O Selvagem: religião e lendas dos tupis — Amor e temor das divindades
Ler no Une Sacra1Qual o sentimento natural para aquelle que nos creou a nós pela mesma fórma porque nossa mãi nos cria? Não é necessaria outra prova para concluir que o sentimento que os Tupis tributavam ao sol, devia ser até certo ponto identico ao que tributavam a sua mãi natural.
2Qual o sentimento que alimentariamos para com aquelle ser a quem attribuissemos a creação de todos os vegetaes, isto é d'aquillo com que nos alimentamos? Creio que não necessito de outros factos para demonstrar, que os pobres selvagens tributavam a seus deuses sentimentos tão puros de gratidão como aquelles que nós os christãos tributamos ao nosso Deus. Na oração que nos foi ensinada por Christo, o modo de exprimir nossa relação fundamental para com o Creador é a palavra pai. Elles empregam o nome de mãi; em que é que isto expressa a ausencia absoluta de idéa de gratidão para com o Creador, como pretenderam os portuguezes e sobretudo os hespanhóes?
3Quasi todos os Deuses dos indios americanos, dizem elles, são Deuses maleficos, á quem attribuiam antes o poder de fazer mal aos homens, do que o de lhes fazer bem.
4Eis aqui o resultado de querer escrever sobre cousas que se não tem examinado. Isto é um absurdo; a proposição contraria é que é verdadeira, isto é: com excepção talvez do Jurupari, não ha um só ente sobrenatural entre os selvagens a que não se attribua a acção benefica de proteger uma certa parte da creação, de que elle era reputado um pai mais proximo do que o sol ou a lua, mas em summa um pai. Isto é facto que eu tenho examinado com o maior escrupulo.
5O que eu nunca encontrei entre os selvagens foi a concepção de um espirito sobrenatural, cuja missão fosse exclusivamente toda mal, como é entre nós a concepção de satanaz: isso sim, isso é que não duvido asseverar que não existe. O proprio jurupari não está n'esse caso; as tradições que eu tenho colhido a respeito, e que só se encontram hoje no norte do Imperio, não são completas; mas a palavra — jurupari — equivale a isso que nossas amas de leite nos descrevem como pesadelo. E', segundo os indios, um ente que de noite cerra a garganta das creanças, ou mesmo dos homens, para trazer-lhes afflicções e máos sonhos.
6Certamente que attribuem-se máos actos aos deuses. Por ventura quem ler a Biblia, sem dar desconto ao que a linguagem humana necessitou de introduzir de seu, poderá conscienciosamente affirmar, que tudo quanto ella attribue ao Deus dos judeus seja santo e honesto? Não fallemos da Biblia; poder-se-ha dizer que os gregos não tinham idéas de seres divinos, porque attribuiam a Jupiter e aos outros acções indignas da divindade? Pois se, entre povos tão cultos e com tão elevadas noções da divindade, deu-se isso, como se pretende que os deuses de nossos selvagens são todos entes maleficos, se os nossos selvagens, com Hesiodo, Homero, e sobretudo com Aristophanes na mão, podiam disputar a superioridade dos seus diante d'aquelles?
7E' difficil comprehender bem o espirito da religião dos indios sem estar entre elles, sem ter a paciencia necessaria, e os meios de interrogal-os; e é d'ahi que resulta essa Babel de informações inexactas que se tem dado de suas idéas religiosas.
8Dizem os que negam boas acções aos deuses selvagens: Anhangá, Curupira, Caiupora (aliás Cahapora), são apenas conservados nas tradições dos brazileiros como entes que podem fazer mal ao homem, sem lhes poder fazer bem algum.
9Assim é, se referem-se ás tradições vulgares do nosso povo, modificadas pelo christianismo.
10Mas a razão não é porque esses seres sejam por sua natureza maleficos.
11Conforme disse acima, os indios attribuem a cada ordem de creação um deus protector, uma especie de mãi, que a defende contra tudo, e especialmente contra a acção destruidora do homem. Nas historias que narram, ha quasi sempre um homem que persegue a uma certa ordem de creação, e é a esse homem, que persegue essa ordem de creação, que o deus apparece fazendo algum mal; o mal portanto, feito a tal homem, não é um mal, é uma punição justa e merecida, segundo as idéas dos selvagens.
