terra, fez a sua entrada em Jerusalém montado num jumento? Não teria o direito de dizer-lhes: Que fizestes dos meus ensinos, vós que incensais o bezerro de ouro, que fazeis nas vossas preces uma larga parte aos ricos e uma magra parte aos pobres, quando eu vos disse: Os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros no reino dos céus? Mas, se ele não está aqui carnalmente, está em Espírito e, como o senhor da parábola, virá pedir contas aos seus vinhateiros do produto da sua vinha, quando chegar o tempo da colheita.
31Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; é preciso também que eu as traga; ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. (São João, cap. X, v. 16.)
32Por essas palavras, Jesus anuncia claramente que um dia os homens se reunirão numa crença única; mas como poderia fazer-se essa unificação? A coisa parece difícil, se se consideram as diferenças que existem entre as religiões, o antagonismo que mantêm entre os seus adeptos respectivos, a sua obstinação em se julgarem de posse exclusiva da verdade. Todas querem bem a unidade, mas todas se lisonjeiam de que ela se fará em seu proveito, e nenhuma pretende fazer concessões nas suas crenças.
Entretanto, a unidade far-se-á em religião como tende a fazer-se social, política e comercialmente, pelo abaixamento das barreiras que separam os povos, pela assimilação dos costumes, dos usos, da linguagem; os povos do mundo inteiro já confraternizam, como os das províncias de um mesmo império; pressente-se essa unidade, deseja-se. Far-se-á pela força das coisas, porque se tornará uma necessidade para estreitar os laços de fraternidade entre as nações; far-se-á pelo desenvolvimento da razão humana, que fará compreender a puerilidade dessas dissidências; pelo progresso das ciências, que demonstra cada dia os erros materiais sobre os quais elas se apoiam e desprende pouco a pouco as pedras carcomidas das suas fundações. Se a ciência demole, nas religiões, o que é obra dos homens e fruto da sua ignorância das leis da natureza, não pode destruir, apesar da opinião de alguns, o que é obra de Deus e de eterna verdade; desobstruindo os acessórios, prepara os caminhos da unidade.
Para chegar à unidade, as religiões deverão encontrar-se num terreno neutro, comum, entretanto, a todas; para isso, todas terão de fazer concessões e sacrifícios mais ou menos grandes, segundo a multiplicidade dos seus dogmas particulares. Mas, em virtude do princípio de imutabilidade que todas professam, a iniciativa das concessões não poderia vir do campo oficial; em vez de tomarem o seu ponto de partida do alto, tomá-lo-ão de baixo, pela iniciativa individual. Opera-se há algum tempo um movimento de descentralização que tende a adquirir uma força irresistível. O princípio de imutabilidade, que as religiões consideraram até aqui uma égide conservadora, tornar-se-á um elemento destruidor, visto que, imobilizando-se os cultos enquanto a sociedade marcha para a frente, serão ultrapassados e depois absorvidos na corrente das ideias de progresso.
Entre as pessoas que se desprendem, no todo ou em parte, dos troncos principais, e cujo número cresce sem cessar, se algumas nada querem, a imensa maioria, que de modo algum se acomoda ao nada, quer alguma coisa; essa alguma coisa ainda não está definida no seu pensamento, mas elas a pressentem; tendem para o mesmo fim por caminhos diferentes, e é por elas que começará o movimento de concentração rumo à unidade.
No estado atual da opinião e dos conhecimentos, a religião que deverá reunir um dia todos os homens sob uma mesma bandeira será a que melhor satisfizer a razão e as legítimas aspirações do coração e do espírito; que não for em nenhum ponto desmentida pela ciência positiva; que, em vez de se imobilizar, seguir a humanidade na sua marcha progressiva sem nunca se deixar ultrapassar; que não for nem exclusiva nem intolerante; que for emancipadora da inteligência, só admitindo a fé raciocinada; aquela cujo código de moral for o mais puro, o mais racional, o mais em harmonia com as necessidades sociais, o mais próprio, enfim, para fundar na Terra o reino do bem, pela prática da caridade e da fraternidade universais.
