Une Sacra

Atos de João — Sobre a vida de Jesus e a sua morte

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87Os que estavam presentes, pois, perguntavam a causa, e estavam especialmente perplexos porque Drusiana tinha dito: “O Senhor apareceu-me no túmulo sob a forma de João e sob a de um jovem.” Visto, pois, que estavam perplexos e, de certo modo, ainda não firmados na fé de modo a suportá-la com constância, João disse:

88“Homens e irmãos, nada sofrestes de estranho ou de incrível quanto à vossa concepção do ‹ Senhor ›, visto que também nós, a quem ele escolheu para si como apóstolos, fomos provados em muitos pontos. Eu, na verdade, não sou capaz de vos expor nem de escrever as coisas que vi e ouvi; e agora é necessário que as ajuste à vossa capacidade de ouvir; e, conforme cada um de vós for capaz, comunicar-vos-ei as coisas de que podeis tornar-vos ouvintes, para que vejais a glória que o envolve, que era e é, agora e para sempre.
“Pois, quando ele escolheu Pedro e André, que eram irmãos, vem a mim e a meu irmão Tiago, dizendo: Preciso de vós, vinde a mim. E meu irmão disse assim: João, aquela criança que nos chamou da praia, que quer? E eu disse: Que criança? Ele respondeu: Aquela que nos acena. E eu respondi: Por causa da longa vigília que fizemos no mar, não vês bem, meu irmão Tiago; mas não vês o homem que está ali de pé, belo e formoso e de semblante alegre? Mas ele me disse: Esse não o vejo, irmão; mas saiamos, e veremos o que isto quer dizer.

89“E assim, quando trouxe o barco ‹ à terra ›, vimo-lo também ajudando comigo a arrumar o barco. E, quando partimos do lugar, querendo segui-lo de novo, ele foi visto por mim como tendo a cabeça um tanto calva, mas a barba espessa e abundante; mas a Tiago apareceu como um jovem cuja barba mal despontava. Estávamos, pois, perplexos, ambos, sobre o que significaria o que tínhamos visto. Mas, seguindo-o, ambos pouco a pouco ficávamos mais perplexos ao pensar no assunto. Contudo, a mim apareceu isto, que era ainda mais maravilhoso: eu tentava vê-lo em particular, e nunca, em momento algum, vi os seus olhos fechando-se, mas só abertos. E muitas vezes ele me aparecia como um homem pequeno e sem beleza, e depois de novo como alguém que chegava ao céu. Havia também nele outra maravilha: quando eu me sentava à mesa, ele me tomava sobre o seu peito, e eu considerava comigo mesmo; e às vezes o seu peito me parecia ao tato liso e macio, e às vezes duro, como pedras, de modo que eu ficava perplexo comigo mesmo e dizia: Que significa isto? E, quando eu pensava nestas coisas
. . .

90“Outra vez ele leva a mim, a Tiago e a Pedro ao monte onde costumava orar, e vimos nele tal luz que não é possível a um homem que usa uma linguagem corruptível dizer como era. De novo, do mesmo modo, leva-nos os três ao monte, dizendo: Vinde comigo. E fomos de novo, e o vimos ao longe orando. Ora, eu, porque ele me amava, aproximei-me dele de mansinho, como se ele não me visse, e fiquei olhando para as suas costas. E vi que ele não estava de modo algum vestido de roupas, mas era visto por nós despido delas, e de modo algum como um homem; e os seus pés mais brancos que a neve, de modo que o chão ali era iluminado pelos seus pés, e a sua cabeça chegava até o céu; de modo que tive medo e gritei, e ele voltou-se e apareceu como um homem de pequena estatura, e agarrou-me a barba, e puxou-a, e disse-me: João, não sejas incrédulo, mas crente, e não sejas intrometido. E eu lhe disse: Que fiz eu, Senhor? E digo-vos, irmãos, sofri tal dor naquele lugar onde ele me agarrou a barba, durante trinta dias, que lhe disse: Senhor, se o teu puxão, quando estavas brincando, me causou tanta dor, que seria se me tivesses dado uma bofetada? E ele me disse: Que seja teu, de agora em diante, não tentar aquele que não pode ser tentado.

