A Gênese — XVIII. Os tempos são chegados
Ler no Une Sacra1Os tempos marcados por Deus chegaram, dizem-nos de todas as partes, em que grandes acontecimentos vão cumprir-se para a regeneração da humanidade. Em que sentido se devem entender essas palavras proféticas? Para os incrédulos, não têm nenhuma importância; aos seus olhos, são apenas a expressão de uma crença pueril, sem fundamento; para a maioria dos crentes, têm algo de místico e de sobrenatural, que lhes parece ser o precursor da subversão das leis da natureza. Essas duas interpretações são igualmente errôneas: a primeira, porque implica a negação da Providência; a segunda, porque essas palavras não anunciam a perturbação das leis da natureza, mas o seu cumprimento.
2Tudo é harmonia na criação; tudo revela uma previdência que não se desmente nem nas menores coisas nem nas maiores; devemos, pois, primeiro, afastar toda ideia de capricho, inconciliável com a sabedoria divina; em segundo lugar, se a nossa época está marcada para o cumprimento de certas coisas, é que elas têm a sua razão de ser na marcha do conjunto.
Posto isso, diremos que o nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Progride fisicamente pela transformação dos elementos que o compõem, e moralmente pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Esses dois progressos seguem-se e marcham paralelamente, porque a perfeição da habitação está em relação com a do habitante. Fisicamente, o globo sofreu transformações, constatadas pela ciência, que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados; moralmente, a humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e pelo abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que a melhoria do globo se opera sob o império das forças materiais, os homens concorrem para ela pelos esforços da sua inteligência; saneiam as regiões insalubres, tornam as comunicações mais fáceis e a terra mais produtiva.
Esse duplo progresso cumpre-se de duas maneiras: uma lenta, gradual e insensível; a outra, por mudanças mais bruscas, em cada uma das quais se opera um movimento ascensional mais rápido, que marca, por caracteres nítidos, os períodos progressivos da humanidade. Esses movimentos, subordinados nos pormenores ao livre-arbítrio dos homens, são de certo modo fatais no seu conjunto, porque estão submetidos a leis, como os que se operam na germinação, no crescimento e na maturidade das plantas, visto que o fim da humanidade é o progresso, não obstante a marcha retardatária de algumas individualidades; é por isso que o movimento progressivo é às vezes parcial, isto é, limitado a uma raça ou a uma nação, e outras vezes geral.
O progresso da humanidade efetua-se, pois, em virtude de uma lei; ora, como todas as leis da natureza são obra eterna da sabedoria e da presciência divinas, tudo o que é efeito dessas leis é resultado da vontade de Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade imutável. Quando, pois, a humanidade está madura para transpor um grau, pode-se dizer que os tempos marcados por Deus chegaram, como se pode dizer também que, em tal estação, chegaram para a maturação dos frutos e para a colheita.
3Do fato de o movimento progressivo da humanidade ser inevitável, porque está na natureza, não se segue que Deus lhe seja indiferente e que, depois de ter estabelecido leis, tenha voltado à inação, deixando as coisas andarem sozinhas. As suas leis são eternas e imutáveis, sem dúvida, mas porque a sua própria vontade é eterna e constante, e o seu pensamento anima todas as coisas sem interrupção; o seu pensamento, que penetra tudo, é a força inteligente e permanente que mantém tudo na harmonia; cesse esse pensamento um só instante de agir, e o universo seria como um relógio sem pêndulo regulador. Deus vela, pois, incessantemente pela execução das suas leis, e os Espíritos que povoam o espaço são os seus ministros encarregados dos pormenores, segundo as atribuições próprias do seu grau de adiantamento.
4O universo é ao mesmo tempo um mecanismo incomensurável conduzido por um número não menos incomensurável de inteligências, um imenso governo em que cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob o olhar do soberano Senhor, cuja vontade única mantém em toda parte a unidade. Sob o império desse vasto poder regulador, tudo se move, tudo funciona numa ordem perfeita; o que nos parece perturbações são movimentos parciais e isolados, que só nos parecem irregulares porque a nossa vista é circunscrita. Se pudéssemos abarcar o conjunto, veríamos que essas irregularidades são apenas aparentes e que se harmonizam no todo.
5A previsão dos movimentos progressivos da humanidade nada tem de surpreendente da parte de seres desmaterializados que veem o fim para o qual tendem todas as coisas, alguns dos quais possuem o pensamento direto de Deus, e que julgam, pelos movimentos parciais, o tempo em que poderá cumprir-se um movimento geral, como se julga de antemão o tempo de que uma árvore precisa para dar frutos, como os astrônomos calculam a época de um fenômeno astronômico pelo tempo de que um astro precisa para cumprir a sua revolução.
Mas todos os que anunciam esses fenômenos, os autores de almanaques que predizem os eclipses e as marés, não estão certamente em condições de fazer eles mesmos os cálculos necessários: são apenas ecos; assim acontece com os Espíritos secundários, cuja vista é limitada e que só repetem o que aprouve aos Espíritos superiores revelar-lhes.
