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O Selvagem: religião e lendas dos tupis — Imortalidade da alma

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1Acreditavam os selvagens na immortalidade da alma? Distinguiam a alma do corpo? Sem duvida alguma. Todos elles o fazem. Tenho para affirmal-o provas robustas. Em primeiro lugar: quem visita um cemiterio indigena reconhece as sepulturas por panellas, que elles depositam junto das covas, nas quaes collocam comida; as armas do morto o acompanham, porque elle necessita da comida e das armas para prover a seu sustento. Uma e outra cousa ser-lhe-iam desnecessarias se a morte acabasse tudo. Asseveram-me pessoas sisudas que as indias Chavantes, no estado selvagem, devoram os filhos que morrem, na esperança de colherem novamente a seu corpo a alma do menino.

2Eu nunca presenciei esse facto; estou mesmo em muito boas relações com o mais poderoso dos capitães chavantes de nome Zaquè; já lh'o perguntei; elle riu-se e não me respondeu; o que eu tomei por uma confirmação; porque é de notar-se, que os nossos indios são muito orgulhosos de suas crenças; nada os offende tanto como pôl-as em duvida, e d'ahi vem que são nimiamente discretos quando conversam com um christão sobre tal assumpto.

3Muitas tribus do baixo Tocantins e do Amazonas enterram seus mortos dentro da propria casa, e isto eu já tenho presenciado; fazem na esperança de, quando dormirem, serem visitados pela alma d'aquelles a quem amaram. Esses factos demonstram, a não deixar duvida, que elles acreditam que, além da vida de que gozamos n'este mundo, ha uma outra que é continuada pelo ser, independente do corpo. Pensarão que ella é eterna? Acreditarão em um lugar de bemaventuranças, e de eternas penas? Não sei; ainda não pude verificar essas cousas; como disse, os indios são muito reservados e discretos em tudo quanto diz respeito a assumpto religioso. No meio da conversação mais animada, se se lhes dirige qualquer pergunta tendente a esclarecer qualquer d'esses pontos, elles tornam-se immediatamente frios, as vezes sombrios, e, ou respondem por monosyllabos, ou nada respondem.

4Além d'esse destino mysterioso, que o homem prosegue depois da morte, e para o qual collocam elles a comida e as armas do morto, teonguera, junto a sua sepultura; possuo duas lendas que recolhi em Fevereiro d'este anno no Pará, e que parecem indicar que os Tupis admittiam uma especie de vida semelhante a que nossas superstições attribuem ás almas penadas; assim como admittiam a possibilidade da transformação do homem em outros seres.

5Ha ainda hoje em Cametá um celebre Honorato a quem a população indigena do lugar attribue a faculdade de transformar-se em peixe ou em cobra, e viajar pelo fundo dos rios quando lhe apraz. Estas superstições são restos de alguma crença religiosa dos velhos Tupis, que, ou não chegou até nossos dias, ou a não soubemos recolher.

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Versão: Couto de Magalhães (1876)

Edição: 1

Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource

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