A Gênese — II. Deus
Ler no Une Sacra1Sendo Deus a causa primeira de todas as coisas, o ponto de partida de tudo, o eixo sobre o qual repousa o edifício da criação, é o ponto que importa considerar antes de tudo.
É princípio elementar que se julga uma causa pelos seus efeitos, mesmo quando não se vê a causa. A ciência vai mais longe: calcula o poder da causa pelo poder do efeito, e pode até determinar a sua natureza. Foi assim, por exemplo, que a astronomia concluiu pela existência de planetas em regiões determinadas do espaço, pelo conhecimento das leis que regem o movimento dos astros; procuraram-se e encontraram-se os planetas, dos quais se pode dizer, na realidade, que foram descobertos antes de terem sido vistos.
2Numa ordem de fatos mais vulgares, se estamos mergulhados num espesso nevoeiro, pela claridade difusa julgamos que o sol está acima do horizonte, embora não vejamos o sol. Se um pássaro que fende o ar é atingido por um chumbo mortal, julgamos que um hábil atirador o alvejou, embora não vejamos o atirador. Não é, pois, sempre necessário ter visto uma coisa para saber que ela existe. Em tudo, é observando os efeitos que se chega ao conhecimento das causas.
3Outro princípio igualmente elementar, e que passou ao estado de axioma à força de verdade, é que todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente.
Se se perguntasse quem é o inventor de tal engenhoso mecanismo, o arquiteto de tal monumento, o escultor de tal estátua ou o pintor de tal quadro, que se pensaria daquele que respondesse que aquilo se fez sozinho? Quando se vê uma obra-prima da arte ou da indústria, diz-se que deve ser produto de um homem de gênio, porque uma alta inteligência deve ter presidido à sua concepção; julga-se, não obstante, que um homem deve tê-la feito, porque se sabe que a coisa não está acima da capacidade humana; mas a ninguém virá o pensamento de dizer que ela saiu do cérebro de um idiota ou de um ignorante, e menos ainda que é trabalho de um animal ou produto do acaso.
4Em toda parte se reconhece a presença do homem pelas suas obras. Se abordais uma terra desconhecida, ainda que seja um deserto, e nela descobris o menor vestígio de trabalhos humanos, concluís que homens habitam ou habitaram essa região. A existência dos homens antediluvianos não se provaria apenas por fósseis humanos, mas também, e com igual certeza, pela presença, nos terrenos dessa época, de objetos trabalhados pelos homens; um fragmento de vaso, uma pedra lascada, uma arma, um tijolo bastarão para atestar a sua presença. Pela grosseria ou pela perfeição do trabalho reconhecer-se-á o grau de inteligência e de adiantamento dos que o realizaram. Se, pois, achando-vos num país habitado exclusivamente por selvagens, descobrísseis uma estátua digna de Fídias, não hesitaríeis em dizer que, sendo os selvagens incapazes de tê-la feito, ela deve ser obra de uma inteligência superior à dos selvagens.
5Pois bem! Lançando os olhos em torno de si, sobre as obras da natureza, observando a previdência, a sabedoria, a harmonia que presidem a todas elas, reconhece-se que não há nenhuma que não ultrapasse o mais alto alcance da inteligência humana, pois o maior gênio da Terra não seria capaz de criar a menor folha de erva. Desde que a inteligência humana não pode produzi-las, é que são produto de uma inteligência superior à humanidade. Estendendo-se essa harmonia e essa sabedoria desde o grão de areia e o ácaro até os astros inumeráveis que circulam no espaço, deve-se concluir que essa inteligência abarca o infinito, a menos que se diga que há efeitos sem causa.
6A isso alguns opõem o seguinte raciocínio:
As obras ditas da natureza são produto de forças materiais que agem mecanicamente, em consequência das leis de atração e de repulsão; as moléculas dos corpos inertes agregam-se e desagregam-se sob o império dessas leis. As plantas nascem, brotam, crescem e multiplicam-se sempre da mesma maneira, cada uma na sua espécie, em virtude dessas mesmas leis; cada indivíduo é semelhante àquele de que saiu; o crescimento, a floração, a frutificação, a coloração estão subordinados a causas materiais, tais como o calor, a eletricidade, a luz, a umidade etc. O mesmo se dá com os animais. Os astros formam-se pela atração molecular e movem-se perpetuamente nas suas órbitas por efeito da gravitação. Essa regularidade mecânica no emprego das forças naturais não acusa uma inteligência livre. O homem move o braço quando quer e como quer, mas aquele que o movesse no mesmo sentido desde o nascimento até a morte seria um autômato; ora, as forças orgânicas da natureza, consideradas no seu conjunto, são de certo modo automáticas.