6A humanidade realizou até hoje progressos incontestáveis; os homens, pela sua inteligência, chegaram a resultados que nunca tinham atingido no que diz respeito às ciências, às artes e ao bem-estar material; resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: é fazer reinar entre eles a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o bem-estar moral. Não o podiam nem com as suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, restos de outra época, boas em certo tempo, suficientes para um estado transitório, mas que, tendo dado o que comportavam, seriam hoje um ponto de parada. Assim uma criança é estimulada por móveis que se tornam impotentes quando chega a idade madura. Já não é somente o desenvolvimento da inteligência que é preciso aos homens, é a elevação do sentimento, e para isso é preciso destruir tudo o que podia sobre-excitar neles o egoísmo e o orgulho.
Tal é o período em que vão entrar doravante, e que marcará uma das fases principais da humanidade. Essa fase, que se elabora neste momento, é o complemento necessário do estado precedente, como a idade viril é o complemento da juventude; podia, pois, ser prevista e predita de antemão, e é por isso que se diz que os tempos marcados por Deus chegaram.
7Neste tempo, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a uma região, a um povo, a uma raça; é um movimento universal que se opera no sentido do progresso moral. Uma nova ordem de coisas tende a estabelecer-se, e os homens que mais se opõem a ela trabalham para ela sem o saber; a geração futura, livre das escórias do velho mundo e formada de elementos mais depurados, achar-se-á animada de ideias e de sentimentos inteiramente diversos dos da geração presente, que se vai a passos de gigante. O velho mundo estará morto e viverá na história como hoje os tempos da Idade Média, com os seus costumes bárbaros e as suas crenças supersticiosas.
De resto, todos sabem que a ordem de coisas atual deixa a desejar; depois de ter, de certo modo, esgotado o bem-estar material, que é produto da inteligência, chega-se a compreender que o complemento desse bem-estar só pode estar no desenvolvimento moral. Quanto mais se avança, mais se sente o que falta, sem poder ainda, entretanto, defini-lo claramente: é o efeito do trabalho íntimo que se opera para a regeneração; têm-se desejos, aspirações que são como o pressentimento de um estado melhor.
8Mas uma mudança tão radical quanto a que se elabora não pode cumprir-se sem comoção; há luta inevitável entre as ideias. Desse conflito nascerão forçosamente perturbações temporárias, até que o terreno seja desobstruído e o equilíbrio restabelecido. É, pois, da luta das ideias que surgirão os graves acontecimentos anunciados, e não de cataclismos ou de catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais eram consequência do estado de formação da Terra; hoje já não são as entranhas do globo que se agitam, são as da humanidade.
9A humanidade é um ser coletivo, em que se operam as mesmas revoluções morais que em cada ser individual, com esta diferença: umas cumprem-se de ano em ano, e as outras de século em século. Que se siga nas suas evoluções através dos tempos, e ver-se-á a vida das diversas raças marcada por períodos que dão a cada época uma fisionomia particular.
Ao lado dos movimentos parciais, há um movimento geral que dá o impulso à humanidade inteira; mas o progresso de cada parte do conjunto é relativo ao seu grau de adiantamento. Seria como uma família composta de vários filhos, dos quais o mais novo está no berço e o mais velho tem dez anos, por exemplo. Dentro de dez anos, o mais velho terá vinte e será um homem; o mais novo terá dez e, embora mais adiantado, será ainda uma criança; mas por sua vez se tornará um homem. Assim acontece com as diferentes frações da humanidade; as mais atrasadas avançam, mas não poderiam atingir de um salto o nível das mais adiantadas.
10A humanidade, tornada adulta, tem novas necessidades, aspirações mais largas, mais elevadas; compreende o vazio das ideias com que foi embalada, a insuficiência das suas instituições para a sua felicidade; já não encontra no estado das coisas as satisfações legítimas a que se sente chamada; é por isso que sacode os seus cueiros e se lança, impelida por uma força irresistível, para margens desconhecidas, à descoberta de novos horizontes menos limitados.
E é no momento em que ela se encontra apertada demais na sua esfera material, em que a vida intelectual transborda, em que o sentimento da espiritualidade desabrocha, que homens que se dizem filósofos esperam encher o vazio com as doutrinas do niilismo e do materialismo! Estranha aberração! Esses mesmos homens, que pretendem impeli-la para a frente, esforçam-se por circunscrevê-la no círculo estreito da matéria, de onde ela aspira a sair; fecham-lhe a vista da vida infinita e dizem-lhe, mostrando-lhe o túmulo: Nec plus ultra!