Entre as religiões existentes, as que mais se aproximarem dessas condições normais terão menos concessões a fazer; se uma delas as preenchesse completamente, tornar-se-ia naturalmente o eixo da unidade futura; essa unidade far-se-á em torno daquela que menos deixar a desejar à razão, não por uma decisão oficial, porque não se regulamenta a consciência, mas pelas adesões individuais e voluntárias.
O que mantém o antagonismo entre as religiões é a ideia de que cada uma tem o seu deus particular, e a sua pretensão de ter o único verdadeiro e o mais poderoso, que está em hostilidade constante com os deuses dos outros cultos e ocupado em combater a sua influência. Quando estiverem convencidas de que só há um único Deus no universo, e de que, afinal, é o mesmo que adoram sob os nomes de Jeová, Alá ou Deus; quando estiverem de acordo sobre os seus atributos essenciais, compreenderão que um Ser único só pode ter uma única vontade; estender-se-ão a mão como os servos de um mesmo Senhor e os filhos de um mesmo Pai, e terão dado um grande passo rumo à unidade.
33Então os seus discípulos perguntaram-lhe: Por que, então, dizem os escribas que é preciso que Elias venha antes? — Mas Jesus respondeu-lhes: É verdade que Elias deve vir e que restabelecerá todas as coisas.
Mas eu vos declaro que Elias já veio, e não o conheceram, mas trataram-no como lhes aprouve. É assim que farão morrer o Filho do homem.
Então os seus discípulos compreenderam que era de João Batista que lhes tinha falado. (São Mateus, cap. XVII, v. de 10 a 13.)
34Elias já tinha voltado na pessoa de João Batista (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV, n.º 10). A sua nova vinda é anunciada de maneira explícita; ora, como ele só pode voltar com um corpo novo, é a consagração formal do princípio da pluralidade das existências. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV.)
35Se me amais, guardai os meus mandamentos, — e eu rogarei a meu Pai, e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: — o Espírito de Verdade, que este mundo não pode receber, porque não o vê; mas vós o conhecereis, porque ficará convosco e estará em vós. — Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos disse. (São João, cap. XIV, v. 15, 16, 17, 26. — O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI.)
36Entretanto, digo-vos a verdade: É-vos útil que eu me vá, porque, se eu não me for, o Consolador não virá a vós; mas eu me vou e vo-lo enviarei; — e, quando ele vier, convencerá o mundo acerca do pecado, acerca da justiça e acerca do juízo: — acerca do pecado, porque não creram em mim; — acerca da justiça, porque vou para meu Pai e não me vereis mais; acerca do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.
Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora.
Quando esse Espírito de Verdade vier, vos ensinará toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir.
Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. (São João, cap. XVI, v. de 7 a 14.)
37Essa predição é sem contradita uma das mais importantes do ponto de vista religioso, porque constata da maneira menos equívoca que Jesus não disse tudo o que tinha a dizer, porque não teria sido compreendido, nem mesmo pelos seus apóstolos, pois é a eles que se dirige. Se lhes tivesse dado instruções secretas, eles teriam feito menção delas no Evangelho. Desde que não disse tudo aos seus apóstolos, os seus sucessores não puderam saber mais do que eles; puderam, pois, enganar-se sobre o sentido das suas palavras, dar uma falsa interpretação aos seus pensamentos, muitas vezes velados sob a forma de parábola. As religiões fundadas no Evangelho não podem, pois, dizer-se de posse de toda a verdade, já que ele se reservou completar ulteriormente as suas instruções. O seu princípio de imutabilidade é um protesto contra as próprias palavras de Jesus.
Anuncia, sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, aquele que deve ensinar todas as coisas e fazer lembrar o que ele disse; logo, o seu ensino não estava completo; além disso, prevê que se terá esquecido o que ele disse e que se terá desnaturado, pois o Espírito de Verdade deve fazê-lo lembrar e, de acordo com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, segundo o verdadeiro pensamento de Jesus.