Tudo isso é verdade; mas essas forças são efeitos que devem ter uma causa, e ninguém pretendeu que elas constituam a Divindade. São materiais e mecânicas; não são inteligentes por si mesmas — isso também é verdade —; mas são postas em obra, distribuídas, apropriadas às necessidades de cada coisa por uma inteligência que não é a dos homens. A apropriação útil dessas forças é um efeito inteligente que denota uma causa inteligente. Um relógio de pêndulo move-se com uma regularidade automática, e é essa regularidade que faz o seu mérito. A força que o faz funcionar é toda material e de modo algum inteligente; mas que seria esse relógio se uma inteligência não tivesse combinado, calculado, distribuído o emprego dessa força para fazê-lo andar com precisão? Pelo fato de a inteligência não estar no mecanismo do relógio e de não a vermos, seria racional concluir que ela não existe? Julga-se pelos seus efeitos.
A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; o engenho do mecanismo atesta a inteligência e o saber do relojoeiro. Quando se vê um desses relógios complicados que marcam a hora das principais cidades do mundo, o movimento dos astros, que tocam árias, que parecem, numa palavra, falar-vos para vos dar na hora certa a informação de que precisais, alguma vez veio a alguém o pensamento de dizer: «Eis um relógio muito inteligente»?
Assim é o mecanismo do universo: Deus não se mostra, mas afirma-se pelas suas obras.
7A existência de Deus é, pois, um fato adquirido, não só pela revelação, mas pela evidência material dos fatos. Os povos mais selvagens não tiveram revelação, e, contudo, creem instintivamente na existência de um poder sobre-humano; é que os próprios selvagens não escapam às consequências lógicas; veem coisas que estão acima do poder humano e concluem que provêm de um ser superior à humanidade.
8Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Temerário seria aquele que pretendesse levantar o véu que o oculta à nossa vista; falta-nos ainda o sentido, que só se adquire pela completa depuração do Espírito. Mas, se não pode penetrar a sua essência, sendo a sua existência dada como premissa, pode, pelo raciocínio, chegar ao conhecimento dos seus atributos necessários; porque, vendo o que ele não pode deixar de ser sem deixar de ser Deus, conclui o que ele deve ser.
Sem o conhecimento dos atributos de Deus, seria impossível compreender a obra da criação; é o ponto de partida de todas as crenças religiosas, e é por não se terem referido a ele como ao farol que podia guiá-las que a maior parte das religiões errou nos seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a onipotência imaginaram vários deuses; as que não lhe atribuíram a soberana bondade fizeram dele um Deus ciumento, colérico, parcial e vingativo.
9Deus é a suprema e soberana inteligência. A inteligência do homem é limitada, pois ele não pode fazer nem compreender tudo o que existe; a de Deus, abarcando o infinito, deve ser infinita. Se a supuséssemos limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber um ser ainda mais inteligente, capaz de compreender e de fazer o que o outro não faria, e assim por diante até o infinito.
10Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido um começo, é que teria saído do nada; ora, o nada, não sendo coisa alguma, nada pode produzir; ou então teria sido criado por outro ser anterior, e então seria esse ser que seria Deus. Se lhe supuséssemos um começo ou um fim, poderíamos, pois, conceber um ser que tivesse existido antes dele, ou que pudesse existir depois dele, e assim por diante até o infinito.
11Deus é imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o universo não teriam nenhuma estabilidade.
12Deus é imaterial, isto é, a sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria; de outro modo não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da matéria.
Deus não tem forma apreciável pelos nossos sentidos; sem isso, seria matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus, porque o homem, não conhecendo senão a si mesmo, toma-se por termo de comparação de tudo o que não compreende. Essas imagens em que se representa Deus sob a figura de um velho de longas barbas, coberto com um manto, são ridículas; têm o inconveniente de rebaixar o Ser supremo às mesquinhas proporções da humanidade; daí a emprestar-lhe as paixões da humanidade, a fazer dele um Deus colérico e ciumento, há apenas um passo.