11A marcha progressiva da humanidade opera-se de duas maneiras, como dissemos: uma gradual, lenta, insensível, se se consideram as épocas próximas, que se traduz por melhorias sucessivas nos costumes, nas leis, nos usos, e só se percebe com o tempo, como as mudanças que as correntes de água trazem à superfície do globo; a outra, por movimentos relativamente bruscos, rápidos, semelhantes aos de uma torrente que rompe os seus diques, que lhe fazem transpor em alguns anos o espaço que teria levado séculos a percorrer. É então um cataclismo moral que traga em alguns instantes as instituições do passado, e ao qual sucede uma nova ordem de coisas, que se assenta pouco a pouco, à medida que a calma se restabelece, e se torna definitiva.
Àquele que vive bastante tempo para abarcar as duas vertentes da nova fase, parece que um mundo novo saiu das ruínas do antigo; o caráter, os costumes, os usos, tudo mudou; é que, com efeito, homens novos, ou antes regenerados, surgiram; as ideias levadas pela geração que se extingue deram lugar a ideias novas na geração que se ergue.
É a um desses períodos de transformação, ou, se quiserem, de crescimento moral, que chegou a humanidade. Da adolescência passa à idade viril; o passado já não pode bastar às suas novas aspirações, às suas novas necessidades; já não pode ser conduzida pelos mesmos meios; já não se paga de ilusões e de prestígios: a sua razão amadurecida precisa de alimentos mais substanciais. O presente é efêmero demais; sente que o seu destino é mais vasto e que a vida corporal é restrita demais para encerrá-lo inteiro; é por isso que mergulha os olhares no passado e no futuro, a fim de descobrir neles o mistério da sua existência e de tirar deles uma consoladora segurança.
12Quem quer que tenha meditado sobre o Espiritismo e as suas consequências, e não o circunscreva à produção de alguns fenômenos, compreende que ele abre à humanidade um caminho novo e lhe desenrola os horizontes do infinito; iniciando-a nos mistérios do mundo invisível, mostra-lhe o seu verdadeiro papel na criação, papel perpetuamente ativo, tanto no estado espiritual quanto no estado corporal. O homem já não caminha às cegas: sabe de onde vem, para onde vai e por que está na Terra. O futuro mostra-se a ele na sua realidade, livre dos preconceitos da ignorância e da superstição; já não é uma vaga esperança: é uma verdade palpável, tão certa para ele quanto a sucessão do dia e da noite. Sabe que o seu ser não está limitado a alguns instantes de uma existência efêmera; que a vida espiritual não é interrompida pela morte; que já viveu, que reviverá ainda, e que de tudo o que adquire em perfeição pelo trabalho nada se perde; encontra nas suas existências anteriores a razão do que é hoje; e, do que o homem se faz hoje, pode concluir o que será um dia.
13Com o pensamento de que a atividade e a cooperação individuais na obra geral da civilização estão limitadas à vida presente, de que nada se foi e nada se será, que importa ao homem o progresso ulterior da humanidade? Que lhe importa que no futuro os povos sejam mais bem governados, mais felizes, mais esclarecidos, melhores uns para os outros? Já que não deve tirar disso nenhum fruto, esse progresso não está perdido para ele? De que lhe serve trabalhar para os que virão depois dele, se nunca deve conhecê-los, se são seres novos que pouco depois voltarão eles mesmos ao nada? Sob o império da negação do futuro individual, tudo se apequena forçosamente às mesquinhas proporções do momento e da personalidade.
Mas, ao contrário, que amplitude dá ao pensamento do homem a certeza da perpetuidade do seu ser espiritual! Que há de mais racional, de mais grandioso, de mais digno do Criador que essa lei segundo a qual a vida espiritual e a vida corporal são apenas dois modos de existência que se alternam para o cumprimento do progresso! Que há de mais justo e de mais consolador que a ideia dos mesmos seres progredindo sem cessar, primeiro através das gerações do mesmo mundo e depois de mundo em mundo, até a perfeição, sem solução de continuidade! Todas as ações têm então um fim, porque, trabalhando para todos, trabalha-se para si, e reciprocamente; de sorte que nem o progresso individual nem o progresso geral são jamais estéreis; ele aproveita às gerações e às individualidades futuras, que não são outras senão as gerações e as individualidades passadas, chegadas a um grau mais elevado de adiantamento.
14A vida espiritual é a vida normal e eterna do Espírito, e a encarnação é apenas uma forma temporária da sua existência. Salvo a veste exterior, há, pois, identidade entre os encarnados e os desencarnados; são as mesmas individualidades sob dois aspectos diferentes, pertencendo ora ao mundo visível, ora ao mundo invisível, reencontrando-se seja num, seja noutro, concorrendo num e noutro para o mesmo fim, por meios apropriados à sua situação.
Dessa lei decorre a da perpetuidade das relações entre os seres; a morte não os separa e não põe termo às suas relações simpáticas nem aos seus deveres recíprocos. Daí a solidariedade de todos para com cada um, e de cada um para com todos; daí também a fraternidade. Os homens só viverão felizes na Terra quando esses dois sentimentos tiverem entrado nos seus corações e nos seus costumes, porque então conformarão com eles as suas leis e as suas instituições. Será esse um dos principais resultados da transformação que se opera.