38Quando deve vir esse novo revelador? É bem evidente que, se, na época em que Jesus falava, os homens não estavam em condições de compreender as coisas que lhe restavam dizer, não seria em alguns anos que poderiam adquirir as luzes necessárias. Para a inteligência de certas partes do Evangelho, com exceção dos preceitos de moral, eram precisos conhecimentos que só o progresso das ciências podia dar, e que deviam ser obra do tempo e de várias gerações. Se, pois, o novo Messias tivesse vindo pouco tempo depois do Cristo, teria encontrado o terreno tão pouco propício quanto ele e não teria feito mais do que ele. Ora, desde o Cristo até os nossos dias, não se produziu nenhuma grande revelação que tenha completado o Evangelho e que tenha elucidado as suas partes obscuras, indício certo de que o enviado ainda não tinha aparecido.
39Quem deve ser esse enviado? Dizendo Jesus: «Rogarei a meu Pai, e ele vos enviará outro Consolador», indica claramente que não é ele mesmo; de outro modo, teria dito: «Voltarei para completar o que vos ensinei.» Depois acrescenta: A fim de que fique eternamente convosco, e estará em vós. Isso não poderia entender-se de uma individualidade encarnada, que não pode ficar eternamente conosco, e menos ainda estar em nós, mas compreende-se muito bem de uma doutrina que, com efeito, depois que a assimilamos, pode estar eternamente em nós. O Consolador é, pois, no pensamento de Jesus, a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador deve ser o Espírito de Verdade.
40O Espiritismo realiza, como foi demonstrado (cap. I, n.º 30), todas as condições do Consolador prometido por Jesus. Não é uma doutrina individual, uma concepção humana; ninguém pode dizer-se o seu criador. É o produto do ensino coletivo dos Espíritos, a que preside o Espírito de Verdade. Não suprime nada do Evangelho: completa-o e elucida-o; com o auxílio das novas leis que revela, juntas às da ciência, faz compreender o que era ininteligível e admitir a possibilidade do que a incredulidade considerava inadmissível. Teve os seus precursores e os seus profetas, que pressentiram a sua vinda. Pelo seu poder moralizador, prepara o reino do bem na Terra.
A doutrina de Moisés, incompleta, ficou circunscrita ao povo judeu; a de Jesus, mais completa, espalhou-se por toda a Terra pelo cristianismo, mas não converteu todo o mundo; o Espiritismo, mais completo ainda, tendo raízes em todas as crenças, converterá a humanidade.
41O Cristo, dizendo aos seus apóstolos: «Outro virá mais tarde, que vos ensinará o que não posso dizer-vos agora», proclamava por isso mesmo a necessidade da reencarnação. Como poderiam esses homens aproveitar o ensino mais completo que devia ser dado ulteriormente; como seriam mais aptos a compreendê-lo, se não devessem reviver? Jesus teria dito uma inconsequência se os homens futuros devessem, segundo a doutrina vulgar, ser homens novos, almas saídas do nada no seu nascimento. Admiti, ao contrário, que os apóstolos e os homens do seu tempo viveram depois; que revivem ainda hoje: a promessa de Jesus acha-se justificada; a sua inteligência, que deve ter-se desenvolvido em contato com o progresso social, pode suportar agora o que não podia suportar então. Sem a reencarnação, a promessa de Jesus teria sido ilusória.
42Se se dissesse que essa promessa se realizou no dia de Pentecostes, pela descida do Espírito Santo, responder-se-ia que o Espírito Santo os inspirou, que pôde abrir a sua inteligência, desenvolver neles as aptidões mediúnicas que deviam facilitar a sua missão, mas que nada lhes ensinou além do que Jesus ensinara, porque não se encontra nenhum vestígio de um ensino especial. O Espírito Santo não realizou, pois, o que Jesus anunciara do Consolador; de outro modo, os apóstolos teriam elucidado, em vida, tudo o que ficou obscuro no Evangelho até hoje, e cuja interpretação contraditória deu lugar às inumeráveis seitas que dividiram o cristianismo desde o primeiro século.