13Deus é onipotente. Se não tivesse o supremo poder, poder-se-ia conceber um ser mais poderoso, e assim por diante, até que se encontrasse o ser que nenhum outro pudesse ultrapassar em poder, e seria esse que seria Deus. Ele não teria feito todas as coisas, e as que não tivesse feito seriam obra de outro deus.
14Deus é soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas revela-se nas menores coisas como nas maiores, e essa sabedoria não permite duvidar nem da sua justiça nem da sua bondade. Essas duas qualidades implicam todas as outras; se as supuséssemos limitadas, ainda que num só ponto, poder-se-ia conceber um ser que as possuísse em grau mais elevado e que lhe seria superior.
O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a diminuísse ou a anulasse. Um ser infinitamente bom não poderia ter a menor parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau ter a menor parcela de bondade; assim como um objeto não poderia ser de um negro absoluto com a mais leve nuança de branco, nem de um branco absoluto com a menor mancha de negro.
Deus não poderia, pois, ser ao mesmo tempo bom e mau, porque então, não possuindo nenhuma dessas qualidades em grau supremo, não seria Deus; todas as coisas estariam submetidas ao capricho, e não haveria estabilidade para nada. Ele só poderia, pois, ser infinitamente bom ou infinitamente mau; se fosse infinitamente mau, nada faria de bom; ora, como as suas obras dão testemunho da sua sabedoria, da sua bondade e da sua solicitude, deve-se concluir que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele deve ser infinitamente bom.
A soberana bondade implica a soberana justiça; porque, se ele agisse injustamente ou com parcialidade numa única circunstância, ou em relação a uma única das suas criaturas, não seria soberanamente justo e, por conseguinte, não seria soberanamente bom.
15Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber Deus sem o infinito das perfeições; sem isso não seria Deus, porque se poderia sempre conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, é preciso que seja infinito em tudo.
Sendo infinitos, os atributos de Deus não são suscetíveis nem de aumento nem de diminuição; sem isso não seriam infinitos, e Deus não seria perfeito. Se se tirasse a menor parcela de um só dos seus atributos, já não se teria Deus, pois poderia existir um ser mais perfeito.
16Deus é único. A unidade de Deus é consequência do infinito absoluto das perfeições. Outro Deus só poderia existir com a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas; porque, se houvesse entre eles a mais leve diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder, e não seria Deus. Se houvesse entre eles igualdade absoluta, seria, desde toda a eternidade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder; assim confundidos na sua identidade, seriam na realidade um só Deus. Se tivessem, cada um, atribuições especiais, um faria o que o outro não faria, e então não haveria entre eles igualdade perfeita, já que nem um nem outro teria a soberana autoridade.
17Foi a ignorância do princípio do infinito das perfeições de Deus que gerou o politeísmo, culto de todos os povos primitivos; eles atribuíram a divindade a todo poder que lhes pareceu acima da humanidade; mais tarde, a razão levou-os a fundir esses diversos poderes num só. Depois, à medida que os homens compreenderam a essência dos atributos divinos, suprimiram dos seus símbolos as crenças que eram a negação deles.
18Em resumo, Deus só pode ser Deus com a condição de não ser ultrapassado em nada por outro ser; porque então o ser que o ultrapassasse no que quer que fosse, ainda que apenas da espessura de um cabelo, seria o verdadeiro Deus; para isso, é preciso que seja infinito em todas as coisas.
É assim que, sendo a existência de Deus constatada pelo fato das suas obras, se chega, por simples dedução lógica, a determinar os atributos que o caracterizam.
19Deus é, pois, a suprema e soberana inteligência; é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não pode ser outra coisa.
Tal é o eixo sobre o qual repousa o edifício universal; é o farol cujos raios se estendem sobre o universo inteiro, e o único que pode guiar o homem na busca da verdade; seguindo-o, jamais se extraviará, e, se tantas vezes se desviou, foi por não ter seguido o caminho que lhe era indicado.
Tal é também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas; o homem tem, para julgá-las, uma medida rigorosamente exata nos atributos de Deus, e pode dizer-se com certeza que toda teoria, todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática que estivesse em contradição com um só desses atributos, que tendesse não só a anulá-lo, mas simplesmente a enfraquecê-lo, não pode estar na verdade.
Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só é verdadeiro o que não se afasta um iota das qualidades essenciais da Divindade. A religião perfeita seria aquela em que nenhum artigo de fé estivesse em oposição a essas qualidades, e cujos dogmas pudessem todos sofrer a prova desse controle sem receber dele nenhum golpe.
20A providência é a solicitude de Deus por todas as suas criaturas. Deus está em toda parte, vê tudo, preside a tudo, até às menores coisas; é nisso que consiste a ação providencial.
«Como pode Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, imiscuir-se em pormenores ínfimos, preocupar-se com os menores atos e os menores pensamentos de cada indivíduo? Tal é a pergunta que se faz a incredulidade, de onde conclui que, admitindo-se a existência de Deus, a sua ação só deve estender-se às leis gerais do universo; que o universo funciona desde toda a eternidade em virtude dessas leis, às quais cada criatura está submetida na sua esfera de atividade, sem que haja necessidade do concurso incessante da providência.»
21No seu estado atual de inferioridade, os homens só dificilmente podem compreender Deus infinito, porque eles mesmos são limitados e restritos; é por isso que o imaginam limitado e restrito como eles; representam-no como um ser circunscrito e fazem dele uma imagem à sua imagem. Os nossos quadros que o pintam com traços humanos não contribuem pouco para manter esse erro no espírito das massas, que adoram nele mais a forma do que o pensamento. Para a maioria, é um soberano poderoso, num trono inacessível, perdido na imensidão dos céus; e, porque as suas faculdades e as suas percepções são limitadas, não compreendem que Deus possa ou se digne intervir diretamente nas pequenas coisas.
22Na impotência em que está o homem de compreender a própria essência da Divindade, só pode fazer dela uma ideia aproximada com o auxílio de comparações necessariamente muito imperfeitas, mas que podem pelo menos mostrar-lhe a possibilidade daquilo que, à primeira vista, lhe parece impossível.
Suponhamos um fluido bastante sutil para penetrar todos os corpos; é evidente que cada molécula desse fluido, encontrando-se em contato com cada molécula da matéria, produzirá sobre o corpo uma ação idêntica à que produziria a totalidade do fluido. É o que a química demonstra todos os dias em proporções limitadas.
Esse fluido, sendo ininteligente, age mecanicamente apenas pelas forças materiais; mas, se supusermos esse fluido dotado de inteligência, de faculdades perceptivas e sensitivas, agirá não mais cegamente, mas com discernimento, com vontade e liberdade; verá, ouvirá e sentirá.
As propriedades do fluido perispiritual podem dar-nos uma ideia disso. Ele não é inteligente por si mesmo, pois é matéria, mas é o veículo do pensamento, das sensações e das percepções do Espírito; é em consequência da sutileza desse fluido que os Espíritos penetram em toda parte, que perscrutam os nossos pensamentos mais íntimos, que veem e agem a distância; é a esse fluido, chegado a certo grau de depuração, que os Espíritos superiores devem o dom de ubiquidade; basta-lhes um raio do seu pensamento dirigido a diversos pontos para que possam neles manifestar simultaneamente a sua presença. A extensão dessa faculdade está subordinada ao grau de elevação e de depuração do Espírito. É ainda com o auxílio desse fluido que o próprio homem age a distância, pelo poder da vontade, sobre certos indivíduos; que modifica, dentro de certos limites, as propriedades da matéria, dá a substâncias inativas propriedades determinadas, repara desordens orgânicas e opera curas pela imposição das mãos.
23Mas os Espíritos, por mais elevados que sejam, são criaturas limitadas nas suas faculdades, no seu poder e na extensão das suas percepções, e não poderiam, sob esse aspecto, aproximar-se de Deus. Entretanto, podem servir-nos de ponto de comparação. O que o Espírito só pode realizar num limite restrito, Deus, que é infinito, realiza-o em proporções indefinidas. Há ainda esta diferença: a ação do Espírito é momentânea e subordinada às circunstâncias; a de Deus é permanente; o pensamento do Espírito só abarca um tempo e um espaço circunscritos; o de Deus abarca o universo e a eternidade. Numa palavra, entre os Espíritos e Deus há a distância do finito ao infinito.
