Une Sacra

Lenda do Jurupari — Capítulo 1

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1No princípio do mundo, uma terrível epidemia assolou os habitantes da Serra do Tenui e atacou exclusivamente os homens. Dela só escaparam alguns velhos já gastos e carregados de anos e um antigo pajé.

2Preocupadas com isso, as mulheres, que viam num futuro não distante extinguir-se a sua raça, pois não havia nas vizinhanças nenhuma terra onde pudessem recorrer para suprir o que lhes faltava, resolveram reunir-se em conselho para ver se conseguiam achar saída para aquele estado de coisas.

3Em todos os rostos estava pintada a consternação; só o velho pajé permanecia calmo e impenetrável.

4Contra o costume, a sua ciência, julgada impotente naquele caso, não tinha sido consultada.

5Foi nas margens do Lago Muypa, onde Seucy (nome dado à constelação das Plêiades) costumava banhar-se, que se realizou a assembleia das mulheres.

6Ali se debatiam os pareceres mais estranhos e diversos. Uma propunha tentar revigorar ainda aquelas velhas carcaças e atirá-las aos peixes se a tentativa não desse certo; houve até quem propusesse experimentar se mulher podia fecundar mulher; e a discussão, animando-se, prolongou-se até que as surpreendeu Seucy, que, como de costume, vinha banhar-se.

7Só então deram com o pajé tranquilamente sentado entre elas, sem que nenhuma pudesse dizer nem quando, nem como ele tinha chegado ali.

8Envergonhadas de terem sido apanhadas em flagrante, quiseram fugir, mas não podiam: os seus pés pareciam cravados no chão como pedras.

9E o pajé falou assim:

10«Vejo, infelizmente, que nunca se poderá achar na terra mulher paciente, discreta e capaz de guardar um segredo.»

11«Não está muito longe o tempo em que o Sol me avisou em sonho que eu não permitisse a mulher alguma aproximar-se de noite das margens deste lago. Eu vos avisei desta proibição e encontro-vos todas aqui, e não só isso, mas tramando coisas vergonhosas contra nós, velhos, desobedecendo assim às ordens daquele que governa o mundo.»

12«Seucy, senhora deste lago, cujas águas ficaram impuras com as vossas impurezas, não virá mais, de hoje em diante, banhar-se nelas.»

13«A geração que nascer amanhã excluirá para sempre as mulheres de qualquer participação nos negócios de alguma gravidade».

14A estas palavras as conspiradoras perguntaram como loucas: «Se não mentes, dize-nos como e quando isso poderá acontecer?»

15«Eis-vos ainda tão impacientes que vos atreveis até a interrogar-me. Pensam que sou mentiroso, quando sabem que sou um pajé, que tudo enxergo através da minha imaginação».

16E ele foi banhar-se com todas as mulheres nas águas do lago, de onde cada uma voltou com um sorriso nos lábios e uma esperança no coração.

17«Agora», disse o pajé, «cada uma tem nas entranhas o germe da vida.» Na verdade, todas estavam grávidas: ele as fecundara a todas, sem que elas sequer o suspeitassem.

18Feito isto, o velho pajé, com uma agilidade imprópria da sua idade, subiu a Serra do Dubá. Chegando lá, soltou um grito prolongado: éééé... e precipitou-se no lago, cuja superfície ficou toda coberta de um pó branco. Era o pó com que o pajé, que não era velho como parecia, tinha escondido a sua juventude.

19Também Seucy mergulhou no lago, deixando como sinal da sua passagem no azul do céu um caminho quase branco, semeado de pequenas estrelas.

20As mulheres, cheias de contentamento, contavam umas às outras o feliz acontecimento, esquecendo que todas o tinham presenciado igualmente; e, tomadas às vezes de estranhas suspeitas, que desapareciam diante da realidade dos fatos, examinavam-se atentamente para terem certeza de que aquilo não era sonho.

21Dez luas depois, no mesmo dia e na mesma hora, todas davam à luz, garantindo com isso o futuro da gente do Tenui.

22Entre os recém-nascidos houve uma menina esplêndida, que pela sua beleza foi chamada Seucy. A Seucy da Terra era o retrato da Seucy do céu e cresceu até a idade dos primeiros amores tão pura como a estrela da manhã.

23Um dia teve vontade de comer frutas do pihycan (fruta proibida às donzelas que ainda não chegaram à puberdade, porque desperta nelas os apetites latentes) e embrenhou-se na floresta. Achou facilmente as frutas desejadas e não teve trabalho em colhê-las: alguns macacos, poucos momentos antes, tinham derrubado uma grande quantidade delas, que estavam ainda no chão, frescas e apetitosas. A bela menina escolheu as mais bonitas e maduras e, juntando-as diante de si, começou a comê-las.

24Eram tão suculentas que parte do sumo, escorrendo entre os seios, descia a banhar-lhe as partes mais recônditas, sem que ela prestasse a isso a menor atenção.

25Comeu delas até se fartar e só voltou para casa perto da hora das tristezas, contente por ter satisfeito um desejo havia muito tempo alimentado.

26Sentia, porém, os membros como entorpecidos por uma sensação estranha, nunca antes experimentada.

27Movida por um instinto material, examinou-se atentamente e percebeu que a sua virgindade já não existia e que nas suas entranhas havia alguma coisa desconhecida.

28Envergonhada, nada disse à mãe e guardou ciosamente o seu segredo, até que o tempo se encarregou de tornar conhecido o seu estado.

29Então, interrogada pelos da tribo, que queriam vingar a afronta no violador, contou na sua simplicidade a história do pihycan.

30Depois de dez luas ela teve um menino robusto, que superava a mãe em beleza: parecia-se com o Sol.

31Os Tenuiana, logo que souberam do nascimento do menino, proclamaram-no tuxaua e deram-lhe o pomposo nome de Jurupari, isto é, gerado da fruta.

32Jurupari tinha apenas uma lua quando os seus resolveram preparar e entregar-lhe as insígnias de chefe.

33Faltava, porém, a itá-tuxaua (itá: pedra, tuxaua: chefe), que era preciso ir buscar na Serra do Gancho da Lua, e uma parte da tribo já se preparava para essa viagem.

34A direção das coisas, porém, estava em grande parte nas mãos das mulheres, e por isso logo surgiram opiniões diferentes, que em pouco tempo dividiram a tribo em dois partidos.

35Uns queriam que toda a tribo, em massa, fosse buscar a pedra; outros, que fossem só os homens, já que as mulheres não podiam tocá-la.

36Discutindo, gastaram outra lua, até que lhe pôs fim o desaparecimento de Jurupari.

37Que acontecera entretanto a Jurupari?

38Sua mãe não sabia.

39Tinha desaparecido, mas ninguém da aldeia sabia como.

40As mulheres atribuíram aos velhos o rapto de Jurupari e, embora os interrogassem inutilmente, intimaram-nos a devolver o menino no prazo de um dia, sob pena, se não o fizessem, de serem submetidos ao «suplício dos peixes», isto é, de serem amarrados dentro da água só com a cabeça de fora e feridos, para que fossem devorados pelos peixes, atraídos pelo gosto do sangue.

41E, com medo de que eles fugissem para escapar ao castigo, amarraram-nos imediatamente, tirando assim aos coitados toda esperança de salvação.

42Para todos, preocupados com os acontecimentos, a noite corria longa, e ainda ninguém dormia na aldeia, quando se ouviram distintamente na floresta os vagidos de Jurupari, e justamente na direção da árvore do pihycan.

43Todos foram para lá, e já ouviam claramente a respiração ofegante do menino, quando tudo voltou a ficar tranquilo.

44Procurando por toda parte, examinaram a árvore galho por galho, as moitas, as plantas vizinhas; mas não acharam nada que os pudesse pôr na pista do menino, e só deixaram a floresta à tarde.

45À noite, porém, à mesma hora, na mesma direção, ouviram-se de novo os vagidos de Jurupari.

46Procuraram, procuraram ainda, bem decididos, se fosse preciso, a não fazer outra coisa a vida inteira; mas não tiveram melhor resultado.

47Na terceira noite cercaram a árvore do pihycan; mas qual não foi o espanto dos sitiantes quando ouviram os vagidos soar no meio deles, sem que conseguissem atinar com o lugar de onde partiam.

48Os vagidos eram tão lamentosos que faziam mal.

49Assustados com a estranheza do fato, abandonam precipitadamente a floresta, jurando não voltar mais lá para procurar Jurupari.

50Nem por isso os vagidos cessaram; e se os habitantes da aldeia já não se ocupavam deles, a infeliz Seucy, retirada no pico mais alto da montanha, chorava a sua criatura e, ouvindo os vagidos do filho, adormecia até os primeiros alegres alvores do dia.

51Assim se passaram três noites.

52Uma manhã, ao acordar, ela sentiu que os seus seios já não continham o leite que os enchia quando adormecia.

53Quis desvendar o mistério e prometeu a si mesma ficar acordada; mas, quando começavam os vagidos de Jurupari, um torpor invencível a tomava, e ela adormecia num sono profundíssimo.

