O Selvagem: religião e lendas dos tupis — A religião selvagem
Ler no Une Sacra1Todos nós brazileiros, creados nas fazendas do interior das provincias, sobre tudo nas vizinhanças dos pequenos arraiaes compostos de populações mestiças de indios, fomos, desde a infancia, embalados no meio das tradições da religião dos selvagens.
2Tempo houve na vida de todos nós, em que o Deus dos christãos foi tão venerado e tão temido quanto os deuses selvagens. Se nossas mãis nos adormeciam muitas vezes com canticos que recordavam a infancia da Virgem Maria, ou o nascimento de Christo, nossas amas de leite nos contavam as historias do Saci Cererê, narravam-nos o como um certo menino havia sido desencaminhado nos bosques pelo Curupira; o como um velho tal, que caçava nos domingos, sem ouvir missa, fôra impellido pelo Anhangá a precipitar-se em um abysmo; o como uma lavadeira de roupa tinha avistado no fundo dos poços o Uauyará, e tantas outras historias, que não são senão os fragmentos da theogonia aborigene, que, desde pequenos nos foi ensinada, e na qual, como disse, tempo houve em que todos nós acreditamos.
3Ainda hoje, não ha talvez um só caipira de S. Paulo, ou um bruaqueiro de Minas, á quem possaes dizer, que é um ente imaginario o Saci Cererê, que elle julgou encontrar por deshoras junto a alguma porteira, que lhe saltou na garupa, ou que lhe fez alguma outra tropelia.
4As crenças e superstições indigenas passaram todas para o nosso povo, e os deuses dos Tupis vivem ainda em nossos campos, vida tão real como a que lhes davam os aborigenes, no tempo em que seus pagés (e não piagas) os adoravam: escrever pois a theogonia tupi, é quasi que escrever até um certo ponto as crenças de nosso povo, aquillo em que cada um de nós acreditou até os 10 ou 11 annos.
5Não me occupando eu, porém, de escrever uma monographia a respeito da religião indigena, e, não devendo tomar d'este assumpto sinão a parte que tem ligação immediata com a anthropologia, eu limitarei este paragrapho a registrar apenas aquillo que diz respeito a estas tres idéas capitaes: sentimento de gratidão para com o Creador, immortalidade da alma, theoria de penas e recompensas; começando por dar uma idéa geral do como era concebida pelos selvagens a noção de Deus.
Versão: Couto de Magalhães (1876)
Edição: 1
Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource
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