24O fluido perispiritual não é o pensamento do Espírito, mas o agente e o intermediário desse pensamento; como é ele que o transmite, está de certo modo impregnado dele, e, na impossibilidade em que estamos de isolá-lo, o pensamento parece formar um só todo com o fluido, como o som parece formar um só todo com o ar, de sorte que podemos, por assim dizer, materializá-lo. Assim como dizemos que o ar se torna sonoro, poderíamos, tomando o efeito pela causa, dizer que o fluido se torna inteligente.
25Seja ou não assim com o pensamento de Deus, isto é, quer aja diretamente, quer por intermédio de um fluido, para facilidade da nossa inteligência representemo-lo sob a forma concreta de um fluido inteligente que enche o universo infinito e penetra todas as partes da criação: a natureza inteira está mergulhada no fluido divino; ora, em virtude do princípio de que as partes de um todo são da mesma natureza e têm as mesmas propriedades que o todo, possuindo cada átomo desse fluido, se assim se pode dizer, o pensamento, isto é, os atributos essenciais da Divindade, e estando esse fluido em toda parte, tudo está submetido à sua ação inteligente, à sua previdência, à sua solicitude; não há um ser, por ínfimo que seja, que não esteja de certo modo saturado dele. Estamos assim constantemente em presença da Divindade; não há uma só das nossas ações que possamos subtrair ao seu olhar; o nosso pensamento está em contato incessante com o seu pensamento, e é com razão que se diz que Deus lê nas mais profundas dobras do nosso coração. Estamos nele, como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo.
Para estender a sua solicitude sobre todas as suas criaturas, Deus não precisa, pois, mergulhar o olhar do alto da imensidão; as nossas preces, para serem ouvidas por ele, não precisam transpor o espaço, nem ser ditas em voz retumbante, porque, estando ele sem cessar ao nosso lado, os nossos pensamentos repercutem nele. Os nossos pensamentos são como os sons de um sino, que fazem vibrar todas as moléculas do ar ambiente.
26Longe de nós o pensamento de materializar a Divindade; a imagem de um fluido inteligente universal não é, evidentemente, senão uma comparação, mas própria para dar uma ideia mais justa de Deus do que os quadros que o representam sob uma figura humana; tem por único objeto fazer compreender a possibilidade de Deus estar em toda parte e ocupar-se de tudo.
27Temos incessantemente diante dos olhos um exemplo que pode dar-nos uma ideia da maneira como a ação de Deus pode exercer-se sobre as partes mais íntimas de todos os seres e, por conseguinte, de como as impressões mais sutis da nossa alma chegam até ele. É tirado de uma instrução dada por um Espírito sobre esse assunto.
«Um dos atributos da Divindade é a infinidade; não se pode representar o Criador como tendo uma forma, um limite, uma baliza qualquer. Se não fosse infinito, poder-se-ia conceber algo maior do que ele, e seria esse algo que seria Deus. — Sendo infinito, Deus está em toda parte, porque, se não estivesse em toda parte, não seria infinito; não se pode sair desse dilema. Portanto, se há um Deus — e isso não deixa dúvida para ninguém —, esse Deus é infinito, e não se pode conceber extensão que ele não ocupe. Encontra-se, por conseguinte, em contato com todas as suas criações; envolve-as, elas estão nele; é, pois, compreensível que esteja em relação direta com cada criatura; e, para vos fazer compreender tão materialmente quanto possível de que maneira essa comunicação se dá universal e constantemente, examinemos o que se passa no homem entre o seu Espírito e o seu corpo.
«O homem é um pequeno mundo cujo diretor é o Espírito e cujo princípio dirigido é o corpo. Nesse universo, o corpo representará uma criação cujo Deus seria o Espírito. (Compreendeis que aqui só pode tratar-se de analogia, e não de identidade.) Os membros desse corpo, os diferentes órgãos que o compõem, os seus músculos, os seus nervos, as suas articulações, são outras tantas individualidades materiais, se assim se pode dizer, localizadas num lugar especial do corpo; embora o número dessas partes constitutivas, tão variadas e tão diferentes por natureza, seja considerável, não é duvidoso para ninguém que não se pode produzir movimento algum, que uma impressão qualquer não pode ocorrer num lugar particular, sem que o Espírito tenha consciência disso. Há sensações diversas em vários lugares simultaneamente? O Espírito sente-as todas, discerne-as, analisa-as, assinala a cada uma a sua causa e o seu lugar de ação.