54Quando acordava, os seus seios estavam sem leite.

55Nunca soube quem, durante o seu sono profundo, se alimentava com o leite do seu peito.

56Assim se passaram dois anos; mas, ao começar o terceiro, em vez de vagidos eram cantos, eram gritos, era o riso de um menino alegre, com que a coitada ouvia ressoar a montanha; eram corridas, eram lutas com seres desconhecidos, que muitas vezes ela ouvia ecoar bem perto de si.

57E enquanto ele crescia nas montanhas do Tenui, invisível, mas forte e robusto, a coitada ia ficando velha; e quando, 15 anos depois, Jurupari veio buscá-la, ela ainda estava lá, indiferente a tudo, sentada no mesmo lugar onde tantas noites, sem saber, o tinha amamentado.

58Foi no tempo em que as bacabas (fruto de uma palmeira) estão maduras, numa noite de luar, noite em que a Seucy celeste voltou a banhar-se no lago, que Jurupari reapareceu na aldeia em companhia de sua mãe, a Seucy da Terra.

59Era um rapaz bonito, bonito como o Sol.

60Os Tenuiana, mal souberam da volta de Jurupari, lembrando-se de que ele era o tuxaua eleito, trataram logo de entregar-lhe os ornamentos de chefe, embora ainda faltasse a itá-tuxaua.

61Jurupari já tinha recebido das mãos do Sol, na véspera do seu aparecimento, um matiry (espécie de saco onde o índio leva uma porção de coisas pequenas, necessárias aos usos mais comuns), no qual estavam guardados todos os meios de que precisava para realizar a reforma dos costumes.

62Sorriu das artimanhas das mulheres ambiciosas, porque, embora a população se compusesse de uma porção de homens, irmãos da Seucy da Terra, estes não tinham voto deliberativo, tanto se dobravam à vontade materna.

63Na noite seguinte à sua chegada, ao som de nembé, maraiá e iauty, os Tenuiana foram à casa de Jurupari apresentar-lhe as insígnias de chefe.

64Jurupari não as quis aceitar, porque não estavam completas, mas ordenou aos homens que na noite seguinte comparecessem na Serra do Canukè, nas margens do Lago Muypa, onde se tratariam negócios comuns.

65As mulheres, que até então eram as únicas a dirigir os negócios da terra, ficaram logo descontentes por serem excluídas da reunião e prometeram a si mesmas depor aquele que, em tão má hora, tinham eleito tuxaua, apoiando-se para isso no fato de ele ainda não ter recebido os ornamentos de chefe.

66Jurupari, naquela mesma noite, tirou do seu matiry uma panelinha e um pedaço de xicantá (espécie de resina), que pôs no fogo dentro dela.

67Da primeira fervura nasceu uma porção de morcegos, corujas e outras aves noturnas semelhantes, que se espalharam pelo espaço.

68Da segunda fervura nasceram araras, papagaios, periquitos e outras aves semelhantes, que por sua vez se espalharam pelo espaço.

69Da terceira fervura ganharam vida uma porção de pequenos falcões e, por último, o uirá-uassu (águia), por meio do qual ele se transportou à Serra do Gancho da Lua.

70Rápidos como uma flecha chegaram à montanha, onde estava sentada a formosa Renstalro (nome tariana da Lua), tendo na mão do coração os ornamentos de penas e na outra a itá-tuxaua.

71Renstalro vestiu com as próprias mãos Jurupari com os ornamentos de chefe, sem proferir uma única palavra.

72Terminada a cerimônia, Jurupari voltou à aldeia com os primeiros sorrisos do dia, de modo que ninguém soube do grande acontecimento.

73Durante o dia, as mulheres Tenuiana decidiram saber a todo custo, por meio de espiãs, o que aconteceria na reunião convocada por Jurupari. Para isso foram escolhidas as que não tinham filhos pequenos.

74Todos já estavam reunidos na Serra do Canuké quando apareceu Jurupari vestido de tuxaua. Resplandecia nos seus ricos ornamentos.

75Ali falou dos negócios comuns, ordenando antes de tudo que cultivassem a terra, e revelou as leis que deviam ser guardadas em segredo e regular dali em diante a conduta deles.

76Começou declarando que a sua constituição duraria com o nome de Jurupari enquanto o Sol iluminasse a Terra, e proibindo absolutamente às mulheres tomar parte nas festas dos homens quando estivessem presentes os instrumentos especiais, que seriam distribuídos na próxima assembleia inaugural.

77A mulher que violar esta proibição fica por isso condenada à morte, condenação que deverá ser executada por quem primeiro tiver conhecimento do delito, seja ele pai, irmão ou marido.

78Do mesmo modo, o homem que mostrar os instrumentos ou revelar a uma mulher as leis secretas em vigor será obrigado a envenenar-se; e, se não quiser, o primeiro que o encontrar deverá matá-lo, sob ameaça de incorrer na mesma pena.

79Todos os jovens que tiverem chegado à idade da puberdade devem conhecer as leis de Jurupari e tomar parte nas festas dos homens.

80As festas se realizarão:

81Quando a cunhaquyra (virgem) for deflorada pela Lua (tiver a primeira menstruação).

82Quando tiver de comer as frutas do pihycan.

83Quando tiver de comer caça da floresta.

84Quando tiver de comer carne de peixe grande.

85Quando tiver de comer aves. Tudo isso, porém, depois que a cunhaquyra tiver passado uma lua inteira esperando a sua hora e alimentando-se de caranguejos, saúvas e beiju, sem ver homens nem ter contato com eles.

86Quando for dado dabucuri de frutas, peixe, caça ou outra coisa, como penhor de boa amizade.

87Quando terminar qualquer trabalho pesado, como derrubar árvores, construir casa, plantar roça ou outro trabalho semelhante.

88Todos os tocadores de Jurupari devem ter à mão uma capeia (chicote, em baníua) para se açoitarem uns aos outros, em lembrança do segredo que todos devem guardar.

89Todos aqueles a quem couber algum instrumento de Jurupari (o que acontecerá na próxima lua cheia) serão obrigados a ir ensinar por todas as terras do Sol não só as coisas agora ditas, mas também as que forem ensinadas no dia inaugural.

90Quando a reunião terminou, o tuxaua Jurupari chorava. Ninguém, porém, ousou interrogá-lo.

91Depois, quando desceram da montanha, encontraram pelo caminho as mulheres que tinham vindo espiar o que acontecia e acharam-nas transformadas em pedras.

92Todas conservavam a fisionomia que tinham quando eram vivas.

93Quem as tinha deixado assim? Ninguém nunca o soube exatamente. O certo é que ali ficou a própria mãe de Jurupari. Estava com o rosto voltado para o oriente, apontando com a mão do coração na direção do Lago Muypa e com a outra para a árvore do pihycan, rejuvenescida e com um sorriso malicioso nos lábios.

94Depois de um castigo tão tremendo, porém, as mulheres Tenuiana, em vez de se arrependerem assustadas, exasperaram-se ainda mais contra Jurupari, a quem agora chamavam buscan (coração duro, no dialeto uynamby), e juraram acabar com ele para poderem continuar a mandar segundo o seu capricho.

95Jurupari, por sua vez, para evitar novos castigos, resolveu mandar construir uma casa bem longe do lugar onde viviam, para ali poder fazer as suas reuniões.

96Para isso chamou os cinco velhos da tribo e deu-lhes as ordens e as instruções necessárias para que fossem às margens do Aiary (pequeno afluente do Içana) e lá construíssem uma casa com todas as comodidades desejadas.

97Mas, disse Jurupari, parti de noite, para que ninguém na aldeia o saiba; e quando já estiverdes bastante longe daqui, levai ao nariz esta pussanga (talismã, fetiche), e vos achareis transportados num instante, pelas nuvens, ao Aiary.

98Logo que a noite chegou ao meio do seu curso, os velhos deixaram a aldeia; e quando já estavam bem longe, cada um levou ao nariz as suas unhas de preguiça (era esta a pussanga que tinham recebido), e antes que pudessem pensar nisso acharam-se transportados para cima de uma rocha que se ergue à margem do Aiary.

99Como não havia nada que os pudesse distrair, naquele mesmo dia escolheram o lugar onde a casa devia ser erguida, e a maioria dos velhos decidiu que ela deveria levantar-se sobre aquela mesma pedra.

100Quando apareceu o Sol do dia seguinte, deram início ao trabalho e começaram pelas portas, que ficaram prontas naquele mesmo dia.

101No outro dia escavaram os aposentos, que ficaram prontos antes que viessem as sombras da noite.

102No terceiro fizeram os assentos e os outros acessórios, que ficaram prontos antes do anoitecer.

103Assim, em três dias, a Jurupari-oca ficou pronta, e isso porque a pedra ainda era iaquira (verde, ainda não dura).

104Faltavam 15 dias para o dia marcado para a vinda de Jurupari, e os velhos resolveram aproveitar o tempo para explorar os arredores.

105Ao primeiro canto do buá-buá (espécie de sapo) meteram-se no mato, rumo ao oriente. Andaram a distância de um grito, encontraram um caminho largo, que seguiram, e de repente ouviram sons, cantos e risos.

