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A Gênese — III. O bem e o mal

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1Sendo Deus o princípio de todas as coisas, e sendo esse princípio toda sabedoria, toda bondade, toda justiça, tudo o que dele procede deve participar desses atributos, porque o que é infinitamente sábio, justo e bom nada pode produzir de desarrazoado, de mau e de injusto. O mal que observamos não deve, pois, ter nele a sua fonte.

2Se o mal estivesse nas atribuições de um ser especial, quer se chame Arimã ou Satanás, de duas uma: ou esse ser seria igual a Deus e, por conseguinte, tão poderoso quanto ele e de toda a eternidade como ele, ou lhe seria inferior.
No primeiro caso, haveria dois poderes rivais, lutando sem cessar, procurando cada um desfazer o que o outro faz e contrariando-se mutuamente. Essa hipótese é inconciliável com a unidade de vistas que se revela na ordenação do universo.
No segundo caso, sendo esse ser inferior a Deus, estar-lhe-ia subordinado; não podendo ter existido desde toda a eternidade como ele sem ser seu igual, teria tido um começo; se foi criado, só pode tê-lo sido por Deus; Deus teria assim criado o Espírito do mal, o que seria a negação da infinita bondade.

3Segundo uma doutrina, o Espírito do mal, criado bom, ter-se-ia tornado mau, e Deus, para puni-lo, tê-lo-ia condenado a permanecer eternamente mau e ter-lhe-ia dado por missão seduzir os homens para induzi-los ao mal; ora, podendo uma única queda merecer-lhes os mais cruéis castigos por toda a eternidade, sem esperança de perdão, haveria aqui mais do que falta de bondade: haveria uma crueldade premeditada, porque, para tornar a sedução mais fácil e ocultar melhor a armadilha, Satanás estaria autorizado a transformar-se em anjo de luz e a simular as próprias obras de Deus a ponto de enganar. Haveria, além disso, iniquidade e imprevidência da parte de Deus, porque, sendo deixada a Satanás toda a liberdade de sair do império das trevas e de entregar-se aos prazeres mundanos para arrastar a eles os homens, o provocador do mal seria menos punido que as vítimas das suas astúcias, que nele caem por fraqueza, já que, uma vez no abismo, estas não podem mais sair dele. Deus recusa-lhes um copo de água para estancar a sede e, durante toda a eternidade, ouve, ele e os seus anjos, os seus gemidos sem se deixar comover, ao passo que deixa Satanás proporcionar-se todos os gozos que deseja.
De todas as doutrinas sobre a teoria do mal, esta é sem contradita a mais irracional e a mais injuriosa para a Divindade. (Ver O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo, cap. X, Os Demônios.)

4Entretanto, o mal existe e tem uma causa.
O mal é de várias espécies. Há, primeiro, o mal físico e o mal moral; depois, os males que o homem pode evitar e os que são independentes da sua vontade. Entre estes últimos devem colocar-se os flagelos naturais.
O homem, cujas faculdades são limitadas, não pode penetrar nem abarcar o conjunto dos desígnios do Criador; julga as coisas do ponto de vista da sua personalidade, dos interesses fictícios e de convenção que criou para si e que não estão na ordem da natureza; é por isso que muitas vezes acha mau e injusto o que acharia justo e admirável se visse a sua causa, o seu fim e o seu resultado definitivo. Procurando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, reconhecerá que tudo traz o cunho da sabedoria infinita e inclinar-se-á diante dessa sabedoria, mesmo nas coisas que não compreender.

