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Corpus Hermeticum — XII. Sobre a Mente comum

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1Hermes: A Mente, ó Tat, é da própria essência de Deus — (se existe tal coisa como a essência de Deus) — e o que esta é, ela e só ela o sabe com precisão. A Mente, então, não está separada da essencialidade de Deus, mas está unida a ela, como a luz ao sol. Esta Mente nos homens é Deus, e por isso alguns dentre os homens são deuses, e a sua humanidade está perto da divindade. Pois o Bom Daimon disse: "Os deuses são homens imortais, e os homens são deuses mortais."

2Mas nas vidas irracionais a Mente é a sua natureza. Pois onde está a Alma, ali também está a Mente; assim como onde está a Vida, ali também está a Alma. Mas nas vidas irracionais a sua alma é vida desprovida de mente; pois a Mente é a que opera nas almas dos homens para o bem — opera nelas para o seu próprio bem. Nas vidas irracionais coopera com a natureza de cada uma; mas nas almas dos homens contraria-as. Pois toda alma, quando se encarna, é imediatamente depravada pelo prazer e pela dor. Pois num corpo composto, como sucos, fervem a dor e o prazer, e neles a alma, ao entrar, é mergulhada.

3Sobre quaisquer almas, então, a Mente presida, a estas mostra a sua própria luz, agindo contra as suas predisposições, assim como um bom médico faz com o corpo tomado pela doença: inflige-lhe dor, queimando-o ou cortando-o por causa da saúde. Exatamente do mesmo modo a Mente inflige dor à alma, para resgatá-la do prazer, de onde vem todo o seu mal. O grande mal da alma é a impiedade; segue-se depois a inclinação para todas as coisas más e para nada de bom. Assim, então, a Mente, contrariando-a, opera o bem na alma, como o médico a saúde no corpo.

4Mas quaisquer almas humanas que não têm a Mente como piloto partilham a mesma sorte que as almas das vidas irracionais. Pois [a Mente] torna-se sua cooperadora, dando livre curso aos desejos para os quais [tais almas] são levadas — [desejos] que, pelo ímpeto da luxúria, tendem ao irracional; [de modo que tais almas humanas], tal como os animais irracionais, não cessam de enfurecer-se e de cobiçar irracionalmente, nem jamais se saciam de males. Pois as paixões e os desejos irracionais são males sobremodo grandes; e sobre eles Deus pôs a Mente para fazer o papel de juiz e de executor.

5Tat: Nesse caso, meu pai, o ensinamento (logos) sobre o Destino, que antes me explicaste, corre o risco de ser derrubado. Pois, se está absolutamente determinado pelo destino que um homem fornique, ou cometa sacrilégio, ou faça alguma outra má ação, por que é ele castigado, se praticou a ação pela necessidade do Destino? Hermes: Todas as obras, meu filho, são do Destino; e sem o Destino nada das coisas corpóreas — nem o bem nem o mal — pode acontecer. Mas está também determinado que quem faz o mal há de sofrer. E por isso ele o faz: para sofrer o que sofre, por tê-lo feito.

6Mas por ora, [Tat,] deixemos o ensinamento sobre o vício e o Destino, pois falamos destas coisas em outros [dos nossos sermões]; agora o nosso ensinamento (logos) é sobre a Mente: o que a Mente pode fazer, e como é [tão] diferente nos homens, sendo tais e tais, e [tão] mudada nas vidas irracionais; e [ainda] que nas vidas irracionais ela não é de natureza benéfica, enquanto nos homens extingue os elementos irascíveis e concupiscentes. Dos homens, por sua vez, devemos classificar uns como guiados pela razão e outros como irracionais.

