A Gênese — I. Caracteres da revelação espírita
Ler no Une Sacra1Pode-se considerar o Espiritismo uma revelação? Nesse caso, qual é o seu caráter? Sobre o que se funda a sua autenticidade? A quem e de que maneira foi feita? A doutrina espírita é uma revelação no sentido litúrgico da palavra, isto é, é em todos os pontos o produto de um ensino oculto vindo do alto? É absoluta ou suscetível de modificações? Trazendo aos homens a verdade já pronta, não teria a revelação o efeito de impedi-los de fazer uso das suas faculdades, já que lhes pouparia o trabalho da pesquisa? Qual pode ser a autoridade do ensino dos Espíritos, se eles não são infalíveis nem superiores à humanidade? Qual é a utilidade da moral que pregam, se essa moral não é outra senão a do Cristo, que já se conhece? Quais são as verdades novas que nos trazem? Precisa o homem de uma revelação, e não pode encontrar em si mesmo e na sua consciência tudo o que lhe é necessário para se conduzir? Tais são as questões sobre as quais importa ter uma posição firme.
2Definamos primeiro o sentido da palavra revelação.
Revelar, derivado da palavra véu (do latim velum), significa literalmente tirar o véu; e, no sentido figurado: descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Na sua acepção vulgar mais geral, diz-se de toda coisa ignorada que é trazida à luz, de toda ideia nova que põe no caminho do que não se sabia.
Desse ponto de vista, todas as ciências que nos dão a conhecer os mistérios da natureza são revelações, e pode-se dizer que há para nós uma revelação incessante; a astronomia revelou-nos o mundo astral, que não conhecíamos; a geologia, a formação da Terra; a química, a lei das afinidades; a fisiologia, as funções do organismo etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier são reveladores.
3O caráter essencial de toda revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo é dar a conhecer um fato; se a coisa é falsa, não é um fato e, por conseguinte, não há revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos não é revelação; se é atribuída a Deus, como Deus não pode mentir nem enganar-se, ela não pode emanar dele; deve ser considerada produto de uma concepção humana.
4Qual é o papel do professor diante dos seus alunos, senão o de um revelador? Ensina-lhes o que não sabem, o que não teriam nem tempo nem possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a ciência é obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que trouxeram, cada um, o seu contingente de observações, das quais se aproveitam os que vêm depois deles. O ensino é, pois, na realidade, a revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feita por homens que as conhecem a outros que as ignoram e que, sem isso, as teriam ignorado sempre.
5Mas o professor só ensina o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que ele mesmo encontrou: é o revelador primitivo; traz a luz que, pouco a pouco, se vulgariza. Onde estaria a humanidade sem a revelação dos homens de gênio que aparecem de tempos em tempos?
Mas o que são os homens de gênio? Por que são homens de gênio? De onde vêm? Em que se tornam? Notemos que a maior parte deles traz ao nascer faculdades transcendentes e conhecimentos inatos, que um pouco de trabalho basta para desenvolver. Pertencem realmente à humanidade, pois nascem, vivem e morrem como nós. Onde, então, buscaram esses conhecimentos que não puderam adquirir em vida? Dir-se-á, com os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Nesse caso, não teriam mais mérito que um legume maior e mais saboroso que outro.
Dir-se-á, com certos espiritualistas, que Deus os dotou de uma alma mais favorecida que a do comum dos homens? Suposição igualmente ilógica, pois macularia Deus de parcialidade. A única solução racional desse problema está na preexistência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que viveu mais tempo; que, por conseguinte, adquiriu mais e progrediu mais que os menos adiantados. Ao encarnar-se, traz o que sabe e, como sabe muito mais que os outros sem precisar aprender, é o que se chama um homem de gênio. Mas o que sabe não deixa de ser fruto de um trabalho anterior, e não resultado de um privilégio. Antes de renascer, era, pois, um Espírito adiantado; reencarna-se, seja para fazer os outros aproveitarem o que sabe, seja para adquirir mais.
Os homens progridem incontestavelmente por si mesmos e pelos esforços da sua inteligência; mas, entregues às próprias forças, esse progresso é muito lento, se não forem ajudados por homens mais adiantados, como o aluno o é pelos seus professores. Todos os povos tiveram os seus homens de gênio, que vieram, em diversas épocas, dar-lhes um impulso e tirá-los da inércia.
6Desde que se admite a solicitude de Deus por suas criaturas, por que não se admitiria que Espíritos capazes, pela sua energia e pela superioridade dos seus conhecimentos, de fazer a humanidade avançar se encarnem pela vontade de Deus com o fim de ajudar o progresso num sentido determinado; que recebam uma missão, como um embaixador a recebe do seu soberano? Tal é o papel dos grandes gênios. Que vêm eles fazer, senão ensinar aos homens verdades que estes ignoram, e que teriam ignorado ainda por longos períodos, a fim de lhes dar um degrau com cujo auxílio possam elevar-se mais rapidamente? Esses gênios, que aparecem através dos séculos como estrelas brilhantes, deixando atrás de si um longo rastro luminoso sobre a humanidade, são missionários ou, se quiserem, messias. Se não ensinassem aos homens nada além do que estes já sabem, a sua presença seria completamente inútil; as coisas novas que lhes ensinam, seja na ordem física, seja na ordem filosófica, são revelações.
Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que são um dos elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos cujas ideias atravessaram os séculos.
7No sentido especial da fé religiosa, a revelação diz-se mais particularmente das coisas espirituais que o homem não pode saber por si mesmo, que não pode descobrir por meio dos sentidos, e cujo conhecimento lhe é dado por Deus ou pelos seus mensageiros, seja por meio da palavra direta, seja pela inspiração. Nesse caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados pelo nome de profetas ou messias, isto é, enviados, missionários, que têm a missão de transmiti-la aos homens. Considerada desse ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta; é aceita sem controle, sem exame, sem discussão.
8Todas as religiões tiveram os seus reveladores e, embora todos estejam longe de ter conhecido toda a verdade, tinham a sua razão de ser providencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao gênio particular dos povos a que falavam e em relação aos quais eram relativamente superiores. Apesar dos erros das suas doutrinas, nem por isso deixaram de mover os espíritos e, por isso mesmo, de semear germes de progresso que mais tarde deviam desabrochar, ou desabrocharão um dia, ao sol do Cristianismo. É, pois, sem razão que se lança contra eles o anátema em nome da ortodoxia, porque virá o dia em que todas essas crenças, tão diversas na forma, mas que repousam na realidade sobre um mesmo princípio fundamental — Deus e a imortalidade da alma —, se fundirão numa grande e vasta unidade, quando a razão tiver triunfado dos preconceitos.
Infelizmente, as religiões foram em todos os tempos instrumentos de dominação; o papel de profeta tentou as ambições secundárias, e viu-se surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias que, à sombra do prestígio desse nome, exploraram a credulidade em proveito do seu orgulho, da sua cupidez ou da sua preguiça, achando mais cômodo viver à custa dos seus logrados. A religião cristã não esteve ao abrigo desses parasitas. A esse respeito, chamamos uma atenção séria para o capítulo XXI de O Evangelho segundo o Espiritismo: «Haverá falsos Cristos e falsos profetas.»
9Há revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão que não ousaríamos resolver, nem afirmativa nem negativamente, de maneira absoluta. A coisa não é radicalmente impossível, mas nada dá dela prova certa. O que não pode ser duvidoso é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se penetram do seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica a que pertencem e o grau do seu saber pessoal, podem tirar as suas instruções dos próprios conhecimentos, ou recebê-las de Espíritos mais elevados, e até de mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, puderam às vezes ser tomados pelo próprio Deus.
Essas espécies de comunicações nada têm de estranho para quem conhece os fenômenos espíritas e a maneira como se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela vista dos Espíritos instrutores nas visões e aparições, seja em sonho, seja no estado de vigília, como se veem muitos exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. É, pois, rigorosamente exato dizer que a maior parte dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes; de onde não se segue que todos os médiuns sejam reveladores, e menos ainda intermediários diretos da Divindade ou dos seus mensageiros.