106«Companheiros», disse um dos velhos, «aqui perto há uma aldeia; que devemos fazer?»

107«Ir até lá», disseram os outros; «temos certeza de que não hão de nos tomar por inimigos, e chegaremos em boa hora: a música nos diz que estão em tempo de festa».

108«Vamos, então, até lá.»

109Mal os velhos Tenuiana foram avistados pelos Nunuiba, logo veio ao seu encontro, para recebê-los, um bando de formosas mocinhas, que os convidaram a tomar parte nas festas dadas pelo casamento da filha do tuxaua.

110O próprio Nunuiba veio receber os recém-chegados e levou-os à sala da dança, entregando a cada um um maracá, sinal de amizade e de paz quando vem das mãos de um chefe.

111Os velhos, depois de beberem algumas cuias de caxiri e de capy-ipinima, entraram também na roda das danças, cada um com uma formosa mocinha ao lado.

112Elas, nas danças, desdobravam todas as suas seduções e com gracejos e conversas procuravam excitar os seus velhos companheiros.

113Manda o costume que nas terras do Sol não se recuse nada do que é oferecido: e os velhos beberam além da medida e acabaram por se embriagar, e um deles deixou escapar estas palavras imprudentes:

114«Que terra boa é esta, onde as mocinhas são todas bonitas como era a nossa Seucy! Mas quem sabe se amanhã não terão de amaldiçoar a nossa chegada entre elas, por causa da lei de Jurupari!»

115Dito isto, adormeceu.

116Logo as palavras imprudentes correram de boca em boca, fazendo o efeito de um redemoinho na cachoeira.

117«É alguma traição tramada contra nós», disse uma das Nunuiba; «devemos procurar descobri-la quanto antes, para ficarmos com o coração limpo. Amanhã cada uma de nós, aqui ou na casa deles, por sedução ou de surpresa, deve obrigá-los a nos dizer o que há contra nós.»

118Aprovada a proposta, decidiram que algumas delas iriam no dia seguinte à casa dos velhos.

119E assim se fez.

120Quando os velhos voltaram para casa, já estavam lá as moças mais bonitas da aldeia, recém-saídas do banho.

121Elas se apressaram a levá-los para dentro de casa, abraçando-os afetuosamente, e ali já lhes tinham preparado as redes e o cudiary com a mandioca mais branca e sã, colhida por elas mesmas.

122Terminada a leve refeição, os velhos foram descansar nas suas redes; mas não era isso o que as astutas moças desejavam.

123Em vão, porém, com mil seduções e artes diversas, tentaram fazer reviver os sentidos mortos dos coitados.

124Todas as artes, todas as seduções ficaram frustradas; e ao cair da tarde as moças retiraram-se sem nada ter conseguido, prometendo a si mesmas, porém, voltar no dia seguinte.

125Os velhos ficaram olhando uns para os outros, desanimados, sem trocar uma palavra, até que a mãe do sono veio levá-los ao mundo das imagens, ela que, por mais velha e feia que seja, é amada por todos os viventes.

126Mas se durante o dia os velhos fizeram tão má figura, as coisas mudaram em sonho.

127Os papéis estavam invertidos.

128Eles eram os empreendedores e ardentes; elas, fracas e frias, eram vencidas no segundo assalto.

129Ao nascer do sol do dia seguinte, as moças chegaram à Jurupari-oca e, encontrando os velhos ainda mergulhados no sono, aproveitaram a ocasião e meteram-se nas redes deles.

130Aconteceu então que os velhos, ao acordarem, já com o sol alto, acharam nos seus braços justamente aquelas que durante a noite tinham partilhado as suas imaginárias alegrias.

131Facilmente se convenceram então de que não tinha sido sonho, mas realidade.

132E as astutas, percebendo o engano em que eles tinham caído, longe de tentar dissuadi-los, aumentavam a sua convicção.

133«Por que não satisfizeste ontem os meus desejos, cansando-me em vez disso esta noite?»

134E as palavras eram acompanhadas de beijos e carícias.

135«Amigos, o dia passa sem que a gente sinta; vamos comer».

136Alguns momentos depois todos estavam comendo, cada um tendo ao lado o fruto do seu mau dormir.

137As Nunuiba, mais do que das carícias e dos beijos, esperavam chegar ao seu intento com o capy e o caxiri, e forçavam os seus velhos amantes a beber muitas vezes do curupy (vaso especial para o capy), ao que eles, alegres e contentes, não tentavam esquivar-se.

138O Sol já estava a pino quando acabaram; e os velhos foram logo para a rede, aonde as mocinhas os seguiram.

139A embriaguez dá uma certa audácia e excita até os mais frios. Eram agora os velhos que procuravam excitar as mocinhas e, como não podiam com outra coisa, era com os dedos que delicadamente lhes faziam cócegas, até que cada uma se sentiu transformar numa fonte úmida.

140E os velhos se esquentavam no jogo, e Ualri (tamanduá, em baníua), em quem o prazer era mais intenso, pôs-se a lamentar a rigorosa lei de Jurupari e pouco a pouco contou todos os segredos dela.

141E assim, pela narração involuntária de Ualri, as Nunuiba já tinham alcançado o seu objetivo.

142E quando os velhos adormeceram, elas se retiraram, voltaram para a sua aldeia e repetiram o que tinham ouvido.

143Desde aquele dia as Nunuiba nunca mais voltaram à Jurupari-oca.

144Os velhos, já acostumados àquela companhia, passavam o tempo lamentando tamanha ingratidão.

145A lembrança era viva, e todos os dias tinham notícias das belas Nunuiba por uns meninos robustos que vinham banhar-se no rio.

146Uma manhã Ualri, encontrando-se com um bando deles, perguntou-lhes aonde iam.

147«Apanhar uacu» (fruto de uma leguminosa gigantesca), responderam.

148«Também vou convosco», disse Ualri; «quero mandar um cesto deles à ingrata Diadue.»

149«Vamos», disseram os meninos; «aqui perto há uma árvore carregadíssima de frutos; vai dar para todos.»

150Como o uacucuyua era muito grande e os curumins (meninos, em língua geral) não podiam subir nele, pediram ao velho que subisse, para lhes atirar os frutos.

151E o velho os atendeu, recomendando-lhes, porém, que não acendessem fogo debaixo da árvore.

152Ualri já derrubava uacu do meio dos galhos quando os moleques acenderam embaixo uma grande fogueira para nela assar os frutos.

153O fruto é muito oleoso: uma fumaça densa envolveu a árvore num instante.

154Sentindo-se sufocar e com pouca esperança de salvação, Ualri mal teve tempo de se agarrar entre um galho e outro para não cair, sem sequer se lembrar, naquele momento, do amuleto que trazia ao pescoço.

155Os curumins comiam os frutos assados sem sequer imaginar os tormentos por que passava o velho; só quando ficaram satisfeitos apagaram o fogo.

156Quando a fumaça se dissipou, notaram que dos galhos da árvore descia até o chão um grosso cipó, que antes não estava ali, e por ele viram descer Ualri.

157«Avô, que cipó é esse que te serviu de caminho?»

158«Ualri-puy (baba de tamanduá)», respondeu ele furioso. «Já se esquecem de que me estavam sufocando com a fumaça. Fique este como sinal, para lembrar que uns moleques quiseram matar um velho».

159E levou ao nariz o seu amuleto e pediu chuva, raios e trovões: e foi logo atendido.

160E os meninos corriam de um lado para outro para se abrigar do temporal.

161Ualri, de dentro do mato, chamou-os, dizendo que ali havia uma casa para se abrigarem.

162E levou o amuleto às narinas e pediu para ser transformado em casa, e virou uma casa, e os curumins entraram nela; e quando o último entrou, as portas se fecharam, e os meninos ficaram assim na barriga de Ualri, que voltou a ser homem.

163E esta foi a punição que Ualri deu aos meninos malvados.

164Quando, chegada a noite, os Nunuiba não viram voltar os meninos que tinham ido apanhar uacu, foram com as mães dos desaparecidos dar notícia do fato ao tuxaua.

165E o tuxaua mandou chamar o pajé para interrogá-lo.

166E o pajé, depois de tomar um pouco de caragiru da lua e acender o seu cigarro de tauari, foi ao porto fazer os esconjuros necessários.

167Quando voltou, disse:

168«Os curumins estão dentro da barriga de um daqueles velhos que vivem na pedra; foram engolidos durante o temporal que veio hoje; e para salvá-los é preciso preparar muito capy e muito caxiri, para que amanhã se possam embriagar os próprios velhos e ver se aquele que os engoliu os vomita».

169E imediatamente toda a aldeia pôs mãos à obra para preparar as bebidas pedidas.

170E o pajé subiu ao teto da casa, de onde soprava, em direção ao lugar onde estavam os velhos, grandes nuvens de fumaça do seu tauari, enquanto aspirava grandes pitadas de caragiru da lua.

171Entretanto Ualri, depois daquela terrível vingança, não tirava mais o talismã do nariz.