7Mas todos os homens estão sujeitos ao Destino, à gênese e à mudança, pois estes são o princípio e o fim do Destino. E, embora todos os homens sofram as coisas determinadas pelo destino, os guiados pela razão (os que dissemos que a Mente guia) não suportam um sofrimento igual ao dos outros; mas, por se terem libertado do vício, não sendo maus, não sofrem o mal. Tat: Que queres dizer, de novo, meu pai? Não é mau o fornicador, mau o assassino, e [assim] todos os outros? Hermes: [Não quis dizer isso;] mas que o homem guiado pela Mente, meu filho, embora não seja fornicador, sofrerá como se tivesse cometido fornicação, e, embora não seja assassino, como se tivesse cometido assassínio. Da qualidade da mudança ele não pode escapar, assim como não pode escapar da gênese. Mas é possível àquele que tem a Mente libertar-se do vício.

8Por isso sempre ouvi, meu filho, também o Bom Daimon dizer — (e, se Ele o tivesse posto por escrito, teria ajudado muito a raça dos homens; pois só Ele, meu filho, em verdade, como Deus Primogênito, contemplando todas as coisas, dá voz a palavras (logoi) divinas) —, sim, uma vez O ouvi dizer: "Todas as coisas são uma, e sobretudo os corpos que só a mente percebe. A nossa vida deve-se à Energia, à Potência e ao Éon [de Deus]. A Sua Mente é boa, e assim também a Sua Alma. E, sendo assim, as coisas inteligíveis nada sabem de separação. Assim, então, a Mente, sendo Governante de todas as coisas e sendo Alma de Deus, pode fazer o que quiser."

9Compreende, pois, e leva esta palavra (logos) de volta à pergunta que fizeste antes — quero dizer, sobre o Destino da Mente. Pois, se eliminares com precisão, filho, [todos] os argumentos (logos) capciosos, descobrirás que em toda verdade a Mente, a Alma de Deus, governa sobre tudo — sobre o Destino, a Lei e todas as outras coisas; e nada lhe é impossível — nem pôr uma alma humana acima do Destino, nem pôr sob o Destino [uma alma] descuidada do que acontece. Baste isto, por ora, das palavras tão boas do Bom Daimon. Tat: Sim, [palavras] divinamente ditas, meu pai, verdadeiras e proveitosas. Mas explica-me ainda isto.

10Disseste que a Mente, nas vidas irracionais, operava nelas como [sua] natureza, cooperando com os seus impulsos. Mas os impulsos das vidas irracionais, segundo penso, são paixões. Ora, se a Mente coopera com [esses] impulsos, e se os impulsos das [vidas] irracionais são paixões, então a Mente também é paixão, tomando a sua cor das paixões. Hermes: Bem posto, meu filho! Perguntas com muita nobreza, e é justo que eu também responda [com nobreza].

11Todas as coisas incorpóreas, quando num corpo, estão sujeitas à paixão, e no sentido próprio são [elas mesmas] todas paixões. Pois toda coisa que se move a si mesma é incorpórea, enquanto toda coisa que é movida é corpo. Os incorpóreos, além disso, são movidos pela Mente, e o movimento é paixão. Ambos, então, estão sujeitos à paixão — tanto o que move como o movido, sendo o primeiro governante e o segundo governado. Mas quando um homem se libertou do corpo, então está também livre da paixão. Mas, mais exatamente, filho, nada é impassível, mas tudo é passível. Contudo, a paixão difere da passibilidade; pois uma é ativa, enquanto a outra é passiva. Os incorpóreos, além disso, agem sobre si mesmos, pois ou estão imóveis ou são movidos; mas, seja como for, é paixão. Mas os corpos sofrem sempre a ação, e por isso são passíveis. Não te deixes, pois, perturbar pelos termos; ação e paixão são uma e a mesma coisa. Usar o termo que soa melhor, porém, não faz mal algum.

12Tat: Com toda clareza, meu pai, expuseste o ensinamento (logos). Hermes: Considera também isto, meu filho: que estas duas coisas Deus concedeu ao homem acima de todas as vidas mortais — a mente e a palavra (logos), iguais à imortalidade. Ele tem a mente para conhecer a Deus, e a palavra (logos) proferida para O louvar. E se alguém as usa para aquilo a que deve, em nada diferirá dos imortais. Mais ainda: ao deixar o corpo, será guiado por ambas até o Coro dos Deuses e dos Bem-aventurados.