10Só os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la; mas sabe-se hoje que os Espíritos estão longe de ser todos perfeitos, e que há os que se dão falsas aparências; foi o que fez são João dizer: «Não creiais em todo Espírito, mas vede antes se os Espíritos são de Deus.» (1ª Epístola, cap. IV, v. 1.)
Pode, pois, haver revelações sérias e verdadeiras, como as há apócrifas e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação maculada de erro ou sujeita a mudança não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo tem todos os caracteres da sua origem, ao passo que as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Abrandando-se os costumes do povo, essas leis caíram por si mesmas em desuso, ao passo que o Decálogo permaneceu de pé como o farol da humanidade. O Cristo fez dele a base do seu edifício, enquanto aboliu as outras leis; se estas tivessem sido obra de Deus, ele ter-se-ia guardado de tocá-las. O Cristo e Moisés são os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo, e aí está a prova da sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria tal poder.
11Uma importante revelação se cumpre na época atual: é a que nos mostra a possibilidade de comunicar com os seres do mundo espiritual. Esse conhecimento não é novo, sem dúvida, mas permanecera até os nossos dias, de certo modo, em estado de letra morta, isto é, sem proveito para a humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações o abafara sob a superstição; o homem era incapaz de tirar dele qualquer dedução salutar; estava reservado à nossa época livrá-lo dos seus acessórios ridículos, compreender o seu alcance e fazer sair dele a luz que devia iluminar o caminho do futuro.
12O Espiritismo, tendo-nos dado a conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem suspeitar, as leis que o regem, as suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação na acepção científica da palavra.
13Pela sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira, porque o seu advento é providencial, e não resultado da iniciativa e de um desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da doutrina são fruto do ensino dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre coisas que ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer hoje, que estão maduros para compreendê-las. Participa da segunda, porque esse ensino não é privilégio de nenhum indivíduo, mas é dado a todos pela mesma via; porque os que o transmitem e os que o recebem não são seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa; porque não abdicam do seu juízo nem do seu livre-arbítrio; porque o controle não lhes é proibido, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada inteira nem imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos põem diante dos seus olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, e das quais ele mesmo tira as consequências e as aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que a sua fonte é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a elaboração é fruto do trabalho do homem.
14Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental. Apresentam-se fatos de uma ordem nova que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois deduz as suas consequências e procura as suas aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria preconcebida; assim, não pôs como hipótese nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência ressaltou com evidência da observação dos fatos, e assim com os outros princípios. Não foram os fatos que vieram depois confirmar a teoria, mas a teoria que veio posteriormente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação, e não produto da imaginação.
15Citemos um exemplo. Passa-se no mundo dos Espíritos um fato muito singular, e que certamente ninguém teria suspeitado: o dos Espíritos que não se julgam mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que o conhecem perfeitamente, não vieram dizer por antecipação: «Há Espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservaram os seus gostos, os seus hábitos e os seus instintos»; mas provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria para no-los fazer observar. Tendo-se visto, pois, Espíritos incertos do seu estado, ou afirmando que ainda eram deste mundo e julgando ocupar-se dos seus afazeres ordinários, do exemplo concluiu-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos provou que não era uma exceção, mas uma das fases da vida espírita; permitiu estudar todas as variedades e as causas dessa singular ilusão; reconhecer que essa situação é sobretudo própria dos Espíritos pouco adiantados moralmente e que é particular a certos gêneros de morte; que é apenas temporária, mas pode durar dias, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. O mesmo se dá com todos os outros princípios da doutrina.
16Assim como a ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este último princípio é uma das forças da natureza, que reage incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento do outro; que o Espiritismo e a ciência se completam um pelo outro; que a ciência sem o Espiritismo se encontra impotente para explicar certos fenômenos apenas pelas leis da matéria, e que é por ter feito abstração do princípio espiritual que ela se detém em tão numerosos impasses; que o Espiritismo sem a ciência careceria de apoio e de controle e poderia embalar-se em ilusões. O Espiritismo, vindo antes das descobertas científicas, teria sido uma obra abortada, como tudo o que vem antes do seu tempo.
17Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; nascem umas das outras, à medida que encontram ponto de apoio nas ideias e nos conhecimentos anteriores. A astronomia, uma das primeiras a serem cultivadas, permaneceu nos erros da infância até o momento em que a física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; a química, nada podendo sem a física, devia sucedê-la de perto, para depois marcharem juntas, apoiando-se uma na outra. A anatomia, a fisiologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia só se tornaram ciências sérias com o auxílio das luzes trazidas pela física e pela química. A geologia, nascida ontem, sem a astronomia, a física, a química e todas as outras, teria carecido dos seus verdadeiros elementos de vitalidade; só podia vir depois.
18A ciência moderna fez justiça aos quatro elementos primitivos dos Antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um único elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, por si mesma, é inerte; não tem vida, nem pensamento, nem sentimento; precisa da sua união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou esse princípio, mas foi o primeiro a demonstrá-lo por provas irrecusáveis; estudou-o, analisou-o e tornou evidente a sua ação. Ao elemento material, veio juntar o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual: eis os dois princípios, as duas forças vivas da natureza. Pela união indissolúvel desses dois elementos explica-se sem dificuldade uma multidão de fatos até então inexplicáveis.
Pela sua própria essência, e tendo por objeto o estudo de um dos dois elementos constitutivos do universo, o Espiritismo toca forçosamente na maior parte das ciências; só podia vir depois da elaboração dessas ciências e, sobretudo, depois que elas tivessem provado a sua impotência para tudo explicar apenas pelas leis da matéria.
19Acusa-se o Espiritismo de parentesco com a magia e a feitiçaria; mas esquece-se que a astronomia tem por irmã mais velha a astrologia judiciária, que não está tão longe de nós; que a química é filha da alquimia, da qual nenhum homem sensato ousaria ocupar-se hoje. Ninguém nega, entretanto, que houvesse na astrologia e na alquimia o germe das verdades de onde saíram as ciências atuais. Apesar das suas fórmulas ridículas, a alquimia pôs no caminho dos corpos simples e da lei das afinidades; a astrologia apoiava-se na posição e no movimento dos astros, que estudara; mas, na ignorância das verdadeiras leis que regem o mecanismo do universo, os astros eram, para o vulgo, seres misteriosos aos quais a superstição atribuía uma influência moral e um sentido revelador. Quando Galileu, Newton e Kepler deram a conhecer essas leis, quando o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que certas pessoas acharam indiscreto, os planetas apareceram-nos como simples mundos semelhantes ao nosso, e todo o andaime do maravilhoso desabou.
O mesmo se dá com o Espiritismo em relação à magia e à feitiçaria; estas também se apoiavam na manifestação dos Espíritos, como a astrologia no movimento dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, misturavam a essas relações práticas e crenças ridículas, às quais o Espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação, fez justiça. Certamente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior que a que existe entre a astronomia e a astrologia, a química e a alquimia; querer confundi-los é provar que não se sabe deles a primeira palavra.
20O simples fato da possibilidade de comunicar com os seres do mundo espiritual tem consequências incalculáveis, da mais alta gravidade; é todo um mundo novo que se nos revela, e que tem tanto mais importância quanto espera todos os homens sem exceção. Esse conhecimento não pode deixar de trazer, ao generalizar-se, uma modificação profunda nos costumes, no caráter, nos hábitos e nas crenças, que têm tão grande influência sobre as relações sociais. É toda uma revolução que se opera nas ideias, revolução tanto maior, tanto mais poderosa, quanto não está circunscrita a um povo, a uma casta, mas atinge simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.
É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado a terceira grande revelação. Vejamos em que elas diferem e por que laço se ligam uma à outra.