5O homem recebeu em partilha uma inteligência com o auxílio da qual pode conjurar, ou pelo menos atenuar grandemente, os efeitos de todos os flagelos naturais; quanto mais adquire saber e avança em civilização, menos desastrosos são esses flagelos; com uma organização social sabiamente previdente, poderá até neutralizar as suas consequências, quando não puderem ser evitados inteiramente. Assim, para esses mesmos flagelos, que têm a sua utilidade na ordem geral da natureza e para o futuro, mas que ferem no presente, Deus deu ao homem, pelas faculdades de que dotou o seu Espírito, os meios de paralisar os seus efeitos.
É assim que ele saneia as regiões insalubres, neutraliza os miasmas pestilentos, fertiliza as terras incultas e se engenha em preservá-las das inundações; que constrói para si habitações mais sadias, mais sólidas, para resistir aos ventos tão necessários à depuração da atmosfera, que se abriga das intempéries; é assim, enfim, que, pouco a pouco, a necessidade o levou a criar as ciências, com o auxílio das quais melhora as condições de habitabilidade do globo e aumenta a soma do seu bem-estar.
Devendo o homem progredir, os males a que está exposto são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, convidando-o à busca dos meios de se subtrair a eles. Se nada tivesse a temer, nenhuma necessidade o levaria à busca do melhor; entorpecer-se-ia na inatividade do espírito; nada inventaria e nada descobriria. A dor é o aguilhão que impele o homem para a frente no caminho do progresso.

6Mas os males mais numerosos são os que o homem cria para si pelos próprios vícios, os que provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambição, da sua cupidez, dos seus excessos em todas as coisas: aí está a causa das guerras e das calamidades que elas acarretam, das dissensões, das injustiças, da opressão do fraco pelo forte e, enfim, da maior parte das doenças.
Deus estabeleceu leis cheias de sabedoria, que só têm por fim o bem; o homem encontra em si mesmo tudo o que é preciso para segui-las; o seu caminho está traçado pela consciência; a lei divina está gravada no seu coração; e, além disso, Deus lembra-lhas sem cessar pelos seus messias e pelos seus profetas, por todos os Espíritos encarnados que receberam a missão de esclarecê-lo, de moralizá-lo, de melhorá-lo, e, nestes últimos tempos, pela multidão de Espíritos desencarnados que se manifestam por toda parte. Se o homem se conformasse rigorosamente às leis divinas, não há dúvida de que evitaria os males mais pungentes e viveria feliz na Terra. Se não o faz, é em virtude do seu livre-arbítrio, e sofre as consequências disso.

7Mas Deus, cheio de bondade, pôs o remédio ao lado do mal, isto é, do próprio mal faz sair o bem. Chega um momento em que o excesso do mal moral se torna intolerável e faz o homem sentir a necessidade de mudar de caminho; instruído pela experiência, é levado a procurar um remédio no bem, sempre por efeito do seu livre-arbítrio; quando entra num caminho melhor, é por um ato da sua vontade e porque reconheceu os inconvenientes do outro caminho. A necessidade obriga-o, pois, a melhorar-se moralmente para ser mais feliz, como essa mesma necessidade o obrigou a melhorar as condições materiais da sua existência.
Pode-se dizer que o mal é a ausência do bem, como o frio é a ausência do calor. O mal não é mais um atributo distinto do que o frio é um fluido especial; um é o negativo do outro. Onde o bem não existe, existe forçosamente o mal; não fazer o mal já é o começo do bem. Deus só quer o bem; só do homem vem o mal. Se houvesse na criação um ser encarregado do mal, o homem não poderia evitá-lo; mas, tendo o homem a causa do mal em si mesmo, e tendo ao mesmo tempo o seu livre-arbítrio e por guia as leis divinas, evitá-lo-á quando quiser.
Tomemos um fato vulgar para comparação. Um proprietário sabe que na extremidade do seu campo há um lugar perigoso, onde poderia perecer ou ferir-se quem se aventurasse por ali. Que faz ele para prevenir os acidentes? Coloca perto do lugar um aviso proibindo ir mais longe por causa do perigo. Eis a lei; ela é sábia e previdente. Se, apesar disso, um imprudente não lhe dá atenção e passa adiante, e se lhe acontece algum mal, a quem pode queixar-se senão a si mesmo?
Assim é com todo mal. O homem o evitaria se observasse as leis divinas. Deus, por exemplo, pôs um limite à satisfação das necessidades; o homem é advertido pela saciedade; se ultrapassa esse limite, fá-lo voluntariamente. As doenças, as enfermidades, a morte que daí podem resultar são, pois, obra sua e não de Deus.