13Tat: Ora, meu pai! — não fazem as outras vidas uso da palavra (logos)? Hermes: Não, filho; mas só uso da voz; a palavra é muito diferente da voz. Pois a palavra é comum a todos os homens, enquanto a voz difere em cada espécie de ser vivo. Tat: Mas também entre os homens, meu pai, a palavra difere segundo cada povo. Hermes: Sim, filho, mas o homem é um só; assim também a palavra é uma só, e é traduzida, e encontra-se a mesma no Egito, na Pérsia e na Grécia. Pareces, filho, ignorar o valor e a grandeza da Razão (Logos). Pois o Deus Bem-aventurado, o Bom Daimon, declarou: "A Alma está no Corpo, a Mente na Alma; mas a Razão (Logos) está na Mente, e a Mente em Deus; e Deus é Pai de [todas] estas coisas."

14A Razão, então, é a imagem da Mente, e a Mente, [a imagem] de Deus; enquanto o Corpo é [a imagem] da Forma, e a Forma, [a imagem] da Alma. A parte mais sutil da Matéria é, então, o Ar, ou espírito vital; do Ar, a Alma; da Alma, a Mente; e da Mente, Deus. E Deus envolve tudo e penetra tudo; enquanto a Mente envolve a Alma; a Alma, o Ar; o Ar, a Matéria. A Necessidade, a Providência e a Natureza são instrumentos do Cosmos e da ordenação da Matéria; enquanto das coisas inteligíveis cada uma é Essência, e a Identidade é a sua Essência. Mas dos corpos do Cosmos cada um é múltiplo; pois, por possuírem a Identidade, [estes] corpos compostos, embora mudem por si mesmos de um em outro, conservam, contudo, a incorruptibilidade da sua Identidade.

15Ao passo que em todos os demais corpos compostos há de cada um certo número; pois sem número não pode haver estrutura, nem composição, nem decomposição. Ora, são as unidades que dão nascimento ao número e o aumentam, e, sendo decompostas, são recebidas de volta em si mesmas. A Matéria é uma; e todo este Cosmos — o poderoso Deus e imagem do mais Poderoso, unido a Ele e conservador da Vontade e da Ordem do Pai — está repleto de Vida. Nada há nele, em todo o Éon, o Restabelecimento [eterno] do Pai — nem do todo, nem das partes — que não viva. Pois nem uma só coisa morta foi, é ou será [neste] Cosmos. Pois o Pai quis que ele tivesse Vida enquanto existisse. Por isso deve necessariamente ser um Deus.

16Como, então, ó filho, poderia haver no Deus, na imagem do Pai, na plenitude da Vida, coisas mortas? Pois a morte é corrupção, e a corrupção, destruição. Como, então, poderia alguma parte daquilo que não conhece corrupção ser corrompida, ou alguma parcela dele, o Deus, ser destruída? Tat: Não morrem, então, meu pai, as vidas que nele estão e que são as suas partes? Hermes: Silêncio, filho! — levado ao erro pelo termo usado para o que acontece. Elas não morrem, meu filho, mas são dissolvidas como corpos compostos. Ora, a dissolução não é morte, mas dissolução de um composto; ele é dissolvido não para ser destruído, mas para ser renovado. Pois qual é a atividade da vida? Não é o movimento? Que há, então, no Cosmos que não tenha movimento? Nada há, filho!

17Tat: Nem mesmo a Terra, pai, te parece não ter movimento? Hermes: Não, filho; mas antes que ela é a única coisa que, embora em movimento muito rápido, é também estável. Pois como não seria coisa de rir que a Nutriz de todos não tivesse movimento, quando gera e dá à luz todas as coisas? Pois é impossível que sem movimento quem gera o faça. Que perguntes se a quarta parte, ou elemento, não é inerte é coisa ridiculíssima; pois o corpo que não tem movimento não dá sinal de nada senão de inércia.