21Moisés, como profeta, revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, soberano senhor e criador de todas as coisas; promulgou a lei do Sinai e lançou os fundamentos da verdadeira fé; como homem, foi o legislador do povo pelo qual essa fé primitiva, depurando-se, devia um dia espalhar-se por toda a Terra.
22O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino, e rejeitando o que era apenas transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescenta a revelação da vida futura, da qual Moisés não falara, a das penas e das recompensas que esperam o homem depois da morte. (Ver Revista Espírita, 1861, p. 90 e 280.)
23A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de que é a fonte primeira, a pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista inteiramente novo sob o qual ele faz considerar a Divindade. Já não é o Deus terrível, ciumento, vingativo de Moisés, o Deus cruel e impiedoso que rega a terra com sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos, que castiga os que poupam as vítimas; já não é o Deus injusto que pune todo um povo pela falta do seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente, que fere os filhos pela falta do pai; mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, cheio de mansidão e de misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido e dá a cada um segundo as suas obras; já não é o Deus de um único povo privilegiado, o Deus dos exércitos que preside aos combates para sustentar a própria causa contra o Deus dos outros povos, mas o pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção sobre todos os seus filhos e os chama todos a si; já não é o Deus que recompensa e pune apenas pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na sujeição dos povos rivais e na multiplicidade da descendência, mas que diz aos homens: «A vossa verdadeira pátria não é neste mundo, está no reino celeste; é lá que os humildes de coração serão elevados e que os orgulhosos serão rebaixados.» Já não é o Deus que faz da vingança uma virtude e ordena dar olho por olho, dente por dente, mas o Deus de misericórdia que diz: «Perdoai as ofensas, se quereis que vos seja perdoado; retribuí o bem pelo mal; não façais a outrem o que não quereríeis que vos fizessem.» Já não é o Deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob as penas mais rigorosas, a maneira como quer ser adorado, que se ofende com a inobservância de uma fórmula, mas o Deus grande, que olha o pensamento e não se honra com a forma; já não é, enfim, o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.
24Sendo Deus o eixo de todas as crenças religiosas, o fim de todos os cultos, o caráter de todas as religiões é conforme à ideia que elas dão de Deus. As que fazem dele um Deus vingativo e cruel julgam honrá-lo com atos de crueldade, com fogueiras e torturas; as que fazem dele um Deus parcial e ciumento são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma, conforme o julgam mais ou menos maculado das fraquezas e das pequenezas humanas.
25Toda a doutrina do Cristo está fundada no caráter que ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, pôde fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da salvação, e dizer: Nisto está toda a lei e os profetas; não há outra. Somente sobre essa crença pôde assentar o princípio da igualdade dos homens perante Deus e da fraternidade universal.
Essa revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, junta à da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas dos homens, impunha-lhes novas obrigações, fazia-os considerar a vida presente sob outra luz; devia, por isso mesmo, reagir sobre os costumes e as relações sociais. É incontestavelmente, pelas suas consequências, o ponto mais capital da revelação do Cristo, e cuja importância não se compreendeu bastante; é lamentável dizê-lo, mas é também o ponto de que mais se afastaram, o que mais se desconheceu na interpretação dos seus ensinos.
26Entretanto, o Cristo acrescenta: Muitas das coisas que vos digo, ainda não as podeis compreender, e eu teria muitas outras a dizer-vos que não compreenderíeis; por isso vos falo em parábolas; mas mais tarde vos enviarei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas.
Se o Cristo não disse tudo o que poderia ter dito, é porque julgou dever deixar certas verdades na sombra até que os homens estivessem em condições de compreendê-las. Por sua própria confissão, o seu ensino era, pois, incompleto, já que anuncia a vinda daquele que deve completá-lo; previa, pois, que se compreenderiam mal as suas palavras, que se desviariam do seu ensino; numa palavra, que se desfaria o que ele fez, já que todas as coisas devem ser restabelecidas; ora, só se restabelece o que foi desfeito.
27Por que chama ele ao novo Messias Consolador? Esse nome significativo e sem ambiguidade é toda uma revelação. Previa, pois, que os homens teriam necessidade de consolações, o que implica a insuficiência das que encontrariam na crença que iam formar. Jamais talvez o Cristo tenha sido mais claro e mais explícito do que nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas prestaram atenção, talvez porque se evitou pô-las em evidência e aprofundar o seu sentido profético.
28Se o Cristo não pôde desenvolver o seu ensino de maneira completa, é que faltavam aos homens conhecimentos que estes só podiam adquirir com o tempo, e sem os quais não podiam compreendê-lo; há coisas que teriam parecido um contrassenso no estado dos conhecimentos de então. Completar o seu ensino deve, pois, entender-se no sentido de explicar e desenvolver, muito mais que no de lhe acrescentar verdades novas; porque tudo nele se encontra em germe; faltava a chave para apreender o sentido das suas palavras.
29Mas quem ousa permitir-se interpretar as Escrituras sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui as luzes necessárias, senão os teólogos?
Quem ousa? A ciência, primeiro, que não pede licença a ninguém para dar a conhecer as leis da natureza e salta a pés juntos sobre os erros e os preconceitos. — Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todos, e as Escrituras já não são a arca santa em que ninguém ousava tocar com o dedo sem arriscar-se a ser fulminado. Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar as dos teólogos, e por mais esclarecidos que fossem os da Idade Média, e em particular os Padres da Igreja, não o eram, contudo, ainda bastante para não condenar como heresia o movimento da Terra e a crença nos antípodas; e, sem remontar tão longe, os dos nossos dias não lançaram o anátema contra os períodos da formação da Terra?
Os homens só puderam explicar as Escrituras com o auxílio do que sabiam, das noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da natureza, mais tarde reveladas pela ciência; eis por que os próprios teólogos puderam, de muito boa-fé, enganar-se sobre o sentido de certas palavras e de certos fatos do Evangelho. Querendo a todo custo encontrar neles a confirmação de um pensamento preconcebido, giravam sempre no mesmo círculo, sem deixar o seu ponto de vista, de tal sorte que só viam neles o que queriam ver. Por mais sábios teólogos que fossem, não podiam compreender as causas dependentes de leis que não conheciam.
Mas quem será juiz das interpretações diversas e muitas vezes contraditórias dadas fora da teologia? — O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos à medida que novos fatos e novas leis vierem a revelar-se, saberão separar os sistemas utópicos da realidade; ora, a ciência dá a conhecer certas leis; o Espiritismo dá a conhecer outras; umas e outras são indispensáveis à inteligência dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda até o cristianismo. Quanto à teologia, não poderia judiciosamente alegar as contradições da ciência, uma vez que nem sempre está de acordo consigo mesma.
30O Espiritismo, tomando o seu ponto de partida nas próprias palavras do Cristo, como o Cristo tomou o seu em Moisés, é uma consequência direta da sua doutrina.
À ideia vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos cerca e povoa o espaço, e com isso torna precisa a crença; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.
Define os laços que unem a alma e o corpo, e levanta o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte.
Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está na Terra, por que nela sofre temporariamente, e vê por toda parte a justiça de Deus.
Sabe que a alma progride sem cessar através de uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição que pode aproximá-la de Deus.
Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para progredir em virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência, e que entre elas só há a diferença do progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo fim, mais ou menos prontamente, conforme o seu trabalho e a sua boa vontade.
Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas que as outras; que Deus não criou nenhuma que seja privilegiada e dispensada do trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os designados pelo nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que fazem o mal no estado de Espíritos como o faziam no estado de homens, mas que avançarão e se melhorarão; que os anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na criação, mas Espíritos que atingiram o fim, depois de terem seguido a fieira do progresso; que assim não há criações múltiplas de diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a criação decorre da grande lei de unidade que rege o universo, e que todos os seres gravitam para um fim comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa dos outros, sendo todos filhos das suas obras.