172Quando a noite se voltava para a madrugada, todos os seus ossos pareciam transformados em instrumentos, e ouviam-se distintamente os sons que saíam deles.

173Os seus companheiros logo perceberam que em Ualri havia alguma coisa de extraordinário.

174E Ualri, antes do Sol, saiu de casa e voou.

175O pajé, que ainda estava no teto da casa do tuxaua, viu-o e ouviu-o quando passou sobre a aldeia.

176As moças, mal cantou o buá-buá, partiram para a Jurupari-oca e, ao chegarem, encontraram Ualri já de volta; e Diadue, já instruída pelo pajé, abraçou-o com toda mostra de afeto.

177«Bons amigos, viemos convidar-vos a vir à aldeia; está tudo pronto, só se espera a vossa chegada para começar a dança; não deixemos o tempo passar.»

178«Vamos», responderam eles.

179Quando se aproximavam da aldeia, Ualri largou o braço de Diadue e voou para uma palmeira, e os seus ossos começaram a tocar uma música festiva que era desconhecida de todos.

180«Agora», disse Diadue, «bebamos e dancemos, aturdamos os nossos corações até amanhã.»

181E o caxiri e o capy eram oferecidos com frequência cada vez maior, mas até a tarde Ualri se mantinha senhor de si, enquanto os seus companheiros já estavam bêbados havia muito tempo.

182E o pajé, que com o próprio sopro tinha tornado as bebidas mais fortes do que de costume, estava admirado de que ele resistisse tanto.

183E Ualri bebia, bebia e não sentia nada, e quando veio a noite voou e voltou à Jurupari-oca.

184«Agora», gritou o pajé, «é o momento de lhe tirar o amuleto que o protege, agora que vai passar um instante adormecido; mas é preciso pôr-se já a caminho.»

185Logo Diadue se pôs a caminho com alguns companheiros, e quando chegaram à casa Ualri já estava de pé, e dos seus ossos saía aquela mesma música festiva já ouvida, mas desconhecida de todos.

186E o urutau (ave noturna) começou a gritar no caminho, e ele voou de novo para a aldeia.

187E Diadue voltou correndo com os companheiros, e quando chegou à sala da festa, Ualri estava sentado num canto, e dos seus ossos ainda saía aquela mesma música festiva, mas muito baixinha.

188O pajé disse então ao tuxaua que os meninos tinham morrido naquele momento.

189«E agora, para exemplo dos seus companheiros, acabemos com ele, antes que nos escape e isso se torne impossível.»

190E ungiu os homens que deviam apoderar-se de Ualri com manufá (planta usada pelos indígenas como perfume e como remédio contra as hemorragias), única pussanga que podia vencer a maracaimbara que o defendia.

191E ordenou a Diadue que, durante a luta, aproveitando um momento favorável, procurasse tirar a maracaimbara que Ualri escondia dentro do nariz.

192Fez-se como ele tinha dito.

193Quando o Sol chegou ao meio do céu, o pajé entrou na sala e lançou-se imediatamente sobre Ualri, e os dois fizeram um só e caíram no chão.

194Os homens, que já estavam prontos, escondidos na sala de jejum das moças, correram ao lugar da luta, munidos de cordas para amarrar Ualri.

195Diadue atirou-se logo à cabeça dele para lhe tirar o amuleto; mas ele, percebendo a sua intenção, com um esforço supremo tirou com uma das mãos a maracaimbara do nariz e engoliu-a.

196Dos ossos de Ualri, no ardor da luta, saía uma música espantosa.

197Os seus companheiros, mal acordados e com a cabeça pesada da embriaguez, assistiam a tudo de braços cruzados.

198Depois de uma luta de dois espaços de tempo, Ualri ficou vencido, porque o pajé lhe atirou em cima uma cuia de manufá ralada, que imediatamente lhe fez perder as forças.

199E foi amarrado e arrastado para o meio da sala; e então ele perguntou aos seus inimigos:

200«Por que me fazeis isto?»

201«Não sabes por quê? Que fizeste dos meninos que foram apanhar uacu?»

202«É por isso? Eles quiseram me fazer morrer, e eu me vinguei.»

203«Se atentaram contra a tua vida, não foi por saber. Eram meninos inocentes e só conheciam duas coisas na vida: a doçura dos frutos que procuravam no mato para comer e a doçura do seio das suas mães, onde à noite adormeciam cansados das fadigas do dia.»

204«Quiseste ignorá-lo; por isso morrerás, pagando com a vida a maldade do teu coração. Quando os uacurauas começarem a voar sobre as nossas cabeças, tu morrerás.»

205«Já que devo morrer», disse Ualri, «ponham-me em cima de uma fogueira, com o peito voltado para o céu. E quando o meu corpo estiver ardendo, peço-te que venhas olhar o meu ventre, porque é daí que há de sair a minha pussanga; pega-a e dá-a a Diadue como recompensa da traição que me fez.»

206E quando o Sol desaparecia e os uacurauas começavam a voar, levaram o condenado ao lugar do suplício.

207E ao longo do caminho os seus ossos cantavam uma música nova, e o pajé disse ao tuxaua:

208«É a música de Jurupari.»

209E quando Ualri viu a fogueira em que devia morrer, exclamou: «Amarga Diadue! Eu não sabia que a tua beleza me havia de custar tão caro! Mas fica certa e grava bem isto na tua mente: amanhã serei vingado.»

210O Sol tinha desaparecido e numerosos uacurauas voavam sobre a cabeça dos Nunuiba, e o pajé mandou atirar o condenado à fogueira.

211Da boca de Ualri não saiu um gemido.

212Quando o seu corpo começou a arder, o pajé aproximou-se para ver se saía dele a maracaimbara. Nesse momento ouviu-se um estrondo espantoso, que sacudiu a Terra, e do ventre de Ualri saiu e ergueu-se uma paxiúba (espécie de palmeira), que subiu até bater no céu.

213Ao mesmo tempo um vento impetuoso varreu parte das cinzas de Ualri e depositou-as na floresta vizinha, e, quando tudo voltou à calma, dela partiram gritos e cantos, como de gente.

214Os que assistiam fugiram assustados ao ver tantas coisas extraordinárias em tão pouco tempo.

215O pajé foi o único que ficou perto da fogueira, fumando o seu tauari e perscrutando o futuro através da sua imaginação.

216Na aldeia nunuiba ninguém dormiu naquela noite, esperando a volta do pajé; mas veio o dia e o pajé não apareceu.

217Então o tuxaua Nunuiba resolveu ir procurá-lo com os seus guerreiros, e quando se aproximaram da palmeira colossal ouviram distintamente a voz do pajé, que dizia:

218«Nem mais um passo, se não quereis experimentar as dores que eu sofro. Das cinzas deste myra uçarra (antropófago) não só nasceu uma nova espécie de gente, mas uma infinidade de animais venenosos, contra os quais a minha ciência quase nada vale; e essa gente nova atirou-me pedras a noite inteira. O meu tauari e o meu caraiuru não tiveram força para me fazer tocar sequer a sombra deles: estou vencido, eles são mais poderosos do que eu. Estes animais que estão sobre o meu corpo são terríveis».

219Mas o tuxaua e os seus guerreiros não fizeram caso dos seus avisos e aproximaram-se dele.

220A poucos passos da palmeira, cobras e insetos venenosos de todas as espécies lançaram-se contra Nunuiba e os seus guerreiros, que, por mais destros que fossem, não conseguiram fugir-lhes; todos foram mordidos e, mal foram mordidos, contorceram-se no pó, uivando.

221«Agora», disse o pajé, «sofrei o fruto da vossa teimosia, até que apareça alguma mulher que vos possa dar o remédio».

222Todos os olhos se voltaram para a aldeia.

223«Diadue vem para cá. Que ela vá ao igarapé e volte com água».

224E, transmitida a ordem, Diadue foi ao igarapé e voltou com um curuatá cheio de água, e depositou-o aos pés do pajé.

225«Agora», disse ele, «senta-te em cima e lava por dentro as tuas partes genitais, e depois dá-me a água para beber».

226Assim fez Diadue, e quando o pajé bebeu, naquele mesmo instante caíram no chão todos os animais que o atormentavam, e cessaram todas as dores.

227E passou a água aos companheiros, que logo ficaram livres, enquanto as tocandiras, as aranhas, as cobras e os outros bichinhos venenosos ficaram mortalmente envenenados com ela.

228«Antes de deixar estes lugares, onde tiveram origem, além deste povo de gente invisível, sem lei nem coração, todos estes animais venenosos que antes não existiam, ouvi-me e sabereis.»

229«Contra eles todos nós possuímos o contraveneno: o homem para a mulher, a mulher para o homem; mas ninguém se pode curar a si mesmo. O contato da parte ofendida com o sexo diferente ou, não sendo possível de outro modo, a água em que este foi lavado, é suficiente.»

230«Estas ervas que vão nascendo em volta da paxiúba são todas terríveis maracaimbaras, se usadas para fazer o mal; pussangas, se para fazer o bem.»