91“Mas Pedro e Tiago irritaram-se porque eu falava com o Senhor, e acenaram-me para que fosse ter com eles e deixasse o Senhor sozinho. E fui, e ambos me disseram: Aquele que falava com o Senhor quando ele estava no alto do monte, quem era? Pois ouvimos ambos falando. E eu, considerando a sua grande graça e a sua unidade que tem muitas faces, e a sua sabedoria, que sem cessar olhava para nós, disse: Isso sabereis, se lhe perguntardes.

92“Outra vez, uma vez, quando todos nós, seus discípulos, dormíamos numa casa em Genesaré, eu sozinho, tendo-me embrulhado, observava o que ele fazia, e primeiro ouvi-o dizer: João, vai dormir. E então fingi que dormia; e vi outro semelhante a ele, a quem também ouvi dizer ao meu Senhor: Jesus, os que escolheste não creem em ti. E o meu Senhor lhe disse: Dizes bem, pois são homens.

93“Outra glória vos contarei, irmãos. Às vezes, quando eu queria agarrá-lo, encontrava um corpo material e sólido; e outras vezes, quando o apalpava, a substância era imaterial e incorpórea e como se de modo algum existisse. Ora, se alguma vez era convidado por um dos fariseus e ia ao convite, íamos com ele. E diante de cada um de nós era posto um pão por aquele que nos convidara, e também ele recebia conosco um pão. E abençoava o seu e repartia-o entre nós; e com aquele pouco cada um de nós se saciava, e os nossos próprios pães ficavam inteiros, de modo que os que o convidaram ficavam pasmados. E muitas vezes, quando eu andava com ele, quis ver se a marca do seu pé aparecia na terra — pois eu o via erguer-se da terra —, mas nunca a vi. Ora, estas coisas, caros irmãos, vos digo para vos animar na vossa fé nele, pois por agora devemos guardar silêncio acerca das suas obras poderosas e maravilhosas, visto que são mistérios e talvez não possam de modo algum ser ditas nem ouvidas.

94“Ora, antes de ser preso pelos judeus sem lei, que receberam (a sua) lei de uma serpente sem lei, reuniu-nos a todos e disse: Antes que eu seja entregue a eles, cantemos um hino ao Pai e saiamos ao encontro do que está diante de nós. Ordenou-nos, pois, que fizéssemos como que uma roda, segurando-nos pelas mãos uns aos outros, ficando ele no meio. Disse: Respondei-me Amém. Começou, então, a cantar um hino e a dizer:
Glória a ti, Pai! E nós, girando em roda, dizíamos: Amém.
Glória a ti, Verbo! Glória a ti, Graça! Amém.
Glória a ti, Espírito! Glória a ti, Santo! Glória à glória! Amém.
Louvamos-te, ó Pai. Damos-te graças,
Ó Luz em que não habitam trevas. Amém.

95Ora, enquanto damos graças, digo:
Quero ser salvo, e quero salvar. Amém.
Quero ser libertado, e quero libertar. Amém.
Quero ser traspassado, e quero traspassar. Amém.
Quero nascer, e quero gerar. Amém.
Quero comer, e quero ser comido. Amém.
Quero ouvir, e quero ser ouvido. Amém.
Quero ser compreendido, sendo todo compreensão. Amém.
Quero lavar-me, e quero lavar. Amém.
A Graça dança.
Quero tocar a flauta, dançai todos! Amém.
Quero lamentar, chorai todos! Amém.
Uma Ogdóade canta conosco. Amém.
O número Doze dança no alto. Amém.
E o Todo que pode dançar. Amém.
Quem não dança não sabe o que se faz. Amém.
Quero fugir, e quero ficar. Amém.
Quero adornar, e quero ser adornado. Amém.
Quero ser unido, e quero unir. Amém.
Não tenho casa, e tenho casas. Amém.
Não tenho lugar, e tenho lugares. Amém.
Não tenho templo, e tenho templos. Amém.
Sou uma lâmpada para ti, que me contemplas. Amém.
Sou um espelho para ti, que me percebes. Amém.
Sou uma porta para ti, que bates em mim. Amém.
Sou um caminho para ti, viandante. Amém.

