Une Sacra

Lenda do Jurupari — Capítulo 2

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1Agora vos direi como se povoou a Terra; e esta história está mais perto de nós e nos pertence.

2Pinon, de volta à maloca, de onde estivera ausente mais de uma lua, não encontrou mais a mãe, e não havia quem lhe pudesse dizer para onde tinha ido.

3Percorreu todos os montes e vales dos arredores; foi à terra dos Ilapay, sem encontrar ninguém que lhe desse notícia de ter passado gente por ali.

4E passou uma lua inteira procurando, sem nada encontrar.

5Enquanto andava procurando, nasceram os seus filhos, entre os quais uma linda menina que tinha na testa uma formosa estrela.

6Todas as buscas de Pinon foram vãs; foi então à casa do tuxaua e falou:

7«Tuxaua, é do teu bom coração que depende o resultado do que vou tentar. Hoje faz uma lua que ando procurando minha mãe: desapareceu há muito tempo da tua aldeia, e, como senhor desta terra, tens nisso a tua parte de responsabilidade. Mas eu não te acuso; quero apenas que me ajudes a procurá-la, dando-me para isso uma parte da tua gente; e faze com que amanhã, sem falta, estejam aqui, que eu lhes indicarei a direção que devem seguir».

8E o tuxaua respondeu: «Amanhã ao amanhecer terás a gente de que precisas e farás o que quiseres; mas crê na minha palavra de tuxaua que não sei onde se encontra tua mãe».

9E Pinon disse: «Tu e os teus sois inocentes, eu sei; mas tu, que és o senhor desta terra, tens nisso a tua parte de responsabilidade».

10Naquela noite Pinon fecundou mais uma vez todas as suas mulheres, que tinham aumentado com algumas moças solteiras; e quando as primeiras alegrias do dia iam aparecendo pelas raízes do céu, Pinon estava diante do tuxaua e desenhava no chão uma figura assim [um círculo no qual estão traçados quatro diâmetros, inclinados entre si sucessivamente num ângulo de 45°] e dava a sua explicação.

11«Nós estamos no meio da Terra, como nos ensina o sol, que, quando está no meio do céu, nos esconde a sombra no corpo. Em cada direção destas linhas deve seguir a conta de uma mão de casados (5 casais), que só voltarão quando tiverem encontrado minha mãe ou tiverem dado com as raízes do céu. Eu tomo para mim todos estes espaços sem linhas, que percorrerei até vos encontrar a todos para voltarmos juntos. Mas, em verdade, sabei que quem voltar sem que estas coisas se tenham cumprido, eu o despedaçarei contra as pedras da montanha».

12Naquele dia, cada um, cheio de tristeza, seguiu o caminho que lhe fora indicado, e Pinon, levando também nos braços a sua linda filha, seguiu por um dos espaços que tinha deixado em branco, reservando-o para si, abandonando assim as suas mulheres, que choravam; muitas correram atrás dele e quiseram demovê-lo da sua resolução, mas não conseguiram. O seu amor de filho era maior do que o seu amor por elas.

13Passou um ano, dois, dez, muitos, sem que houvesse notícias nem daquela gente que tinha partido, nem de Pinon.

14E nesse tempo o tuxaua dos Bianacas morreu, deixando em seu lugar um filho de Pinon chamado Diatanomion (pato-mudo, em tucano).

15Esse novo chefe resolveu mandar mais gente em busca da primeira; mas nunca mais teve notícias deles, o que o fez perder a coragem; porém Pinon era o amor das mulheres, e organizaram-se novas expedições, compostas só de mulheres, de que tomaram parte todas as moças solteiras da terra.

16Partiram com a primeira luz do dia, mas não foram tristes, como tinham partido todas as outras expedições, e sim entre gritos e cantos que se repetiam ao longe.

17A Diatonomion sucederam outros tuxauas; mas todos ignoravam que aquelas caravanas se tinham transformado em populosas malocas.

18Pinon, depois de ter partido daquela terra, foi direto à terra das estrelas e deixou lá a sua linda filha, a quem tinha dado o nome de Jacy-tatá.

19Quando voltou à terra, correu o mundo inteiro, encontrando por toda parte na sua passagem aquela gente que, mandada por ele em busca de sua mãe, Dinari, já se tinha transformado em povos numerosos; e por toda parte deixou filhos, mas ninguém reconheceu nele o forte Pinon, filho da terra dos Ilapay.

20Foi nesse tempo que apareceu na terra o primeiro pajé, e foi na maloca do Cudiacury; e logo que Pinon soube que existia esse homem que via todas as coisas através da própria imaginação, dirigiu-se para lá. Quando o encontrou, falou-lhe assim:

21«Filho das nuvens, venho perguntar-te onde está minha mãe, que há muito tempo se perdeu na terra dos Bianacas».

22«Eu te direi», disse o pajé, «mas é preciso que eu saiba o seu nome para chamar a sua sombra».

23«Chamava-se Dinari».

24E o pajé pôs imediatamente no chão o seu matiry, tirou dele o cigarro de tauari e a cabacinha de caraiuru da lua; acendeu o cigarro e aspirou uma grande pitada de caraiuru da lua.

25Gesticulava, gritava, cantava, sempre soltando grandes nuvens de fumaça. De repente rompeu numa grande gargalhada e disse:

26«Só te falta saber adivinhar; tu és leve como um pássaro do ar, forte como os raios (estouros) do céu. Eu te ensinarei o que te falta, e tu me ajudarás a ensinar aos fortes de coração o segredo do pajé».

27«Estou pronto, mas quero primeiro saber que fim teve minha mãe».

28«Já vais sabê-lo. Oh! Como é bela tua mãe! Mas está longe, muito longe daqui, já transformada em peixe».

29«Em que parte da Terra está ela?»

30«Do lado do poente, no alto de uma grande montanha, num lago bem perto do céu, aonde a levou a mãe dos peixes e a transformou em pirarara (pirá: peixe, arara: arara, em nheengatu)».

31«Posso tirá-la de lá?»

32«Podes, mas é preciso que aprendas comigo o segredo do pajé, fumes do meu tabaco, aspires do meu pó e jejues uma lua inteira; e então conseguirás tudo».

33«Já te disse que estou pronto a obedecer-te em tudo, porque quero que me facilites os meios de recuperar minha mãe».

34«Em verdade, todos esses pajés que hoje existem», continuou Jurupari, «foram todos discípulos de Pinon, e ele foi o segundo pajé do mundo. O último dia que ele passou na terra foi aquele em que fecundou as vossas mães, de quem também eu descendo, e em que libertou sua mãe e a levou para o céu, onde todos vivem. E agora que conheceis a nossa história, peço a todos que me ajudeis de boa vontade a mudar os usos e os costumes dos habitantes da terra segundo a nossa lei.

35Logo que veio o dia, Jurupari foi com os seus até onde estava a paxiúba nascida de Ualri, e à sua sombra contou a história da sua triste origem.

36«Não quero que ninguém saiba que estamos aqui; é preciso, pois, derrubar este osso de Ualri sem barulho. Qual de vós sobe ao topo para lhe cortar as folhas?»

37Ninguém respondeu, e, vendo que todos tinham medo, tirou do seu matiry a panelinha, pôs dentro um pedacinho de xicantá e levou-a ao fogo.

38Logo, com a primeira fervura, saíram dela papagaios, araras, periquitos e outras aves roedoras, que foram pousar nas folhas da palmeira e num instante as cortaram.

39E os do séquito de Jurupari, que tinham parado na margem do rio para beber, viram que das folhas que caíam na água nasciam peixes armados de dentes agudíssimos, cujas barbatanas se pareciam com aquelas folhas (tarihyra).

40«O primeiro trabalho está feito; agora pescai-me no igarapé um peixe de dentes grandes e trazei-mo, para que eu possa derrubar este osso».

41Eles foram e lhe trouxeram uma traíra, e ele lhe arrancou uma queixada e com ela serrou a paxiúba, que caiu no chão; mas tão devagar que mal se ouviu, como o voo dos pássaros.

42Jurupari mediu e cortou os instrumentos, e, quando teve o número necessário, atirou na água o resto do tronco da palmeira, que foi engolido pelas águas.

43«Companheiros, levai logo estes instrumentos para casa, porque vêm para cá não só os que foram a causa da morte de Ualri, mas também as sombras das cinzas de Ualri, que querem apoderar-se dos nossos instrumentos».

44O que Jurupari disse foi feito com a rapidez de uma flecha.

45Quando Jurupari chegou em casa, atirou na água um grão de sal de caruru (alga que nasce nas cachoeiras), que tirou do seu matiry, e logo trovões, raios e uma chuva de meter medo caíram sobre a terra; e assim Jurupari livrou-se de ter de combater as sombras das cinzas de Ualri.

46Naquela mesma noite, no meio da horrenda tempestade, ele transportou a Jurupari-oca para as margens do Cayary, perto da cachoeira de Nusque-Buscà (casa do peixe, em carapanã-tapuia), que hoje se chama cachoeira de Jurupari.

47Os Tenuiana, naquela manhã, levantaram-se tarde, porque pensavam que o barulho da cachoeira fosse o resto da tempestade.

48Jurupari falou-lhes assim: «Companheiros, já estamos muito longe das sombras das cinzas de Ualri e das mulheres que sabem enganar os homens; mas isso não quer dizer que já estejais livres das seduções.

49«Estamos perto de outra terra, onde as mulheres são bonitas e não ficam atrás daquelas em astúcia e curiosidade.

50«Agora vou acabar de vos dizer as últimas coisas acerca da nossa lei; mas antes quero que conheçais o nome de cada instrumento e por que se chama assim. Sentai-vos à minha volta e ouvi: este é o instrumento chefe, tem a minha altura e chama-se ualri, cuja história todos conheceis.

51«Este, que tem o comprimento das minhas pernas, chama-se yasmecerenè (onça, em tariana), porque é o único animal que se parece com o homem no valor e com a mulher nos enganos.

52«Este, da largura do meu peito, chama-se bêdêbo (pato-mudo, em cabéna), cuja origem foi a curiosidade.

53«Este, comprido como o meu braço, chama-se tintabri (pavãozinho-do-pará, em uaupés). Esta ave nasceu de uma mulher que era muito bonita, mas que, por mais bonita que fosse, se pintava com urucum para ver se assim superava as outras em beleza; e por isso o tuxaua dos cujubins (pelopis) a transformou em pavãozinho-do-pará.

54«Este, do comprimento da minha coxa, chama-se mocino (grilo, em arapaço), representa a sombra de um homem-mulher que, não querendo amar ninguém, viveu sempre escondido, cantando só de noite, e foi transformado em grilo pela própria mãe da noite.

55«Este, comprido de duas braças, chama-se arandi (arara, em pira-tapuia), representa uma mulher bonita, mas sem atrativos nem gosto pelos homens, e por isso foi transformada em arara pelo pai dos iauty.

56«Este, que tem dois pés de comprimento, chama-se dasmae (rola, em aroaquy), e representa o coração de uma moça que durante a sua curta existência se alimentava somente de frutas silvestres e que, depois de morta, foi transformada em rola pelo próprio pai, que era pajé.