Mas como conciliar os deveres da solidariedade e da fraternidade com a crença de que a morte torna para sempre os homens estranhos uns aos outros? Pela lei da perpetuidade das relações que ligam todos os seres, o Espiritismo funda esse duplo princípio nas próprias leis da natureza; faz dele não só um dever, mas uma necessidade. Pela da pluralidade das existências, o homem liga-se ao que se fez e ao que se fará, aos homens do passado e aos do futuro; já não pode dizer que nada tem de comum com os que morrem, pois uns e outros se reencontram sem cessar, neste mundo e no outro, para subirem juntos a escada do progresso e se prestarem um apoio mútuo. A fraternidade já não está circunscrita a alguns indivíduos que o acaso reúne durante a duração efêmera da vida; é perpétua como a vida do Espírito, universal como a humanidade, que constitui uma grande família cujos membros são todos solidários uns dos outros, qualquer que seja a época em que tenham vivido.
Tais são as ideias que ressaltam do Espiritismo e que ele suscitará entre todos os homens quando estiver universalmente difundido, compreendido, ensinado e praticado. Com o Espiritismo, a fraternidade, sinônimo da caridade pregada pelo Cristo, já não é uma palavra vã; tem a sua razão de ser. Do sentimento da fraternidade nasce o da reciprocidade e dos deveres sociais, de homem para homem, de povo para povo, de raça para raça; desses dois sentimentos bem compreendidos sairão forçosamente as instituições mais proveitosas ao bem-estar de todos.
15A fraternidade deve ser a pedra angular da nova ordem social; mas não há fraternidade real, sólida e efetiva se não estiver apoiada numa base inabalável; essa base é a fé; não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam com os tempos e com os povos e se atiram pedras, porque, anatematizando-se, mantêm o antagonismo; mas a fé nos princípios fundamentais que todos podem aceitar: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinido, a PERPETUIDADE DAS RELAÇÕES ENTRE OS SERES. Quando todos os homens estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos, de que esse Deus, soberanamente justo e bom, nada pode querer de injusto, de que o mal vem dos homens e não dele, olhar-se-ão como os filhos de um mesmo pai e estender-se-ão a mão.
É essa fé que o Espiritismo dá, e que será doravante o eixo sobre o qual se moverá o gênero humano, quaisquer que sejam os seus modos de adoração e as suas crenças particulares, que o Espiritismo respeita, mas de que não tem de ocupar-se.
Só dessa fé pode sair o verdadeiro progresso moral, porque só ela dá uma sanção lógica aos direitos legítimos e aos deveres; sem ela, o direito é o que a força dá; o dever, um código humano imposto pela coação. Sem ela, que é o homem? Um pouco de matéria que se dissolve, um ser efêmero que só passa; o próprio gênio é apenas uma centelha que brilha um instante para se apagar para sempre; não há nisso, certamente, com que elevá-lo muito aos seus próprios olhos.
Com tal pensamento, onde estão realmente os direitos e os deveres? Qual é o fim do progresso? Só essa fé faz o homem sentir a sua dignidade, pela perpetuidade e pela progressão do seu ser, não num futuro mesquinho e circunscrito à personalidade, mas grandioso e esplêndido; esse pensamento eleva-o acima da Terra; sente-se crescer pensando que tem o seu papel no universo; que esse universo é o seu domínio, que poderá percorrer um dia, e que a morte não fará dele uma nulidade, ou um ser inútil para si mesmo e para os outros.
16O progresso intelectual realizado até hoje nas mais vastas proporções é um grande passo e marca a primeira fase da humanidade; mas, sozinho, é impotente para regenerá-la; enquanto o homem for dominado pelo orgulho e pelo egoísmo, utilizará a sua inteligência e os seus conhecimentos em proveito das suas paixões e dos seus interesses pessoais; é por isso que os aplica ao aperfeiçoamento dos meios de prejudicar os outros e de se entredestruírem.
Só o progresso moral pode assegurar a felicidade dos homens na Terra, pondo um freio às más paixões; só ele pode fazer reinar entre eles a concórdia, a paz, a fraternidade.
É ele que abaixará as barreiras dos povos, que fará cair os preconceitos de casta e calar os antagonismos de seitas, ensinando aos homens a se olharem como irmãos chamados a se ajudarem mutuamente, e não a viverem à custa uns dos outros.
É ainda o progresso moral, secundado aqui pelo progresso da inteligência, que fundirá os homens numa mesma crença, estabelecida sobre as verdades eternas, não sujeitas a discussão e, por isso mesmo, aceitas por todos. A unidade de crença será o laço mais poderoso, o fundamento mais sólido da fraternidade universal, quebrada em todos os tempos pelos antagonismos religiosos que dividem os povos e as famílias, que fazem ver no próximo inimigos que é preciso evitar, combater, exterminar, em vez de irmãos que é preciso amar.
