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O Selvagem: religião e lendas dos tupis — Teogonia dos índios

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1A theogonia dos indios assenta-se sobre esta idéa capital: todas as cousas creadas tem sua mãi. E' de notar-se que elles não empreguem a palavra pai; esta palavra pai, não indica a origem de um homem, senão em uma sociedade em que o casamento tenha já excluido a communidade das mulheres; e portanto não podia ser empregada por nossos selvagens em um estado tão rudimental de civilisação. O aphorismo romano: pater est is quem justæ nuptiæ demonstrant, explica claramente a razão porque um povo primitivo, quando tivesse a necessidade de exprimir a filiação, empregasse de preferencia a palavra mãi, como judiciosamente observa um escriptor.

2O systema geral da theogonia tupi, parece ser este: existem tres deuses superiores: o Sol que é o creador de todos os viventes; a Lua que é a creadora de todos os vegetaes; e Perudá ou Rudá, o deus do amôr, encarregado de promover a reproducção dos seres creados. Como observarei adiante, as palavras que no tupi exprimem sol e lua, me parecem indicar o pensamento religioso que os nossos selvagens tinham para com esses astros, e que fica indicado. Cada um d'estes tres grandes seres é o creador do reino de que se trata: o sol, do reino animal; a lua, do reino vegetal; e Perudá, da reproducção. Cada um d'elles é servido por tantos outros deuses, quantos eram os generos admittidos pelos indios: estes por sua vez eram servidos por outros tantos seres, quantas eram as especies que elles reconheciam: e assim por diante até que, cada lago ou rio, ou especie animal ou vegetal, tem seu genio protector, sua mãi. Esta crença ainda é vulgar entre o povo do interior das provincias de Mato-Grosso, Goyaz, e sobretudo do Pará, e é provavel que tambem do Amazonas.

3O sol é a mãi dos viventes, todos que habitam a terra; a lua é a mãi de todos os vegetaes. Estas duas divindades geraes, á quem elles attribuiam a creação dos viventes e dos vegetaes, não tinham nomes que exprimissem caracteres sobrenaturaes. As expressões, que indicam qualidades abstractas, deviam vir em um periodo muito posterior á aquelle em que a civilisação aryana, trazida pela raça conquistadora, veiu encontrar os selvagens da America.

4Não tinham termos abstractos para exprimil-os: diziam simplesmente: mãi dos viventes, mãi dos vegetaes. E' sabido que a palavra sol é guaracy, de guará, vivente, e cy mãi. Lua é jacy, de já vegetal, cy mãi.

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Versão: Couto de Magalhães (1876)

Edição: 1

Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource

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