57«Este, largo como três das minhas mãos, chama-se piron (águia, no dialeto dos Jurupixuna) e representa o pajé, porque foi esta ave que lhe deu a pedra em que ele aprendeu a ver todas as coisas através da sua imaginação, com o tabaco e o caraiuru.

58. . . . . . . . . . . . . . .

59«Este, do comprimento da minha canela, chama-se dianari, e todos já conhecem a sua história (pássaro negro, em uynamby-tapuia).

60«Este, que vai do meu joelho à cabeça, chama-se tity (paca, em baníua), representa o ladrão e é a imagem de uma velha que só vivia do alheio e foi transformada em paca pelo acuty-puru (esquilo, em nheengatu).

61«Este, que tem duas mãos de comprimento, chama-se ilapay; este outro, do comprimento da minha espinha dorsal, chama-se mingo (traíra, em cueuanna); de ambos sabeis a origem.

62«Este, que vai do meu joelho ao queixo, chama-se peripinacudri (tenten, em uaupés: passarinho cantor, todo negro, da cabeça às dragonas amarelas), representa um belo rapaz desejado por todas as mulheres, mas que não se deu a nenhuma, de modo que, irritadas, o atiraram na cachoeira depois de lhe fazerem um encantamento.

63«Este, que mede a metade do meu corpo, chama-se buê (cutia, em cubeo), representa aquela velha medrosa que, esperando a todo momento que o céu desabasse sobre a terra, nunca plantou uma única semente, vivendo do que os outros plantavam, e por isso foi transformada em cutia pelo macaco da noite.

64«E este último, que me vai dos ombros ao umbigo, chama-se canaroarro (saúva, em manau), representa aquele velho que, tendo visto em sonho a fome comendo a terra, trabalhava dia e noite amontoando provisões dentro de casa para ter o que comer quando a fome viesse; foi transformado em formiga pelo tatu (pangolim), para que fosse comido.

65«E agora que conheceis o nome de todos os instrumentos, passo a dar a cada um a voz que deve ter».

66E Jurupari tirou do matiry um pouco de cera, passando-a sobre a boca de cada um dos instrumentos, e quando o último ficou pronto ordenou que os levassem para fora da sala e os pusessem de pé, mas que ninguém os tocasse até o momento da festa.

67E quando acabaram, chamou-os outra vez à sua volta, e quando estavam todos, falou assim:

68«É proibido ao tuxaua de uma tribo que seja casado com uma mulher estéril continuar a viver com ela sem tomar uma ou mais mulheres, conforme o caso, até que tenha sucessores. Aquele que não quiser conformar-se com isto seja substituído pelo mais forte dos guerreiros da tribo.

69«Ninguém procure seduzir a mulher alheia, sob pena de morte, que atingirá tanto o homem como a mulher.

70«Nenhuma donzela chegada ao tempo de ser violada pela lua (à puberdade) conserve inteiros os seus cabelos, sob pena de não se casar antes de ter cabelos brancos.

71«Quando a mulher der à luz, o marido jejue pelo espaço de uma lua, para que o filho possa adquirir as forças que o pai perder. Durante este jejum o homem não deverá comer senão saúvas, camarões, beiju e pimentas.

72«Era isto o que me restava dizer sobre os costumes que devem regular a família; cada um os faça conhecer e observar na sua casa.

73«E agora, quando ouvirdes o sinal, começará a nossa festa; preparai, pois, a casa e preparai as nossas bebidas, que a hora já está para chegar». Dadas estas ordens, Jurupari desapareceu do meio dos seus companheiros.

74Os jovens, que desejavam ver concluída a festa de Jurupari, puseram-se logo a preparar a casa, mostrando no rosto a alegria do coração.

75Os velhos continuavam frios e tristes, sem que aqueles preparativos tivessem o poder de os alegrar.

76Quando o sol daquele dia desapareceu, os instrumentos começaram a tocar, sem que ninguém os tocasse, aquela mesma música festiva que só os Nunuiba tinham ouvido quando levavam Ualri ao suplício.

77Nesse momento entrou Jurupari e disse: «Irmãos e companheiros, chegou a hora da festa. Temos três dias e três noites para aprender a música e o canto de Jurupari. Os mais jovens peguem os instrumentos, e vamos formar a grande roda».

78E, tomando o instrumento chefe, pôs-se no meio da sala, e logo se ouviram ecoar sons muito longe.

79E ouviram-nos as onças e as cobras, e os próprios peixes vieram à flor da água para ouvir a música de Jurupari.

80Quando a noite chegou ao meio, Jurupari deixou de tocar e ordenou que os outros continuassem, e naquele mesmo momento ouviram-se os gritos dos animais que estavam em volta da casa.

81E ele disse: «Até os animais estão ouvindo a nossa música.»

82Beberam o caxiri e o capy, e a música recomeçou com novos tocadores, e no meio da festa ouvia-se o estalar do adaby (chicote de Jurupari, em nheengatu).

83Quando o sol avermelhava as raízes do céu, Jurupari tornou a guardar o instrumento, para que pudessem entrar novos tocadores.

84Então se ouviram em volta da casa risadas de gente.

85E Jurupari correu à porta e viu uma porção de gente que vinha na sua direção.

86«Companheiros, escondei os nossos instrumentos, que vêm aí os habitantes desta terra».

87E os instrumentos foram escondidos num pequeno quarto feito para esse fim, e a porta dele foi tapada com pedra.

88Quando o tuxaua dos que vinham chegou à porta, Jurupari foi em pessoa recebê-lo e logo o reconheceu, porque trazia ao pescoço a itá-tuxaua.

89«Ouvi da minha maloca a tua música e apressei-me a vir dançar contigo, mesmo sem ser convidado. Desejo conhecer-te, saber de que terra vens e que desejas da minha».

90E Jurupari respondeu:

91«Eu sou o tuxaua dos Tenuiana, e a minha terra é a que está mais perto do sol. Devo mudar os usos e os costumes de todos os habitantes do mundo, e vim aqui para vos deixar as leis a que todos hão de obedecer».

92«Faze-me conhecer as tuas leis e, se forem boas, eu as obedecerei.»

93E enquanto os dois chefes conversavam, as mulheres entraram na casa, bisbilhotando por toda parte, até no dormitório, e perguntavam:

94«Então, de onde sois vós?»

95«Somos Tenuiana».

96«Certamente viestes à nossa terra em busca de mulheres para casar; nós somos solteiras e teríamos grande prazer em que vós quisésseis casar conosco. É muito longe a terra de onde vindes?»

97«Longe».

98«Se vos casardes conosco, iremos viver lá. Vamos dançar?»

99«Estamos cansados».

100«Então tocai alguma coisa para nos dar prazer».

101«Não podemos, porque precisamos descansar».

102E enquanto elas falavam, provocavam-nos de todas as maneiras; mas os Tenuiana permaneciam frios diante daqueles belos corpos que nenhum véu escondia; só o poder da nova lei os podia tornar tão frios.

103Chegada a tarde, quando os visitantes se retiraram, aquelas mulheres levavam consigo o coração daqueles rapazes que as tinham rejeitado para obedecer à lei de Jurupari.

104E Jurupari disse:

105«Como fomos interrompidos nas nossas festas pelo tuxaua Arianda e pela sua tribo, elas ficam adiadas para mais tarde, e então ele também tomará parte nelas. Prometi visitá-lo amanhã com todos vós, e antes que volte o sol nos poremos a caminho para lá.

106«Podereis ser amáveis com aquelas moças e gozar com elas, mas ai daquele que revelar a menor parte do nosso segredo.

107«E os que não se julgarem bastante fortes para resistir às seduções, que fiquem; mas os que forem lembrem-se de que, mesmo em casos de amor, é melhor mentir do que revelar os nossos segredos».

108Os quatro velhos não dormiram toda aquela noite, preparando os seus ornamentos e banhando-se na cachoeira para se mostrarem o mais vantajosamente possível às vizinhas.

109O sol ainda não se fazia belo nas raízes do céu e Jurupari partia com os companheiros, e todos notavam que os velhos estavam muito contentes.

110Quando venceram uma subida, avistaram a maloca, cujos habitantes passeavam diante das casas enfeitados de penas.

111Arianda veio com as filhas receber Jurupari até o começo do caminho e levou-o à casa onde, à espera dos visitantes, se tinham disposto antes comidas em grande quantidade.

112E Arianda, ao encontrar Jurupari, disse: «Fica sabendo que tive contigo um belo sonho».

113«Não duvido; tu me esperavas. E que sonho foi o teu?»

114«Só a ti o direi».

115«Seja: falaremos a sós, pois também eu tenho de te dizer uma coisa em segredo e ensinar-te o que deves fazer».

116«Faremos isso depois que tu e a tua gente tiverdes comido; toma, pois, lugar na esteira e chama os teus companheiros para que comam».

117E assim se fez, e cada visitante tinha ao seu lado uma moça bonita, e ao lado de Jurupari estava a filha de Arianda, que o servia e lhe deitava o caxiri.

118Pouco contentes se mostravam as moças que estavam ao lado dos velhos; enquanto as que estavam ao lado dos jovens mostravam nos gestos e na voz todo o seu contentamento, e antes que acabasse o banquete já corria mais de um abraço e de um beijo furtivo.

119E os velhos, que viam todas aquelas coisas, ficavam frios até os ossos.

120Quando acabaram de comer, Arianda e Jurupari foram a uma casa situada longe do povoado, onde iam tratar das novas leis; mas, antes de partir, Arianda disse que podiam dançar e beber três noites e três dias, que tanto durariam as festas em honra de Jurupari.

121Todas estas coisas aconteciam na véspera do dia em que os homens deviam sair da maloca para acompanhar ao alto da montanha os pajés, que com os seus remédios iam espantar a morte, que queria vir matar a lua.

122Com isso os Tenuiana ficaram senhores de gozar livremente as belas mulheres Arianda.

123Os usos da terra queriam que as mulheres escolhessem os seus companheiros; e assim os jovens foram logo levados para o meio da sala, onde duas jovens tocadoras esperavam que os pares estivessem formados para começar a dança.

124Embora muitas moças ficassem sem companheiro, nenhuma quis dançar com os velhos, que ficavam tristes, sentados num canto.

125E o capy e o caxiri eram distribuídos em abundância, e pouco a pouco os desejos foram se acendendo, e à noite as mulheres Arianda já disputavam os visitantes, e os beijos e os abraços provocantes eram cada vez mais frequentes.

126Veio a noite, e, como não havia resina para iluminar a sala da festa, a dança continuou no escuro até o amanhecer, e ninguém soube o que aconteceu entre os dançarinos; só Jurupari e Arianda viram tudo.

127Arianda, quando chegou à casa com Jurupari, falou assim:

128«Na verdade, a tua visita me dá muito prazer, porque a terra mais próxima de mim fica a duas luas de caminho, e eu não posso visitá-la com frequência. Mais de uma vez eu quis deixar esta terra para me aproximar de outra terra habitada, mas a minha gente não quer abandonar esta terra que a viu nascer. Se o meu sonho se realizar, serei teu companheiro em todas as lutas da vida».