12Tomemos os mesmos exemplos citados. Anhangá é o deus da caça do campo; Anhangá devia proteger todos os animaes terrestres contra os indios que quizessem abusar de seu pendor pela caça, para destruil-os inutilmente. Concebe-se sem esforço o papel importante que a caça deve representar em povos que não criam animal domestico algum, e que por conseguinte só se alimentam dos que são creados nos bosques, expontaneamente. Partindo d'essas idéas, haverá nada de mais natural, do que haverem milhares de historias em que Anhangá figurasse como fazendo maleficios aos homens?
13Da minha collecção de contos eu tomarei uma lenda, ao acaso, para servir de exemplo:
14«Nas immediações da hoje cidade de Santarém, um indio Tupinambá perseguia uma veada que era seguida do filhinho que amamentava; depois de havel-a ferido, o indio, podendo agarrar o filho da veada, escondeu-se por detraz de uma arvore, e fel-o gritar; attrahida pelos gritos de agonia do filhinho a veada chegou-se a poucos passos de distancia do indio — elle a flechou; ella cahiu: quando o indio, satisfeito, foi apanhar sua presa reconheceu que havia sido victima de uma illusão do Anhangá; a veada, a quem elle indio havia perseguido, não era uma veada, era sua propria mãi, que jazia morta no chão, varada com a flecha, e toda dilacerada pelos espinhos.»
15Eis aqui uma acção demoniaca, dirão. Não, digo eu, esta acção não repugna a uma divindade; é necessario estudar estas cousas debaixo do mesmo ponto de vista de quem as imaginou; os indios tinham na caça o seu sustento; o instincto lhes tinha indicado que destruiriam facilmente esse sustento, se não poupassem a vida dos animaes que amamentavam; e como não tinham e nem podiam ter um codigo de leis para a caça, tinham um preceito religioso. Esse conto, assim como todos os outros, encerra uma profunda lição de moral, e é de mais a mais a manifestação de uma regra eminentemente conservadora, debaixo do seu ponto de vista, e no estado em que elles se achavam; cousas estas que nunca se devem perder da memoria, pena de não comprehender as cousas, e de escrever romances em vez de escrever historia.
16O Cahapora é outro exemplo. Homem colossal, de corpo pelludo, montado em um porco do mato, ninguem o podia vêr sem ser extremamente infeliz pelo resto de sua vida. O Cahapora é pois um ente tão máo, que não póde ser visto sem que arraste a infelicidade para quem o avistar. Assim é; mas, ouçamos a tradição, e ella nos dará a explicação do facto. O Cahapora era o genio protector da caça do mato, e só era visto quando, rodeando-se uma familia inteira de animaes selvagens, se a pretendia extinguir. Portanto, aqui, como na tradição acima citada acerca do Anhangá, o que ha é uma boa acção; é um acto de protecção, exercido pelo genio, contra quem pretendesse destruir aquelles seres que, segundo as crenças selvagens, foram confiados a seus cuidados, e de cuja não destruição os primeiros interessados eram os proprios selvagens.
17Eu não posso acompanhar em seus detalhes esta discussão, porque seria mister passar em revista todas as tradições indigenas; e isso faz objecto de um livro especial que comecei ha annos, e que hei de publicar algum dia.
18O que está escripto, porém, me parece sufficiente para chegar a esta conclusão: entre os selvagens, assim como entre nós, a acção attribuida aos espiritos sobrenaturaes é uma acção benefica; quem recusar-se a enxergar n'esses seres a manifestação de um verdadeiro e poderoso instincto religioso, a pretexto de que entre elles taes seres são capazes de mal, esse negará que os gregos e romanos tivessem taes instinctos.
19Por muito rude e barbara que, á primeira vista, pareça uma instituição qualquer de um povo, ella deve ser estudada com respeito. As instituições fundamentaes dos povos, qualquer que seja seu gráo de civilisação ou barbaria, são o resultado necessario das leis eternas de moral e justiça que Deus creou na consciencia humana, leis que em fundo são as mesmas no selvagem ou no homem civilisado, embora susceptiveis de manifestações diversas, segundo o gráo de adiantamento a que cada um tem chegado.
Versão: Couto de Magalhães (1876)
Edição: 1
Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource
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