231«A raiz deste cipó é um veneno potentíssimo e, unida ao ferrão destes insetos, bastará pô-la em contato com o sangue para matar instantaneamente: é o uirari.»

232«Mas também ele tem a sua pussanga: os excrementos humanos, os dos vermes da praia, o sal, a espuma das cachoeiras, dissolvidos na água e bebidos, curarão quem os beber.»

233«Quanto, porém, a esta gente nova, que de hoje em diante chamaremos Uancten-mascan (gente do jurupari, no dialeto tucano), serão daqui em diante inimigos de todos os filhos do Sol.»

234«São seres fortes, superiores ao meu poder, e com toda a minha ciência de pajé não pude tocar sequer a sombra deles.»

235«Agora que falei, voltemos à aldeia; mas cada um tome cuidado com a sua cabeça: os Uancten-mascan, embora invisíveis, hão de nos atirar tantas pedras que será impossível que alguém não saia ferido.»

236E quando começaram a voltar para a aldeia, começaram a cair pedras de todos os lados, e poucos foram os que não ficaram feridos.

237Diadue levou na testa uma grande pedrada, que a atirou ao chão desmaiada.

238O pajé e o tuxaua levaram-na para casa.

239Ruídos de gente invisível perturbaram a paz da aldeia durante toda aquela noite.

240Diadue sarou com o tempo, mas a ferida mudou-lhe completamente a figura.

241Aquele rosto, que tinha sido o espelho da beleza nunuiba, era horrendo.

242E poucas luas depois, indo banhar-se onde a água remansa ao pé da cachoeira, Diadue ficou apavorada com a própria feiura, que viu refletida nas águas, e, desesperada, atirou-se nos redemoinhos da cachoeira, onde desapareceu para sempre.

243Jurupari teve notícia do triste fim de Ualri. Uma borboleta negra pousou-lhe na mão e deixou nela uma gota quente de sangue; ele sentiu então faltar-lhe a coragem.

244Vivia na tristeza naquele lugar onde um triste dever de justiça o tinha levado a punir a própria mãe.

245Que tinha acontecido nas margens do Aiary?

246Estava em sua mão sabê-lo, bastava recorrer ao seu matiry; mas apoderou-se dele um desânimo profundo, que o reduzia quase ao estado de louco.

247Ruídos sinistros ressoavam pela montanha, acompanhados de gemidos dolorosos.

248Quando dormia, apareciam-lhe as suas vítimas, zombando da sua acangatara (insígnia de penas dos chefes, com que enfeitam a cabeça), e muitas vezes chegavam até a cuspir-lhe no rosto; e ele tudo suportava com resignação. Sua mãe estava sempre à frente das zombadoras.

249As mulheres Tenuiana, entretanto, não deixavam de conspirar contra ele e trabalhavam dia e noite para levantar os filhos contra Jurupari. Mas estes, mais prudentes do que elas, recusavam-se a obedecer, mostrando, para se desculpar, as figuras das mulheres já transformadas em pedras, onde estava esculpida a história da sua imprudência.

250E diante de tantos contratempos Jurupari sentia-se cada dia mais desanimado, e, quase louco, dirigiu-se um dia ao lugar onde estavam as suas vítimas, atirou-se gemendo aos pés da sua desventurada mãe e desmaiou.

251Quando voltou a si, o Sol, já alto, brilhava no rosto de sua mãe; e então ele se lembrou de que tinha uma missão e devia cumpri-la.

252Abraçou aquela fria mulher de pedra, fez uma promessa que as suas lágrimas confirmaram e desceu à aldeia.

253No dia seguinte, quando o Sol chegou ao meio-dia, o tauté (espécie de tambor enorme) soou, chamando os homens para uma reunião.

254E os homens se reuniram, e quando estavam todos, Jurupari disse: «Quando Iacy-tatá (Vênus, em nheengatu) estiver alta como uma mão juntada, quero que todos vos encontreis no lugar da nossa primeira reunião; mas deveis sair de casa sem serdes sequer ouvidos pelas mulheres.»

255«Antes, porém, à noite, deveis banhar-vos no lago e esfregar o corpo com folhas de jenipapo (arbusto usado como antiafrodisíaco), e, voltando para casa, cada um deve pôr na boca um punhado de uosca (milho, em cubeo), tendo o cuidado de guardá-lo até chegar à minha presença. Quem não fizer conforme as minhas palavras ficará mudo.»

256«E se agora as mulheres vos perguntarem: “Por que fostes chamados?”, respondei que vos chamei para vos mostrar um grande uçá (caranguejo) que apanhei no lago.»

257E os Tenuiana notaram que Jurupari estava triste e que os seus olhos mostravam que tinha chorado; e Jurupari, por sua vez, percebeu que entre a sua gente havia alguém tão apaixonado pela sua mulher que talvez não soubesse guardar o segredo; e, para tirar toda ocasião, ordenou o banho de jenipapo e o milho na boca.

258Logo que os homens chegaram às suas casas, as mulheres lhes disseram: «Por que fostes chamados?»

259«Para ver um grande uçá que o tuxaua apanhou no lago.»

260«Então já é tempo de os uçás virem para a terra?»

261«Certamente; se saiu um, é provável que saiam muitos.»

262«Se é assim», disseram as mulheres, «iremos esta noite esperar os uçás na margem do lago.»

263E Jurupari, mal chegou a noite, quis saber o que acontecera à sua gente no Aiary, e tirou do matiry uma pedrinha colorida e ordenou-lhe que lhe mostrasse o que tinha acontecido aos seus.

264Gostou da Jurupari-oca, admirou a beleza das Nunuiba, riu-se dos velhos; mas, quando chegou a Ualri e à sua vingança, atirou a pedra contra a árvore que sustentava no centro o teto da casa.

265A pedra desfez-se em pó, e este converteu-se em vaga-lumes, que vieram sujar a escuridão da noite.

266Quando Iacy-tatá estava na altura indicada, os Tenuiana saíram das suas casas, e as mulheres, que estavam esperando os uçás na margem do lago, nem sequer o suspeitaram; eles se encaminharam para a montanha, e quando chegaram lá Jurupari já estava sentado no centro de uma larga esteira de uaruman (espécie de palmeira), na qual mandou que todos tomassem lugar para melhor o ouvirem.

267«Ontem à noite fiz uma promessa que tenho de cumprir, e vós todos comigo, que tendes as vossas mães perto da minha.»

268«Fui obrigado a dar uma prova do meu poder, para que também os que não sabem obedecer o respeitassem, e estas pedras o demonstram.»

269«Mas não foi suficiente ainda: e aquelas mulheres que agora estão na margem do lago pensam que, tendo-me eleito tuxaua, deviam ter-me escravo da sua vontade; mas todos os que me ouvem sabem que eu vim para reformar os usos e os costumes dos habitantes de todas as terras.»

270«Quando estivermos nas margens do Aiary, eu vos direi o que devemos fazer; mas, em verdade, quem não cumprir as minhas ordens será punido de modo terrível.»

271Calou-se. A gente, que não movia uma pálpebra enquanto ele falava, esperava que continuasse; mas da sua boca não saiu mais uma palavra.

272Olhava, distraído, para Iacy-tatá, como se estivesse conversando com ela.

273Os Tenuiana, quando viram que já não havia motivo para ficarem atentos, foram estender-se na esteira, até que a mãe do sono veio separá-los do próprio espírito.

274Quando acordaram ao sopro do vento que murmurava entre as folhas da floresta, acharam-se ainda na esteira onde tinham adormecido, mas já nas margens do Aiary, em cima da Jurupari-oca.

275«Sabei que estamos nas margens do Aiary», disse Jurupari, «e antes de deixar este lugar, onde de hoje em diante faremos as nossas reuniões, vos ensinarei o que se deve fazer, pois não quero punir mais ninguém.»

276«Os homens devem ter o coração forte para resistir às seduções das mulheres, que muitas vezes procuram enganar-nos com carícias, como aconteceu com os velhos que mandei para cá.»

277«Se as mulheres da nossa terra são impacientes, curiosas e faladeiras, estas são piores e mais perigosas, porque conhecem parte do nosso segredo.»

278«Poucos lhes resistem, porque as suas palavras têm a doçura do mel das abelhas, os seus olhos têm a atração da serpente, e todo o seu ser tem seduções irresistíveis, que começam por agradar e acabam por vencer.»

279«Estas minhas palavras não são para vos fazer fugir do contato das mulheres, mas só para que possais resistir-lhes e elas não se apoderem do nosso segredo, que só os homens podem conhecer.»

280«Ualri, embora velho e curvado pela maturidade dos seus anos, com os sentidos já frios, deixou-se seduzir por elas, revelou parte dos nossos segredos, mas pagou com a vida a traição.»

281«Quem se julgar bastante firme de mente e forte de coração pode enfrentá-las.»

282«E agora entremos em casa; mas, quando a noite chegar ao meio do céu, deveis todos estar aqui outra vez.»

283Quando entraram na Jurupari-oca, encontraram os quatro velhos à beira de morrer de fome.