96“Ora, se respondes à minha dança, vê-te a ti mesmo em mim, que falo; e, quando tiveres visto o que faço, guarda silêncio sobre os meus mistérios! Tu, que danças, percebe o que faço; pois tua é esta paixão da humanidade que hei de sofrer! Pois de modo algum terias podido compreender o que sofres, se eu não tivesse sido enviado a ti como Verbo pelo Pai. Quando viste o que sofro, viste-me como sofrendo; e, vendo-o, não te mantiveste firme, mas foste inteiramente abalado. Movido a tornar-te sábio, tens-me por apoio. Descansa em mim! Quem sou eu? Não o saberás quando eu partir. O que agora pareço ser, isso não sou. Vê-lo-ás quando vieres. Se tivesses sabido sofrer, terias tido (o poder de) não sofrer. Conhece o sofrimento, e terás (o poder de) não sofrer. O que não sabes, eu te ensinarei. Eu sou o teu Deus, não o do traidor. Quero marcar o compasso com as almas santas. Em mim conhece a palavra da sabedoria! Dize de novo comigo:
Glória a ti, Pai; glória a ti, Verbo;
Glória a ti, Espírito Santo!
“Ora, quanto a mim, se queres saber o que eu era, (sabe): com uma palavra enganei uma vez todas as coisas, e de modo algum fui envergonhado. Saltei; mas tu compreende o todo e, tendo-o compreendido, dize: Glória a ti, Pai! Amém.

97“Depois desta dança, amados, o Senhor saiu conosco; e nós, como homens extraviados ou despertados do sono, fugimos para todos os lados. Até eu, que o tinha visto, não permaneci na sua paixão quando ele sofria, mas fugi para o monte das Oliveiras, chorando pelo que acontecera. E, quando ele foi suspenso na cruz, à sexta hora do dia, vieram trevas sobre toda a terra. E o meu Senhor ficou de pé no meio da gruta, iluminou-a e disse: João, para a multidão lá embaixo, em Jerusalém, estou sendo crucificado e traspassado com lanças e canas, e dão-me a beber fel e vinagre. Mas a ti falo, e escuta tu o que digo. Pus-te no coração vir a este monte, para que ouvisses as coisas que um discípulo precisa aprender do seu mestre, e um homem do seu Deus.

98“E, tendo falado assim, mostrou-me uma cruz de luz erguida, e em volta da cruz uma grande multidão, que não tinha uma só forma; e na cruz havia uma só forma e uma só semelhança. E vi o próprio Senhor acima da cruz, sem ter figura alguma, mas só uma voz, e uma voz não como a que nos era familiar, mas uma voz doce e bondosa e verdadeiramente divina, que me dizia: É necessário que alguém ouça de mim estas coisas, ó João, pois preciso de alguém que ouça. Esta cruz de luz é às vezes chamada por mim, por vossa causa, Verbo, às vezes Mente, às vezes Jesus, às vezes Cristo, às vezes Porta, às vezes Caminho, às vezes Pão, às vezes Semente, às vezes Ressurreição, às vezes Filho, às vezes Pai, às vezes Espírito, às vezes Vida, às vezes Verdade, às vezes Fé, às vezes Graça. Assim, pois, é chamada em relação aos homens. Mas, na verdade, quanto a si mesma e no nosso modo de expressão, é a delimitação de todas as coisas, e a elevação e o fundamento das coisas que estão firmes e eram instáveis, e a harmonia da sabedoria — e na verdade a sabedoria da harmonia. Mas há, à direita e à esquerda dela, potências, principados, dominações e demônios, operações, ameaças, ira, diabos, Satanás e a Raiz Inferior, da qual procedeu a natureza das coisas que vêm a existir.

99“Esta, pois, é a cruz que fixou separadamente todas as coisas pelo Verbo, e delimitou as coisas do nascimento e o que está abaixo dele, e depois compactou tudo num só. Mas esta não é a cruz de madeira que verás quando desceres daqui; nem sou eu aquele que está na cruz, a quem agora não vês, mas só ouves uma voz. Fui tido pelo que não sou, não sendo o que eu era para muitos outros; mas chamar-me-ão outra coisa, que é vil e indigna de mim. Assim, pois, como o lugar do repouso não é visto nem nomeado, muito menos eu, o Senhor desse lugar, serei visto (ou nomeado).