129«Que sonho é o teu?»

130«Sonhei que tu tinhas vindo à minha maloca para me pedir em casamento minha filha Curàn, e que isso aconteceu no dia seguinte à tua chegada. É raro que os meus sonhos não sejam verdadeiros; espero, pois, ver realizar-se o que a mãe dos sonhos me anunciou».

131«Arianda, em verdade te digo: enquanto não tiver realizado a grande reforma que devo cumprir na terra, não tomarei mulher. Tua filha Curàn é muito bonita, e, se ela quiser escolher algum dos meus companheiros, eu aceito e o farei senhor de uma grande tribo».

132«Quero aprender o que ainda não sei e ser teu companheiro e acompanhar-te em todas as lutas, e por isso acho boas as tuas palavras».

133«Como a noite já está sobre nós», continuou Jurupari, «vamos assistir à festa; amanhã te direi o que temos de fazer».

134«Então vamos descer à casa da festa», disse Arianda, levantando-se da rede.

135«Não é preciso; poderemos ver tudo sem sair das nossas redes; lá nós atrapalharíamos».

136E Jurupari pôs a mão no matiry e tirou dele duas pedras coloridas e lustrosas, e deu uma a Arianda, dizendo: «Aqui tens um pedaço da sombra do céu, onde verás tudo o que acontece na festa».

137E logo que Arianda a teve e pôs os olhos nela, viu reproduzir-se diante dos seus olhos a cena com tanta fidelidade que se reconheciam facilmente todas as pessoas.

138Viu que as velhas, que durante o dia tinham assistido de longe à dança, agora tomavam parte nela, procurando aproveitar o mais que podiam o engano que a escuridão e as bebidas podiam produzir.

139Também os velhos, depois de terem sido deixados de lado o dia inteiro, eram procurados pelas jovens Arianda, que eles se esforçavam por satisfazer como melhor podiam. Arianda e Jurupari riam dos enganos e dos esforços dos outros e das suas hábeis substituições.

140Quando chegou o dia, os dois chefes puseram de lado as sombras do céu e continuaram a conversar sobre as coisas da nova lei. Entretanto a festa continuava.

141As velhas faladeiras foram contar a Curàn o que tinha acontecido com elas durante a noite, e Curàn, que era muito curiosa, quis ver o que lhe tinham contado.

142Quando chegou a segunda noite, Arianda e Jurupari tornaram a pegar as sombras do céu e começaram a assistir à festa.

143E viram coisas ainda piores do que na noite anterior. Para cada Tenuiana havia cinco mulheres Arianda. E Jurupari se indignava, e Arianda calava; mas era aquela a primeira vez que via tais coisas na sua maloca. Veio a meia-noite, e Arianda viu sua filha Curàn saltar da rede e caminhar até a porta da casa da festa, onde um Tenuiana a tomou e a deflorou. E Arianda, nesse ponto, gemeu; Jurupari, que o ouviu, perguntou:

144«Que tens?»

145«A minha desgraça diante dos meus olhos».

146«Se a minha lei já vigorasse, isto não poderia ter acontecido; mas quem tocou tua filha há de se casar com ela, e tudo ficará reparado».

147E Arianda, gemendo pelo que tinha visto, entregou a sombra do céu a Jurupari e disse:

148«Aqui tens a tua pedra, não me serve mais para nada, porque não quero ver mais nada. Vou dormir para tentar esquecer a minha desgraça; e quando tiveres acabado de ver, acorda-me, que continuaremos a conversar».

149E Jurupari ficou só e continuou a ver, mas tudo estava mais feio.

150O curàmpa (pequena coruja) já cantava à beira do caminho, e voltaram os salvadores da lua, enquanto a festa continuava sempre desenfreada; e Jurupari, para não ver, escondeu no seu matiry a sombra do céu.

151Acordou Arianda, e continuaram a conversar sobre as coisas futuras.

152Quando nasceu o sol do quarto dia, os dois tuxauas voltaram à maloca, e logo se notou em Arianda uma profunda tristeza e em Jurupari alguma coisa de terrível e ameaçador.

153«Companheiros», disse Jurupari, «acomodai-vos e conversemos».

154«Amanhã ouvireis de mim verdades amargas: abusastes demais da liberdade que vos dei. Mas não falemos disso agora; ide primeiro recuperar com o descanso as forças que perdestes».

155No dia seguinte Jurupari voltou a falar assim: «Infelizmente tenho de vos dizer verdades amargas, já que vós me obrigais a isso.

156«Eu nunca teria pensado que houvesse gente tão má como vós.

157«Que um homem se aproveite da fraqueza da mulher ainda é natural; mas que um satisfaça cinco é coisa nova, que só se viu praticada pelos reformadores na terra de Arianda.

158«Se amanhã as outras tribos souberem que os habitantes do Tenuí são gente má, que nada respeita, como poderão crer que são eles que devem reformar os usos e os costumes de toda a terra?

159«Se isto se repetir, eu vos abandonarei e irei procurar outro povo para educá-lo, e ele não poderá ser senão melhor do que vós.

160«Abusastes de tal modo da liberdade que vos dei que a dor me cresce no coração e o enche de ira; e das vossas mãos não escapou nem mesmo Curàn, a filha de Arianda.

161«Quem de vós deflorou Curàn? Ninguém? Quem quer que tenha sido esconde-se inutilmente. Eu vi tudo o que aconteceu, e Arianda também viu. E há no seio de Curàn um novo ser, que verá o sol como nós; e por isso prometi que aquele que a violou repararia o mal casando-se com ela. Não posso deixar perder a minha palavra verdadeira. Quem foi, que se apresente».

162E como ninguém se apresentava, Jurupari tirou do matiry as sombras do céu, onde estava pintado tudo o que tinha acontecido, e, mostrando-as à sua gente, disse: «Aqui está pintada Curàn, sofrendo o seu mal, e este é quem lho faz. Quem é?»

163E o rapaz que reconheceu a própria figura baixou a cabeça envergonhado.

164«Fui eu, tuxaua», disse Caminda; «mas não teria pensado que me tivesse cabido uma moça tão gentil, porque não pude ver a sua beleza nas sombras da noite».

165«E serás tu mesmo quem se casará com Curàn, porque eu já o prometi a seu pai: amanhã será o casamento, e depois terminaremos as nossas festas.

166«Mas, se os jovens foram repreensíveis, não o foram menos os velhos, que se esqueceram dos próprios anos e quiseram satisfazer as mulheres quando já não o podiam.

167«Amanhã assistiremos ao casamento de Caminda; preparai hoje todos os vossos ornamentos, para que, ao aparecerem as primeiras alegrias do céu, partamos para a maloca de Arianda».

168Quando o oriente avermelhava, Jurupari com a sua gente dirigiu-se à maloca de Arianda, onde a música já anunciava a festa próxima, e os habitantes, enfeitados de penas, estavam reunidos diante da casa da festa.

169Ao chegar, Jurupari disse: «Companheiros, esta noite vai casar-se o nosso parente Caminda com a bela Curàn. Este casamento vem assegurar-nos o concurso de todos estes jovens na reforma que devemos fazer nesta terra.

170«Mas sabei que não quero ter de reparar mais nada deste modo».

171Acabando de falar, Arianda e Jurupari foram à casa fora do povoado para falar das festas futuras, e os Tenuiana ficaram na casa da dança.

172E os velhos, que tinham sido tão severamente repreendidos por Jurupari, ficavam cautelosos e calados, sem sequer se atreverem a olhar para as mulheres Arianda.

173O dia era de festa, e as mulheres serviam aos Tenuiana as comidas e as bebidas costumeiras, e eles comiam e bebiam, porque é falta recusar, de modo que ao entardecer os Tenuiana e os Arianda já estavam quase bêbados.

174As mulheres tentavam aproveitar-se desse estado para fazer deles o que queriam, mas velhos e jovens resistiam, lembrando-se das palavras de Jurupari.

175Veio a noite, e a música entrou na casa, precedendo os noivos e os dois tuxauas, que os outros seguiam; e formou-se a grande roda, e dentro dela a roda dos noivos, e começou a música.

176Quando a roda dos noivos girava para a direita, os outros seguiam para a esquerda, ou ao contrário; e continuaram bebendo e dançando até a meia-noite. Então os noivos, já quase bêbados, foram levados ao quarto nupcial, onde foram deixados sós algum tempo.

177Passado o tempo marcado pelo costume, os noivos voltaram à grande roda, onde receberam de todos a saudação do macuhy.

178Quando o dia raiava, os noivos entraram de novo no quarto nupcial, de onde só deviam sair à meia-noite seguinte para terminar o casamento.

179Arianda e Jurupari voltaram à casa fora do povoado, e Arianda pediu a Jurupari que não tirasse as sombras do céu e que desse toda a liberdade à sua gente.

180«Se assim queres, vai tu mesmo dá-la».

181E Arianda foi fazê-lo, mas, quando chegou perto da casa da festa, viu que ia fazer uma coisa inútil e voltou atrás.

182Quando foi meia-noite, os tuxauas voltaram, e os noivos, saindo do quarto nupcial, puseram-se no meio da grande roda, onde receberam de cada um dos presentes uma chicotada.

183E quando Caminda e Curàn receberam a última chicotada com o cipó sobre o qual o pajé tinha soprado, voltaram ao quarto, de onde só deviam sair ao meio-dia seguinte para assistir ao grande banquete.

184Os chefes retiraram-se, e a festa continuou.

185Quando chegou a hora do grande banquete, os noivos receberam das mãos dos tuxauas as suas coroas de penas e, assim enfeitados, foram ao banquete, a que todos assistiram.

186E assim foram casados Caminda e Curàn.

187No dia seguinte, Jurupari e a sua gente voltaram para a sua casa, para onde também voltou Caminda, que se despediu da mulher por três dias.

188Os dois tuxauas tinham combinado que a festa de Jurupari devia começar naquele mesmo dia e que Arianda mandaria as mulheres pescar camarões por três dias no igarapé da Mycura (espécie de sariguê).

189Curàn foi a única que não foi: estava, disse, doente.

190Naquele mesmo dia Arianda partiu com a sua gente para a Jurupari-oca, onde, logo que veio a noite, começou a festa.

191Quando a noite chegou ao meio, Jurupari pôs de lado os instrumentos e disse todos os pontos da sua lei, que deve regular os usos e costumes de toda a terra.

192E quando acabou, disse: «Agora que já conheceis tudo o que deveis conhecer, ensino-vos o canto de Jurupari, que só será ensinado aos jovens quando forem admitidos pela primeira vez na festa dos homens e souberem guardar segredo.»

193E disse a Arianda: «Deixa o teu instrumento e acompanha o canto, e contigo todos os que não têm instrumento acompanhem o canto».

194Curàn, que o marido e o pai pensaram que ficasse na maloca, logo que os seus saíram, saiu também, seguiu-os de longe até a Jurupari-oca e, do alto de uma pedra que ficava perto deles, quando veio a noite, viu tudo o que acontecia, ouviu a lei e aprendeu a música e o canto de Jurupari.