43Então Jesus disse aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, que renuncie a si mesmo, que tome a sua cruz e me siga; — porque aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e aquele que perder a sua vida por amor de mim encontrá-la-á.
E de que serviria a um homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou por que troca poderá o homem resgatar a sua alma, depois de a ter perdido? — Porque o Filho do homem deve vir na glória de seu Pai com os seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras.
Digo-vos, em verdade, há alguns dos que estão aqui que não provarão a morte sem terem visto o Filho do homem vir no seu reino. (São Mateus, cap. XVI, v. de 24 a 28.)
44Então o sumo sacerdote, levantando-se no meio da assembleia, interrogou Jesus e disse-lhe: Nada respondeis ao que estes depõem contra vós? — Mas Jesus permanecia em silêncio e nada respondeu. O sumo sacerdote interrogou-o ainda e disse-lhe: Sois vós o Cristo, o Filho de Deus bendito para sempre? — Jesus respondeu-lhe: Eu o sou, e vereis um dia o Filho do homem sentado à direita da majestade de Deus e vindo sobre as nuvens do céu.
Logo o sumo sacerdote, rasgando as suas vestes, disse-lhes: Que necessidade temos ainda de testemunhas? (São Marcos, cap. XIV, v. de 60 a 63.)
45Jesus anuncia a sua segunda vinda, mas não diz que voltará à Terra com um corpo carnal, nem que o Consolador será personificado nele. Apresenta-se como devendo vir em Espírito, na glória de seu Pai, julgar o mérito e o demérito e dar a cada um segundo as suas obras, quando os tempos estiverem cumpridos.
Esta palavra: «Há alguns dos que estão aqui que não provarão a morte sem terem visto o Filho do homem vir no seu reino» parece uma contradição, pois é certo que ele não veio em vida de nenhum dos que estavam presentes. Jesus não podia, entretanto, enganar-se numa previsão dessa natureza, e sobretudo numa coisa contemporânea que lhe dizia respeito pessoalmente; é preciso primeiro perguntar-se se as suas palavras sempre foram bem fielmente reproduzidas. Pode-se duvidar disso, se se pensa que ele nada escreveu; que só foram recolhidas depois da sua morte; e, quando se vê o mesmo discurso quase sempre reproduzido em termos diferentes por cada evangelista, é uma prova evidente de que não são as expressões textuais de Jesus. É, além disso, provável que o sentido tenha sido às vezes alterado ao passar por traduções sucessivas.
Por outro lado, é certo que, se Jesus tivesse dito tudo o que poderia ter dito, se teria exprimido sobre todas as coisas de maneira nítida e precisa, que não teria dado lugar a nenhum equívoco, como o faz para os princípios de moral, ao passo que teve de velar o seu pensamento sobre os assuntos que não julgou conveniente aprofundar. Os apóstolos, persuadidos de que a geração presente devia ser testemunha do que ele anunciava, devem ter interpretado o pensamento de Jesus segundo a sua ideia; puderam, por conseguinte, redigi-lo no sentido do presente de maneira mais absoluta do que talvez ele mesmo o tenha feito. Seja como for, aí está o fato, que prova que as coisas não aconteceram como eles julgaram.
46Um ponto capital que Jesus não pôde desenvolver, porque os homens do seu tempo não estavam suficientemente preparados para essa ordem de ideias e para as suas consequências, mas cujo princípio, entretanto, estabeleceu, como o fez para todas as coisas, é a grande e importante lei da reencarnação. Essa lei, estudada e posta em evidência nos nossos dias pelo Espiritismo, é a chave de muitas passagens do Evangelho que, sem ela, parecem contrassensos.
É nessa lei que se pode encontrar a explicação racional das palavras acima, admitindo-as como textuais. Já que não podem aplicar-se à pessoa dos apóstolos, é evidente que se referem ao reino futuro do Cristo, isto é, ao tempo em que a sua doutrina, mais bem compreendida, será a lei universal. Dizendo-lhes que alguns dos que estavam presentes veriam a sua vinda, isso só podia entender-se no sentido de que reviveriam nessa época. Mas os judeus imaginavam que iam ver tudo o que Jesus anunciava e tomavam as suas alegorias ao pé da letra.