31Pelas relações que o homem pode agora estabelecer com os que deixaram a Terra, tem não só a prova material da existência e da individualidade da alma, mas compreende a solidariedade que liga os vivos e os mortos deste mundo, e os deste mundo com os dos outros mundos. Conhece a situação deles no mundo dos Espíritos; segue-os nas suas migrações; é testemunha das suas alegrias e das suas penas; sabe por que são felizes ou infelizes, e a sorte que o espera a ele próprio, segundo o bem ou o mal que faz. Essas relações iniciam-no na vida futura, que pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro já não é uma vaga esperança: é um fato positivo, uma certeza matemática. Então a morte já nada tem de assustador, porque é para ele a libertação, a porta da verdadeira vida.
32Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada um sofre as consequências diretas e naturais das suas faltas, ou, por outras palavras, que é punido por onde pecou; que essas consequências duram tanto quanto a causa que as produziu; que assim o culpado sofreria eternamente se persistisse eternamente no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um melhorar-se, cada um pode, em virtude do seu livre-arbítrio, prolongar ou abreviar os seus sofrimentos, como o doente sofre dos seus excessos enquanto não lhes põe termo.
33Se a razão repele, como incompatível com a bondade de Deus, a ideia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas, muitas vezes infligidas por uma única falta; dos suplícios do inferno, que o arrependimento mais ardente e mais sincero não pode suavizar, ela se inclina diante dessa justiça distributiva e imparcial, que leva tudo em conta, nunca fecha a porta do retorno e estende sem cessar a mão ao náufrago, em vez de o repelir para o abismo.
34A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo pôs no Evangelho, mas sem defini-lo mais do que muitos outros, é uma das leis mais importantes reveladas pelo Espiritismo, no sentido de que ele demonstra a sua realidade e a sua necessidade para o progresso. Por essa lei, o homem explica todas as anomalias aparentes que a vida humana apresenta: as diferenças de posição social; as mortes prematuras, que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para a alma as vidas abreviadas; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela antiguidade do Espírito, que viveu mais ou menos, aprendeu e progrediu mais ou menos, e que traz ao renascer o adquirido das suas existências anteriores. (N.º 5.)
35Com a doutrina da criação da alma a cada nascimento, recai-se no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nada os liga, os laços de família são puramente carnais; não são solidários de um passado em que não existiam; com a do nada depois da morte, toda relação cessa com a vida; não são solidários do futuro. Pela reencarnação, são solidários do passado e do futuro; perpetuando-se as suas relações no mundo espiritual e no mundo corporal, a fraternidade tem por base as próprias leis da natureza; o bem tem um fim, o mal as suas consequências inevitáveis.
36Com a reencarnação caem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, grande senhor ou proletário, senhor ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não há nenhum que prime em lógica sobre o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação funda numa lei da natureza o princípio da fraternidade universal, funda na mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade.
Os homens só nascem inferiores e subordinados pelo corpo; pelo Espírito, são iguais e livres. Daí o dever de tratar os inferiores com bondade, benevolência e humanidade, porque aquele que é hoje nosso subordinado pode ter sido nosso igual ou nosso superior, talvez um parente ou um amigo, e nós podemos tornar-nos por nossa vez o subordinado daquele a quem mandamos.
37Tirai ao homem o Espírito livre, independente, sobrevivente à matéria, e fazeis dele uma máquina organizada, sem fim, sem responsabilidade, sem outro freio além da lei civil, e boa para ser explorada como um animal inteligente. Nada esperando depois da morte, nada o detém para aumentar os gozos do presente; se sofre, só tem em perspectiva o desespero e, por refúgio, o nada. Com a certeza do futuro, a de reencontrar os que amou, o receio de rever os que ofendeu, todas as suas ideias mudam. Ainda que o Espiritismo não tivesse feito mais do que tirar o homem da dúvida acerca da vida futura, teria feito mais pelo seu melhoramento moral do que todas as leis disciplinares que às vezes o refreiam, mas não o mudam.
38Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não é apenas inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só; seria um contrassenso, e tanto menos justificável quanto a alma não existia na época a que se pretende fazer remontar a sua responsabilidade. Com a preexistência e a reencarnação, o homem traz ao renascer o germe das suas imperfeições passadas, dos defeitos de que não se corrigiu, e que se traduzem pelos seus instintos nativos, pelas suas propensões para este ou aquele vício. Esse é o seu verdadeiro pecado original, cujas consequências sofre muito naturalmente; mas com esta diferença capital: que carrega a pena das suas próprias faltas, e não a da falta de outro; e com esta outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, encorajadora e soberanamente equitativa: que cada existência lhe oferece os meios de se resgatar pela reparação e de progredir, seja despojando-se de alguma imperfeição, seja adquirindo novos conhecimentos, e isso até que, estando suficientemente purificado, não precise mais da vida corporal e possa viver exclusivamente da vida espiritual, eterna e bem-aventurada.
Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente traz, ao renascer, qualidades nativas, como aquele que progrediu intelectualmente traz ideias inatas; está identificado com o bem; pratica-o sem esforço, sem cálculo e, por assim dizer, sem pensar nele. Aquele que é obrigado a combater as suas más tendências ainda está na luta; o primeiro já venceu, o segundo está vencendo. Há, pois, virtude original, como há saber original, e pecado, ou antes, vício original.
39O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e a sua ação sobre a matéria. Demonstrou a existência do perispírito, suspeitado desde a Antiguidade e designado por são Paulo pelo nome de corpo espiritual, isto é, de corpo fluídico da alma depois da destruição do corpo tangível. Sabe-se hoje que esse envoltório é inseparável da alma; que é um dos elementos constitutivos do ser humano; que é o veículo de transmissão do pensamento e que, durante a vida do corpo, serve de laço entre o Espírito e a matéria. O perispírito desempenha papel tão importante no organismo e numa multidão de afecções, que se liga à fisiologia tanto quanto à psicologia.
40O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma abre novos horizontes à ciência e dá a chave de uma multidão de fenômenos até então incompreendidos, por falta de conhecimento da lei que os rege; fenômenos negados pelo materialismo, porque se ligam à espiritualidade, e qualificados por outros de milagres ou de sortilégios, conforme as crenças. Tais são, entre outros, os fenômenos da dupla vista, da visão a distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão do pensamento, da fascinação, das curas instantâneas, das obsessões e possessões etc. Demonstrando que esses fenômenos repousam sobre leis tão naturais quanto os fenômenos elétricos, e as condições normais em que podem reproduzir-se, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do sobrenatural e, por conseguinte, a fonte da maior parte das superstições. Se faz crer na possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quiméricas, impede de crer em muitas outras, cuja impossibilidade e irracionalidade demonstra.
41O Espiritismo, muito longe de negar ou de destruir o Evangelho, vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza que revela, tudo o que o Cristo disse e fez; leva a luz aos pontos obscuros do seu ensino, de tal sorte que aqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem sem dificuldade com o auxílio do Espiritismo e as admitem; veem melhor o seu alcance e podem separar a realidade da alegoria; o Cristo parece-lhes maior: já não é simplesmente um filósofo, é um Messias divino.
42Se se considera, além disso, o poder moralizador do Espiritismo, pelo fim que assinala a todas as ações da vida, pelas consequências do bem e do mal que faz tocar com o dedo; a força moral, a coragem, as consolações que dá nas aflições, por uma inalterável confiança no futuro, pelo pensamento de ter junto de si os seres que se amaram, pela certeza de revê-los, pela possibilidade de conversar com eles; enfim, pela certeza de que, de tudo o que se faz, de tudo o que se adquire em inteligência, em ciência, em moralidade até a última hora da vida, nada se perde, tudo aproveita ao adiantamento, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda acha-se igualmente realizada, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador (1).