«Um fenômeno análogo ocorre entre a criação e Deus. Deus está em toda parte na natureza, como o Espírito está em toda parte no corpo; todos os elementos da criação estão em relação constante com ele, como todas as células do corpo humano estão em contato imediato com o ser espiritual; não há, pois, razão para que fenômenos da mesma ordem não se produzam da mesma maneira num e noutro caso.
«Um membro agita-se: o Espírito sente-o; uma criatura pensa: Deus o sabe. Todos os membros estão em movimento, os diferentes órgãos são postos em vibração: o Espírito sente cada manifestação, distingue-as e localiza-as. As diferentes criações, as diferentes criaturas agitam-se, pensam, agem diversamente, e Deus sabe tudo o que se passa e assinala a cada um o que lhe é particular.
«Pode-se deduzir daí igualmente a solidariedade da matéria e da inteligência, a solidariedade de todos os seres de um mundo entre si, a de todos os mundos e, enfim, a das criações e do Criador.» (Quinemant, Sociedade de Paris, 1867.)
28Compreendemos o efeito, e isso já é muito; do efeito remontamos à causa e julgamos a sua grandeza pela grandeza do efeito; mas a sua essência íntima escapa-nos, como a da causa de uma multidão de fenômenos. Conhecemos os efeitos da eletricidade, do calor, da luz, da gravitação; calculamo-los, e, no entanto, ignoramos a natureza íntima do princípio que os produz. Será, pois, mais racional negar o princípio divino, porque não o compreendemos?
29Nada impede admitir, para o princípio de soberana inteligência, um centro de ação, um foco principal que irradia sem cessar, inundando o universo com os seus eflúvios, como o sol com a sua luz. Mas onde está esse foco? É o que ninguém pode dizer. É provável que não esteja mais fixado num ponto determinado do que a sua ação, e que percorra incessantemente as regiões do espaço sem limites. Se simples Espíritos têm o dom de ubiquidade, essa faculdade, em Deus, deve ser sem limite. Enchendo Deus o universo, poder-se-ia ainda admitir, a título de hipótese, que esse foco não precisa deslocar-se e que se forma em todos os pontos onde a soberana vontade julga conveniente produzir-se; de onde se poderia dizer que ele está em toda parte e em parte nenhuma.
30Diante desses problemas insondáveis, a nossa razão deve humilhar-se. Deus existe: não poderíamos duvidar disso; é infinitamente justo e bom: é a sua essência; a sua solicitude estende-se a tudo: compreendemo-lo; só pode, pois, querer o nosso bem, e é por isso que devemos ter confiança nele. Eis o essencial; quanto ao resto, esperemos ser dignos de compreendê-lo.
31Já que Deus está em toda parte, por que não o vemos? Vê-lo-emos ao deixar a Terra? Tais são as perguntas que se fazem diariamente.
A primeira é fácil de resolver: os nossos órgãos materiais têm percepções limitadas, que os tornam impróprios para a visão de certas coisas, mesmo materiais. É assim que certos fluidos escapam totalmente à nossa vista e aos nossos instrumentos de análise, e, no entanto, não duvidamos da sua existência. Vemos os efeitos da peste e não vemos o fluido que a transporta; vemos os corpos moverem-se sob a influência da força de gravitação e não vemos essa força.
32As coisas de essência espiritual não podem ser percebidas por órgãos materiais; só pela vista espiritual podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial; só a nossa alma, pois, pode ter a percepção de Deus. Vê-lo-á ela imediatamente depois da morte? É o que só as comunicações de além-túmulo podem ensinar-nos. Por elas sabemos que a visão de Deus é privilégio apenas das almas mais depuradas, e que assim bem poucas possuem, ao deixar o seu envoltório terrestre, o grau de desmaterialização necessário. Algumas comparações vulgares o farão compreender facilmente.