De resto, algumas das suas predições cumpriram-se no tempo deles, tais como a ruína de Jerusalém, as desgraças que foram a sua consequência e a dispersão dos judeus; mas ele leva a vista mais longe e, falando do presente, faz constantemente alusão ao futuro.
47Ouvireis também falar de guerras e de rumores de guerras; mas guardai-vos bem de vos perturbar, porque é preciso que essas coisas aconteçam; mas ainda não será o fim, — porque se verá levantar-se povo contra povo e reino contra reino; e haverá pestes, fomes e terremotos em diversos lugares, — e todas essas coisas serão apenas o começo das dores. (São Mateus, cap. XXIV, v. 6, 7, 8.)
48Então o irmão entregará o irmão à morte, e o pai, o filho; os filhos se levantarão contra os pais e as mães e os farão morrer. — E sereis odiados por todo o mundo por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo. (São Marcos, cap. XIII, v. 12, 13.)
49Quando virdes que a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel estará no lugar santo, que aquele que lê entenda bem o que lê.
Então, que os que estiverem na Judeia fujam para os montes. — Que aquele que estiver no alto do telhado não desça para levar alguma coisa da sua casa; — e que aquele que estiver no campo não volte para tomar as suas vestes. — Mas ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentando nesses dias. — Rogai, pois, a Deus que a vossa fuga não aconteça durante o inverno nem no dia de sábado, — porque a aflição desse tempo será tão grande que não houve semelhante desde o começo do mundo até agora, e nunca haverá. — E, se esses dias não tivessem sido abreviados, nenhum homem teria sido salvo; mas esses dias serão abreviados em favor dos eleitos. (São Mateus, cap. XXIV, v. 15 a 22.)
50Logo depois desses dias de aflição, o sol se obscurecerá, e a lua não dará mais a sua luz; as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas.
Então o sinal do Filho do homem aparecerá no céu, e todos os povos da terra estarão em prantos e em gemidos; e verão o Filho do homem, que virá sobre as nuvens do céu com grande majestade.
E enviará os seus anjos, que farão ouvir a voz retumbante das suas trombetas e que reunirão os seus eleitos dos quatro cantos do mundo, desde uma extremidade do céu até a outra.
Aprendei uma comparação tirada da figueira. Quando os seus ramos já estão tenros e ela lança folhas, sabeis que o verão está próximo. — Assim também, quando virdes todas essas coisas, sabei que o Filho do homem está próximo e que está como à porta.
Digo-vos, em verdade, que esta raça não passará sem que todas essas coisas se cumpram. (São Mateus, cap. XXIV, v. de 29 a 34.)
E acontecerá na vinda do Filho do homem o que aconteceu no tempo de Noé; — porque, como nos últimos tempos antes do dilúvio os homens comiam e bebiam, casavam-se e casavam os seus filhos, até o dia em que Noé entrou na arca; — e só conheceram o momento do dilúvio quando ele sobreveio e arrastou toda a gente, assim será na vinda do Filho do homem. (São Mateus, cap. XXIV, v. 37, 38.)
51Quanto a esse dia ou a essa hora, ninguém o sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, mas só o Pai. (São Marcos, cap. XIII, v. 32.)
52Em verdade, em verdade vos digo, chorareis e gemereis, e o mundo se alegrará; estareis na tristeza, mas a vossa tristeza se mudará em alegria. — Uma mulher, quando dá à luz, está na dor, porque chegou a sua hora; mas, depois que deu à luz um filho, já não se lembra de todos os seus males, na alegria que tem de ter posto um homem no mundo. — Assim vós estais agora na tristeza; mas eu vos verei de novo, e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos tirará a vossa alegria. (São João, cap. XVI, v. 20, 21, 22.)