(1) Muitos pais de família deploram a morte prematura de filhos para cuja educação fizeram grandes sacrifícios, e dizem consigo que tudo isso foi pura perda. Com o Espiritismo, não lamentam esses sacrifícios, e estariam prontos a fazê-los mesmo com a certeza de ver morrer os filhos, porque sabem que, se estes não aproveitam essa educação no presente, ela servirá, primeiro, ao seu adiantamento como Espíritos, e depois será outro tanto de adquirido para uma nova existência, e que, quando voltarem, terão uma bagagem intelectual que os tornará mais aptos a adquirir novos conhecimentos. Tais são essas crianças que trazem ao nascer ideias inatas, que sabem, por assim dizer, sem precisar aprender. Se, como pais, não têm a satisfação imediata de ver os filhos tirarem proveito dessa educação, gozarão dela certamente mais tarde, seja como Espíritos, seja como homens. Talvez venham a ser de novo os pais desses mesmos filhos que se dizem felizmente dotados pela natureza, e que devem as suas aptidões a uma educação precedente; assim como, se os filhos se desencaminham pela negligência dos pais, estes podem ter de sofrer mais tarde, pelos aborrecimentos e desgostos que eles lhes causarão numa nova existência. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, n.º 21: Mortes prematuras.)
43Se a esses resultados se acrescenta a rapidez inaudita da propagação do Espiritismo, apesar de tudo o que se fez para abatê-lo, não se pode deixar de convir que a sua vinda é providencial, pois triunfa de todas as forças e de todas as más vontades humanas. A facilidade com que é aceito por tão grande número, e isso sem constrangimento, sem outros meios além do poder da ideia, prova que responde a uma necessidade — a de crer em alguma coisa, depois do vazio cavado pela incredulidade — e que, por conseguinte, veio a seu tempo.
44Os aflitos são em grande número; não é, pois, surpreendente que tanta gente acolha uma doutrina que consola, de preferência às que desesperam; porque é aos deserdados, mais do que aos felizes do mundo, que o Espiritismo se dirige. O doente vê chegar o médico com mais alegria do que aquele que tem saúde; ora, os aflitos são doentes, e o Consolador é o médico.
Vós que combateis o Espiritismo, se quereis que o deixem para vos seguirem, dai mais e melhor do que ele; curai mais seguramente as feridas da alma. Dai, pois, mais consolações, mais satisfações do coração, esperanças mais legítimas, certezas maiores; fazei do futuro um quadro mais racional, mais sedutor; mas não penseis levar a melhor, vós com a perspectiva do nada, vós com a alternativa das chamas do inferno ou da beata e inútil contemplação perpétua.
45A primeira revelação estava personificada em Moisés, a segunda no Cristo; a terceira não o está em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é coletiva; esse é um caráter essencial, de grande importância. É coletiva no sentido de que não foi feita por privilégio a ninguém; de que ninguém, por conseguinte, pode dizer-se o seu profeta exclusivo. Foi feita simultaneamente por toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades, de todos os tempos e de todas as condições, desde o mais baixo até o mais alto da escala, segundo esta predição relatada pelo autor dos Atos dos Apóstolos: «Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei do meu espírito sobre toda carne; os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão; os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos.» Não saiu de nenhum culto especial, a fim de servir um dia a todos de ponto de reunião (1).
46. As duas primeiras revelações, sendo produto de um ensino pessoal, foram forçosamente localizadas, isto é, tiveram lugar num único ponto, em torno do qual a ideia se espalhou pouco a pouco; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem o invadir inteiramente. A terceira tem isto de particular: não estando personificada num indivíduo, produziu-se simultaneamente em milhares de pontos diferentes, que se tornaram todos centros ou focos de irradiação. Multiplicando-se esses centros, os seus raios juntam-se pouco a pouco, como os círculos formados por uma multidão de pedras atiradas à água; de tal sorte que, num tempo dado, acabarão por cobrir a superfície inteira do globo.
Tal é uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se tivesse surgido num só ponto, se tivesse sido obra exclusiva de um homem, teria formado seita em torno dele; e talvez meio século se tivesse passado antes que ela atingisse os limites do país onde tivesse nascido, ao passo que, depois de dez anos, tem marcos plantados de um polo ao outro.
(1) O nosso papel pessoal no grande movimento de ideias que se prepara pelo Espiritismo, e que já começa a operar-se, é o de um observador atento que estuda os fatos para procurar a sua causa e tirar deles as consequências. Confrontamos todos os que nos foi possível reunir; comparamos e comentamos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do globo, depois coordenamos o todo metodicamente; numa palavra, estudamos e demos ao público o fruto das nossas pesquisas, sem atribuir aos nossos trabalhos outro valor senão o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem jamais nos termos colocado como chefe de doutrina, nem termos querido impor as nossas ideias a ninguém. Ao publicá-las, usamos de um direito comum, e os que as aceitaram o fizeram livremente. Se essas ideias encontraram numerosas simpatias, é que tiveram a vantagem de responder às aspirações de grande número, do que não poderíamos tirar vaidade, pois a sua origem não nos pertence. O nosso maior mérito é o da perseverança e da dedicação à causa que abraçamos. Em tudo isso fizemos o que outros poderiam ter feito como nós; é por isso que nunca tivemos a pretensão de nos julgar profeta ou messias, e menos ainda de nos dar por tal.
47Essa circunstância, inaudita na história das doutrinas, dá a esta uma força excepcional e um poder de ação irresistível; com efeito, se a comprimem num ponto, num país, é materialmente impossível comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Para um lugar onde for entravada, haverá mil ao lado onde florescerá. Mais ainda: se a atingem num indivíduo, não podem atingi-la nos Espíritos, que são a sua fonte. Ora, como os Espíritos estão por toda parte, e sempre os haverá, se, por impossível, se conseguisse sufocá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque repousa sobre um fato, esse fato está na natureza, e não se podem suprimir as leis da natureza. Eis do que se devem persuadir os que sonham com o aniquilamento do Espiritismo. (Revista Espírita, fevereiro de 1865, p. 38: Perpetuidade do Espiritismo.)
48Entretanto, esses centros disseminados poderiam ter ficado ainda muito tempo isolados uns dos outros, confinados como estão alguns em países longínquos. Era preciso entre eles um traço de união que os pusesse em comunhão de pensamentos com os seus irmãos de crença, informando-os do que se fazia em outros lugares. Esse traço de união, que teria faltado ao Espiritismo na Antiguidade, encontra-se nas publicações que vão a toda parte e que condensam, sob uma forma única, concisa e metódica, o ensino dado por toda parte sob formas múltiplas e em línguas diversas.
49As duas primeiras revelações só podiam ser resultado de um ensino direto; deviam impor-se à fé pela autoridade da palavra do mestre, não estando os homens bastante adiantados para concorrer à sua elaboração.
Notemos, todavia, entre elas, uma nuança bem sensível, que se prende ao progresso dos costumes e das ideias, embora tenham sido feitas no mesmo povo e no mesmo meio, mas com cerca de dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; não admite discussão e impõe-se a todo o povo pela força. A de Jesus é essencialmente conselheira; é livremente aceita e só se impõe pela persuasão; é controvertida em vida mesmo do seu fundador, que não desdenha discutir com os seus adversários.
50A terceira revelação, vinda numa época de emancipação e de maturidade intelectual, em que a inteligência desenvolvida não pode resignar-se a um papel passivo, em que o homem nada aceita às cegas, mas quer ver para onde o conduzem, saber o porquê e o como de cada coisa, devia ser ao mesmo tempo produto de um ensino e fruto do trabalho, da pesquisa e do livre exame. Os Espíritos só ensinam justamente o necessário para pôr no caminho da verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode encontrar por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, de controlar e de submeter tudo ao crisol da razão, deixando-o até, muitas vezes, adquirir a experiência à sua custa. Dão-lhe o princípio, os materiais; cabe a ele tirar proveito deles e pô-los em obra (n.º 15).