17Tal estado de coisas supõe uma mudança radical no sentimento das massas, um progresso geral que só podia cumprir-se saindo do círculo das ideias estreitas e terra a terra que fomentam o egoísmo. Em diversas épocas, homens de escol procuraram impelir a humanidade nesse caminho; mas a humanidade, ainda jovem demais, permaneceu surda, e os seus ensinos foram como a boa semente caída sobre a pedra.
Hoje a humanidade está madura para levar os seus olhares mais alto do que o fez, para assimilar ideias mais largas e compreender o que não tinha compreendido.
A geração que desaparece levará consigo os seus preconceitos e os seus erros; a geração que se ergue, retemperada numa fonte mais depurada, imbuída de ideias mais sãs, imprimirá ao mundo o movimento ascensional no sentido do progresso moral que deve marcar a nova fase da humanidade.
18Essa fase revela-se já por sinais inequívocos, por tentativas de reformas úteis, por ideias grandes e generosas que vêm à luz e começam a encontrar ecos. É assim que se vê fundar-se uma multidão de instituições protetoras, civilizadoras e emancipadoras, sob o impulso e por iniciativa de homens evidentemente predestinados à obra da regeneração; que as leis penais se impregnam cada dia de um sentimento mais humano. Os preconceitos de raça enfraquecem-se, os povos começam a olhar-se como os membros de uma grande família; pela uniformidade e pela facilidade dos meios de transação, suprimem as barreiras que os dividiam; de todas as partes do mundo, reúnem-se em assembleias universais para os torneios pacíficos da inteligência.
Mas falta a essas reformas uma base para se desenvolverem, se completarem e se consolidarem, uma predisposição moral mais geral para frutificarem e se fazerem aceitar pelas massas. Não deixa por isso de ser um sinal característico do tempo, o prelúdio do que se cumprirá numa escala maior, à medida que o terreno se tornar mais propício.
19Um sinal não menos característico do período em que entramos é a reação evidente que se opera no sentido das ideias espiritualistas; uma repulsão instintiva manifesta-se contra as ideias materialistas. O espírito de incredulidade, que se apoderara das massas, ignorantes ou esclarecidas, e lhes fizera rejeitar, com a forma, o próprio fundo de toda crença, parece ter sido um sono, ao sair do qual se sente a necessidade de respirar um ar mais vivificante. Involuntariamente, onde se fez o vazio, procura-se alguma coisa, um ponto de apoio, uma esperança.
20Nesse grande movimento regenerador, o Espiritismo tem um papel considerável, não o Espiritismo ridículo inventado por uma crítica zombeteira, mas o Espiritismo filosófico, tal como o compreende quem quer que se dê o trabalho de procurar a amêndoa sob a casca.
Pelas provas que traz das verdades fundamentais, enche o vazio que a incredulidade faz nas ideias e nas crenças; pela certeza que dá de um futuro conforme à justiça de Deus, e que a razão mais severa pode admitir, tempera as amarguras da vida e previne os funestos efeitos do desespero.
Dando a conhecer novas leis da natureza, dá a chave de fenômenos incompreendidos e de problemas insolúveis até hoje, e mata ao mesmo tempo a incredulidade e a superstição. Para ele, não há nem sobrenatural nem maravilhoso; tudo se cumpre no mundo em virtude de leis imutáveis.
Longe de substituir um exclusivismo por outro, coloca-se como campeão absoluto da liberdade de consciência; combate o fanatismo sob todas as formas e corta-o na raiz, proclamando a salvação para todos os homens de bem e a possibilidade, para os mais imperfeitos, de chegarem, pelos seus esforços, pela expiação e pela reparação, à perfeição, que é a única que conduz à suprema felicidade. Em vez de desencorajar o fraco, encoraja-o, mostrando-lhe o porto que pode atingir.
Não diz: Fora do Espiritismo não há salvação; mas, com o Cristo: Fora da caridade não há salvação, princípio de união, de tolerância, que reunirá os homens num sentimento comum de fraternidade, em vez de dividi-los em seitas inimigas.
Por este outro princípio: Só é inabalável a fé que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade, destrói o império da fé cega, que aniquila a razão, e da obediência passiva, que embrutece; emancipa a inteligência do homem e levanta o seu moral.
Consequente consigo mesmo, não se impõe; diz o que é, o que quer, o que dá, e espera que venham a ele livre, voluntariamente; quer ser aceito pela razão, e não pela força. Respeita todas as crenças sinceras e só combate a incredulidade, o egoísmo, o orgulho e a hipocrisia, que são as chagas da sociedade e os obstáculos mais sérios ao progresso moral; mas não lança o anátema a ninguém, nem mesmo aos seus inimigos, porque está convencido de que o caminho do bem está aberto aos mais imperfeitos, e de que, cedo ou tarde, eles entrarão nele.