8Sendo o mal resultado das imperfeições do homem, e tendo sido o homem criado por Deus, Deus, dir-se-á, não deixou por isso de criar, se não o mal, pelo menos a causa do mal; se tivesse feito o homem perfeito, o mal não existiria.
Se o homem tivesse sido criado perfeito, seria levado fatalmente ao bem; ora, em virtude do seu livre-arbítrio, não é levado fatalmente nem ao bem nem ao mal. Deus quis que estivesse submetido à lei do progresso e que esse progresso fosse fruto do seu próprio trabalho, a fim de que tivesse o mérito dele, assim como carrega a responsabilidade do mal que é obra da sua vontade. A questão é, pois, saber qual é, no homem, a fonte da propensão para o mal (1).
(1) «O erro consiste em pretender que a alma teria saído perfeita das mãos do Criador, quando este, ao contrário, quis que a perfeição fosse resultado da depuração gradual do espírito e obra sua própria. Deus quis que a alma, em virtude do seu livre-arbítrio, pudesse optar entre o bem e o mal, e que chegasse aos seus fins últimos por uma vida militante e resistindo ao mal. Se tivesse feito a alma perfeita como ele, e se, ao sair das suas mãos, a tivesse associado à sua beatitude eterna, tê-la-ia feito não à sua imagem, mas semelhante a si mesmo, como já dissemos. Conhecendo todas as coisas em virtude da sua própria essência e sem nada ter aprendido, movida por um sentimento de orgulho nascido da consciência dos seus divinos atributos, teria sido arrastada a renegar a sua origem, a desconhecer o autor da sua existência, e ter-se-ia constituído em estado de rebelião, de revolta contra o seu Criador.»
(Bonnamy, juiz de instrução: A Razão do Espiritismo, cap. VI.)

9Se se estudam todas as paixões, e até todos os vícios, vê-se que têm o seu princípio no instinto de conservação. Esse instinto está em toda a sua força nos animais e nos seres primitivos que mais se aproximam da animalidade; neles domina sozinho, porque ainda não tem por contrapeso o senso moral; o ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto enfraquece-se, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque esta domina a matéria; com a inteligência raciocinada nasce o livre-arbítrio, de que o homem usa a seu bel-prazer; só então começa para ele a responsabilidade dos seus atos.

10O destino do Espírito é a vida espiritual; mas, nas primeiras fases da sua existência corporal, só tem necessidades materiais a satisfazer, e para esse fim o exercício das paixões é uma necessidade para a conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Mas, saído desse período, tem outras necessidades: primeiro, necessidades semimorais e semimateriais; depois, exclusivamente morais. É então que o Espírito domina a matéria; se sacode o seu jugo, avança no seu caminho providencial, aproxima-se do seu destino final. Se, ao contrário, se deixa dominar por ela, atrasa-se, assemelhando-se ao bruto. Nessa situação, o que outrora era um bem, porque era uma necessidade da sua natureza, torna-se um mal, não só porque já não é uma necessidade, mas porque se torna nocivo à espiritualização do ser. O mal é assim relativo, e a responsabilidade proporcional ao grau de adiantamento.
Todas as paixões têm assim a sua utilidade providencial; sem isso, Deus teria feito algo inútil e nocivo; é o abuso que constitui o mal, e o homem abusa em virtude do seu livre-arbítrio. Mais tarde, esclarecido pelo próprio interesse, escolhe livremente entre o bem e o mal.

11O instinto e a inteligência
Que diferença há entre o instinto e a inteligência? Onde acaba um e onde começa a outra? O instinto é uma inteligência rudimentar, ou uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?
O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, com vista à sua conservação. Nos atos instintivos não há reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a planta procura o ar, volta-se para a luz, dirige as raízes para a água e para a terra nutriz; que a flor se abre e se fecha alternadamente conforme a necessidade; que as plantas trepadeiras se enrolam em torno do apoio ou se agarram com as suas gavinhas. É pelo instinto que os animais são advertidos do que lhes é útil ou nocivo; que se dirigem, conforme as estações, para os climas propícios; que constroem, sem lições prévias, com mais ou menos arte conforme as espécies, leitos macios e abrigos para a prole, engenhos para apanhar na armadilha a presa de que se alimentam; que manejam com destreza as armas ofensivas e defensivas de que são providos; que os sexos se aproximam; que a mãe choca os filhotes e que estes procuram o seio da mãe. No homem, o instinto domina exclusivamente no começo da vida; é pelo instinto que a criança faz os primeiros movimentos, que agarra o alimento, que grita para exprimir as suas necessidades, que imita o som da voz, que ensaia falar e andar. Mesmo no adulto, certos atos são instintivos: tais são os movimentos espontâneos para evitar um perigo, para escapar de um risco, para manter o equilíbrio; tais são ainda o piscar das pálpebras para atenuar o brilho da luz, a abertura maquinal da boca para respirar etc.