51Tendo os elementos da revelação espírita sido dados simultaneamente numa multidão de pontos, a homens de todas as condições sociais e de diversos graus de instrução, é bem evidente que as observações não podiam ser feitas por toda parte com o mesmo fruto; que as consequências a tirar, a dedução das leis que regem essa ordem de fenômenos, numa palavra, a conclusão que devia assentar as ideias, só podiam sair do conjunto e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado, circunscrito num círculo restrito, vendo o mais das vezes apenas uma ordem particular de fatos, às vezes aparentemente contraditórios, tratando geralmente com uma mesma categoria de Espíritos e, além disso, entravado pelas influências locais e pelo espírito de partido, achava-se na impossibilidade material de abarcar o conjunto e, por isso mesmo, impotente para ligar as observações isoladas a um princípio comum. Apreciando cada um os fatos do ponto de vista dos seus conhecimentos e das suas crenças anteriores, ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, logo teria havido tantas teorias e sistemas quantos centros, e nenhum deles poderia ter sido completo, por falta de elementos de comparação e de controle. Numa palavra, cada um ter-se-ia imobilizado na sua revelação parcial, julgando possuir toda a verdade, por não saber que em cem outros lugares se obtinha mais ou melhor.
52É de notar, além disso, que em parte nenhuma o ensino espírita foi dado de maneira completa; ele toca num número tão grande de observações, em assuntos tão diversos, que exigem seja conhecimentos, seja aptidões mediúnicas especiais, que teria sido impossível reunir num mesmo ponto todas as condições necessárias. Devendo o ensino ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os assuntos de estudo e de observação, como em certas fábricas a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida entre diferentes operários.
A revelação fez-se assim parcialmente, em diversos lugares e por uma multidão de intermediários, e é dessa maneira que ainda prossegue neste momento, porque nem tudo está revelado. Cada centro encontra nos outros centros o complemento do que obtém, e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinos parciais, que constituiu a doutrina espírita.
Era, pois, necessário agrupar os fatos esparsos para ver a sua correlação, reunir os documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os assuntos, para compará-los, analisá-los, estudar as suas analogias e diferenças. Sendo as comunicações dadas por Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, era preciso apreciar o grau de confiança que a razão permitia conceder-lhes, distinguir as ideias sistemáticas individuais e isoladas das que tinham a sanção do ensino geral dos Espíritos, as utopias das ideias práticas; podar as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e pela sã lógica; utilizar os próprios erros, as informações fornecidas pelos Espíritos até da mais baixa categoria, para o conhecimento do estado do mundo invisível, e formar com tudo um todo homogêneo. Era preciso, numa palavra, um centro de elaboração, independente de toda ideia preconcebida, de todo preconceito de seita, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, ainda que fosse contrária às suas opiniões pessoais. Esse centro formou-se por si mesmo, pela força das coisas e sem desígnio premeditado (1).
53Desse estado de coisas resultou uma dupla corrente de ideias: umas indo das extremidades para o centro, outras voltando do centro para a circunferência. Foi assim que a doutrina marchou prontamente para a unidade, apesar da diversidade das fontes de onde emanou; que os sistemas divergentes caíram pouco a pouco, pelo fato do seu isolamento, diante do ascendente da opinião da maioria, por não encontrarem ecos simpáticos. Uma comunhão de pensamentos estabeleceu-se desde então entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, compreendem-se e simpatizam de um extremo ao outro do mundo.
Os espíritas sentiram-se mais fortes, lutaram com mais coragem, marcharam com passo mais firme, quando já não se viram isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um laço que os ligava à grande família; os fenômenos de que eram testemunhas já não lhes pareceram estranhos, anormais, contraditórios, quando puderam ligá-los a leis gerais de harmonia, abarcar com um golpe de vista o edifício e ver em todo esse conjunto um fim grande e humanitário (2).
Mas como saber se um princípio é ensinado por toda parte, ou se é apenas resultado de uma opinião individual? Não estando os grupos isolados em condições de saber o que se diz em outros lugares, era necessário que um centro reunisse todas as instruções para fazer uma espécie de apuração dos votos e levar ao conhecimento de todos a opinião da maioria (3).
(1) O Livro dos Espíritos, a primeira obra que fez o Espiritismo entrar na via filosófica, pela dedução das consequências morais dos fatos, e que abordou todas as partes da doutrina, tocando nas questões mais importantes que ela suscita, foi, desde o seu aparecimento, o ponto de reunião para o qual convergiram espontaneamente os trabalhos individuais. É notório que da publicação desse livro data a era do Espiritismo filosófico, até então restrito ao domínio das experiências de curiosidade. Se esse livro conquistou as simpatias da maioria, é que era a expressão dos sentimentos dessa mesma maioria e respondia às suas aspirações; é também porque cada um nele encontrava a confirmação e uma explicação racional do que obtinha em particular. Se tivesse estado em desacordo com o ensino geral dos Espíritos, não teria tido nenhum crédito e teria caído prontamente no esquecimento. Ora, em torno de quem se reuniram? Não foi em torno do homem, que nada é por si mesmo, peça de engrenagem que morre e desaparece, mas da ideia, que não perece quando emana de uma fonte superior ao homem.
Essa concentração espontânea das forças esparsas deu lugar a uma correspondência imensa, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações e os desfalecimentos; arquivo precioso para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas sobre documentos autênticos. Diante desses testemunhos irrecusáveis, em que se tornarão, com o tempo, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme?
(2) É notável que, de todos os grupos que se formaram com a intenção premeditada de fazer cisão proclamando princípios divergentes, assim como dos que, por razões de amor-próprio ou outras, não querendo ter o ar de se submeter à lei comum, se julgaram bastante fortes para marchar sozinhos, com luzes bastantes para dispensar conselhos, nenhum conseguiu constituir uma ideia preponderante e viável; todos se extinguiram ou vegetaram na sombra. Como poderia ser de outro modo, desde que, para se distinguirem, em vez de se esforçarem por dar uma soma maior de satisfações, rejeitavam dos princípios da doutrina precisamente o que constitui o seu mais poderoso atrativo, o que ela tem de mais consolador, de mais encorajador e de mais racional? Se tivessem compreendido o poder dos elementos morais que constituíram a unidade, não se teriam embalado numa ilusão quimérica; mas, tomando o seu pequeno círculo pelo universo, só viram nos adeptos uma panelinha que podia ser facilmente derrubada por uma contrapanelinha. Era enganar-se estranhamente sobre os caracteres essenciais da doutrina, e esse erro só podia trazer decepções; em vez de romperem a unidade, romperam o laço que, só ele, podia dar-lhes a força e a vida. (Ver Revista Espírita, abril de 1866, p. 106 e 111: O Espiritismo sem os Espíritos; o Espiritismo independente.)
(3) Tal é o objeto das nossas publicações, que podem ser consideradas o resultado dessa apuração. Todas as opiniões nelas são discutidas, mas as questões só são formuladas em princípios depois de terem recebido a consagração de todos os controles, a única que pode dar-lhes força de lei e permitir afirmar. Eis por que não preconizamos levianamente nenhuma teoria, e é nisso que a doutrina, procedendo do ensino geral, não é produto de um sistema preconcebido; é também o que faz a sua força e assegura o seu futuro.
54Não há nenhuma ciência que tenha saído inteira do cérebro de um homem; todas, sem exceção, são produto de observações sucessivas que se apoiam nas observações precedentes, como num ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam com o Espiritismo; é por isso que o seu ensino é gradual; só abordam as questões à medida que os princípios sobre os quais elas devem apoiar-se estão suficientemente elaborados e que a opinião está madura para assimilá-los. É até notável que, todas as vezes que os centros particulares quiseram abordar questões prematuras, só obtiveram respostas contraditórias, não conclusivas. Quando, ao contrário, chega o momento favorável, o ensino é idêntico em toda a linha, na quase universalidade dos centros.
Há, todavia, entre a marcha do Espiritismo e a das ciências uma diferença capital: é que estas só atingiram o ponto a que chegaram depois de longos intervalos, ao passo que bastaram alguns anos ao Espiritismo, se não para atingir o ponto culminante, pelo menos para recolher uma soma de observações bastante grande para constituir uma doutrina. Isso se deve à multidão inumerável de Espíritos que, pela vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente, trazendo cada um o contingente dos seus conhecimentos. Daí resultou que todas as partes da doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente durante vários séculos, o foram quase simultaneamente em alguns anos, e que bastou agrupá-las para formar delas um todo.