284Desde o dia seguinte à morte de Ualri, tinham-se recolhido ali dentro, dispostos a deixar-se morrer de fome, porque não achavam desculpa com que explicar a ausência do companheiro.

285Mal Jurupari os viu, conheceu logo o pensamento deles e disse:

286«Credes então que a morte possa fazer desaparecer a leviandade que cometestes?»

287«Não é grande vergonha para um jovem ser vencido por uma mulher; mas, quando os cabelos já dizem que a juventude vai longe, é uma leviandade digna de castigo.»

288«E agora alguns de vós vão ao mato e me tragam folhas de yuacaua (Oenocarpus bacaba), para que possamos pescar sem demora; é preciso salvar estes velhos insensatos.»

289E vieram as folhas de yuacaua; e ele as trançou e, tirando do seu matiry um pedaço de resina de cunauaru (batráquio que faz o ninho, dizem, com resina de plantas aromáticas), esfregou com ela a rede nova e ordenou que fossem pescar com ela no rio.

290Quando os pescadores puxavam a rede para a terra, entrava pela porta, saltando fora da água, uma tal quantidade de iuhy (pequena rã), que a sala principal logo ficou cheia.

291«Preparai de comer para os velhos; depois cada um cuide de si.»

292Chegou a hora da reunião, e os Tenuiana se acharam em cima da casa de Jurupari.

293«Antes de continuar a dizer-vos as leis que devem regular os usos e os costumes da gente desta terra», começou Jurupari, «quero primeiro contar-vos uma história que nos diz respeito:

294— No princípio do mundo, o Senhor de todas as coisas apareceu na Terra e deixou nela um povo tão feliz que passava a vida só a dançar, comer e dormir.

295Naquele tempo os usos dos habitantes da Terra não permitiam que ninguém dançasse com outra mulher que não fosse a sua, sob pena de ter de se matar com as próprias mãos ou de ser queimado vivo.

296Logo que alguém nascia, os pais lhe arranjavam o companheiro, para evitar que mais tarde ficassem sós.

297Ora, aconteceu que as mulheres nasciam em maior número, de modo que ultrapassaram o número dos homens, e o tuxaua mandou construir um lugar onde se recolhessem as solteiras, esperando que se lhes pudesse dar um esposo.

298E num lugar separado também estavam recolhidos os viúvos, e ali esperavam a morte, pois se considerava que, com a perda do companheiro, a sua missão estava terminada.

299Uma formosa moça, já cansada de esperar que o tempo lhe desse um esposo, resolveu fugir e procurar a morte na tristeza da floresta, único remédio que o seu infortúnio lhe sugeria, pois não sabia que existisse outro povo onde pudesse refugiar-se.

300Antes da alvorada saiu da aldeia, seguindo o caminho do Sol e prometendo a si mesma não voltar mais.

301Andou o dia inteiro e, à tarde, abrigou-se na sapopema (raiz achatada) de uma árvore e ali dormiu.

302Quando a noite já tinha passado da metade, acordou e ouviu distintamente risos e conversas de gente.

303A princípio pensou que aquilo fosse efeito de sonho e levou as mãos aos olhos; mas sentiu que estava acordada, e então se convenceu de que era gente e de que estava perto de alguma maloca.

304Ouviu perfeitamente a voz fresca de um rapaz que dizia:

305«Ontem, quando eu estava pescando com timbó no igarapé Dianumion, vi passar perto de mim uma moça que me pareceu muito triste; pelo menos assim mostravam os seus olhos, que estavam cheios de lágrimas.»

306«Eu quis falar-lhe, mas estava tão triste que não me atrevi; deixei-a passar e não a importunei, respeitando com o meu silêncio a sua dor.»

307«Era bonita como um coaracy-uirá (pássaro do Sol); e veio nesta direção.»

308«Fizeste mal», disseram outras vozes; «logo que o Sol aparecer, iremos procurá-la, porque ela é certamente da tribo dos Bianacas; talvez tenha perdido o caminho e agora ande errante sem saber como reencontrá-lo.»

309«Se a encontrarmos, vamos propor-lhe que seja esposa do filho do nosso tuxaua; e, se ela recusar, nós a levaremos de volta aos seus.»

310Ela ouviu esta conversa e teve a tentação de se atirar nos braços dos seus salvadores.

311Quando o Sol começou a tingir de vermelho as raízes do céu, os rapazes saíram à procura das pegadas da moça e, seguindo-as, deram com a sapopema onde ela se tinha abrigado.

312Quando ela sentiu aproximar-se o rumor dos seus caçadores, fingiu dormir; e eles se aproximaram dela, e o rapaz, filho do tuxaua, a quem fora prometida a sua mão, ficou deveras encantado diante de moça tão bonita.

313Sentou-se junto da adormecida e, chegando a boca ao ouvido dela, murmurou:

314«Bela moça, que fazes tão longe da tua terra?»

315E ela fingiu então acordar e, olhando assustada em volta, deu um grito e começou a derramar lágrimas sem fim, que apagaram o fogo dos seus olhos.

316«Bela moça, que fazes tão longe da tua terra?»

317«Procuro a morte.»

318«És então tão infeliz que procuras a morte? Quando se têm olhos que brilham como o sol, cabelos negros que reluzem como as estrelas do céu, lábios suaves como a pele do eshauin (pequeno desdentado de pelo finíssimo), seios intactos que perfumam como as flores do umiry, quem se parece com a yudcaua como pode ser infeliz?»

319«E, no entanto, nem sempre a juventude», disse a moça, «traz consigo a felicidade; eu sou uma dessas infelizes a cujas penas só a morte pode dar remédio.»

320«Se está nas minhas mãos pôr fim à tua dor, dize-mo; porque, se for preciso ir até onde acaba o mundo para buscar o teu descanso, eu e estes meus companheiros iremos até onde acaba o mundo, contanto que te poupemos o pranto que derramas e que já sinto queimar-me o coração. Casemo-nos, que seremos felizes; mas, se quiseres voltar para os teus, eu te levarei de volta, embora, em verdade, o meu coração fique contigo.»

321«Belo moço, já que te condóis da minha desgraça, eu seria uma moça sem coração se recusasse o que ofereces; desde este momento sou tua, podes levar-me contigo, que desde este momento serei tua companheira até que a morte nos separe. Uma coisa, porém, te peço: nunca me perguntes que motivos me trouxeram aqui.»

322«Prometo-te nunca perguntar que motivos te trouxeram aqui, porque não és a única que tem de sofrer o veneno de novas feridas. Levanta-te e vamos à minha maloca, onde encontrarás homens de quem já és senhora.»

323E quando passavam as nascentes do Dianumion, o rapaz fez a moça parar e pediu-lhe que pisasse as folhas de uma erva que lhe ofereceu, que com elas esfregasse o corpo todo e mergulhasse na nascente.

324E ela fez o que ele disse, e quando saiu do banho estava transformada em jacamim (agami), como o eram todos os seus companheiros.

325A moça tinha passado a fazer parte da tribo dos Jacamy.

326Algumas luas depois, Dinari (era este o nome da donzela) sentiu nas entranhas que estava perto de ser mãe, e disse-o ao marido.

327Puseram-se logo a fazer um ninho para nele pôr os ovos, e Dinari estava contente, porque já imaginava ver em volta de si os seus filhotes cobertos de penugem.

328Passou uma lua, veio a segunda, entrou a terceira, e Dinari já não se podia ter em pé; e então ambos perceberam que a pussanga não a tinha transformado completamente e que, por mais que ela estivesse mudada em ave, o que tinha no ventre eram seres humanos.

329Ela pediu então ao marido que lhe restituísse a sua primeira forma, para assim escapar a uma morte certa e salvar os filhos, que já davam sinal de vida.

330E o marido levou-a até o Dianumion e, feita a mesma pussanga, deu-lha a beber e fê-la voltar a ser como era antes.

331Quando Dinari completou dez luas, deu à luz um menino e uma menina.

332E a menina tinha na testa um punhado de estrelas, e o menino, da testa até os pés, uma serpente de outras tantas estrelas.

333As duas crianças nada tinham da raça do pai; pareciam-se com a da mãe, tendo a mais as estrelas com que nasceram.

334Quando chegaram à idade da meninice, um dia o menino perguntou à mãe por que queria tantos ilapáy (jacamins, em uynamby), que não servem para outra coisa senão incomodar quem dorme à noite.

335«Antes de vós nascerdes, eu não tinha com quem passar o tempo e pus-me a criar estes pássaros; e agora eu os amo como amo a ti e à tua irmã, e te peço que nunca lhes faças mal; são bons companheiros, e eu morreria de dor se um dia me fugissem. Amanhã devo ir para muito longe daqui, buscar o nosso sustento, e, para que não fiqueis sozinhos, uma parte deles há de ficar para fazer companhia a ti e à tua irmã.»

336O menino não perguntou mais nada; pôs-se a fazer dois arcos e flechas, quantas mais pôde, para experimentá-las contra os jacamins na ausência da mãe.

337As crianças, desde o dia em que tinham nascido, dormiam sozinhas, fechadas num quarto onde ninguém jamais tinha entrado de noite.