12A inteligência revela-se por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados, segundo a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma.
Todo ato maquinal é instintivo; o que denota reflexão e combinação é inteligente; um é livre, o outro não o é.
O instinto é um guia seguro, que nunca engana; a inteligência, só pelo fato de ser livre, está às vezes sujeita a erro.
Se o ato instintivo não tem o caráter do ato inteligente, revela, não obstante, uma causa inteligente essencialmente previdente. Se se admite que o instinto tem a sua fonte na matéria, é preciso admitir que a matéria é inteligente, e até mais seguramente inteligente e previdente que a alma, pois o instinto não se engana, ao passo que a inteligência se engana.
Se se considera o instinto uma inteligência rudimentar, como se explica que seja, em certos casos, superior à inteligência raciocinada? Que dê a possibilidade de executar coisas que esta não pode produzir?
Se é atributo de um princípio espiritual especial, em que se torna esse princípio? Já que o instinto se apaga, esse princípio seria então aniquilado? Se os animais só são dotados do instinto, o seu futuro não tem saída; os seus sofrimentos não têm nenhuma compensação. Isso não seria conforme nem à justiça nem à bondade de Deus.

13Segundo outro sistema, o instinto e a inteligência teriam um só e mesmo princípio; chegado a certo grau de desenvolvimento, esse princípio, que a princípio só teria tido as qualidades do instinto, sofreria uma transformação que lhe daria as da inteligência livre; receberia, numa palavra, o que se convencionou chamar a centelha divina. Essa transformação não seria súbita, mas gradual, de tal sorte que, durante certo período, haveria mistura das duas aptidões, a primeira diminuindo à medida que a segunda aumenta.

14Enfim, uma última hipótese, que, de resto, se alia perfeitamente à ideia da unidade de princípio, ressalta do caráter essencialmente previdente do instinto e concorda com o que o Espiritismo nos ensina acerca das relações do mundo espiritual e do mundo corporal.
Sabe-se hoje que Espíritos desencarnados têm por missão velar pelos encarnados, de quem são os protetores e os guias; que os envolvem com os seus eflúvios fluídicos; que o homem age muitas vezes de maneira inconsciente sob a ação desses eflúvios.
Sabe-se, além disso, que o instinto, que também produz atos inconscientes, predomina nas crianças e, em geral, nos seres cuja razão é fraca. Ora, segundo essa hipótese, o instinto não seria atributo nem da alma nem da matéria; não pertenceria propriamente ao ser vivo, mas seria efeito da ação direta dos protetores invisíveis, que supririam a imperfeição da inteligência, provocando eles mesmos os atos inconscientes necessários à conservação do ser. Seria como as andadeiras com o auxílio das quais se sustenta a criança que ainda não sabe andar. Mas, assim como se suprime gradualmente o uso das andadeiras à medida que a criança se sustenta sozinha, os Espíritos protetores deixam entregues a si mesmos os seus protegidos à medida que estes podem guiar-se pela própria inteligência.
Assim, o instinto, longe de ser produto de uma inteligência rudimentar e incompleta, seria obra de uma inteligência estranha, na plenitude da sua força, que supriria a insuficiência, seja de uma inteligência mais jovem, que ela levaria a fazer inconscientemente, para o seu bem, o que esta ainda é incapaz de fazer por si mesma, seja de uma inteligência madura, mas momentaneamente entravada no uso das suas faculdades, como acontece no homem na infância e nos casos de idiotia e de afecções mentais.
Diz-se proverbialmente que há um Deus para as crianças, os loucos e os bêbados; esse ditado é mais verdadeiro do que se pensa; esse Deus não é outro senão o Espírito protetor que vela pelo ser incapaz de se proteger pela própria razão.