195E quando conheceu todos os segredos, partiu e voltou à maloca antes do dia, tendo formado no coração um desejo que prometeu a si mesma cumprir.

196As festas terminaram no terceiro dia, e Jurupari despediu-se de Arianda. Quando os Tenuiana ficaram sós, Jurupari disse:

197«Sabeis que ainda tenho de cumprir uma promessa na terra do Tenui, e os que têm a sua mãe perto da minha voltarão lá comigo, porque devemos cumpri-la juntos.

198«Os outros podem voltar ou ficar, à vontade, pois pouco me resta ensinar; e os que vierem comigo ficarão obrigados a ensinar depois aos outros o que ainda falta.

199«Partiremos quando a lua aparecer».

200Logo que a lua apareceu, Jurupari ordenou aos seus companheiros que se sentassem na esteira de uaruman; então partiram, e quando chegaram, de madrugada, à maloca, não encontraram ninguém.

201Só encontraram em todas as casas ossos de crianças, e na de Jurupari um quarto cheio de cabelos de mulheres.

202Os companheiros de Jurupari perguntaram: «Que significa isto?»

203«Depois de cumprirmos a nossa promessa contarei o que aconteceu: quero ter o coração vazio de cólera para poder chorar.

204«Hoje é a noite das maldades da lua; e, antes que ela apareça, queimai todos os ossos que estão nas casas e trazei-me as suas cinzas para as bebermos no caxiri.

205«Eu vou fazer as nossas vestes, para que as nossas mães não nos reconheçam quando estivermos chorando perto delas, com os cabelos que as mulheres nos deixaram; e farei os dois instrumentos que devem chorar conosco e que serão tocados por mim e por Caryda, a quem escolhi para me acompanhar por toda a terra.

206«Quando a lua estiver comovendo as mulheres, vinde aqui para preparar as nossas bebidas e para subir ao cume da montanha».

207Assim se fez; e, depois de reduzirem os ossos a cinzas, misturaram-nas com o caxiri, e quando tudo estava pronto Jurupari disse:

208«Chegou a hora de cumprir a nossa promessa: bebamos as cinzas dos nossos parentes, para que não se percam no seio da terra; e tu, Caryda, toma o teu instrumento; vistamo-nos todos com estas vestes feitas de cabelos, para que as nossas mães não nos reconheçam, e vamos lá onde elas estão, chorar».

209E Jurupari e Caryda, de pé diante das suas mães, tocaram a marcha dos mortos, e os seus companheiros os acompanhavam chorando diante das próprias mães.

210Quando a lua diminuiu as suas maldades, os corpos daquelas mulheres inclinaram-se para a terra até se estenderem nela, e Jurupari disse:

211«Companheiros, a nossa missão está terminada; cada um enterre a sua mãe».

212Jurupari tomou o corpo de sua mãe, voou com ele para a serra de Marubitena e deixou-o ali, dizendo: «Deixo-te nesta montanha para que sejas útil a todos e do teu corpo nasçam plantas preciosas, que sirvam de remédio aos amores infelizes».

213Quando o sol apareceu, tudo era silêncio e tristeza na Serra do Tenui.

214Foi com o sol do terceiro dia que Jurupari deu o sinal para se reunirem.

215«Agora contarei», disse, «o que aconteceu durante a nossa ausência.

216«No dia seguinte à nossa partida para o Aiary, as mulheres procuraram-nos por toda parte, tristes e desesperadas com o nosso desaparecimento.

217«Nenhuma sabia a direção que tínhamos tomado, e reuniram-se todas para tomar uma resolução.

218«Arauyry, moça astuta e cheia de maldade, disse: “Já que os homens fogem de nós sem motivo e sem nos dizer nada, quer dizer que aqui não põem mais os pés; e por isso, para não propagar esta raça de homens sem amor, sem coração, digo que se matem todos os meninos”.

219«E Pesparen acrescentou: “Não só é preciso matar todos os filhos homens destes ingratos, mas cortar os nossos cabelos, que ainda guardam o cheiro dos lábios daqueles traidores, e depositá-los todos na casa de Jurupari; depois procuraremos um novo destino”.

220«Nuré, que tinha mais de um homem, e entre eles Caryda, disse: “Tudo está bem; mas, para que não fique ninguém, levemos conosco também as nossas parentas de pedra e com elas Seucy”.

221«Saén, moça ardente e excessiva, propôs por fim que se pusessem, por meio de uma operação, na impossibilidade de ceder ainda a homem.

222«E tudo foi aprovado; e a primeira coisa que tentaram foi levar as nossas mães, mas não conseguiram; então cortaram os cabelos, que foram depositados aqui, mataram todos os meninos e, cortando os lábios, uniram-nos com resina de uanany, para que se fechassem.

223«E agora elas vão descendo o rio ao acaso, sem outro guia além da correnteza.

224«Sabei agora que os instrumentos que servem para chorar os mortos só devem ser tocados pelo pajé e pelo tuxaua, quando chorardes os parentes e beberdes as suas cinzas».

225E então Jurupari sentiu alguma coisa mexer-se no matiry, pôs a mão dentro e sentiu alguma coisa que lhe feria os dedos:

226«Companheiros, estamos traídos!»

227E, perguntando os companheiros quem os tinha traído, ele tirou do matiry uma das sombras do céu e viu Curàn com todas as mulheres Arianda fazendo o dabucuri e tocando e cantando a música e o canto da festa dos homens. Pegou então outra pedra, em que tudo ficava pintado, e viu Curàn, que do alto da pedra assistia a toda a festa. E, cheio de tristeza, falou assim:

228«Poderá haver algum dia na terra uma mulher realmente ajuizada?

229«Curàn, que todos pensavam ter ficado doente em casa, assistiu a toda a nossa festa. Eu e Caryda partimos já».

230«E nós, que faremos sem ti?»

231«Ide por toda a terra ensinar a lei, a música e o canto de Jurupari».

232«Caryda, segura-te bem nos meus ombros, porque vamos cair na terra dos Arianda».

233E Caryda perguntou: «Que devo fazer quando tivermos chegado?»

234«Tens de te transformar em inseto e entrar no instrumento que Curàn estiver tocando e roer toda a cera que lhe dá a voz».

235E ao mesmo tempo deu-lhe um talismã, para que o pusesse no nariz quando se transformasse em inseto.

236Caminda, ao voltar à maloca, encontrou Curàn já curada.

237Arianda, que era agora o reformador dos velhos usos e costumes da sua terra, ordenou aos pajés que os ensinassem, mas de modo que as mulheres nunca suspeitassem que aquilo era obra de Jurupari.

238Ora, um dia Curàn reuniu todas as mulheres longe da maloca, revelou-lhes o segredo de Jurupari, disse como eram os instrumentos e cantou a música e o canto de Jurupari.

239«E é por isso», concluiu, «que os homens deixaram de fazer a nossa vontade.

240«Para que eles possam crer que nós não sabemos nada, vamos também nós organizar o nosso Jurupari e fazer a nossa festa, que deve ser inaugurada com um dabucuri de tapioca. De hoje em diante devemos reunir-nos aqui todas as tardes para aprender o canto de Jurupari, até que eu possa roubar o instrumento que meu marido escondeu.

241«Esta mesma noite, quando ele sair, eu o seguirei para saber aonde ele vai; e, se eu o descobrir, amanhã mesmo teremos os nossos instrumentos feitos pelo modelo daquele; mas, sobretudo, segredo».

242Os velhos, que eram desprezados pelos seus companheiros, resolveram abandoná-los e juntar-se às Nuibas.

243Logo que veio a noite, recorreram aos seus amuletos e voaram para a terra onde Ualri fora punido; e, quando passaram pelo lugar onde ele fora queimado, foram apedrejados pela sua sombra.

244Naquela mesma noite Curàn, quando Caminda chegou, fingiu dormir.

245E quando Caminda, vendo-a de olhos fechados, saiu de casa, Curàn seguiu-o até onde as águas da cachoeira repousam e onde Caminda tinha escondido o seu instrumento.

246Então, já sabendo o que desejava, voltou para casa. Quando ia entrar, ouviu-se chamar, voltou-se e viu um belo rapaz que lhe fazia sinal como se quisesse falar-lhe.

247Ela o seguiu, e ele a levou a um lugar afastado, onde se ofereceu para fazer os instrumentos, dizendo-lhe que era indispensável roubar o de Caminda, para que ficassem completos.

248E Curàn, fascinada pela beleza do rapaz, nem lhe perguntou quem era; perguntou-lhe só quando o tornaria a ver.

249«Amanhã, no mesmo lugar, para te entregar os instrumentos».

250Quando voltou para a sua rede, adormeceu logo e sonhou a noite inteira com a grande festa em que o tocador principal era o belo rapaz que lhe tinha prometido os instrumentos.

251Vinda a manhã, contou logo às companheiras que tinha como tocador um belo rapaz, que tudo estava pronto e que preparassem os pães de tapioca para o dabucuri, que devia ser no dia seguinte.

252Voltou a noite, e Caminda foi ver o seu instrumento, e Curàn foi encontrar o rapaz, que logo lhe deu os instrumentos iguais aos de Jurupari, faltando só um, e, ao dar-lhos, disse:

253«Aqui está o que te prometi; só falta um instrumento, mas tu sabes onde buscá-lo».

254«Não vens conosco?»

255«A festa é só de mulheres, e não ficaria bem que eu estivesse lá».

256«Ao menos vem beber o caxiri conosco, porque quero que as minhas companheiras te conheçam».

257«Irei com os da tua casa, mas não digas a ninguém que fui eu que te dei os instrumentos».

258«Qual é o teu nome?»

259«Cudeabuma (espírito maligno, em pamary)».

260«E de que lugar és filho?»

261«Da terra das cinzas. Mas vai-te, que o teu marido vem aí. Amanhã, quando o sol estiver a pino, vai buscar o instrumento dele e fazei logo o dabucuri, acompanhado da música e do canto de Jurupari».

262E o rapaz sumiu nas sombras da noite, e Curàn voltou para casa, onde Caminda, voltando mais tarde, a encontrou ainda acordada e pensativa, de modo que lhe perguntou o que tinha.

263«Eu tinha acordado e te procurei na rede, mas não estavas, e pensei que tinhas fugido de mim».

264«Não tenho motivo para fugir de ti; só tinha ido ver a lua nascer, que hoje vem revolver todas as mulheres».

265«Se tens ciúmes da lua, vem para a rede comigo me defender».

266E Caminda deitou-se com sua mulher. Ora, aconteceu que durante a noite Curàn sonhou com Cudeabuma e o chamou, abraçando Caminda, e que este ouviu tudo.

267Quando se levantou de manhã, porém, não disse nada, pensando que fosse a lua que tinha entrado em Curàn, apesar de ele querer impedi-lo.

268Quando o sol chegou ao meio do céu, os Arianda ouviram a música e o canto de Jurupari e correram todos para ver quem vinha tocando, e viram as mulheres que vinham do porto, umas tocando e outras cantando, e todas traziam às costas cestos carregados de tapioca.