338Naquela noite Dinari tinha o coração inquieto; andava pela casa a esmo, até que lhe veio um desejo irresistível de ver os filhos, e entrou no quarto onde eles dormiam.

339Eles dormiam, e as estrelas que tinham no corpo brilhavam como as estrelas do céu; e quando Dinari viu isso recuou assustada.

340Tomada de um terror que não compreendia, chamou o marido para que visse como aquelas estrelas brilhavam.

341E o marido veio, e entraram juntos onde as crianças dormiam.

342Ele ficou muito tempo olhando sem dizer uma palavra, saiu e interrogou Dinari:

343«Que querem dizer estas estrelas nos nossos filhos?»

344«Não sei.»

345«Não os terás tido com outro, estes filhos?»

346«E quando eu podia ser-te infiel, se nunca nos separamos? Na verdade, parece-me que queres lançar sobre mim o que deves atribuir somente à mãe das coisas.»

347«Se os teus filhos fossem meus, terias primeiro posto os ovos, de onde depois sairiam os meus verdadeiros filhos, que se pareceriam comigo. Mas tudo saiu ao contrário; e agora, para que eu duvide ainda mais, têm estrelas que brilham como as do céu. Não te direi mais nada; só te proponho que abandones estas crianças e fujas comigo.»

348«Eu, abandonar os meus filhos? Nunca!»

349«Recusas? Podes ficar: amanhã não me encontrarás mais entre os meus, e, sem que tu me vejas, hei de descobrir o que me ocultas.»

350E, dito isto, desapareceu no meio da sombra da noite.

351Quando veio o dia, não se ouviu cantar nem um jacamim; apenas o urutau, pelas beiras do caminho, soltava as suas risadas estridentes.

352Entretanto o tuxaua dos Jacamy, com os seus, dirigia-se às margens do Dianumion, onde fizeram uma grande fogueira, atirando nela uma porção de frutos de piquiá.

353E todos se puseram em roda, e quando estavam todos nos seus lugares, o mais velho perguntou:

354«Por que o nosso tuxaua nos chamou?»

355«Aqui estou pronto a dizê-lo: penso que minha mulher me traiu.»

356«E por que crês nisso?»

357«Ela não pôs ovos como as fêmeas da nossa tribo, e os seus filhos têm no corpo uma porção de estrelas, que brilham como as estrelas do céu. Será isto indício de infidelidade?»

358«Não vês que na tua união com uma raça superior à nossa a mãe das coisas devia escolher, para ser fecundada, a melhor semente?»

359«Mas... e as estrelas?»

360«Dize-me a verdade. Nunca te uniste a Dinari depois de lhe teres devolvido a sua forma primitiva?»

361«Muitas vezes.»

362«Que posição tomava então tua mulher?»

363«Com o rosto voltado para o céu.»

364«Agora tudo se sabe. Ela sentia mais prazer na sua forma primitiva do que na nossa, e foi numa dessas ocasiões que concebeu, tendo diante dos olhos as estrelas do céu, que deixaram a sua imagem nas duas crianças como lembrança de um momento cheio de doçura. E é por isso que a acusas e talvez já a quisesses abandonar? Volta para a tua casa, mostra-te amoroso com os teus filhos e com a tua mulher, que nisso consiste a felicidade dos esposos; e não acuses mais tua mulher sem teres visto com os teus olhos.»

365«As tuas razões são verdadeiras e eu voltarei para casa; mas agora quero que, para fazer uma surpresa, pintemos o dorso com a cinza do piquiá, para que não nos reconheçam logo que nos virem.»

366«Sabes que estamos sempre prontos a acompanhar-te em todos os teus caprichos, mas nós te pedimos que hoje mesmo voltes para a tua casa.»

367Quando o dia apareceu, Dinari partiu para buscar comida, e os seus filhos viram-na sumir nas voltas do caminho de costume.

368«Irmã, vamos experimentar as nossas flechas nos jacamins.»

369«Vamos.»

370E fizeram um buraco na parede e por ele começaram a flechar os jacamins com tanta certeza que nenhuma flecha errou o alvo.

371E quando caiu o último dos que tinham ficado no lugar, saíram de casa para ver o que tinham feito e levaram para a floresta vizinha os restos dos pobres jacamins, que tanto os incomodavam de noite com o seu canto.

372Terminada esta façanha, estavam para se recolher em casa quando ouviram o rumor dos outros que chegavam, e logo foram pôr-se outra vez de tocaia.

373Viram que eles tinham o dorso acinzentado e que não eram iguais aos que tinham matado; mas, apesar disso, começaram a fazer pontaria neles com tanta precisão que poucos momentos depois o último deles caía morto.

374Da matança só escaparam algumas fêmeas que estavam chocando.

375Assim o tuxaua dos Jacamy morria morto pelos próprios filhos.

376Se Dinari não tivesse tido vergonha de revelar aos filhos a sua própria origem, nunca teria acontecido esta grande matança, de que ainda hoje a gente se lembra; mas eles ignoravam que laços existiam entre a sua mãe e os desventurados jacamins.

377Quando Dinari voltou e deu com sangue por toda parte, pensou que o marido tinha matado os seus filhos, e correu para dentro de casa e encontrou-os brincando tranquilamente, e perguntou:

378«Que aconteceu hoje aqui, que vejo sangue por todos os lados?»

379«Muitas coisas, mamãe: um bando de jacamins de dorso esbranquiçado veio aqui para fazer mal a mim e à minha irmã, e nós, com as nossas flechas, os matamos todos.»

380«Onde estão os corpos dos jacamins?»

381«Amontoamo-los ao pé do ucuquy, no caminho.»

382Dinari correu imediatamente para onde crescia o ucuquy e ficou apavorada diante da quantidade de mortos feitos pelas duas crianças; e no meio deles reconheceu o próprio marido e, quase louca, atirou-se sobre o seu corpo, dizendo:

383«Ai! Duramente demais foi punida a tua imprudência! Mudaste a cor do teu dorso, para que os teus filhos te matassem.»

384«Eu daria todo o meu coração para não te ver morto; quisera poder apresentar-te aos meus filhos e dizer-lhes o laço que nos unia! Agora tudo acabou.»

385E ela não quis mais ficar naquela terra, onde fora tão feliz e onde agora era tão desgraçada.

386Quando o urumutum (espécie de mutum) anunciava a alvorada, Dinari e os seus filhos partiram, caminhando para o oriente.

387Andaram o dia inteiro, e já quando o dia entristece chegaram ao cume de uma montanha de onde se avistava a maloca dos Bianacas; e Dinari reconheceu a sua antiga morada, sentou-se sobre uma pedra, chamou os filhos para perto de si e, abraçando-os, começou a chorar.

388As crianças viam a mãe chorar copiosamente e não sabiam por quê, e o menino perguntou:

389«Mamãe, por que choras? Tens sede, tens fome? Dize-me o que tenho de fazer para que não chores. Ainda que eu tivesse de virar esta montanha com as raízes para o céu, eu o farei.»

390«Não tenho fome nem sede; só estou lamentando que amanhã teremos de viver sob os costumes rigorosos daquela gente, e por isso teremos forçosamente de nos separar. Eu irei para a casa dos inúteis, tu para a dos solteiros e tua irmã para a das moças solteiras, de onde nenhum de vós deve esperar sair enquanto não encontrar um esposo, e eu, enquanto não vier a morte.»

391«E quem há de consentir em tal separação? Eu certamente não. Em verdade te disse que, se fosse preciso virar esta montanha com as raízes voltadas para o céu, eu o farei, porque posso; e para que não duvides das minhas palavras, que os teus olhos vejam.»

392E o filho de Dinari pegou num rochedo da altura de três homens em pé e arremessou-o sobre a aldeia, e a pedra foi cair quase em cima da casa das moças solteiras, com tal estrondo que a Terra tremeu toda.

393E os habitantes da maloca saíram das suas casas e procuraram a causa de tamanho estrondo.

394Ninguém conseguia entender o que tinha sido, quando viram no alto da montanha dois grupos de estrelas brilhantes, que caminhavam na direção deles.

395O tuxaua foi o primeiro a ver aquela novidade e disse:

396«Quereis ver que foram aquelas estrelas que caíram do céu? Na verdade, só uma coisa assim podia fazer tremer a Terra e produzir, ao cair, um estrondo tão espantoso. Vamos apanhá-las, pois a ocasião é boa para termos para nós a beleza das mulheres. (As manchas hepáticas, que são consideradas uma beleza e que se julgam gotas de sangue das estrelas caídas na terra.) Se elas não têm más intenções contra os filhos da Terra, podemos esperar obter remédios com que as nossas mulheres hão de ficar muito contentes! Mas, ou os olhos me enganam, ou elas vêm na nossa direção! Na verdade, movem-se para este lado. Quem sabe se não vêm da parte do Sol trazer-nos ordens de Uàn-Masquîn? Logo o saberemos; mas, em todo caso, armemo-nos, porque bem podiam ter vindo do céu só para nos combater.»