21Se se supõe a maioria dos homens imbuída desses sentimentos, pode-se facilmente imaginar as modificações que trariam às relações sociais: caridade, fraternidade, benevolência para com todos, tolerância para com todas as crenças, tal será a sua divisa. É o fim para o qual tende evidentemente a humanidade, o objeto das suas aspirações, dos seus desejos, sem que ela se dê bem conta dos meios de realizá-los; ensaia, tateia, mas é detida por resistências ativas ou pela força de inércia dos preconceitos, das crenças estacionárias e refratárias ao progresso. São essas resistências que é preciso vencer, e essa será a obra da nova geração; se se segue o curso atual das coisas, reconhecer-se-á que tudo parece predestinado a abrir-lhe o caminho; terá a seu favor o duplo poder do número e das ideias, e, além disso, a experiência do passado.
22A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que tiver chegado. O Espiritismo, marchando para o mesmo fim e realizando os seus desígnios, encontrar-se-ão no mesmo terreno. Os homens de progresso encontrarão nas ideias espíritas uma poderosa alavanca, e o Espiritismo encontrará nos homens novos espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo. Nesse estado de coisas, que poderão fazer os que quisessem atravessar-se no caminho?
23Não é o Espiritismo que cria a renovação social; é a maturidade da humanidade que faz dessa renovação uma necessidade. Pelo seu poder moralizador, pelas suas tendências progressivas, pela amplitude dos seus pontos de vista, pela generalidade das questões que abarca, o Espiritismo é, mais que qualquer outra doutrina, apto a secundar o movimento regenerador; é por isso que é seu contemporâneo. Veio no momento em que podia ser útil, porque para ele também os tempos chegaram; mais cedo, teria encontrado obstáculos insuperáveis; teria inevitavelmente sucumbido, porque os homens, satisfeitos com o que tinham, ainda não sentiam a necessidade do que ele traz. Hoje, nascido com o movimento das ideias que fermentam, encontra o terreno preparado para recebê-lo; os espíritos, cansados da dúvida e da incerteza, assustados com o abismo que se cava diante deles, acolhem-no como uma âncora de salvação e uma suprema consolação.
24Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não quer dizer que todos os indivíduos o estejam no mesmo grau; mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas, que as circunstâncias farão eclodir; então se mostrarão mais adiantados do que se supunha e seguirão com empenho o impulso da maioria.
Há, entretanto, os que são profundamente refratários, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente nunca se reunirão a ele, pelo menos nesta existência: uns, de boa-fé, por convicção; outros, por interesse. Aqueles cujos interesses materiais estão ligados ao estado presente das coisas, e que não são bastante adiantados para fazer abnegação deles, a quem o bem geral toca menos que o da sua pessoa, não podem ver sem apreensão o menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, para melhor dizer, a verdade, para certas pessoas, está inteira no que não lhes causa nenhuma perturbação; todas as ideias progressivas são aos seus olhos ideias subversivas; é por isso que lhes votam um ódio implacável e lhes fazem uma guerra encarniçada. Inteligentes demais para não verem no Espiritismo um auxiliar dessas ideias e os elementos da transformação que temem, porque não se sentem à sua altura, esforçam-se por abatê-lo; se o julgassem sem valor e sem alcance, não se preocupariam com ele. Já o dissemos em outro lugar: «Quanto maior é uma ideia, mais adversários encontra, e pode-se medir a sua importância pela violência dos ataques de que é objeto.»
25O número dos retardatários ainda é grande, sem dúvida; mas que podem eles contra a onda que sobe, senão atirar-lhe algumas pedras? Essa onda é a geração que se ergue, enquanto eles desaparecem com a geração que se vai cada dia a grandes passos. Até lá, defenderão o terreno palmo a palmo; há, pois, uma luta inevitável, mas uma luta desigual, porque é a do passado decrépito, que cai em farrapos, contra o futuro juvenil; da estagnação contra o progresso; da criatura contra a vontade de Deus, porque os tempos marcados por ele chegaram.
26Para que os homens sejam felizes na Terra, é preciso que ela só seja povoada de bons Espíritos, encarnados e desencarnados, que só queiram o bem. Tendo chegado esse tempo, uma grande emigração cumpre-se neste momento entre os que a habitam; os que fazem o mal pelo mal, e a quem o sentimento do bem não toca, não sendo mais dignos da Terra transformada, serão excluídos dela, porque levariam a ela de novo a perturbação e a confusão e seriam um obstáculo ao progresso. Irão expiar o seu endurecimento, uns em mundos inferiores, outros entre raças terrestres atrasadas, que serão o equivalente de mundos inferiores, aonde levarão os seus conhecimentos adquiridos e que terão por missão fazer avançar. Serão substituídos por Espíritos melhores, que farão reinar entre eles a justiça, a paz, a fraternidade.
A Terra, no dizer dos Espíritos, não deve ser transformada por um cataclismo que aniquilaria subitamente uma geração. A geração atual desaparecerá gradualmente, e a nova lhe sucederá da mesma maneira, sem que nada seja mudado na ordem natural das coisas.