Deus quis que assim fosse, primeiro para que o edifício chegasse mais prontamente ao cume; em segundo lugar, para que se pudesse, pela comparação, ter um controle por assim dizer imediato e permanente na universalidade do ensino, não tendo cada parte valor e autoridade senão pela sua conexão com o conjunto, devendo todas harmonizar-se, encontrar o seu lugar no escaninho geral e chegar cada uma a seu tempo.
Não confiando a um só Espírito o cuidado da promulgação da doutrina, Deus quis, além disso, que o menor como o maior, entre os Espíritos como entre os homens, trouxesse a sua pedra ao edifício, a fim de estabelecer entre eles um laço de solidariedade cooperativa que faltou a todas as doutrinas saídas de uma fonte única.
Por outro lado, tendo cada Espírito, assim como cada homem, apenas uma soma limitada de conhecimentos, individualmente eram inábeis para tratar ex professo as inumeráveis questões em que o Espiritismo toca; eis igualmente por que a doutrina, para cumprir os desígnios do Criador, não podia ser obra nem de um só Espírito, nem de um só médium; só podia sair da coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros (1).
(1) Ver em O Evangelho segundo o Espiritismo, introdução, p. VI, e Revista Espírita, abril de 1864, p. 90: Autoridade da doutrina espírita; controle universal do ensino dos Espíritos.
55Um último caráter da revelação espírita, que ressalta das próprias condições em que é feita, é que, apoiando-se em fatos, ela é e só pode ser essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Pela sua essência, contrai aliança com a ciência, que, sendo a exposição das leis da natureza numa certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, autor dessas leis. As descobertas da ciência glorificam a Deus em vez de rebaixá-lo; só destroem o que os homens edificaram sobre as ideias falsas que fizeram de Deus.
O Espiritismo, pois, só estabelece como princípio absoluto o que é demonstrado com evidência, ou o que ressalta logicamente da observação. Tocando em todos os ramos da economia social, aos quais presta o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, que tenham chegado ao estado de verdades práticas e saído do domínio da utopia; sem isso, suicidar-se-ia; deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem que está em erro sobre um ponto, ele se modificaria nesse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita.
56Qual é a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, já que não é outra senão a do Cristo? Precisa o homem de uma revelação, e não pode encontrar em si mesmo tudo o que lhe é necessário para se conduzir?
Do ponto de vista moral, Deus deu sem dúvida ao homem um guia na sua consciência, que lhe diz: «Não faças a outrem o que não quererias que te fizessem.» A moral natural está certamente inscrita no coração dos homens; mas todos sabem lê-la? Nunca desconheceram esses sábios preceitos? Que fizeram da moral do Cristo? Como a praticam aqueles mesmos que a ensinam? Não se tornou letra morta, uma bela teoria, boa para os outros e não para si? Censurareis um pai por repetir dez vezes, cem vezes as mesmas instruções aos filhos, se estes não as aproveitam? Por que faria Deus menos que um pai de família? Por que não enviaria de tempos em tempos, entre os homens, mensageiros especiais encarregados de lembrá-los dos seus deveres e de recolocá-los no bom caminho quando dele se afastam, de abrir os olhos da inteligência aos que os fecharam, como os homens mais adiantados enviam missionários aos selvagens e aos bárbaros?
Os Espíritos não ensinam outra moral senão a do Cristo, pela razão de que não há outra melhor. Mas então de que serve o seu ensino, se só dizem o que já sabemos? O mesmo se poderia dizer da moral do Cristo, que foi ensinada quinhentos anos antes dele por Sócrates e Platão, em termos quase idênticos; e de todos os moralistas que repetem a mesma coisa em todos os tons e sob todas as formas. Pois bem! Os Espíritos vêm muito simplesmente aumentar o número dos moralistas, com a diferença de que, manifestando-se por toda parte, se fazem ouvir na choupana tanto quanto no palácio, pelos ignorantes como pelas pessoas instruídas.
O que o ensino dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que ligam os mortos e os vivos, que completam as noções vagas que ele dera da alma, do seu passado e do seu futuro, e que dão por sanção à sua doutrina as próprias leis da natureza. Com o auxílio das novas luzes trazidas pelo Espiritismo e pelos Espíritos, o homem compreende a solidariedade que liga todos os seres; a caridade e a fraternidade tornam-se uma necessidade social; faz por convicção o que só fazia por dever, e o faz melhor.
Quando os homens praticarem a moral do Cristo, só então poderão dizer que já não precisam de moralistas encarnados ou desencarnados; mas então também Deus já não lhos enviará.
57Uma das questões mais importantes entre as que estão postas no início deste capítulo é esta:
Qual é a autoridade da revelação espírita, já que emana de seres cujas luzes são limitadas e que não são infalíveis?
A objeção seria séria se essa revelação consistisse apenas no ensino dos Espíritos, se devêssemos recebê-la exclusivamente deles e aceitá-la de olhos fechados; ela perde todo valor desde o instante em que o homem lhe traz o concurso da sua inteligência e do seu juízo; em que os Espíritos se limitam a pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos. Ora, as manifestações e as suas inumeráveis variedades são fatos; o homem os estuda e procura a sua lei; é ajudado nesse trabalho pelos Espíritos de todas as ordens, que são antes colaboradores do que reveladores no sentido usual da palavra; submete os seus ditos ao controle da lógica e do bom senso; dessa maneira beneficia-se dos conhecimentos especiais que eles devem à sua posição, sem abdicar do uso da própria razão.
Não sendo os Espíritos outra coisa senão as almas dos homens, ao comunicarmos com eles não saímos da humanidade, circunstância capital a considerar. Os homens de gênio que foram os archotes da humanidade saíram, pois, do mundo dos Espíritos, assim como a ele voltaram ao deixar a Terra. Desde que os Espíritos podem comunicar-se com os homens, esses mesmos gênios podem dar-lhes instruções sob a forma espiritual, como o fizeram sob a forma corporal; podem instruir-nos depois da morte, como o faziam em vida; são invisíveis em vez de visíveis: eis toda a diferença. A sua experiência e o seu saber não devem ser menores, e, se a sua palavra, como homens, tinha autoridade, não deve tê-la menos por estarem no mundo dos Espíritos.
58Mas não são somente os Espíritos superiores que se manifestam; são também os Espíritos de todas as ordens, e isso era necessário para nos iniciar no verdadeiro caráter do mundo espiritual, mostrando-no-lo sob todas as suas faces; por aí as relações entre o mundo visível e o mundo invisível são mais íntimas, a conexão é mais evidente; vemos mais claramente de onde viemos e para onde vamos; tal é o fim essencial dessas manifestações. Todos os Espíritos, qualquer que seja o grau a que tenham chegado, nos ensinam, pois, alguma coisa; mas, como são mais ou menos esclarecidos, cabe a nós discernir o que há neles de bom ou de mau, e tirar o proveito que o seu ensino comporta; ora, todos, quaisquer que sejam, podem ensinar-nos ou revelar-nos coisas que ignoramos e que sem eles não saberíamos.
59Os grandes Espíritos encarnados são individualidades poderosas, sem contradita, mas cuja ação é restrita e necessariamente lenta para se propagar. Se um só deles, ainda que fosse Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, tivesse vindo nestes últimos tempos revelar aos homens o estado do mundo espiritual, quem teria provado a verdade das suas asserções, neste tempo de ceticismo? Não o teriam olhado como um sonhador ou um utopista? E, admitindo que estivesse na verdade absoluta, séculos se teriam passado antes que as suas ideias fossem aceitas pelas massas. Deus, na sua sabedoria, não quis que assim fosse; quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, e não por encarnados, a fim de convencer da sua existência, e que ocorresse simultaneamente por toda a Terra, seja para propagá-lo mais rapidamente, seja para que se encontrasse na coincidência do ensino uma prova da verdade, tendo assim cada um os meios de se convencer por si mesmo.