269Quando Caminda foi com os seus ver se os seus instrumentos estavam onde os tinham deixado, todos os encontraram no lugar; só Caminda não encontrou o seu.

270Todos estavam imóveis diante daquela grande profanação, e ninguém respondeu a Caminda, que perguntava quem tinha tirado o seu instrumento. Então ele quis atirar-se sobre Curàn para matá-la e executar assim a lei de Jurupari; mas Arianda o impediu e disse:

271«Não creio que o teu instrumento esteja entre os que estão tocando: vai e procura melhor, que hás de encontrá-lo».

272E Caminda voltou à cachoeira e procurou o seu instrumento.

273Naquele instante o instrumento de Curàn começou pouco a pouco a perder a voz, até se calar de todo.

274E no meio das dançarinas levantou-se uma grande fumaça que as fez enlouquecer, e riam sem saber por quê.

275Entre elas estavam Jurupari e Caryda, que logo lhes tiraram os instrumentos das mãos, atirando-os ao fogo.

276Jurupari devolveu a Caminda o instrumento que lhe pertencia e disse-lhe:

277«Nunca confies nas mulheres. Se tivesses feito Curàn ir pescar com as outras, não aconteceria o que estamos vendo.

278«Ela assistiu do alto de uma pedra a toda a festa dos homens e só se retirou de manhã, já conhecendo todos os nossos segredos.

279«Curàn roubou o instrumento de Caminda porque ele não o soube esconder como fizeram os seus companheiros; agora quero saber quem lhe deu os outros, e o saberei, porque nada me é oculto».

280Jurupari tirou do matiry as sombras do céu, e nelas viu figurado Cudeabumà, que ria, e disse:

281«Eis agora estas sombras más sobre a terra, para trazer a ruína das mulheres!»

282«E quem são?»

283«Uacten mascan».

284«As que nasceram das cinzas de Ualri?»

285«Essas mesmas».

286«E como devemos fazer para que estas desgraçadas esqueçam o delito que cometeram?»

287«Destruir os vestígios do seu delito».

288«Mas as sombras de Ualri voltarão a tentá-las».

289«Hão de tentá-las sempre, até que a terra morra. Quando vier a noite, defumai com pimenta todas as casas para fazer fugir as sombras, e atirai no rio os cestos de tapioca e os ornamentos de penas; e amanhã, quando as mulheres acordarem, fazei-lhes uma defumação de xicantá».

290Arianda pediu a Jurupari que ficasse ainda uma lua para ensinar àquelas mulheres o caminho por onde deviam ir.

291«E por que não o fazes tu? Observa e faze observar a minha lei; mas eu me fingirei pajé para todos e ficarei ainda meia lua contigo».

292No dia seguinte foi o próprio Jurupari quem acordou todas as mulheres, que, mal acordadas, queriam agarrá-lo; mas Jurupari escapava-lhes logo.

293Ele, transformado em pajé, reuniu-as todas e falou-lhes assim:

294«Se não fosse a compaixão que me inspirais, eu não quereria prevenir-vos da sentença que pesa sobre vós, provocada pelas vossas loucuras. Na mente do tuxaua já estais condenadas a morrer, porque faltastes às leis do Sol. Daqui a três dias eu vos direi tudo o que deveis fazer para escapar à ira do nosso tuxaua.»

295E muitas disseram: «Por que não no-lo dizes agora?»

296«Para que aprendais a saber esperar e a ter paciência».

297E quando chegou o terceiro dia, Jurupari reuniu-as e disse:

298«Passo agora a dar-vos as normas da vossa conduta.

299«Foi o Sol que as mandou, e chamam-se as leis de Jurupari, a que estão sujeitos homens e mulheres; quem não as cumprir será condenado a morrer.

300«Por isso, se quereis viver em paz sobre a terra, deveis obedecer a estas leis».

301E as mulheres disseram: «Dize-nos essas leis, para que as possamos observar».

302«Aqui as tendes», disse Jurupari:

303«Uma mulher, para ser boa, não deve casar-se senão com um só homem e viver com ele até a morte, e ser-lhe fiel, e não traí-lo por nenhuma razão; não deve desejar saber os segredos dos homens, nem o que acontece entre os outros; não deve desejar nem experimentar o que lhe pareça apetitoso; deve jejuar uma lua inteira até que Jurupari tenha preparado os alimentos que lhe são destinados; não ceder às sombras que nasceram de Ualri e que andam sempre protegidas pela noite.

304«São estas as principais coisas que de hoje em diante devereis observar escrupulosamente para não cairdes outra vez na ira do tuxaua; e as coisas que ainda faltam eu vo-las direi mais tarde».

305E elas lhe prometeram obedecer em tudo, e já não se lembravam do que tinha acontecido.

306Depois disso, Jurupari foi com Arianda e Caryda à casa afastada, e lá deixou o seu disfarce.

307«Já disse às tuas mulheres as principais coisas que têm de saber, e prometi que a cada maldade da lua haveria uma reunião em que os pajés lhes ensinarão as coisas que ainda faltam; agora chama os teus pajés, dize-lhes a obrigação que têm e faze que a cumpram, e tudo correrá pelo melhor.

308«Quando elas se tiverem convencido dos perigos que correm não observando as nossas leis, poderás cumpri-las livremente e fazer as festas dos homens aqui mesmo na maloca, porque elas não quererão expor-se a perder a vida. E se alguma não obedecer, mata-a à vista de todas, para exemplo das companheiras.

309«Caryda te ensinará hoje mesmo a música dos mortos, que deverá ser tocada no dia em que tiveres de chorar os que morreram e quando lhes beberes as cinzas.

310«Toma estes ornamentos e esta máscara, que só usarás nesses dias e que só o tuxaua e o pajé poderão vestir».

311As mulheres, entretanto, nem se atreviam a sair de casa, com medo de fazer alguma coisa de mal.

312Mas Curàn, que era astuta e cheia de audácia, passava dias inteiros na cachoeira, sentada sobre uma pedra, com a cabeça entre as mãos.

313Caminda ia todas as tardes buscá-la para levá-la de volta para casa; mas uma tarde não a encontrou mais ali e, desesperado, reuniu todos os homens da aldeia e pôs-se a procurá-la, mas inutilmente, e até hoje ninguém sabe que destino teve. A maioria, porém, acreditou que a Cobra Grande a tivesse levado para o fundo das águas; e contam até que, desde aquele dia, à meia-noite, no meio da cachoeira de Nusquè-buscà, aparece uma belíssima mulher de cabelos negros, que, depois de cantar a música e o canto de Jurupari, desaparece outra vez nas águas.

314Antes que chegasse a hora da maldade da lua, Caryda foi atacado por dois tananás (grandes grilos que devem o nome ao seu grito, em nheengatu), que se lançavam sobre ele com a força de um curaby (flecha de arremessar com a mão, sempre envenenada, em nheengatu).

315Caryda fugiu para onde estava Jurupari, mas também ali os tananás o perseguiram.

316Então Jurupari, vendo Caryda perseguido, disse assim: «Estamos traídos outra vez». Tirou as sombras do céu e viu dois dos velhos Tenuiana que cantavam e tocavam a música e o canto de Jurupari no meio de mulheres.

317«Caryda, segura-te firme em mim, porque temos de partir».

318E voaram na direção da maloca nunuiba, e com eles voaram também os tananás. Jurupari tentou apanhá-los, mas eles lhe sumiram diante dos olhos.

319E Caryda perguntou: «Aonde vamos?»

320«Punir os dois traidores».

321«Eram eles os dois tananás?»

322«Não, mas foram os donos deles que os mandaram espiar-me».

323«Então eles já estão lá, e os velhos têm tempo de se esconder».

324«E onde poderão esconder-se que eu não o saiba? Escondam-se eles no seio das águas, ou no seio da terra, ou no ar, eu os encontrarei sempre».

325E entretanto passavam sobre o lugar onde antes estivera a Jurupari-oca, e Jurupari perguntou a Caryda:

326«Onde está a tua pussanga?»

327«Aqui está».

328«Dá-ma e toma esta outra, com que perseguirás um dos traidores até matá-lo; e qualquer coisa que quiseres fazer, poderás, se, pondo-a no nariz, guardares no coração a vontade do que queres fazer».

329E Jurupari consultou as sombras do céu e viu os traidores já fugindo, um em forma de anta e o outro em forma de verme, entrando na fenda de uma pedra.

330«Eu vou atrás da anta, e tu atrás deste.» E Jurupari transformou-se logo numa grande onça, seguindo as pegadas da anta com a velocidade de uma flecha, e Caryda transformou-se em tatu e entrou pela fenda da pedra atrás do verme.

331Quando Jurupari chegou ao rio Inambu, a anta já tinha passado para a outra margem, e, como ele não podia molhar o seu matiry, voltou a ser homem e atravessou o rio. Mas, quando também ele chegou ao outro lado, a anta se tinha transformado em cujubim e voava na direção do rio Içana; e ele se transformou logo num pequeno e ligeiro falcão e foi atrás dela.

332Quando chegou à margem do rio, o cujubim se tinha feito uma grande cobra e escondido na água; e Jurupari, que não podia molhar o matiry nem separar-se dele, resolveu apanhar a cobra por meio de um cacuri.

333Para isso fez com uma ilha um dos lados do cacuri e com pedras amontoadas o resto, deixando no meio passagem livre por onde a cobra devia entrar; e, para ser avisado quando ela entrasse, pôs de guarda um acauã.

334Quando tudo estava pronto, Jurupari voltou ao lugar onde estava a cobra e atirou na água uma boa quantidade de pimenta.

335Logo que a cobra sentiu o ardor da pimenta, desceu o rio, e quando já ia entrar no cacuri o acauã deu o sinal, fazendo um grande alarido.

336A cobra ouviu-o e, querendo saber o que era, transformou-se em sapo e veio à superfície da água; então Jurupari atirou-lhe à cabeça um amuleto, que a transformou em pedra.

337Consumada esta vingança, partiu à procura de Caryda; e quando chegou à montanha e viu a abertura que se embrenhava na terra, duvidando da pouca experiência dele, consultou a sombra do céu e viu que o verme já estava no rio Cuduiary, transformado em cigarra. Transformando-se então em diuná (pequeno falcão, mas muito ousado), foi logo para lá e encontrou a cigarra cantando sobre a pedra, e no mesmo instante transformou-a em musgo.

338Voltou então a procurar Caryda, que entretanto tinha entrado quase até o centro da terra para encontrar o verme; e, como não podia ouvi-lo porque estava muito longe, atirou dentro da fenda um pouco de pó, que se transformou logo em formigas, as quais desapareceram dentro da fenda.

339Caryda, mordido pelas formigas, veio para fora, e Jurupari perguntou-lhe onde estava o seu inimigo, e ele respondeu:

340«Creio que as formigas o comeram».

341«Tens certeza da sua morte?»

342«Não tenho, mas suponho».

343«Pois bem, vamos ver se é verdade o que me dizes». E pegou a sombra do céu, mostrou-lhe o velho transformado em musgo e perguntou-lhe: «Por que não recorreste à tua pedra?»