53Levantar-se-ão muitos falsos profetas, que seduzirão muitas pessoas, — e, porque a iniquidade abundará, a caridade de muitos esfriará; — mas será salvo aquele que perseverar até o fim. — E este Evangelho do reino será pregado em toda a terra para servir de testemunho a todas as nações, e é então que chegará o fim. (São Mateus, cap. XXIV, v. de 11 a 14.)
54Esse quadro do fim dos tempos é evidentemente alegórico, como a maior parte dos que Jesus apresentava. As imagens que contém são de natureza, pela sua energia, a impressionar inteligências ainda rudes. Para impressionar essas imaginações pouco sutis, eram precisas pinturas vigorosas, de cores marcadas. Jesus dirigia-se sobretudo ao povo, aos homens menos esclarecidos, incapazes de compreender as abstrações metafísicas e de apreender a delicadeza das formas. Para chegar ao coração, era preciso falar aos olhos com o auxílio de sinais materiais, e aos ouvidos pelo vigor da linguagem.
Por uma consequência natural dessa disposição de espírito, o poder supremo só podia, segundo a crença de então, manifestar-se por coisas extraordinárias, sobrenaturais; quanto mais impossíveis eram, melhor eram aceitas como prováveis.
O Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu, com grande majestade, cercado dos seus anjos e ao som das trombetas, parecia-lhes muito mais imponente que um ser investido apenas do poder moral. Por isso os judeus, que esperavam no Messias um rei da terra, poderoso entre todos os reis, para pôr a sua nação no primeiro lugar e levantar o trono de Davi e de Salomão, não quiseram reconhecê-lo no humilde filho do carpinteiro, sem autoridade material, tratado de louco por uns e de sequaz de Satanás por outros; não podiam compreender um rei sem asilo e cujo reino não era deste mundo.
Entretanto, esse pobre proletário da Judeia tornou-se o maior entre os grandes; conquistou para a sua soberania mais reinos que os mais poderosos potentados; só com a sua palavra e alguns miseráveis pescadores, revolucionou o mundo, e é a ele que os judeus deverão a sua reabilitação.
55É de notar que, entre os Antigos, os terremotos e o obscurecimento do sol eram os símbolos obrigatórios de todos os acontecimentos e de todos os presságios sinistros; encontram-se na morte de Jesus, na de César e numa multidão de circunstâncias da história do paganismo. Se esses fenômenos se tivessem produzido tão frequentemente quanto se conta, pareceria impossível que os homens não tivessem conservado a sua memória pela tradição. Aqui acrescentam-se as estrelas que caem do céu, como para testemunhar às gerações futuras, mais esclarecidas, que se trata apenas de uma ficção, pois se sabe hoje que as estrelas não podem cair.
56Entretanto, sob essas alegorias escondem-se grandes verdades: é primeiro o anúncio das calamidades de todos os gêneros que ferirão a humanidade e a dizimarão; calamidades geradas pela luta suprema entre o bem e o mal, a fé e a incredulidade, as ideias progressivas e as ideias retrógradas. Em segundo lugar, o da difusão, por toda a Terra, do Evangelho restabelecido na sua pureza primitiva; depois, o reino do bem, que será o da paz e da fraternidade universal, sairá do código de moral evangélico posto em prática por todos os povos. Será verdadeiramente o reino de Jesus, pois ele presidirá ao seu estabelecimento, e os homens viverão sob a égide da sua lei; reino de felicidade, porque, diz ele, «depois dos dias de aflição virão os dias de alegria».
57Quando se cumprirão essas coisas? «Ninguém o sabe, diz Jesus, nem mesmo o Filho»; mas, quando chegar o momento, os homens serão advertidos por indícios precursores. Esses indícios não estarão nem no sol nem nas estrelas, mas no estado social e em fenômenos mais morais que físicos, que se podem em parte deduzir das suas alusões.
É bem certo que essa mudança não podia operar-se em vida dos apóstolos; de outro modo, Jesus não poderia tê-lo ignorado, e, aliás, tal transformação não podia cumprir-se em alguns anos. Entretanto, fala-lhes como se devessem ser testemunhas dela; é que, com efeito, poderão reviver nessa época e trabalhar eles mesmos na transformação. Ora fala da sorte próxima de Jerusalém, ora toma esse fato como ponto de comparação para o futuro.
