Corpus Hermeticum — X. A Chave
Ler no Une Sacra1Hermes: O meu discurso (logos) de ontem dediquei-o a ti, Asclépio, e por isso é [só] justo que dedique o de hoje a Tat; e tanto mais porque é o resumo dos Sermões (Logos) Gerais que lhe foram dirigidos. "Deus, Pai e o Bem", então, Tat, têm a mesma natureza, ou, mais exatamente, energia. Pois a natureza é um predicado do crescimento e se diz das coisas que mudam, tanto móveis como imóveis, isto é, tanto humanas como divinas, cada uma das quais Ele quer que exista. Mas a energia consiste em outra coisa, como mostramos ao tratar do resto, tanto das coisas divinas como das humanas; coisa que devemos ter em mente ao tratar do Bem.
2A energia de Deus é, então, a sua Vontade; além disso, a sua essência é querer o ser de todas as coisas. Pois que é "Deus e Pai e o Bem" senão o "ser" de todas as coisas que ainda não são? Mais ainda: a própria subsistência de tudo o que é; isto, então, é Deus, isto é o Pai, isto é o Bem; a Ele nada se acrescenta de todo o resto. E embora o Cosmos, isto é, o Sol, seja também ele mesmo pai dos que dele participam, nem por isso é a causa do bem para os seres vivos; não é sequer a causa do seu viver. De modo que, mesmo que seja pai, o é inteiramente por força da Boa Vontade do Bem, sem a qual nem o ser nem o vir-a-ser jamais poderiam existir.
3Além disso, o progenitor é a causa dos filhos, tanto do lado do pai como do da mãe, só por participar do desejo do Bem [que se derrama] através do Sol. É o Bem que faz a criação. E tal poder não pode ser possuído por nenhum outro senão por Ele somente, que nada recebe, mas quer que todas as coisas sejam; não direi, Tat, "faz". Pois o fazedor é deficiente durante longos períodos (nos quais às vezes faz e às vezes não faz), tanto na qualidade como na quantidade [do que faz]; porquanto às vezes as faz em tal número e de tal espécie, e às vezes ao contrário. Mas "Deus e Pai e o Bem" é [causa] de que todas as coisas sejam. Assim são, ao menos, estas coisas para os que podem ver.
4Pois Ele quer ser, e é ao mesmo tempo Ele mesmo e sobretudo por causa de Si mesmo. Na verdade, todas as outras coisas existem só por causa d'Ele; pois o traço distintivo do Bem é "que seja conhecido". Tal é o Bem, ó Tat. Tat: Tu nos encheste, ó pai, tão plenamente desta visão tão boa e tão bela, que por ela o olho da minha mente se tornou agora para mim quase coisa digna de adoração. Pois a visão do Bem não fulgura como fogo sobre os olhos, como o raio do sol, fazendo-os fechar; antes, ao contrário, brilha e faz crescer a visão do olho, tanto quanto um homem tem capacidade de receber o influxo do esplendor que só a mente pode ver. Não só desce a nós mais depressa, como não nos faz mal algum, e está repleta de toda a vida imortal.
5Os que podem beber desta Visão um pouco mais que os outros muitas vezes adormecem fora do corpo neste Espetáculo belíssimo, como foi o caso de Urano e Cronos, nossos antepassados. Que esta seja também a nossa sorte, ó meu pai! Hermes: Sim, que seja, meu filho! Mas, tal como estamos, ainda não estamos afinados para a Visão, e ainda não temos o poder de abrir o olho da nossa mente e contemplar a Beleza do Bem — Beleza que nada pode jamais corromper nem ninguém compreender. Pois só então O contemplarás, quando não puderes dizer palavra alguma a respeito d'Ele. Pois a Gnose do Bem é silêncio santo e um dar descanso a todos os sentidos.
6Pois aquele que O percebe não pode perceber outra coisa; nem quem O contempla, contemplar outra coisa; nem ouvir outra coisa, nem mover o corpo de modo algum. Detendo todos os sentidos e todos os movimentos do corpo, fica imóvel. E então, brilhando em torno de toda a sua mente, Ele brilha através de toda a sua alma e a tira do corpo, transformando-o todo em essência. Pois é possível, meu filho, que a alma de um homem se torne semelhante a Deus, mesmo enquanto ainda está num corpo, se contemplar a Beleza do Bem.