100“Ora, a multidão em volta da cruz, que é a natureza inferior, ‹não› é de um só aspecto; e os que vês na cruz, se não têm uma só forma, é porque ainda não foram compreendidos todos os membros daquele que desceu. Mas, quando a natureza do homem for elevada, e a raça que se dirige a mim, obedecendo à minha voz, então aquele que agora me ouve será unido a ela e já não será o que agora é, mas estará acima deles, como eu estou agora. Pois, enquanto não te chamares meu, não sou o que eu era. Mas, se, ouvindo, me escutares, então serás como eu sou, e eu serei o que era, quando te tiver comigo. Pois disto procedes. Não te importes, pois, com os muitos, e despreza os que estão fora do mistério! Sabe que estou inteiramente com o Pai, e o Pai comigo.

101“Nada, pois, das coisas que dirão de mim sofri; e até aquele sofrimento que te mostrei a ti e aos outros na dança, quero que seja chamado um mistério. Pois o que tu és, vês; isso te mostrei; mas o que eu sou, isso só eu sei, e ninguém mais. Deixa-me, pois, guardar o que é meu, e o que é teu contempla-o tu por meio de mim, e contempla-me em verdade não ‹como› sou, como disse, mas como és capaz de conhecer, por seres aparentado. Ouves que sofri, e contudo não sofri; que não sofri, e contudo sofri; que fui traspassado, e contudo não fui ferido; suspenso, e não fui suspenso; que sangue correu de mim, e contudo não correu; e, numa palavra, as coisas que dizem de mim não as tive, e as coisas que não dizem, essas sofri. Ora, o que elas são te darei a entender, pois sei que compreenderás. Percebe, pois, em mim o repouso do Logos, o traspassamento do Logos, o sangue do Logos, a ferida do Logos, a crucificação do Logos, a paixão do Logos, a crucificação do Logos, a morte do Logos. E assim falo, separando a humanidade. Pensa, pois, em primeiro lugar no Logos; então perceberás o Senhor e, em terceiro lugar, o homem e o que ele sofreu.

102“Quando ele me disse estas coisas, e outras que não sei dizer como ele quereria, foi elevado, sem que ninguém da multidão o tivesse visto. E, quando desci, ri-me de todos eles, visto que ele me dissera as coisas que eles diziam a seu respeito; e guardei firmemente em mim esta única coisa: que o Senhor dispôs todas as coisas simbolicamente e por uma dispensação em relação aos homens, para a sua conversão e salvação.

103“Tendo, pois, contemplado, irmãos, a graça do Senhor e a sua terna afeição para conosco, adoremo-lo como aqueles a quem ele mostrou misericórdia. Não com os dedos, nem com a boca, nem com a língua, nem com qualquer parte do nosso corpo, mas com a disposição da nossa alma, a ele, que se fez homem sem este corpo. E vigiemos, porque também agora ele guarda as prisões por nossa causa, também nos sepulcros, nas cadeias e nas masmorras, na vergonha e nos opróbrios, no mar e na terra, nos açoites, nas condenações, nas conspirações, nas fraudes, nos castigos, e, numa palavra, está com todos nós e sofre conosco quando sofremos, irmãos. Quando é chamado por algum de nós, não suporta fechar-nos os ouvidos, mas, estando em toda parte, escuta-nos a todos, e agora mesmo (escutou) a mim e a Drusiana — visto que é o Deus dos que estão encerrados —, trazendo-nos ajuda pela sua própria compaixão.

104“Persuadi-vos também, pois, amados, de que não é um homem que vos prego para adorar, mas Deus imutável, Deus invencível, Deus mais alto que toda autoridade e todo poder, e mais antigo e mais poderoso que todos os anjos e criaturas de que se fala, e todos os séculos (éons). Se, pois, permanecerdes nele e nele fordes edificados, possuireis a vossa alma indestrutível.”

105E, depois de ter transmitido estas coisas aos irmãos, João saiu a passear com Andrônico; e Drusiana também os seguia de longe, junto com todos, para contemplar os atos que se faziam e ouvir sempre a sua palavra no Senhor.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir da versão inglesa de Bernhard Pick

Fonte: Wikisource — The Apocryphal Acts of Paul, Peter, John, Andrew and Thomas

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