15Nessa ordem de ideias, pode-se ir mais longe. Essa teoria, por mais racional que seja, não resolve todas as dificuldades da questão. Para procurar as causas, é preciso estudar os efeitos, e da natureza dos efeitos pode-se concluir a natureza da causa.
Se se observam os efeitos do instinto, nota-se antes de tudo uma unidade de vistas e de conjunto, uma segurança de resultados que deixam de existir assim que o instinto é substituído pela inteligência livre; além disso, na apropriação tão perfeita e tão constante das faculdades instintivas às necessidades de cada espécie, reconhece-se uma profunda sabedoria. Essa unidade de vistas não poderia existir sem a unidade de pensamento e, por conseguinte, com a multiplicidade das causas atuantes. Ora, em consequência do progresso que as inteligências individuais realizam incessantemente, há entre elas uma diversidade de aptidões e de vontades incompatível com esse conjunto tão perfeitamente harmonioso, que se produz desde a origem dos tempos e em todos os climas, com uma regularidade e uma precisão matemáticas, sem jamais falhar. Essa uniformidade no resultado das faculdades instintivas é um fato característico que implica forçosamente a unidade da causa; se essa causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tantas variedades de instintos quantos indivíduos, desde a planta até o homem. Um efeito geral, uniforme e constante deve ter uma causa geral, uniforme e constante; um efeito que acusa sabedoria e previdência deve ter uma causa sábia e previdente.
Ora, uma causa sábia e previdente, sendo necessariamente inteligente, não pode ser exclusivamente material.
Não encontrando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas, as qualidades necessárias para produzir tal resultado, é preciso remontar mais alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportarmos à explicação que foi dada sobre a maneira como se pode conceber a ação providencial (cap. II, n.º 25); se imaginarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos para o bem de cada indivíduo. Essa solicitude é tanto mais ativa quanto menos recursos o indivíduo tem em si mesmo e na própria inteligência; é por isso que se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores do que no homem.
Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia sempre seguro. O instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, acha-se elevado e enobrecido. Em razão das suas consequências, não convinha que fosse entregue às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre-arbítrio. Pelo órgão da mãe, o próprio Deus vela pelas suas criaturas nascentes.

16Essa teoria de modo algum destrói o papel dos Espíritos protetores, cujo concurso é um fato adquirido e provado pela experiência; mas é de notar que a ação destes é essencialmente individual; que se modifica segundo as qualidades próprias do protetor e do protegido, e que em parte nenhuma tem a uniformidade e a generalidade do instinto. Deus, na sua sabedoria, conduz ele mesmo os cegos, mas confia a inteligências livres o cuidado de conduzir os que veem, para deixar a cada um a responsabilidade dos seus atos. A missão dos Espíritos protetores é um dever que aceitam voluntariamente e que é para eles um meio de adiantamento, conforme a maneira como o cumprem.

17Todas essas maneiras de considerar o instinto são necessariamente hipotéticas, e nenhuma tem um caráter suficiente de autenticidade para ser dada como solução definitiva. A questão será certamente resolvida um dia, quando se tiverem reunido os elementos de observação que ainda faltam; até lá, é preciso limitar-se a submeter as diversas opiniões ao crisol da razão e da lógica e esperar que a luz se faça; a solução que mais se aproximar da verdade será necessariamente a que melhor corresponder aos atributos de Deus, isto é, à soberana bondade e à soberana justiça. (Ver cap. II, n.º 19.)