7Tat: Tornar-se semelhante a Deus? Que queres dizer, pai? Hermes: De cada alma separada há transformações, filho. Tat: Que queres dizer? Separada? Hermes: Não ouviste, nos Sermões Gerais, que de uma só Alma — a Alma do Todo — vêm todas estas almas que são feitas girar por todo o cosmos, como se dela tivessem sido divididas? Destas almas, então, é que há muitas mudanças, umas para uma sorte mais feliz e outras para o [exato] contrário. Assim, as que eram répteis transformam-se em seres que habitam a água; as almas dos seres aquáticos mudam-se em habitantes da terra; as que vivem na terra mudam-se em seres alados; e as almas que vivem no ar mudam-se em homens, enquanto as almas humanas alcançam o primeiro degrau da imortalidade, transformadas em daimones. E assim giram até o coro dos Deuses Não Errantes; pois dos Deuses há dois coros, um Não Errante e o outro Errante. E esta é a glória mais perfeita da alma.
8Mas se uma alma, ao entrar no corpo de um homem, persiste no seu vício, não prova a imortalidade nem participa do Bem; mas, voltando apressadamente para trás, toma o caminho que leva aos répteis. Esta é a sentença da alma viciosa. E o vício da alma é a ignorância. Pois a alma que não tem conhecimento das coisas que são, nem da sua natureza, nem do Bem, fica cega pelas paixões do corpo e é sacudida de um lado para outro. Esta alma miserável, não sabendo o que é, torna-se escrava de corpos de forma estranha, em triste estado, carregando o corpo como um fardo; não como quem governa, mas como quem é governado. Esta [ignorância] é o vício da alma.
9Mas, por outro lado, a virtude da alma é a Gnose. Pois aquele que conhece é bom e piedoso, e, ainda na terra, divino. Tat: Mas quem é tal homem, ó meu pai? Hermes: Aquele que não fala muito nem dá ouvidos a muito. Pois quem gasta o tempo em discutir e em ouvir discussões luta com sombras. Pois "Deus, o Pai e o Bem" não se alcança pela fala nem pelo ouvido. E, no entanto, embora assim seja, há sentidos em todos os seres, porquanto não podem existir sem sentidos. Mas a Gnose é muito diferente do sentido. Pois o sentido é produzido por aquilo que tem domínio sobre nós, enquanto a Gnose é o fim, isto é, a meta, da ciência, e a ciência é dom de Deus.
10Toda ciência é incorpórea, sendo a mente o instrumento que usa, assim como a mente usa o corpo. Ambas, então, entram nos corpos, [quero dizer] tanto as coisas cognoscíveis só pela mente como as coisas materiais. Pois todas as coisas devem consistir de antítese e contrariedade; e isto não pode ser de outro modo. Tat: Quem é, então, este Deus material de que falas? Hermes: O Cosmos é belo, mas não é bom — pois é material e livremente passível; e, embora seja o primeiro de todas as coisas passíveis, está, contudo, na segunda ordem do ser e é carente em si mesmo. E, embora ele mesmo jamais tenha o seu nascimento no tempo, mas seja sempre, o seu ser está no vir-a-ser, tornando-se para sempre a gênese das qualidades e das quantidades; pois é móvel e gênese de todo movimento material.
11É o repouso inteligível que move deste modo o movimento material, já que o Cosmos é uma esfera — isto é, uma cabeça. E nada da cabeça, em cima, é material, assim como nada dos pés, embaixo, é inteligível, mas tudo material. E a própria cabeça move-se de modo esférico — isto é, como uma cabeça deve mover-se, é mente. Todas as coisas, então, que estão unidas ao "tecido" desta "cabeça" (no qual está a alma) são por natureza livres da morte — assim como, quando o corpo foi feito na alma, são coisas que têm mais alma que corpo. Ao passo que aquelas coisas que estão a maior distância deste "tecido" de lá, onde estão as coisas que têm maior parte de corpo que de alma, são por natureza sujeitas à morte. O todo, porém, é uma vida; de modo que o universo consiste tanto do hílico como do inteligível.
12Além disso, o Cosmos é o primeiro dos seres vivos, e o homem é o segundo depois dele, embora o primeiro das coisas sujeitas à morte. O homem tem em si a mesma potência animadora que todos os demais seres vivos; e, no entanto, não só não é bom, como é até mau, porquanto está sujeito à morte. Pois, embora o Cosmos também não seja bom, por sofrer movimento, não é mau, por não estar sujeito à morte. Mas o homem, por estar sujeito tanto ao movimento como à morte, é mau.