344«Porque não me passou pela cabeça que um verme fosse capaz de enganar um tatu. Mas agora peço-te que me digas como estes dois velhos revelaram às mulheres os nossos segredos.»

345«Todas as mulheres são curiosas, e desde o dia em que levei para longe da nossa casa as mulheres que foram a desgraça de Ualri, elas nunca deixam de investigar o motivo do nosso desaparecimento.

346«Estes dois velhos voltaram à terra de Nunuiba para ensinar a nossa lei, e as mulheres, logo que eles chegaram, puseram-se à volta deles para saber o que queriam; e, como eles eram fracos para resistir, ensinaram-lhes todos os nossos segredos e a música e o canto de Jurupari.

347«Mas depois, receando que eu soubesse de alguma coisa, mandaram os seus amuletos para que os avisassem quando eu me aproximasse; e, se não tivessem sido avisados a tempo, teriam sido castigados do mesmo modo.

348«As mulheres não sabem nada do que aconteceu; pensam só que os velhos se esconderam para não as acompanharem nas festas».

349«E que fazem os dois que ficaram lá?»

350«Ensinam ao tuxaua e aos pajés a música e o canto de Jurupari».

351Jurupari não gostava de saber de antemão o que estava para acontecer; por isso não sabia o que acontecia com os outros dois velhos que tinham ficado entre os Nunuiba.

352As Nunuiba, vendo que os dois velhos não apareciam, foram seduzir com toda sorte de artifícios os dois que ficavam, para que acabassem de lhes ensinar a música e o canto de Jurupari.

353Miuá, a mais perita na arte da doçura, conseguiu que eles cedessem e prometessem todos os segredos de Jurupari e dar-lhes os instrumentos.

354Promessa feita é promessa cumprida; no dia seguinte os velhos acabaram os instrumentos para poderem começar a festa de noite.

355Quando veio a tarde, todas as mulheres da maloca nunuiba estavam reunidas na sala da festa, e os dois velhos começaram a tocar os seus instrumentos com as mulheres, e as que não tinham instrumentos acompanhavam com o canto.

356O tuxaua Nunuiba, com a sua gente, estava vendo a festa e supunha que aquela tal lei de Jurupari fosse uma mentira inventada pelos dois velhos, e assim dizia à sua gente:

357«Não vedes como eles nos queriam enganar com Jurupari? Ontem nos diziam que tudo isso devia ser um segredo para as mulheres, e hoje são eles que o ensinam a elas.

358«Se fosse verdade que o sol mandou Jurupari para nos dar leis, não seriam eles os primeiros a desobedecer-lhes?»

359Mas então o pajé disse: «Em verdade, Jurupari existe, e existem estas leis, e cedo ou tarde também vós o conhecereis; e esses dois não são senão dois violadores das suas leis e hão de pagar bem caro a sua condescendência».

360Ora, na terceira noite, quando a embriaguez já estava diminuindo, os dois velhos lembraram-se do delito que estavam cometendo e imediatamente fugiram da sala e esconderam-se na floresta, porque perceberam que o castigo já vinha se aproximando.

361E Nunuiba e os seus, vendo-os fugir, perguntaram ao pajé: «Por que fogem?»

362«Porque Jurupari vem para castigá-los.»

363Então todos viram uma grande fumaça branca levantar-se no meio da sala, e logo os instrumentos ficaram sem voz, e sem voz ficaram as cantoras, e todos permaneceram na posição em que estavam.

364E as que dançavam continuavam a dançar, e as que tocavam faziam como se tocassem, mas todas ficavam num profundo silêncio.

365Nunuiba perguntou ao pajé: «Que é isto?»

366«O castigo de Jurupari.»

367«E onde está ele?»

368«Na floresta, caçando os traidores».

369E naquele momento ouviram-se grandes risadas de todos os lados, e todos perguntaram:

370«Quem são esses que se riem das nossas desgraças?»

371«Os Uacten-mascan, que estão gozando o castigo que Jurupari dá às nossas mulheres, que causaram a perdição de Ualri. Já não vos lembrais de Ualri, que na fogueira disse que logo seria vingado? Diadue foi a primeira de quem se vingou, e estas, que também foram cúmplices dela, pagam agora.»

372E Nunuiba perguntou ao pajé se não podia remediar tantos males.

373«Nunca me porei contra o filho do Sol. É mais fácil que ele me arremesse contra uma pedra do que eu fazer mal a Jurupari, que é muito mais forte do que eu».

374Entretanto Jurupari e Caryda corriam, transformados em cães, atrás dos fugitivos, que se tinham transformado em cutias; e quando já estavam para alcançá-los, estes se transformaram em pássaros, seguindo pela correnteza do rio.

375«Caryda», gritou Jurupari, «os nossos inimigos já voam como pássaros; voemos também nós atrás deles».

376E ambos voaram, transformados em passarinhos ligeiros; e quando já estavam para alcançá-los, os dois se transformaram em grãos de pedra, de modo que os perderam de vista e foram obrigados a parar sobre uma pedra, onde Jurupari, tirando a sombra do céu, viu que um já corria transformado em veado e o outro se tinha escondido no rio transformado em caranguejo.

377E disse Jurupari: «Tu persegues este; eu perseguirei o veado».

378E Jurupari voou como águia e correu atrás do veado, alcançou-o quando ele chegava ao rio e ali mesmo lhe cravou as garras na carne e o transformou em pedra.

379Entretanto Caryda se tinha atirado na água, transformado em lontra; e o caranguejo, logo que sentiu a lontra, transformou-se numa grande piraíba e veio ao encontro da lontra; e, como esta não teve tempo de se transformar, foi engolida.

380Caryda, já dentro da barriga da piraíba (peixe grande), ria-se da calma com que ela subia o rio. Chegando onde a água dorme ao pé da cachoeira, transformou-se de lontra em porco-espinho, de modo que a pobre piraíba começou a dar saltos desesperados até ir encalhar na areia, onde morreu.

381Então Caryda saiu do ventre da piraíba, rindo por tê-la enganado tão bem; e, vendo Jurupari, que, sentado numa pedra, assistia à morte do último traidor, disse-lhe:

382«Divertiram-te os últimos saltos que dava a piraíba enquanto eu lhe furava o ventre?»

383«Muitíssimo. Onde está a tua pussanga?»

384«Aqui está».

385«Está bem. Agora voltemos para onde deixamos as Nunuiba quase loucas, que a esta hora devem estar meio mortas de sede e de fome. Tu transforma-te num pequeno falcão, e eu me transformarei em maccary; e quando chegarmos à sala da festa iremos pousar no alto da viga mestra».

386Nunuiba e os seus estavam desesperados ao ver o estado lastimável a que tinham ficado reduzidas as suas mulheres.

387Só o pajé estava tranquilo e não respondia às perguntas que lhe faziam, fumando o seu cigarro e aspirando grandes pitadas de caraiuru, e de tempos em tempos olhava para o oriente como se esperasse alguém.

388As risadas que vinham da floresta vizinha, misturadas com assobios, faziam os homens perder ainda mais a cabeça diante daquele triste quadro, e Nunuiba agarrou-se ao pajé e gritou:

389«Por que não vamos matar aquelas sombras que zombam de nós com os seus assobios e as suas risadas?»

390E o pajé respondeu: «Pensas então que as tuas flechas podem atingir alguma daquelas sombras? Já te disse que só Jurupari tem o poder de fazer calar estas sombras, de restituir a razão às mulheres e de ensiná-las a respeitar a sua lei».

391Nesse instante entraram na casa o falcãozinho e o maccary, que foram pousar na viga mestra.

392E os guerreiros que traziam armas cruzaram as flechas para fazer pontaria nos pássaros; mas quando, puxando a mão para o peito, estavam para disparar, ficaram como inertes naquela mesma posição; só se ouvia a sua respiração, e as risadas e os assobios na floresta cessaram.

393Então Jurupari e Caryda desceram de um salto para o meio da sala, e Jurupari falou assim, dirigindo-se ao tuxaua e ao pajé:

394«Tirai os instrumentos e os ornamentos de penas destas mulheres e queimai tudo».

395E eles obedeceram, e, quando isso foi feito, ele continuou:

396«Levai-as agora a comer e depois voltai para me ouvir, logo que as tiverdes deixado a dormir nas suas redes».

397E quando o fizeram e voltaram, Jurupari continuou:

398«Agora que estamos sós, deveis ouvir o que vos resta fazer e que leis tendes de cumprir de hoje em diante sobre a terra.

399«Tu, Caryda, leva estes homens à margem do rio, para que mergulhem e tirem dele os restos dos ossos de Ualri, para preparar os instrumentos com que esta noite se possa ensinar o canto e a música de Jurupari».

400E, voltando-se então para Nunuiba, continuou assim: «Tu pertences àquela gente que até hoje sempre me traiu, e os teus seguem o teu exemplo.

401«Vejo em ti a impaciência, a sem-vergonhice e toda a maldade daqueles velhos que me traíram aqui, mas que já foram castigados.

402«Pensavas que eu não conhecia o que nutrias contra mim no fundo do teu coração quando puni as tuas mulheres?

403«Crês que eu não sei que perguntaste ao pajé se ele podia pôr remédio aos males que caíam sobre os teus, chegando até a ameaçá-lo para obter o que ele não podia fazer, surdo a todos os conselhos que ele também te dava?

404«Mas não quero punir-te pelas ameaças que me fizeste, armando os teus guerreiros contra mim; e hoje mesmo te ensinarei a lei, a música e o canto de Jurupari, para mudar os usos e os costumes dos teus, que são maus; por isso, logo que venha a noite, reúnam-se todos nesta casa, tu e os teus».

405Caryda, mal chegou ao rio, mandou os guerreiros mergulhar, e estes encontraram logo os restos dos ossos de Ualri ainda no mesmo lugar, abaixo da cachoeira; e, quando aqueles restos foram tirados para a terra, Caryda cortou-os segundo a lei e fez com eles instrumentos iguais aos primeiros.

406O sol já estava se pondo quando chegaram à casa onde estava Jurupari, e então este terminou os instrumentos, que pôs de pé à volta da sala.

407E quando acabou, disse a Nunuiba:

408«Manda os teus comer e, quando tiverem acabado, ordena que voltem aqui».

409E logo os Nunuiba sentiram uma grande fome, porque não comiam desde o começo da dança das mulheres.

410Quando a noite cobriu a terra, os instrumentos começaram a tocar sozinhos a música de Jurupari, e Nunuiba e a sua gente ficaram maravilhados ao ouvi-los.

411Jurupari veio então para o meio da sala e disse assim:

412«Todos podiam duvidar das palavras daqueles velhos insensatos, que desmentiam as próprias palavras ensinando às mulheres o que não deviam; mas não deviam duvidar do pajé, que por sua vez confirmava a existência da lei de Jurupari.

413«Se não fosse que a tua velhice, ó tuxaua, impõe tanto respeito aos teus, eles nunca teriam ousado voltar as suas flechas contra mim e teriam escutado sem duvidar o que o pajé lhes dizia.