397«Quem ousaria», gritou o tuxaua, «vir atacar os Bianacas, sabendo que nós seremos sempre os vencedores?»

398Quando Dinari chegou perto da sua antiga morada, sentou-se justamente em cima daquela grande pedra que o filho pouco antes arremessara e da qual só aflorava uma pequena parte, da altura de apenas duas mãos.

399Os Bianacas correram logo para os recém-chegados, formando em volta deles um grande círculo. Ninguém reconheceu Dinari.

400«Filhos do céu», disse o tuxaua, «que quereis de mim?»

401«Um abrigo para mim, para minha mãe e minha irmã, para vivermos em paz na tua Terra.»

402Todos ficavam admirados diante daquele menino, de aspecto tão diferente do deles e que falava com tanta franqueza.

403As suas estrelas brilhavam tanto que faziam tremer a vista dos que as fitavam, e muitos tinham a mão diante dos olhos para não ficarem ofuscados.

404«Já que pedes apenas um abrigo para ti e para a tua família», disse o tuxaua, «já o tens: podes por hoje acomodar-te nesta casa, e amanhã porei todas as coisas no seu lugar.»

405«Bem», disse o menino, «as tuas palavras me agradam. Eu e minha família, nascidos e criados na terra dos Ilapay, temos usos e costumes diferentes dos teus; e como tu gostas de tudo no seu lugar, sei que eu e os meus viveremos juntos segundo os nossos usos e costumes.»

406«E para te mostrar que penso como tu, vou pôr outra vez no mesmo lugar esta pedra que atirei aqui para te avisar da minha chegada.»

407E, pegando na pedra com uma das mãos, arrancou-a do seio da terra e atirou-a sobre a montanha, onde ela foi cair renovando o estrondo que tinham ouvido pouco antes.

408Os presentes viram então como era grande a pedra e ficaram tão apavorados que a maior parte sentiu as pernas dobrarem-se.

409Um menino que mal tinha três pés de altura atirar à distância, por assim dizer, de dois gritos (quase um quilômetro) um rochedo como aquele, que todos eles juntos seriam incapazes de mover, era coisa nunca vista desde que o mundo nasceu.

410Dinari e os seus filhos entraram na casa, e os Bianacas retiraram-se assustados.

411Na casa havia tudo o que era necessário.

412«Mamãe, sabes, amanhã de manhã irei à casa do tuxaua, e ele há de me perguntar como me chamo; tu ainda não me deste um nome, e eu já o escolhi: eu me chamo Pinon (serpente, em tucano), e minha irmã, Meenspuin (fogo das estrelas, em tariana e cubeo).»

413Os habitantes, depois de se terem retirado dali, reuniram-se na casa do tuxaua para saber o que ele pensava daquela gente, filha do céu.

414Uns diziam que era bom permitir que ficassem entre eles, porque de outro modo aquele menino poderia zangar-se e destruir aquela maloca, atirando sobre todas as casas rochedos como aquele que ele tornara a atirar sobre a montanha.

415Outros, que era preciso tratá-los bem para não provocar a ira do menino, porque, se assim não fosse, eles poderiam sentir os efeitos do mal que lhes causassem.

416As mulheres esperavam que aquele menino pudesse fazer alguma coisa em seu benefício e deram também o seu parecer. Para elas, aquele menino que tinha metido tanto medo a todos devia ter bom coração e nunca lhes faria mal. Que ninguém o inquietasse, porque não há ninguém no mundo que, ofendido, não procure vingar-se. E elas não tinham medo nenhum daquele menino, que talvez ainda mamasse.

417«E eu também penso assim», disse o tuxaua.

418«Eu acolho qualquer um que queira viver à minha sombra, e seria feio que eu expulsasse quem quer viver na minha maloca.»

419«Quanto aos temores que tendes, é coisa fácil evitar que ele nos faça mal: que ninguém o ofenda, e viveremos sempre como bons amigos.»

420O sol já estava à altura da junta de um dedo quando Pinon foi à casa do tuxaua, que veio recebê-lo em pessoa.

421«Como passaste a noite na tua casa?»

422«Perfeitamente; só pensei, e penso, por que julgaste necessário tirar os moradores da casa que me deste, o que faz que eu e a minha família não possamos travar amizade com a tua gente. Por isso venho pedir-te, se mereço alguma coisa de ti, que lhe restituas os seus antigos moradores, para que possamos travar amizade com eles. Crê, somos boa gente, e encontrarás em nós pessoas que saberão obedecer às tuas ordens, como verdadeiros filhos da terra dos Jacamy.»

423E as palavras de Pinon fizeram tanto efeito que o tuxaua atendeu logo ao seu pedido e mandou 17 moças solteiras fazer companhia a Dinari e aos seus filhos.

424Pinon, que tinha conseguido sem esforço realizar um dos seus planos, esfregou as mãos de contente.

425E, depois daquela primeira visita ao tuxaua, foi considerado gente muito boa, e tudo o que lhe saía da boca era executado sem hesitação.

426E a lei da terra foi pouco a pouco perdendo o seu rigor, e já se tolerava que os viúvos se casassem quantas vezes pudessem.

427E uma parte do dia já era consagrada ao trabalho; até que os antigos costumes daquela terra mudaram de feição.

428Pinon e Meenspuin cresciam a olhos vistos: em 18 meses alcançaram todo o seu desenvolvimento.

429Pinon, que já era um belo rapaz, mas que ninguém julgava capaz de ofender o pudor das moças solteiras que moravam na sua mesma casa, infringiu as leis dos Bianacas, unindo-se não só às virgens que estavam sob a sua guarda, mas também a todas as viúvas, sem que lhe escapasse nenhuma; e todas ficaram fecundadas.

430O tuxaua soube da infração que Pinon tinha cometido e a princípio ofendeu-se muitíssimo, mas depois acalmou-se, pensando:

431«Na verdade, quando os filhos de Pinon forem homens, toda a gente dos Ilapy não será capaz de vencê-los, e os Bianacas serão os primeiros em valentia.»

432Se a condescendência do tuxaua foi natural ou não, não se sabe; o certo é que Pinon dali em diante teve imitadores.

433Meenspuin, chegando à idade da puberdade, começou a sentir desejos que não compreendia, e ficava tão incomodada com eles que disse à mãe:

434«Mamãe, sofro de um mal tal que me dá um desejo que não sei explicar.»

435«Que é que sentes?»

436«Quando o meu mal começa, é uma comichão, um mal-estar que me dá e não me dá dor, e essa dor que não dói corre-me depois pelo corpo todo, com uma vontade de me morder toda; por fim sinto-me desfalecer e choro. Quando durmo, vejo sempre perto da minha rede rapazes bonitos: ora querem beijar-me, ora querem abraçar-me, e eu não sei fugir.»

437«Conheço o mal que tens, e hoje mesmo te darei um remédio para acalmar as tuas dores.»

438Chegou Pinon, e sua mãe pediu-lhe que fosse ao mato buscar raízes de brany (muirapuama, em nheengatu) para fazer um remédio para a irmã.

439«Qual é a doença dela?»

440«Ela precisa de um marido, e, como não há, quero tratá-la com brany, que tem a propriedade de diminuir tais desejos.»

441«Se mamãe me confiasse o tratamento de Meenspuin, eu iria dar com ela um passeio pela margem do rio, até que o seu mal passasse.»

442«Sempre ouvi o meu filho como se fosse um homem maduro nas coisas do mundo; faze, pois, o que julgares em proveito da tua irmã.»

443«Já que me dás plena liberdade de fazer o que eu julgar bem, partirei amanhã. Tu ficarás aqui esperando a minha volta; mas não te aflijas, porque talvez não seja tão cedo: será quando minha irmã estiver curada.»

444Ao raiar do dia seguinte, Pinon e Meenspuin partiram, seguindo pela margem do rio o curso da água.

445Dinari, que era a imagem da tristeza desde que lhe morrera o marido, depois que os filhos partiram tornou-se ainda mais triste: chorava quase atordoada, sem achar coisa que a consolasse.

446As amantes de Pinon, para distraí-la, contavam-lhe histórias bonitas, que ela não escutava.

447Fugia da presença de todos, e um dia fugiu da maloca, sem que ninguém soubesse que direção tinha tomado.

448As mulheres Bianacas saíram a procurá-la, mas inutilmente; não conseguiram encontrá-la.

449Dinari tinha partido à procura dos filhos, e quando veio a tarde subiu a um grande rochedo, onde o Sol a deixou.

450Quando o Sol voltou, ela já não estava lá: a mãe dos peixes a tinha levado para as profundezas do rio, e ninguém o sabia.

451Pinon, para garantir a virgindade da irmã, levou-a até a Serra das Pedras Brancas, e ali, para chegar às portas do céu, fez um gancho, e por ele subiram até a terra das estrelas; e lá deixou Meenspuin, a quem outros chamam Seucy.

452Esta é a primeira história das loucuras humanas desde que o mundo começou.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do texto italiano de Ermanno Stradelli

Fonte: Bollettino della Società Geografica Italiana, 1890, pp. 659–689 e 798–835 — Internet Archive

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