13Ora, os princípios do homem são veiculados deste modo: a mente na razão (logos), a razão na alma, a alma no espírito ou, melhor, nos espíritos vitais, e o espírito no corpo. O espírito, penetrando [o corpo] por meio das veias, das artérias e do sangue, confere movimento ao ser vivo e, de certo modo, o sustenta. Por isso alguns pensam que a alma é o sangue, porque se enganam sobre a sua natureza, não sabendo que [na morte] é o espírito que deve primeiro retirar-se para a alma, e então o sangue coagula e as veias e artérias se esvaziam, e depois o ser vivo, ou a vida, é retirado; e esta é a morte do corpo.
14Ora, de uma só Fonte dependem todas as coisas, enquanto a Fonte [depende] do Uno e Único. A Fonte, além disso, é movida para tornar-se de novo Fonte, ao passo que o Uno permanece perpetuamente e não é movido. Três, então, são eles: "Deus, o Pai e o Bem", o Cosmos e o homem. Deus contém o Cosmos; o Cosmos [contém] o homem. O Cosmos é para sempre o Filho de Deus; o homem é, por assim dizer, filho do Cosmos.
15Não que, porém, Deus ignore o homem; antes, conhece-o muito bem e quer ser conhecido. Esta é a única salvação para o homem: a Gnose de Deus. Este é o Caminho que sobe à Montanha. Só por Ele a alma se torna boa, não às vezes boa e às vezes má, mas [boa] por necessidade. Tat: Que queres dizer, ó Três Vezes Grandíssimo? Hermes: Olha a alma de uma criança, meu filho, que ainda não está separada, porque o seu corpo ainda é pequeno e não chegou ao seu pleno volume. Tat: Como? Hermes: Coisa inteiramente bela é [tal alma] de ver, ainda não manchada pelas paixões do corpo, ainda quase suspensa da Alma Cósmica! Mas quando o corpo cresce em volume e arrasta a alma para a sua massa, então a alma se separa e traz sobre si o esquecimento, e já não participa do Belo e do Bem. E este esquecimento torna-se vício.
16O mesmo se dá com os que saem do corpo. Pois quando a alma se retira para si mesma, o espírito se contrai dentro do sangue, e a alma dentro do espírito. E então a mente, despojada dos seus invólucros e divina por natureza, tomando para si um corpo de fogo, percorre todo o espaço, depois de abandonar a alma ao seu julgamento e a qualquer castigo que tenha merecido. Tat: Que queres dizer com isto, pai? A mente separa-se da alma, e a alma do espírito? Ao passo que disseste que a alma era a veste da mente, e o espírito a da alma.
17Hermes: O ouvinte, filho, deve pensar com quem fala e respirar com ele; mais ainda, deve ter um ouvido mais sutil que a voz de quem fala. É, filho, num corpo feito de terra que se dá esta disposição das vestes. Pois num corpo feito de terra é impossível que a mente se assente por si mesma, em sua nudez. Pois nem é possível, por um lado, que o corpo terrestre contenha tanta imortalidade, nem, por outro, que uma virtude tão grande suporte um corpo passível em contato tão estreito com ela. Ela toma, então, a alma como uma espécie de invólucro. E a própria alma, sendo também coisa divina, usa o espírito como invólucro, enquanto o espírito penetra o ser vivo.
18Quando, então, a mente se liberta do corpo terrestre, veste logo a sua veste própria de fogo, com a qual não poderia habitar num corpo terrestre. Pois a terra não suporta o fogo; pois se incendeia toda até por uma pequena centelha. E por isso a água está derramada em torno da terra, para ser guarda e muralha, para manter afastado o incêndio do fogo. Mas a mente, a mais rápida de todas as emanações do pensamento divino, e mais rápida que todos os elementos, tem por corpo o fogo. Pois a mente, sendo construtora, usa o fogo como ferramenta para a construção de todas as coisas — a Mente de tudo [para a construção] de todas as coisas, mas a do homem só para as coisas da terra. Despojada do seu fogo, a mente na terra não pode fazer coisas divinas, pois é humana na sua condição.
19A alma no homem, porém — não toda alma, mas a que é piedosa —, é algo daimônico e divino. E tal alma, quando libertada do corpo, se combateu o combate da piedade — o combate da piedade é conhecer a Deus e não fazer mal a homem algum —, torna-se inteiramente mente. Ao passo que a alma ímpia permanece na sua própria essência, castigada por si mesma, e buscando um corpo terrestre onde entrar, desde que seja humano. Pois nenhum outro corpo pode conter uma alma humana; nem é justo que alguma alma humana caia no corpo de um ser que não possui razão. Pois a lei de Deus é esta: guardar a alma humana de tão tremendo ultraje.