58É o fim do mundo que Jesus anuncia pela sua nova vinda, quando diz: «Quando o Evangelho for pregado por toda a terra, é então que chegará o fim»?
Não é racional supor que Deus destrua o mundo precisamente no momento em que entrar no caminho do progresso moral pela prática dos ensinos evangélicos; nada, aliás, nas palavras do Cristo, indica uma destruição universal, que, em tais condições, não seria justificada.
Devendo a prática geral do Evangelho trazer uma melhoria no estado moral dos homens, trará por isso mesmo o reino do bem e acarretará a queda do do mal. É, pois, ao fim do velho mundo, do mundo governado pelos preconceitos, pelo orgulho, pelo egoísmo, pelo fanatismo, pela incredulidade, pela cupidez e por todas as más paixões, que o Cristo faz alusão quando diz: «Quando o Evangelho for pregado por toda a terra, é então que chegará o fim»; mas esse fim trará uma luta, e é dessa luta que sairão os males que ele prevê.
59Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei do meu espírito sobre toda carne; os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão; os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos. — Nesses dias, derramarei do meu espírito sobre os meus servos e sobre as minhas servas, e eles profetizarão. (Atos, cap. II, v. 17, 18.)
60Se se considera o estado atual do mundo físico e do mundo moral, as tendências, as aspirações, os pressentimentos das massas, a decadência das velhas ideias, que se debatem em vão há um século contra as ideias novas, não se pode duvidar de que uma nova ordem de coisas se prepara e de que o velho mundo chega ao seu fim.
Se agora, fazendo a parte da forma alegórica de certos quadros e perscrutando o sentido íntimo das suas palavras, se compara a situação atual com os tempos descritos por Jesus como devendo marcar a era da renovação, não se pode deixar de convir que várias das suas predições recebem hoje o seu cumprimento; de onde se deve concluir que chegamos aos tempos anunciados, o que confirmam em todos os pontos do globo os Espíritos que se manifestam.
61Como se viu (cap. I, n.º 32), o advento do Espiritismo, coincidindo com outras circunstâncias, realiza uma das mais importantes predições de Jesus, pela influência que deve forçosamente exercer sobre as ideias. Está, além disso, claramente anunciado na que é relatada nos Atos dos Apóstolos: «Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei do meu Espírito sobre toda carne; os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão.»
É o anúncio inequívoco da vulgarização da mediunidade, que se revela nos nossos dias em indivíduos de todas as idades, de todos os sexos e de todas as condições, e, por conseguinte, da manifestação universal dos Espíritos, porque sem os Espíritos não haveria médiuns. Isso, está dito, acontecerá nos últimos tempos; ora, como não chegamos ao fim do mundo, mas, ao contrário, à sua regeneração, deve-se entender por essas palavras os últimos tempos do mundo moral que acaba. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXI.)
62Ora, quando o Filho do homem vier na sua majestade, acompanhado de todos os anjos, sentar-se-á no trono da sua glória; — e, estando todas as nações reunidas diante dele, separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos bodes, e porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. — Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, vós que fostes abençoados por meu Pai etc. (São Mateus, cap. XXV, v. de 31 a 46. — O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XV.)
63Devendo o bem reinar na Terra, é preciso que os Espíritos endurecidos no mal, que poderiam levar a ela a perturbação, sejam excluídos dela. Deus deixou-os nela o tempo necessário à sua melhoria; mas, tendo chegado o momento em que o globo deve elevar-se na hierarquia dos mundos pelo progresso moral dos seus habitantes, a permanência nele, como Espíritos e como encarnados, será proibida aos que não tiverem aproveitado as instruções que puderam receber nele. Serão exilados em mundos inferiores, como o foram outrora na Terra os da raça adâmica, enquanto serão substituídos por Espíritos melhores. É essa separação, a que Jesus presidirá, que está figurada por estas palavras do juízo final: «Os bons passarão à minha direita, e os maus à minha esquerda.» (Cap. XI, n.º 31 e seguintes.)
