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O Selvagem: religião e lendas dos tupis — Lenda de Mani

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1Uma das lendas, a que me referi acima, conserva a tradição de que o uso da mandioca, que tão importante papel representa na vida dos indios, lhes foi revelado por um modo sobrenatural. A mandioca é não só o pão do nosso selvagem, como tambem a substancia de que tiram diversos vinhos, como o kauin, a maniquera, o puchirum e outros. Sua descoberta foi para elles mais importante do que a do trigo o foi para os aryas.

2Se bem que esta lenda pertença mais ao dominio da poesia do que ao da sciencia, eu não posso furtar-me ao desejo de inseril-a aqui, como um especimen curioso do producto da imaginação de nossos selvagens. Eil-a tal qual me foi referida pela mãi do Sr. coronel Miranda, ex-thesoureiro da thesouraria da fazenda do Pará, senhora respeitavel de cerca de 70 annos de idade, e que reside em Belém. A lenda diz que a mandioca foi descoberta assim:

3«Em tempos idos appareceu gravida a filha d'um chefe selvagem, que residia nas immediações do lugar em que está hoje a cidade de Santarém. O chefe quiz punir no autor da deshonra de sua filha, a offensa que soffrêra seu orgulho e, para saber quem elle era, empregou debalde rogos, ameaças e por fim castigos severos. Tanto diante dos rogos como diante dos castigos a moça permaneceu inflexivel, dizendo que nunca tinha tido relação com homem algum. O chefe tinha deliberado matal-a, quando lhe appareceu em sonho um homem branco, que lhe disse que não matasse a moça, porque ella effectivamente era innocente, e não tinha tido relação com homem. Passados os nove mezes ella deu á luz uma menina lindissima, e branca, causando este ultimo facto a surpreza, não só da tribu, como das nações visinhas, que vieram visitar a creança, para ver aquella nova e desconhecida raça. A creança, que teve o nome de Mani, e que andava e fallava precocemente, morreu ao cabo de um anno, sem ter adoecido, e sem dar mostras de dôr.

4«Foi ella enterrada dentro da propria casa, descobrindo-se e regando-se diariamente a sepultura, segundo o costume do povo. Ao cabo de algum tempo brotou da cova uma planta que, por ser inteiramente desconhecida, deixaram de arrancar. Cresceu, floresceu, e deu fructos. Os passaros que comeram os fructos se embriagaram, e este phenomeno, desconhecido dos indios, augmentou-lhes a superstição pela planta. A terra afinal fendeu-se; cavaram-n'a e julgaram reconhecer no fructo que encontraram o corpo de Mani. Comeram-n'o, e assim aprenderam a usar da mandioca.»

5O fructo recebeu o nome de Mani oca, que quer dizer: casa ou transformação de Mani, nome que conservamos corrompido na palavra mandioca, mas que os francezes conservam ainda sem corrupção.

6Esta lenda encerra duas cousas communs á todas as religiões asiaticas: 1º o attribuir a um deus o ensino do uso do pão: 2º a concepção sem perder a virgindade. Será isto um simples producto da imaginação, será uma lei a que o entendimento humano está sujeito, ou será alguma recordação de velhas crenças asiaticas, conservada confusamente pela tradição oral? Qualquer d'essas cousas é possivel, mas por emquanto não passa de simples conjectura.

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Versão: Couto de Magalhães (1876)

Edição: 1

Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource

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