18Sendo o instinto o guia e as paixões as molas das almas no primeiro período do seu desenvolvimento, confundem-se às vezes nos seus efeitos, e sobretudo na linguagem humana, que nem sempre se presta suficientemente à expressão de todas as nuanças. Há, entretanto, entre esses dois princípios diferenças que é essencial considerar.
O instinto é um guia seguro, sempre bom; num tempo dado, pode tornar-se inútil, mas nunca nocivo; enfraquece-se pela predominância da inteligência.
As paixões, nas primeiras idades da alma, têm isto de comum com o instinto: os seres são solicitados por elas por uma força igualmente inconsciente. Nascem mais particularmente das necessidades do corpo e prendem-se ao organismo mais do que o instinto. O que as distingue sobretudo do instinto é que são individuais e não produzem, como este, efeitos gerais e uniformes; vê-se, ao contrário, que variam de intensidade e de natureza conforme os indivíduos. São úteis, como estimulante, até a eclosão do senso moral, que, de um ser passivo, faz um ser de razão; nesse momento tornam-se não somente inúteis, mas nocivas ao adiantamento do Espírito, cuja desmaterialização retardam; enfraquecem-se com o desenvolvimento da razão.

19O homem que só agisse constantemente pelo instinto poderia ser muito bom, mas deixaria dormir a inteligência; seria como a criança que não largasse as andadeiras e não soubesse servir-se dos membros. Aquele que não domina as suas paixões pode ser muito inteligente, mas ao mesmo tempo muito mau. O instinto aniquila-se por si mesmo; as paixões só se domam pelo esforço da vontade.
Todos os homens passaram pela fieira das paixões; os que já não as têm, que não são, por natureza, nem orgulhosos, nem ambiciosos, nem egoístas, nem rancorosos, nem vingativos, nem cruéis, nem coléricos, nem sensuais, que fazem o bem sem esforço, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é que progrediram no decurso das suas existências anteriores; estão livres dessas febres da mocidade. É sem razão que se diz que têm menos mérito em fazer o bem do que os que têm de lutar contra as suas tendências; para eles, a vitória está conquistada; para os outros, ainda não está; e, quando estiver, serão como os outros: por sua vez farão o bem sem pensar nisso, como crianças que leem correntemente sem precisar mais soletrar; são como dois doentes, um dos quais está curado e cheio de força, ao passo que o outro ainda está apenas convalescente e tropeça ao andar; são, enfim, como dois corredores, um dos quais está mais perto da meta do que o outro.

20A destruição recíproca dos seres vivos é uma das leis da natureza que, à primeira vista, parecem menos se conciliar com a bondade de Deus. Pergunta-se por que ele lhes impôs a necessidade de se entredestruírem, para se alimentarem uns à custa dos outros.
Para quem só vê a matéria, para quem limita a vista à vida presente, isso parece, com efeito, uma imperfeição na obra divina; daí esta conclusão que dela tiram os incrédulos: não sendo Deus perfeito, não há Deus. É que julgam a perfeição de Deus do seu ponto de vista; o próprio juízo deles é a medida da sabedoria divina, e pensam que Deus não poderia fazer melhor do que eles mesmos fariam. Não lhes permitindo a curta vista julgar o conjunto, não compreendem que um bem real pode sair de um mal aparente. Só o conhecimento do princípio espiritual, considerado na sua essência verdadeira, e da grande lei de unidade que constitui a harmonia da criação, pode dar ao homem a chave desse mistério e mostrar-lhe a sabedoria providencial e a harmonia precisamente onde ele só via uma anomalia e uma contradição. Dá-se com essa verdade o mesmo que com uma multidão de outras; o homem só está apto a sondar certas profundezas quando o seu Espírito chegou a um grau suficiente de maturidade.