Tudo se passará, pois, exteriormente como de costume, com esta única diferença, mas essa diferença é capital: uma parte dos Espíritos que se encarnavam nela já não se encarnará. Numa criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que se teria encarnado nela, será um Espírito mais adiantado e inclinado ao bem.
Trata-se, pois, muito menos de uma nova geração corporal do que de uma nova geração de Espíritos. Assim, os que esperassem ver a transformação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos ficarão decepcionados.
27A época atual é a da transição; os elementos das duas gerações confundem-se. Colocados no ponto intermediário, assistimos à partida de uma e à chegada da outra, e cada uma já se assinala no mundo pelos caracteres que lhe são próprios.
As duas gerações que se sucedem têm ideias e pontos de vista inteiramente opostos. Pela natureza das disposições morais, mas sobretudo das disposições intuitivas e inatas, é fácil distinguir a qual das duas pertence cada indivíduo.
A nova geração, devendo fundar a era do progresso moral, distingue-se por uma inteligência e uma razão geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Não será composta exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas dos que, tendo já progredido, estão predispostos a assimilar todas as ideias progressivas e aptos a secundar o movimento regenerador.
O que distingue, ao contrário, os Espíritos atrasados é, primeiro, a revolta contra Deus, pela recusa de reconhecer qualquer poder superior à humanidade; depois, a propensão instintiva às paixões degradantes, aos sentimentos antifraternos do egoísmo, do orgulho, do apego a tudo o que é material.
São esses os vícios de que a Terra deve ser purgada pelo afastamento dos que se recusam a emendar-se, porque são incompatíveis com o reino da fraternidade e os homens de bem sempre sofrerão com o seu contato; quando a Terra estiver livre deles, os homens marcharão sem entraves para o futuro melhor que lhes está reservado desde aqui embaixo, como prêmio dos seus esforços e da sua perseverança, enquanto esperam que uma depuração ainda mais completa lhes abra a entrada dos mundos superiores.
28Por essa emigração dos Espíritos, não se deve entender que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e relegados a mundos inferiores. Muitos, ao contrário, voltarão a ela, porque muitos cederam ao arrastamento das circunstâncias e do exemplo; a casca era neles pior que o fundo. Uma vez subtraídos à influência da matéria e dos preconceitos do mundo corporal, a maior parte verá as coisas de maneira inteiramente diferente do que em vida, como temos numerosos exemplos disso. Nisso são ajudados pelos Espíritos benevolentes que se interessam por eles e que se apressam em esclarecê-los e em mostrar-lhes o caminho falso que seguiram. Pelas nossas preces e pelas nossas exortações, nós mesmos podemos contribuir para a sua melhoria, porque há solidariedade perpétua entre os mortos e os vivos.
A maneira como se opera a transformação é muito simples e, como se vê, é toda moral e em nada se afasta das leis da natureza.
29Sejam os Espíritos da nova geração novos Espíritos melhores, ou os antigos Espíritos melhorados, o resultado é o mesmo; desde o instante em que trazem melhores disposições, é sempre uma renovação. Os Espíritos encarnados formam assim duas categorias, segundo as suas disposições naturais: de um lado, os Espíritos retardatários que partem; do outro, os Espíritos progressivos que chegam. O estado dos costumes e da sociedade estará, pois, num povo, numa raça ou no mundo inteiro, em razão daquela das duas categorias que tiver a preponderância.
Para simplificar a questão, suponhamos um povo, num grau qualquer de adiantamento, composto de vinte milhões de almas, por exemplo; fazendo-se a renovação dos Espíritos à medida das extinções, isoladas ou em massa, houve necessariamente um momento em que a geração dos Espíritos retardatários prevalecia em número sobre a dos Espíritos progressivos, que só contavam raros representantes sem influência, cujos esforços para fazer predominar o bem e as ideias progressivas eram paralisados. Ora, partindo uns e chegando outros, depois de um tempo dado as duas forças equilibram-se e a sua influência contrabalança-se. Mais tarde, os recém-chegados estão em maioria e a sua influência torna-se preponderante, embora ainda entravada pela dos primeiros; estes, continuando a diminuir enquanto os outros se multiplicam, acabarão por desaparecer; chegará, pois, um momento em que a influência da nova geração será exclusiva; mas isso não se pode compreender se não se admite a vida espiritual independente da vida material.
30Assistimos a essa transformação, ao conflito que resulta da luta das ideias contrárias que procuram implantar-se; umas marcham com a bandeira do passado, as outras com a do futuro. Se se examina o estado atual do mundo, reconhecer-se-á que, tomada no seu conjunto, a humanidade terrestre ainda está longe do ponto intermediário em que as forças se equilibram; que os povos, considerados isoladamente, estão a grande distância uns dos outros nessa escala; que alguns tocam esse ponto, mas que nenhum ainda o ultrapassou. De resto, a distância que os separa dos pontos extremos está longe de ser igual em duração, e, uma vez transposto o limite, o novo caminho será percorrido com tanto mais rapidez quanto uma multidão de circunstâncias virá aplaná-lo.