60Os Espíritos não vêm libertar o homem do trabalho, do estudo e das pesquisas; não lhe trazem nenhuma ciência já pronta; quanto ao que ele pode encontrar por si mesmo, deixam-no entregue às próprias forças; é o que os espíritas sabem perfeitamente hoje. Há muito tempo a experiência demonstrou o erro da opinião que atribuía aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria, e segundo a qual bastava dirigir-se ao primeiro Espírito que aparecesse para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, os Espíritos são uma das suas faces; como na Terra, há-os superiores e vulgares; muitos sabem, pois, científica e filosoficamente, menos que certos homens; dizem o que sabem, nem mais nem menos; como entre os homens, os mais adiantados podem informar-nos sobre mais coisas e dar-nos conselhos mais judiciosos do que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é, pois, dirigir-se a potências sobrenaturais, mas aos seus semelhantes, àqueles mesmos a quem nos teríamos dirigido em vida deles, aos parentes, aos amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos que nós. Eis do que importa persuadir-se, e o que ignoram os que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem uma ideia completamente falsa da natureza do mundo dos Espíritos e das relações de além-túmulo.
61Qual é, então, a utilidade dessas manifestações, ou, se quiserem, dessa revelação, se os Espíritos não sabem mais do que nós, ou se não nos dizem tudo o que sabem?
Primeiro, como dissemos, abstêm-se de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há coisas que não lhes é permitido revelar, porque o nosso grau de adiantamento não o comporta. Mas, isso à parte, as condições da sua nova existência alargam o círculo das suas percepções; veem o que não viam na Terra; libertos dos entraves da matéria, livres dos cuidados da vida corporal, julgam as coisas de um ponto mais elevado e, por isso mesmo, mais sãmente; a sua perspicácia abarca um horizonte mais vasto; compreendem os seus erros, retificam as suas ideias e desembaraçam-se dos preconceitos humanos.
É nisso que consiste a superioridade dos Espíritos sobre a humanidade corporal, e que os seus conselhos podem ser, atendendo ao seu grau de adiantamento, mais judiciosos e mais desinteressados que os dos encarnados. O meio em que se encontram permite-lhes, além disso, iniciar-nos nas coisas da vida futura que ignoramos e que não podemos aprender no meio em que estamos. Até hoje o homem só criara hipóteses sobre o seu futuro; eis por que as suas crenças sobre esse ponto se dividiram em sistemas tão numerosos e tão divergentes, desde o niilismo até as descrições fantásticas do inferno e do paraíso. Hoje são as testemunhas oculares, os próprios atores da vida de além-túmulo, que vêm dizer-nos o que ela é, e eram os únicos que podiam fazê-lo. Essas manifestações serviram, pois, para nos dar a conhecer o mundo invisível que nos cerca e que não suspeitávamos; e só esse conhecimento já seria de importância capital, supondo que os Espíritos fossem incapazes de nos ensinar algo mais.
Se fordes a um país novo para vós, rejeitareis as informações do mais humilde camponês que encontrardes? Recusareis interrogá-lo sobre o estado da estrada porque é apenas um camponês? Certamente não esperareis dele esclarecimentos de altíssimo alcance, mas, tal como é, e na sua esfera, poderá, sobre certos pontos, informar-vos melhor do que um sábio que não conhece o país. Tirareis das suas indicações consequências que ele mesmo não poderia tirar, mas nem por isso terá deixado de ser um instrumento útil para as vossas observações, ainda que só tivesse servido para vos dar a conhecer os costumes dos camponeses. O mesmo se dá com as relações com os Espíritos, em que o menor pode ensinar-nos alguma coisa.
62Uma comparação vulgar fará compreender ainda melhor a situação.
Um navio carregado de emigrantes parte para um destino longínquo; leva homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficam. Sabe-se que esse navio naufragou; nenhum vestígio dele ficou, nenhuma notícia chegou sobre a sua sorte; pensa-se que todos os viajantes pereceram, e o luto está em todas as famílias. Entretanto, a tripulação inteira, sem excetuar um só homem, abordou uma terra desconhecida, terra abundante e fértil, onde todos vivem felizes sob um céu clemente; mas ninguém o sabe. Ora, eis que um dia outro navio aborda essa terra; encontra ali todos os náufragos sãos e salvos. A feliz notícia espalha-se com a rapidez do relâmpago; cada um diz consigo: «Os nossos amigos não estão perdidos!» E dão graças a Deus por isso. Não podem ver-se, mas correspondem-se; trocam testemunhos de afeição, e eis que a alegria sucede à tristeza.
Tal é a imagem da vida terrestre e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna; esta, semelhante ao segundo navio, traz-nos a boa nova da sobrevivência dos que nos são caros e a certeza de nos reunirmos a eles um dia; a dúvida sobre a sorte deles e sobre a nossa já não existe; o desânimo apaga-se diante da esperança.
Mas outros resultados vêm fecundar essa revelação. Deus, julgando a humanidade madura para penetrar o mistério do seu destino e contemplar a sangue-frio novas maravilhas, permitiu que o véu que separava o mundo visível do mundo invisível fosse levantado. O fato das manifestações nada tem de extra-humano; é a humanidade espiritual que vem conversar com a humanidade corporal e dizer-lhe:
«Nós existimos; logo, o nada não existe; eis o que somos e eis o que sereis; o futuro é vosso como é nosso. Caminháveis nas trevas; vimos iluminar a vossa estrada e abrir-vos o caminho; andáveis ao acaso; mostramo-vos o fim. A vida terrestre era tudo para vós, porque nada víeis além dela; vimos dizer-vos, mostrando-vos a vida espiritual: A vida terrestre não é nada. A vossa vista detinha-se no túmulo; mostramo-vos além dele um horizonte esplêndido. Não sabíeis por que sofreis na Terra; agora, no sofrimento, vedes a justiça de Deus; o bem não tinha frutos aparentes para o futuro; terá de agora em diante um fim e será uma necessidade; a fraternidade era apenas uma bela teoria; agora está assentada numa lei da natureza. Sob o império da crença de que tudo acaba com a vida, a imensidão é vazia, o egoísmo reina como senhor entre vós, e a vossa palavra de ordem é:
«Cada um por si»; com a certeza do futuro, os espaços infinitos povoam-se ao infinito, o vazio e a solidão não estão em parte alguma, a solidariedade liga todos os seres para lá e para cá do túmulo; é o reino da caridade, com a divisa: «Cada um por todos e todos por cada um.» Enfim, ao termo da vida dizíeis um eterno adeus aos que vos são caros; agora lhes direis: «Até breve!»
Tais são, em resumo, os resultados da nova revelação; veio encher o vazio cavado pela incredulidade, levantar as coragens abatidas pela dúvida ou pela perspectiva do nada, e dar a cada coisa a sua razão de ser. Será esse resultado, pois, sem importância, porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da ciência, dar o saber aos ignorantes e aos preguiçosos o meio de enriquecer sem esforço? Entretanto, os frutos que o homem deve colher dela não são somente para a vida futura; colhê-los-á na Terra, pela transformação que essas novas crenças devem necessariamente operar no seu caráter, nos seus gostos, nas suas tendências e, por conseguinte, nos hábitos e nas relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, preparam o do bem, que é o reino de Deus.
A revelação tem, pois, por objeto pôr o homem na posse de certas verdades que ele não poderia adquirir por si mesmo, e isso com vista a ativar o progresso. Essas verdades limitam-se em geral a princípios fundamentais destinados a pô-lo no caminho das pesquisas, e não a conduzi-lo pela mão; são marcos que lhe mostram o fim: cabe-lhe a tarefa de estudá-los e de deduzir deles as aplicações; longe de o libertarem do trabalho, são novos elementos fornecidos à sua atividade.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês
Licença: Domínio público