20Tat: Como, pai, é castigada então a alma de um homem? Hermes: Que castigo maior pode haver, filho, para qualquer alma humana, do que a falta de piedade? Que fogo tem chama tão feroz quanto a falta de piedade? Que fera voraz despedaça tanto o corpo quanto a falta de piedade despedaça a própria alma? Não vês que multidões de males suporta a alma ímpia? Ela grita e berra: Queimo; estou em chamas; não sei o que gritar nem o que fazer; ai de mim, miserável, sou devorada por todos os males que me cercam; ai, pobre de mim, não vejo nem ouço! Tais são os gritos arrancados a uma alma castigada; e não, como pensa a maioria e como tu, filho, supões, que a alma [de um homem], ao sair do corpo, se transforma num animal. Isso é um erro gravíssimo, pois o modo como uma alma sofre castigo é este:
21Quando a mente se torna um daimon, a lei exige que tome um corpo de fogo para executar os serviços de Deus; e, entrando na alma mais ímpia, açoita-a com chicotes feitos dos seus pecados. E então a alma ímpia, açoitada pelos seus pecados, mergulha em assassínios, ultrajes, blasfêmias, violências de toda espécie e todas as outras coisas pelas quais a humanidade é lesada. Mas sobre a alma piedosa a mente sobe e a guia para a Luz da Gnose. E tal alma jamais se cansa de cânticos de louvor [a Deus] e de derramar bênçãos sobre todos os homens, e de fazer o bem a todos por palavras e obras, à imitação do seu Pai.
22Por isso, meu filho, deves louvar a Deus e rogar que a tua mente seja Mente Boa. É, então, para um estado melhor que a alma passa; para um pior não pode. Além disso, há um intercâmbio entre as almas: as dos deuses comunicam-se com as dos homens, e as dos homens com as almas das criaturas que não possuem razão. Os superiores, além disso, têm a seu cargo os inferiores: os deuses cuidam dos homens, os homens dos animais irracionais, enquanto Deus tem a seu cargo todos; pois Ele é superior a todos, e todos são menores que Ele. O Cosmos está sujeito, então, a Deus; o homem, ao Cosmos; e os irracionais, ao homem. Mas Deus está acima de todos, e Deus os contém a todos. Os raios de Deus, para usar uma imagem, são as suas energias; os do Cosmos são as naturezas; as artes e as ciências são os do homem. As energias agem através do Cosmos e daí, através dos raios-natureza do Cosmos, sobre o homem; os raios-natureza [agem] através dos elementos; o homem [age] através das ciências e das artes.
23Esta é a disposição do universo, que depende da natureza do Uno e penetra [todas as coisas] por meio da Mente, da qual nada há mais divino nem de maior energia; e nada é meio maior para unir os homens aos deuses e os deuses aos homens. Ela, [a Mente,] é o Bom Daimon. Bem-aventurada a alma que mais está repleta d'Ela, e miserável a alma vazia da Mente. Tat: Pai, que queres dizer, novamente? Hermes: Pensas, então, filho, que toda alma tem a [Mente] Boa? Pois é d'Ela que falamos, não da mente a serviço da qual falávamos há pouco, a mente enviada para o castigo [da alma].
24Pois a alma sem a mente "não pode falar nem agir". Pois muitas vezes a mente deixa a alma, e nesse tempo a alma nem vê nem compreende, mas é como uma coisa que não tem razão. Tal é o poder da mente. E, no entanto, ela não suporta uma alma preguiçosa, mas deixa tal alma presa ao corpo e por ele fortemente amarrada. Tal alma, meu filho, não tem Mente; e por isso tal ser não deveria ser chamado homem. Pois o homem é um ser vivo, ou animal, divino; o homem não se mede com o resto das vidas das coisas da terra, mas com as vidas lá do alto, no céu, que são chamadas deuses. Mais ainda, se devemos dizer ousadamente a verdade, o verdadeiro "homem" está até acima dos deuses, ou, pelo [menos], os deuses e os homens são em tudo iguais em poder uns aos outros.
25Pois nenhum dos deuses do céu descerá à terra, ultrapassando o limite do céu; ao passo que o homem sobe ao céu e o mede; sabe que coisas dele são altas e que coisas são baixas, e aprende com precisão todas as outras coisas além dessas. E, coisa maior que todas: sem sequer deixar a terra, ele sobe às alturas. Tão vasto é o alcance do seu êxtase. Por isso um homem pode ousar dizer que o homem na terra é um deus sujeito à morte, enquanto o deus no céu é um homem imune à morte. Por isso a disposição de todas as coisas se realiza por meio destes dois — o Cosmos e o Homem —, mas pelo Uno.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir da versão inglesa de G. R. S. Mead
Fonte: Internet Archive — The Corpus Hermeticum, tr. G. R. S. Mead
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