33Aquele que está no fundo de um vale envolto em espessa bruma não vê o sol; entretanto, como dissemos acima, pela luz difusa julga da presença do sol. Se sobe a montanha, à medida que se eleva o nevoeiro se aclara, a luz torna-se cada vez mais viva, mas ele ainda não vê o sol; quando começa a avistá-lo, este ainda está velado, porque o menor vapor basta para enfraquecer o seu brilho. Só depois de se ter elevado completamente acima da camada de bruma é que, achando-se num ar perfeitamente puro, o vê em todo o seu esplendor.
O mesmo se dá com aquele cuja cabeça estivesse envolta em vários véus: primeiro, não vê absolutamente nada; a cada véu que se retira, distingue um clarão cada vez mais claro; só quando o último véu desapareceu é que percebe nitidamente as coisas.
O mesmo se dá ainda com um licor carregado de matérias estranhas: a princípio é turvo; a cada destilação a sua transparência aumenta, até que, estando completamente depurado, adquire uma limpidez perfeita e não apresenta nenhum obstáculo à vista.
Assim é com a alma. O envoltório perispiritual, embora invisível e impalpável para nós, é para ela uma verdadeira matéria, ainda grosseira demais para certas percepções. Esse envoltório espiritualiza-se à medida que a alma se eleva em moralidade. As imperfeições da alma são como véus que obscurecem a sua vista; cada imperfeição de que se desfaz é um véu a menos; mas só depois de se ter depurado completamente é que goza da plenitude das suas faculdades.
34Sendo Deus a essência divina por excelência, só pode ser percebido em todo o seu brilho pelos Espíritos chegados ao mais alto grau de desmaterialização. Se os Espíritos imperfeitos não o veem, não é que estejam mais afastados dele do que os outros; como eles, como todos os seres da natureza, estão mergulhados no fluido divino, como nós o estamos na luz; apenas as suas imperfeições são véus que o ocultam à sua vista; quando o nevoeiro se dissipar, vê-lo-ão resplandecer; para isso não precisarão nem subir, nem ir procurá-lo nas profundezas do infinito; estando a vista espiritual desembaraçada das belidas morais que a obscureciam, vê-lo-ão em qualquer lugar em que se encontrem, ainda que seja na Terra, porque ele está em toda parte.
35O Espírito só se depura com o tempo, e as diferentes encarnações são os alambiques no fundo dos quais deixa de cada vez algumas impurezas. Ao deixar o seu envoltório corporal, não se despoja instantaneamente das suas imperfeições; é por isso que há os que, depois da morte, não veem Deus mais do que em vida; mas, à medida que se depuram, têm dele uma intuição mais distinta; se não o veem, compreendem-no melhor: a luz é menos difusa. Quando, pois, Espíritos dizem que Deus lhes proíbe responder a tal pergunta, não é que Deus lhes apareça ou lhes dirija a palavra para lhes prescrever ou proibir esta ou aquela coisa, não; mas eles o sentem; recebem os eflúvios do seu pensamento, como nos acontece em relação aos Espíritos que nos envolvem com o seu fluido, embora não os vejamos.
36Nenhum homem pode, pois, ver Deus com os olhos da carne. Se esse favor fosse concedido a alguns, só o seria no estado de êxtase, quando a alma está tão desprendida dos laços da matéria quanto é possível durante a encarnação. Tal privilégio, aliás, só seria o das almas de escol, encarnadas em missão e não em expiação. Mas, como os Espíritos da ordem mais elevada resplandecem com um brilho deslumbrante, pode acontecer que Espíritos menos elevados, encarnados ou desencarnados, impressionados pelo esplendor que os cerca, tenham julgado ver o próprio Deus. Assim se vê às vezes um ministro tomado pelo seu soberano.
37Sob que aparência Deus se apresenta aos que se tornaram dignos desse favor? É sob uma forma qualquer? Sob uma figura humana, ou como um foco resplandecente de luz? É o que a linguagem humana é impotente para descrever, porque não existe para nós nenhum ponto de comparação que possa dar dele uma ideia; somos como cegos a quem se procurasse em vão fazer compreender o brilho do sol. O nosso vocabulário está limitado às nossas necessidades e ao círculo das nossas ideias; o dos selvagens não poderia pintar as maravilhas da civilização; o dos povos mais civilizados é pobre demais para descrever os esplendores dos céus, a nossa inteligência limitada demais para compreendê-los, e a nossa vista, fraca demais, ficaria deslumbrada.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês
Licença: Domínio público