18Sabe, portanto, em geral, meu filho, que tudo o que está no Cosmos está sendo movido para aumento ou para diminuição. Ora, aquilo que se mantém em movimento também vive; mas não há necessidade de que aquilo que vive seja sempre o mesmo. Pois, sendo simultâneo, o Cosmos, como um todo, não está sujeito à mudança, meu filho, mas todas as suas partes lhe estão sujeitas; contudo, nada [dele] está sujeito à corrupção, nem é destruído. São os termos empregados que confundem os homens. Pois não é a gênese que constitui a vida, mas a sensação; não é a mudança que constitui a morte, mas o esquecimento. Sendo, então, assim estas coisas, são todas imortais — a Matéria, [e] a Vida, [e] o Espírito, a Mente [e] a Alma, de que se compõe tudo o que vive.

19Tudo, então, o que vive deve a sua imortalidade à Mente, e sobretudo o homem, que é ao mesmo tempo receptáculo de Deus e da mesma essência que Ele. Pois só com esta vida Deus convive; por visões de noite, por sinais de dia e por todas as coisas Ele lhe prediz o futuro — pelas aves, pelas entranhas, pelo vento, pela árvore. Por isso o homem pretende conhecer as coisas passadas, as presentes e as que hão de vir.

20Observa também isto, meu filho: que cada uma das outras vidas habita uma porção do Cosmos — as criaturas aquáticas, a água; as terrestres, a terra; e as criaturas aéreas, o ar; enquanto o homem usa todas estas coisas — terra, água, ar [e] fogo; vê também o Céu e o toca com [os seus] sentidos. Mas Deus envolve tudo e penetra tudo, pois Ele é energia e potência; e não é nada difícil, meu filho, conceber a Deus.

21Mas se quiseres também contemplá-Lo, vê a ordenação do Cosmos e [vê] o comportamento ordenado da sua ordenação (há aqui um jogo com a palavra "cosmos", que significa "ordem, arranjo"); vê a Necessidade das coisas manifestadas e [vê] a Providência das coisas que vieram a ser e das que estão vindo a ser; vê como a Matéria está toda cheia de Vida; [vê] este Deus tão grande em movimento, com todos os [seres] bons e nobres — deuses, daimones e homens! Tat: Mas estes são puramente energias, ó meu pai! Hermes: Se, então, são puramente energias, meu filho, por quem, então, são energizadas senão por Deus? Ou ignoras que, assim como o Céu, a Terra, a Água e o Ar são partes do Cosmos, exatamente do mesmo modo as partes de Deus são a Vida e a Imortalidade, [e] a Energia, e o Espírito, e a Necessidade, e a Providência, e a Natureza, a Alma e a Mente, e a Duração (isto é, o Éon, ou Eternidade) de todas estas coisas, que se chama o Bem? E nada há das coisas que vieram a ser, ou que estão vindo a ser, em que Deus não esteja.

22Tat: Está Ele na Matéria, então, pai? Hermes: A Matéria, meu filho, é separada de Deus, para que lhe possas atribuir a qualidade do espaço. Mas que outra coisa senão massa pensas que ela é, se não é energizada? Ao passo que, se é energizada, por quem é feita assim? Pois as energias, dissemos, são partes de Deus. Por quem, então, são vivificadas todas as vidas? Por quem as coisas imortais são feitas imortais? Por quem as coisas mudadas são feitas mutáveis? E quer fales da Matéria, do Corpo ou da Essência, sabe que também estas são energias de Deus; e que a materialidade é a energia da Matéria, que a corporeidade é a energia dos Corpos, e que a essencialidade constitui a energia da Essência; e isto é Deus — o Todo.

23E no Todo nada há que não seja Deus. Por isso nem o tamanho, nem o espaço, nem a qualidade, nem a forma, nem o tempo envolvem Deus; pois Ele é o Todo, e o Todo envolve tudo e penetra tudo. A esta Razão (Logos), filho, presta a tua adoração e o teu culto. Há um só modo de prestar culto a Deus: [é] não ser mau.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir da versão inglesa de G. R. S. Mead

Fonte: Internet Archive — The Corpus Hermeticum, tr. G. R. S. Mead

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