Assim se cumpre a transformação da humanidade. Sem a emigração, isto é, sem a partida dos Espíritos retardatários que não devem voltar, ou que só devem voltar depois de se terem melhorado, a humanidade terrestre não ficaria por isso indefinidamente estacionária, porque os Espíritos mais atrasados avançam por sua vez; mas teriam sido precisos séculos, e talvez milhares de anos, para atingir o resultado que meio século bastará para realizar.
31Uma comparação vulgar fará compreender melhor ainda o que se passa nessa circunstância. Suponhamos um regimento composto, em grande maioria, de homens turbulentos e indisciplinados: estes levarão a ele sem cessar uma desordem que a severidade da lei penal terá muitas vezes dificuldade em reprimir. Esses homens são os mais fortes, porque são os mais numerosos; sustentam-se, encorajam-se e estimulam-se pelo exemplo. Os poucos bons não têm influência; os seus conselhos são desprezados; são escarnecidos, maltratados pelos outros, e sofrem com esse contato. Não é essa a imagem da sociedade atual? Suponhamos que se retirem esses homens do regimento, um a um, dez a dez, cem a cem, e que se substituam à medida por igual número de bons soldados, até pelos que foram expulsos, mas que se tiverem emendado seriamente: ao cabo de algum tempo, ter-se-á sempre o mesmo regimento, mas transformado; a boa ordem terá sucedido à desordem. Assim acontecerá com a humanidade regenerada.
32As grandes partidas coletivas não têm somente por fim ativar as saídas, mas transformar mais rapidamente o espírito da massa, livrando-a das más influências, e dar mais ascendente às ideias novas.
É porque muitos, apesar das suas imperfeições, estão maduros para essa transformação que muitos partem, a fim de irem retemperar-se numa fonte mais pura. Enquanto tivessem ficado no mesmo meio e sob as mesmas influências, teriam persistido nas suas opiniões e na sua maneira de ver as coisas. Uma permanência no mundo dos Espíritos basta para lhes abrir os olhos, porque veem ali o que não podiam ver na Terra. O incrédulo, o fanático, o absolutista poderão, pois, voltar com ideias inatas de fé, de tolerância e de liberdade. Na sua volta, encontrarão as coisas mudadas e sofrerão o ascendente do novo meio em que tiverem nascido. Em vez de fazerem oposição às ideias novas, serão os seus auxiliares.
33A regeneração da humanidade não precisa, pois, absolutamente, da renovação integral dos Espíritos: basta uma modificação nas suas disposições morais; essa modificação opera-se em todos os que estão predispostos a ela, quando são subtraídos à influência perniciosa do mundo. Os que voltam então nem sempre são outros Espíritos, mas muitas vezes os mesmos Espíritos, pensando e sentindo de outro modo.
Quando essa melhoria é isolada e individual, passa despercebida e não tem influência ostensiva sobre o mundo. Inteiramente outro é o efeito quando se opera simultaneamente em grandes massas; porque então, segundo as proporções, numa geração, as ideias de um povo ou de uma raça podem ser profundamente modificadas.
É o que se nota quase sempre depois dos grandes abalos que dizimam as populações. Os flagelos destruidores só destroem o corpo, mas não atingem o Espírito; ativam o movimento de vaivém entre o mundo corporal e o mundo espiritual e, por conseguinte, o movimento progressivo dos Espíritos encarnados e desencarnados. É de notar que, em todas as épocas da história, as grandes crises sociais foram seguidas de uma era de progresso.
34É um desses movimentos gerais que se opera neste momento e que deve trazer a remodelação da humanidade. A multiplicidade das causas de destruição é um sinal característico dos tempos, porque devem apressar a eclosão dos novos germes. São as folhas de outono que caem, e às quais sucederão novas folhas cheias de vida, porque a humanidade tem as suas estações, como os indivíduos têm as suas idades. As folhas mortas da humanidade caem, levadas pelas rajadas e pelos golpes de vento, mas para renascerem mais vivazes sob o mesmo sopro de vida, que não se extingue, mas se purifica.
35Para o materialista, os flagelos destruidores são calamidades sem compensação, sem resultados úteis, pois, segundo ele, aniquilam os seres sem retorno. Mas, para aquele que sabe que a morte só destrói o envoltório, não têm as mesmas consequências e não lhe causam o menor pavor; compreende o seu fim e sabe também que os homens não perdem mais em morrer juntos do que em morrer isoladamente, pois, de uma maneira ou de outra, é sempre preciso chegar a isso.
Os incrédulos rirão dessas coisas e as tratarão de quimeras; mas, digam o que disserem, não escaparão à lei comum; cairão por sua vez como os outros, e então que será deles? Dizem: nada; mas viverão, a despeito de si mesmos, e serão obrigados um dia a abrir os olhos.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês
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