21A verdadeira vida, do animal tanto quanto do homem, não está mais no envoltório corporal do que na roupa; está no princípio inteligente, que preexiste e sobrevive ao corpo. Esse princípio precisa do corpo para se desenvolver pelo trabalho que deve realizar sobre a matéria bruta; o corpo gasta-se nesse trabalho, mas o Espírito não se gasta; ao contrário, sai dele de cada vez mais forte, mais lúcido e mais capaz. Que importa, pois, que o Espírito mude mais ou menos frequentemente de envoltório? Não deixa por isso de ser Espírito; é exatamente como se um homem renovasse cem vezes a roupa no mesmo ano: não deixaria por isso de ser o mesmo homem.
Pelo espetáculo incessante da destruição, Deus ensina aos homens o pouco caso que devem fazer do envoltório material e suscita neles a ideia da vida espiritual, fazendo-lha desejar como uma compensação.
Deus, dir-se-á, não poderia chegar ao mesmo resultado por outros meios, e sem obrigar os seres vivos a se entredestruírem? Bem ousado seria quem pretendesse penetrar os desígnios de Deus! Se tudo é sabedoria na sua obra, devemos supor que essa sabedoria não deve faltar nesse ponto mais do que nos outros; se não o compreendemos, devemos culpar o nosso pouco adiantamento. Todavia, podemos tentar procurar a razão disso, tomando por bússola este princípio: Deus deve ser infinitamente justo e sábio; procuremos, pois, em tudo a sua justiça e a sua sabedoria, e inclinemo-nos diante do que ultrapassa o nosso entendimento.

22Uma primeira utilidade que se apresenta nessa destruição, utilidade puramente física, é verdade, é esta: os corpos orgânicos só se mantêm com o auxílio das matérias orgânicas, pois só essas matérias contêm os elementos nutritivos necessários à sua transformação. Precisando os corpos, instrumentos de ação do princípio inteligente, de ser incessantemente renovados, a Providência faz que sirvam à sua manutenção mútua; é por isso que os seres se alimentam uns dos outros; é então o corpo que se alimenta do corpo, mas o Espírito não é aniquilado nem alterado; é apenas despojado do seu envoltório.

23Há, além disso, considerações morais de uma ordem mais elevada.
A luta é necessária ao desenvolvimento do Espírito; é na luta que ele exercita as suas faculdades. Aquele que ataca para ter o seu alimento e aquele que se defende para conservar a vida competem em astúcia e inteligência e aumentam, por isso mesmo, as suas forças intelectuais. Um dos dois sucumbe; mas o que tirou, na realidade, o mais forte ou o mais hábil ao mais fraco? A sua veste de carne, nada mais; o Espírito, que não morreu, tomará outra mais tarde.

24Nos seres inferiores da criação, naqueles em que o senso moral não existe, em que a inteligência ainda não substituiu o instinto, a luta só poderia ter por móvel a satisfação de uma necessidade material; ora, uma das necessidades materiais mais imperiosas é a do alimento; eles lutam, pois, unicamente para viver, isto é, para apanhar ou defender uma presa, porque não poderiam ser estimulados por um móvel mais elevado. É nesse primeiro período que a alma se elabora e se ensaia para a vida. Quando atingiu o grau de maturidade necessário para a sua transformação, recebe de Deus novas faculdades: o livre-arbítrio e o senso moral — numa palavra, a centelha divina —, que dão novo curso às suas ideias e a dotam de novas aptidões e de novas percepções.
Mas as novas faculdades morais de que é dotada só se desenvolvem gradualmente, porque nada é brusco na natureza; há um período de transição em que o homem mal se distingue do bruto; nas primeiras idades, o instinto animal domina, e a luta ainda tem por móvel a satisfação das necessidades materiais; mais tarde, o instinto animal e o sentimento moral contrabalançam-se; o homem luta então não mais para se alimentar, mas para satisfazer a sua ambição, o seu orgulho, a necessidade de dominar: para isso, ainda precisa destruir. Mas, à medida que o senso moral prevalece, a sensibilidade desenvolve-se, a necessidade da destruição diminui; acaba até por se apagar e por se tornar odiosa: o homem tem horror ao sangue.
Entretanto, a luta é sempre necessária ao desenvolvimento do Espírito, porque, mesmo chegado a esse ponto, que nos parece culminante, ele está longe de ser perfeito; só à custa da sua atividade adquire conhecimentos, experiência, e se despoja dos últimos vestígios da animalidade; mas então a luta, de sangrenta e brutal que era, torna-se puramente intelectual; o homem luta contra as dificuldades, e não mais contra os seus semelhantes.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do original francês

Fonte: Internet Archive — La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme (Paris, Librairie internationale, 1868), OCR corrigé avec les numérisations bub_gb_KzDGY2nT08AC et bub_gb_hupkPNggu5sC

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