414«Tu ainda pertences àquela gente que pensa que ninguém lhe pode fazer frente. Mas em verdade te digo que, se não mudares de pensamento, o dia de amanhã não te pertencerá».

415E Nunuiba respondeu: «Como posso desobedecer, se me tens ao teu lado, pronto a fazer o que disseres?»

416«Todos me obedecem sempre quando estão sob a minha vista, para me desobedecerem logo que viro as costas».

417E então deu a conhecer todos os pontos da sua lei e depois ensinou a música e o canto de Jurupari.

418E quando, com a primeira luz do dia, terminou a festa, Jurupari disse:

419«Agora que já conhecem a minha lei, com que se devem mudar todos os usos e os costumes da terra, o pajé faça respirar a fumaça do seu cigarro às mulheres que estão dormindo, e elas acordarão sem se lembrar das loucuras que cometeram e que fizeram cometer».

420E, tendo Jurupari dissolvido a reunião, o pajé foi acordar as mulheres com a fumaça do seu cigarro.

421Elas ficaram loucas três dias e três noites, sem reconhecer ninguém, e quando lhes voltou a razão não se lembravam mais do que tinha acontecido, nem da festa nem do castigo que foi a sua consequência.

422Desde aquele dia o pajé foi sempre ouvido e obedecido em tudo e por tudo.

423Depois da profanação cometida por Curàn, os Tenuiana que tinham ficado na terra de Arianda partiram para diversos pontos da terra.

424Os que se dirigiram para o oriente encontraram logo uma maloca de gente muito bonita.

425O costume do lugar era escolher para tuxaua o mais bonito da tribo, fosse homem ou mulher, e naquele tempo fora eleita Naruna, belíssima mulher.

426Ora, também entre os Tenuiana havia um belíssimo rapaz chamado Dáte.

427Naruna, quando o viu, propôs-lhe que se casasse com ela, para se tornar assim tuxaua da terra.

428E foi assim que ela falou a Dáte:

429«Quero ser tua mulher, porque és o rapaz mais bonito que me apareceu até agora, e por essa razão tu me pertences».

430Dáte, que não sabia que caminho tomar para mudar os costumes do lugar segundo as leis de Jurupari, aceitou a oferta de Naruna para poder introduzi-las melhor.

431«O nosso casamento será na noite das maldades da lua, porque nesse tempo toda a minha gente estará aqui reunida.

432«Entretanto já podes vir morar nesta casa com os teus companheiros, pois em breve serás o tuxaua desta terra».

433Dáte e os seus companheiros, já alojados na casa do tuxaua, estudavam dia e noite como haviam de mudar os usos e os costumes do lugar segundo as leis de Jurupari sem que surgisse contra elas algum obstáculo.

434Todos obedeciam cegamente às leis que os regiam, e não parecia fácil poder mudá-las de um momento para outro, tanto as suas pareciam mais rigorosas.

435Dáte perguntava aos companheiros qual seria o melhor modo de consegui-lo, e Iadié respondeu-lhe assim:

436«Antes do teu casamento com a senhora do lugar, parece-me que nada se pode fazer. É melhor que nos sujeitemos primeiro a tudo, até que sejas tuxaua, e então poderemos pôr em prática as leis de Jurupari».

437«E Jurupari não se inquietará com o nosso modo de agir?»

438«Se ele deu a ti ou a algum outro de nós algum amuleto, é bom temer que ele nos castigue; mas, se não deu nada, é melhor esperar a ocasião propícia para agir.

439«De que nos serviria agora chamar todos os homens e contar-lhes a lei de Jurupari? Todas as mulheres o saberiam logo e o contariam a Naruna, que certamente nos mandaria matar».

440«Vejo que não podemos introduzir a nossa lei, porque não temos nenhum amuleto; mas, como o dia do meu casamento não está longe e eu me torno tuxaua desta tribo, então alcançaremos com certeza o nosso objetivo».

441Jurupari e Caryda, quando deixaram a terra dos Nunuiba, dirigiram-se à Serra do Tenui e chegaram lá no momento em que os seus companheiros choravam e bebiam as cinzas das suas mães; e logo tomaram os instrumentos fúnebres e tocaram a música dos mortos.

442Quando o dia voltava com as suas alegrias, tudo estava terminado, e cada um se recolhia à sua casa, onde só havia silêncio.

443E assim se passaram três dias, e no quarto, que era a véspera da maldade da lua, Jurupari e Caryda foram com os companheiros às margens do Lago Muypa, onde se banharam; e quando acabaram, Jurupari disse:

444«Agora que não vejo mais na terra traidores que possam impedir que os usos e costumes da nossa lei sejam observados em todas as terras do sol, vou descansar; descansai também vós, porque depois cada um irá cumprir o que tem de fazer; mas antes ouvi a triste história das nossas mulheres:

445«Depois que deixaram este lugar, tomaram como guia da sua viagem as águas do rio.

446«E lá muito abaixo encontraram uma terra onde os habitantes eram como elas, mas não têm leis, e ali ficaram todas, dizendo que tinham abandonado a terra onde moravam porque a mãe da água tinha chamado ao fundo do rio todos os homens da sua tribo.

447«E então o tuxaua perguntou-lhes aonde queriam ir.

448«“Queremos ficar aqui”.

449«“E se a mãe da água vier atrás de vós?”

450«“Ela recuará diante das flechas dos teus guerreiros.”

451«“Seja assim; mas onde encontrarei homens para todas vós?”

452«“Não queremos homens, porque prometemos nunca mais nos unir a homens”.

453«“E se eu desse a cada uma um marido, teríeis coragem de recusá-lo?”

454«“Para te obedecer, os aceitaríamos, mas não para ter filhos deles, e sim para tratá-los como irmãos”.

455«“Está bem; hoje mesmo cada uma de vós terá um irmão para distraí-la e contar-lhe histórias”.

456«E logo que veio a noite, o tuxaua mandou a cada mulher um irmão; e quando os recém-chegados lhes diziam que tinham sido mandados para contar histórias, elas, em vez de ouvi-los, atiraram-se nos seus braços e os receberam como maridos».

457. . . . . . . . . . . . . . .

458«Agora que já sabeis a sorte destas mulheres impacientes, descansemos, porque amanhã cada um deve retomar o seu caminho».

459Foi a primeira vez que Jurupari dormiu depois de tantas fadigas, e foi visitado pela mãe dos sonhos.

460Viu em sonho o embaraço em que se achavam Dáte e os companheiros na terra de Naruna e, ao acordar, contou o sonho a Caryda.

461«Olha», disse este, «se a mãe dos sonhos te disse a verdade».

462E Jurupari, tirando as sombras do céu, viu nelas fielmente pintado tudo o que tinha sonhado, de modo que disse a Caryda:

463«Tudo é verdade, e por isso iremos àquela terra ajudá-los, mas transformados em outros homens, para ver se algum dos nossos não cai vencido.

464«Lá tomaremos parte amanhã na festa junto com os outros.

465«Despede-te dos teus companheiros, que não tornarás a ver tão cedo, porque de lá cada um de nós seguirá o seu caminho, até que o Sol nos reúna».

466Caryda foi despedir-se dos companheiros e prometeu-lhes que um dia, quando menos o esperassem, havia de voltar com Jurupari.

467E recomendou-lhes que fossem severos com as mulheres e castigassem sem piedade os traidores, em qualquer parte da terra onde os encontrassem.

468Quando Caryda se juntou a Jurupari, este lhe falou:

469«Vamos visitar pela última vez esta colina onde nascemos e de onde foram dadas as primeiras leis, que devem pôr fim a estes costumes livres, que são a vergonha da terra.

470«As nossas mães morreram para servir de exemplo às mulheres curiosas que não quiseram crer na palavra de Pinon, pai desta nova geração, de que também nós somos.

471«Até hoje aquelas loucas não creem na palavra de Pinon, que, transformado em pajé, lhes predisse tudo o que nós realizamos com a minha lei, que só deixará de ter força quando aparecer na terra a primeira mulher perfeita.

472«Esta colina nunca mais será habitada, porque as sombras das nossas mães e dos meninos mortos estrangulados não deixarão que ninguém venha morar aqui, para não profanar o lugar onde eu nasci e não espantar Seucy, a senhora do lago.

473«E todas as nossas coisas ficarão aqui transformadas em pedras para dar testemunho de nós.

474«Agora só temos meia lua para ficar juntos; amanhã partiremos para a terra de Naruna para assistir ao casamento de Dáte.

475«Não sei o que me acontecerá, porque o Sol não me deu as sombras do céu onde se pinta o futuro; por isso, pela primeira vez, aceitarei tudo o que tiver de acontecer.

476«E, como não quero ser reconhecido por Dáte, esconderei o meu matiry numa pele de até, e quando chegarmos lá à hora da tristeza devemos logo tomar lugar entre os dançarinos e seguir em tudo os usos e os costumes da terra».

477Logo que chegou a hora, Jurupari e Caryda partiram para a terra de Naruna, onde chegaram sem serem pressentidos.

478Mas a lua ainda não tinha chegado ao ponto da sua maldade, e todos estavam conversando; e uma moça bonita andava de grupo em grupo procurando um companheiro para a festa próxima, e, chegando perto de Jurupari, disse-lhe:

479«Belo Tenuiana, tu serás o meu companheiro na festa do casamento: aceitas?»

480E, tendo Jurupari aceitado, ela continuou:

481«Bem, virei buscar-te aqui mesmo quando chegar a ocasião».

482Logo que a lua começou a produzir os seus efeitos, as mulheres começaram o casamento de Naruna e Dáte.

483Todas as mulheres entraram com o seu companheiro na sala, onde já estava Jurupari com a sua bela companheira.

484Naruna, coberta de penas de arara e de águia, entrou então na sala com Dáte, que a precedia com os instrumentos.

485Logo que os noivos estavam no meio da sala, formou-se à volta deles a grande roda, que andava para a esquerda, enquanto Dáte e Naruna andavam para a direita.

486O bater dos pés dos dançarinos cobria os alegres sons da música.

487Quando a lua chegou ao meio do céu, Naruna ofereceu o capy a todos os dançarinos, e, quando o último foi servido, abraçou o noivo.

488E todas a imitaram; Jurupari tentou esquivar-se, mas a mestra de cerimônias, que vigiava para que os usos fossem observados, obrigou-o a ceder à sua companheira, que ainda não tinha conhecido homem.

489E Jurupari, gemendo, cedeu.

490Quando o curàmpa deu o sinal de que amanhecia, todos se levantaram, e Naruna distribuiu outra vez o capy em tal quantidade que todos logo ficaram atordoados. Só Jurupari bebeu, bebeu e não sentiu efeito nenhum.

491Depois a dança continuou, entrando agora na roda os noivos e sendo tocador Iadié, que levava pelo braço a sua bela companheira; assim passaram o dia inteiro dançando.

492Chegada a noite, repetiu-se a cerimônia que tanta dor tinha causado a Jurupari.

493Quando o sol voltou, Naruna e Dáte entraram no quarto nupcial, de onde deviam sair no dia seguinte para receber os presentes dos parentes.