64A doutrina de um juízo final, único e universal, pondo fim para sempre à humanidade, repugna à razão, no sentido de que implicaria a inatividade de Deus durante a eternidade que precedeu a criação da Terra e a eternidade que se seguirá à sua destruição. Pergunta-se de que utilidade seriam então o sol, a lua e as estrelas, que, segundo a Gênese, foram feitos para iluminar o nosso mundo. Espanta que uma obra tão imensa tenha sido feita para tão pouco tempo e em proveito de seres cuja maior parte estava votada de antemão aos suplícios eternos.
65Materialmente, a ideia de um juízo único era, até certo ponto, admissível para os que não procuram a razão das coisas, quando se julgava toda a humanidade concentrada na Terra e que tudo no universo fora feito para os seus habitantes; é inadmissível desde que se sabe que há bilhões de mundos semelhantes, que perpetuam as humanidades durante a eternidade, e entre os quais a Terra é um ponto imperceptível, dos menos consideráveis.
Vê-se, só por esse fato, que Jesus tinha razão em dizer aos seus discípulos: «Há muitas coisas que não posso dizer-vos, porque não as compreenderíeis», pois o progresso das ciências era indispensável para uma sã interpretação de algumas das suas palavras. Certamente os apóstolos, são Paulo e os primeiros discípulos teriam estabelecido certos dogmas de maneira inteiramente diversa se tivessem tido os conhecimentos astronômicos, geológicos, físicos, químicos, fisiológicos e psicológicos que hoje se possuem. Por isso Jesus adiou o complemento das suas instruções e anunciou que todas as coisas deviam ser restabelecidas.
66Moralmente, um juízo definitivo e sem apelação é inconciliável com a bondade infinita do Criador, que Jesus nos apresenta sem cessar como um bom Pai, que deixa sempre um caminho aberto ao arrependimento e está pronto a estender os braços ao filho pródigo. Se Jesus tivesse entendido o juízo nesse sentido, teria desmentido as suas próprias palavras.
E depois, se o juízo final deve surpreender os homens de improviso, no meio dos seus trabalhos ordinários, e as mulheres grávidas, pergunta-se com que fim Deus, que nada faz de inútil nem de injusto, faria nascer crianças e criaria almas novas nesse momento supremo, no termo fatal da humanidade, para fazê-las passar em julgamento ao saírem do seio da mãe, antes que tenham consciência de si mesmas, quando outras tiveram milhares de anos para se reconhecer? De que lado, à direita ou à esquerda, passarão essas almas, que ainda não são nem boas nem más, e às quais todo caminho ulterior de progresso está doravante fechado, pois a humanidade já não existirá? (Cap. II, n.º 19.)
Que os que se contentam com semelhantes crenças as conservem, é o seu direito, e ninguém tem nada a dizer; mas que não achem mau também que nem todo o mundo seja da sua opinião.
67O juízo por via de emigração, tal como foi definido acima (n.º 63), é racional; está fundado na mais rigorosa justiça, visto que deixa eternamente ao Espírito o seu livre-arbítrio; que não constitui privilégio para ninguém; que uma igual latitude é dada por Deus a todas as suas criaturas, sem exceção, para progredir; que a porta do céu está sempre aberta para os que se tornam dignos de nele entrar; que o próprio aniquilamento de um mundo, acarretando a destruição do corpo, não traria nenhuma interrupção à marcha progressiva do Espírito. Tal é a consequência da pluralidade dos mundos e da pluralidade das existências.
Segundo essa interpretação, a qualificação de juízo final não é exata, pois os Espíritos passam por semelhantes assembleias a cada renovação dos mundos que habitam, até terem atingido certo grau de perfeição. Não há, pois, propriamente falando, juízo final, mas há juízos gerais em todas as épocas de renovação parcial ou total da população dos mundos, em consequência dos quais se operam as grandes emigrações e imigrações de Espíritos.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês
Licença: Domínio público