494Como daquele momento em diante não havia mais obrigação de dançar, Jurupari e Caryda foram conversar fora da casa, e Jurupari disse:

495«Se eu tivesse suspeitado do que me esperava, nunca teria assistido ao casamento de Dáte e não teria dado a minha palavra de me sujeitar a todos os costumes desta gente. Mas ninguém mais verá Carumà, pois hoje ela é minha, e a levarei para longe da vista dos homens, para que não seja manchada a única mulher que me coube».

496«E que presente», perguntou Caryda, «ofereceremos a Dáte?»

497«Tu lhe darás os teus ornamentos de penas; eu, esta pele de até com um amuleto».

498E quando as primeiras alegrias do dia clareavam as raízes do céu, todos se reuniram na sala da festa para entregar os presentes aos noivos e saudá-los.

499E quando o sol apareceu, Naruna e Dáte saíram do quarto nupcial e vieram para o meio dos reunidos receber os presentes que cada um lhes oferecia; e quando Jurupari se adiantou para dar o seu presente a Dáte, Naruna exclamou de modo que todos a ouviram:

500«Onde estavas tu, que não te vi?»

501«Faço parte da gente do teu marido».

502«Mas tu és o rapaz mais bonito que já vi! Eu sou a senhora desta terra e só eu faço a minha vontade; por isso hoje mesmo me casarei de novo contigo, e tu serás o meu primeiro marido, e Dáte, o segundo».

503«Isso não pode ser; Dáte é o teu único e legítimo marido.»

504«Já disse que sou a senhora desta terra, onde só se faz a minha vontade; hoje mesmo, se não quiseres morrer às mãos dos meus guerreiros, serás meu marido».

505E a sua voz foi pouco a pouco diminuindo, até cessar de todo, e toda a sua gente ficou paralisada.

506Então Dáte disse a Jurupari:

507«Tuxaua, eu te esperava para poder remediar todos estes males.»

508«Amanhã tira deste matiry o amuleto que está nele, põe-no no nariz e guarda no coração o que quiseres que se faça, e tudo será feito. Quando restituíres a razão a esta gente, ninguém se lembrará do que aconteceu, e poderás governar esta terra a teu gosto, porque nem a própria Naruna se lembrará mais de que aqui a sua vontade era lei, e te obedecerá cegamente».

509Quando Jurupari acabou de falar, tomou Carumà e desapareceu com ela rumo ao levante, deixando atrás de si uma fumaça densa que tinha cheiro de resina de cumaru.

510Dáte, no dia seguinte, pegou o amuleto, que era uma unha de águia, pô-lo no nariz, soprou no rosto da sua gente, ainda imóvel, e quando chegou ao último e se voltou, viu que todos já estavam vivendo.

511E disse então a Iadié: «Acorda toda esta gente e ordena que vão banhar-se».

512E assim se fez, e todos correram ao rio para se banhar, e com eles foi também Naruna.

513Quando Naruna voltou, estava tão humilhada que Dáte sentiu o coração chorar e perguntou-lhe:

514«Por que dormiste tanto?»

515«A mãe do sono me enganou».

516«Para que ela não te torne a enganar, antes de voltares a dormir vai tomar outro banho».

517E Naruna ficou tão envergonhada com esta observação do marido que foi para a cozinha e escondeu-se dentro de um grande pote de caxiri.

518Quando chegou a hora da refeição, ela não apareceu.

519«Onde está minha mulher?»

520«Não sei», respondeu Iadié.

521«Onde está minha mulher?»

522E ninguém respondeu; então ele tomou o seu talismã e quis que Naruna viesse à sua presença. Então todos viram o pote de caxiri, que estava na cozinha, vir até onde estava Dáte sem que ninguém o trouxesse; e quando Dáte perguntou ainda:

523«Ninguém sabe onde está minha mulher?»

524O pote quebrou-se e apareceu o corpo de Naruna já sem pele, tão forte era a bebida.

525Quando Dáte viu que Naruna já estava morta, amaldiçoou Jurupari.

526E de todos os que estavam presentes ninguém soube quem a tinha matado.

527Dáte, dizem, talvez não sabendo servir-se do amuleto, matou Naruna sem querer.

528Quando apareceu o sol do dia seguinte, enterraram o corpo de Naruna junto a um tronco de inajá (espécie de palmeira), onde todas as noites Dáte ia depositar beiju, peixe e outros alimentos, para que a sombra de Naruna se alimentasse.

529Iadié foi encarregado de ensinar à tribo de Dáte a lei, a música e o canto de Jurupari.

530Ninguém se opôs, e os novos usos e costumes foram logo observados em toda a terra.

531Depois da morte de Naruna, Dáte vivia triste e solitário, sem sequer conversar com os seus companheiros.

532O seu lugar era no alto de uma pedra, com os olhos voltados para o oriente.

533Ora, Iadié, que executava as suas ordens, indo uma vez dar-lhe conta do que fizera, encontrou-o chorando e perguntou-lhe:

534«Que tens? Vejo em ti os sinais dos teus desgostos denunciarem a tua fraqueza».

535«Eu mesmo não sei o que é; mas tenho uma tristeza que me domina a ponto de veres. Nada me falta, tenho em vós amigos fiéis, mas uma dor desconhecida me mata».

536E mal acabou, caiu morto, e Iadié apressou-se a receber nos braços o seu infeliz companheiro.

537O amuleto que estava dentro da pele de Dáte começou a fazer barulho; pareciam dentes batendo uns nos outros.

538Iadié apressou-se a apoderar-se dele e, pondo-o no nariz, pediu para ser ele o eleito chefe da tribo.

539Quando chegou à maloca com o corpo de Dáte, os Tenuiana pintaram-se de urucum e choraram.

540O corpo de Dáte foi enterrado no mesmo lugar onde estava o corpo de Naruna, e Iadié ia todas as noites levar comida às suas sombras.

541Ora, como a lei de Jurupari já estava em uso nesta terra, os Tenuiana partiram para outros lugares a cumprir o seu dever, e Iadié ficou sozinho a governar aquela terra.

542Ele, porém, era muito mulherengo e foi namorando todas as moças, transgredindo com isso a lei de Jurupari, pois a sua mulher estava grávida.

543E todas aquelas moças formaram uma conspiração feminina para obrigá-lo a declarar-se e a dizer qual delas tinha o direito de lhe dar um herdeiro.

544Mas as mulheres eram o dobro dos homens da maloca, e Iadié teve medo e não respondeu.

545Gidánêm, moça bonita, mas de mau gênio, foi a primeira que deu à luz um menino, que foi imediatamente depositado na casa de Iadié.

546Este, furioso com isso, mandou logo atirar ao rio o seu próprio filho.

547Gidánêm então, à frente de todas as mulheres, foi à casa de Iadié, e todas juntas o mataram; depois mataram todos os seus guerreiros, poupando só alguns rapazinhos que acompanharam a própria mãe na luta.

548E o mais velho desses rapazinhos, chamado Calribóbó, foi eleito tuxaua.

549Calribóbó já conhecia toda a lei de Jurupari e continuou a observá-la estritamente.

550Ora, todas as noites, na casa onde Iadié tinha morado, ele ouvia cantar um grilo, mas tão alto que o incomodava.

551Lembrava-se de todas as coisas que tinha visto e ouvido, e de que uma vez dois Tenuiana falaram de uma pussanga que Jurupari tinha distribuído à sua gente.

552Certamente Iadié devia ter uma, e prometeu a si mesmo ir procurá-la logo que viesse a noite.

553Quando veio a noite, foi direto à casa onde Iadié tinha morado, em busca da pussanga, e, mal entrou, ouviu o canto do grilo.

554E procurou matá-lo; mas qual não foi o seu espanto ao ver que o grilo que fazia tanto barulho era uma unha de águia, fechada de um lado com cera de abelhas!

555E, adivinhando que aquela unha de águia era o amuleto, pegou-a e pô-la logo no nariz, pedindo para saber tudo o que ainda não sabia.

556E assim foi, e dali em diante Calribóbó governou os seus com tamanha sabedoria que jamais alguém se queixou dele.

557Depois que Jurupari e Caryda deixaram com Carumà a terra de Naruna, dirigiram-se para o oriente, até as margens de um rio de águas brancas, e ali subiram até tocar o céu, deixando cair dali Carumà.

558E o corpo de Carumà, caindo, quanto mais se aproximava da terra tanto mais crescia, de modo que, quando pousou no chão, se tinha transformado numa grande montanha.

559E Caryda e Jurupari ficaram ainda algum tempo suspensos no ar; depois desceram também eles e pousaram no cume da nova montanha, nas margens de um lago formosíssimo, todo cercado de ervas perfumadas.

560E Jurupari falou assim:

561«Eis aqui a primeira e única mulher que me teve, posta em toda a segurança longe da vista dos homens.

562«Um dia, quando tudo estiver consumado, então virei buscá-la para irmos viver juntos bem perto das raízes do céu, onde quero descansar das fadigas da minha missão, longe dos olhos de todos.

563«Hoje, ó Caryda, é o último dia que ficamos juntos, e antes de nos separarmos quero contar-te o segredo da minha missão sobre a terra.

564«O Sol, desde que a Terra nasceu, procurou uma mulher perfeita para chamá-la para perto de si; mas, como até hoje não a encontrou, confiou-me parte do seu poder para ver se neste mundo poderá haver uma mulher perfeita».

565«E qual é a perfeição que o Sol deseja?»

566«Que seja paciente, que saiba guardar um segredo e que não seja curiosa.

567«Nenhuma mulher que hoje existe na terra reúne estas qualidades: se uma é paciente, não sabe guardar segredo; se sabe guardar segredo, não é paciente; e todas são curiosas, querem tudo saber e tudo experimentar.

568«E até agora ainda não apareceu a mulher que o Sol deseja possuir.

569«Quando a noite de hoje estiver no meio, devemos separar-nos; eu irei para o oriente, e tu, seguindo o caminho do sol, irás para o poente.

570«Se um dia o sol, tu e eu nos encontrarmos no mesmo lugar, quererá dizer que apareceu na terra a primeira mulher perfeita».

571Depois disso Jurupari foi para a margem oposta do lago e, sentado numa pedra, ficou a contemplar a própria imagem refletida na água.

572Caryda, tomado por uma força maior do que a sua vontade, ficou no mesmo lugar, sem poder seguir o companheiro.

573Quando a lua vinha surgindo do seio da terra, apareceu na superfície da água uma belíssima mulher, que Caryda reconheceu como Carumà.

574Ela cantou o canto e a música de Jurupari com tanta doçura que Caryda adormeceu, e, quando acordou alta noite, não viu mais ninguém.

575Mas, olhando melhor para o oriente, viu já muito longe duas figuras que pareciam seguir o mesmo caminho; e então Caryda levantou-se e dirigiu os seus passos para o poente.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir do texto italiano de Ermanno Stradelli

Fonte: Bollettino della Società Geografica Italiana, 1890, pp. 659–689 e 798–835 — Internet Archive

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