O Selvagem: religião e lendas dos tupis — Nomenclatura dos deuses tupis
Ler no Une Sacra1Os deuses superiores, a quem elles attribuem acção geral sobre o mundo são, como já disse: o sol, a lua, e Rudá, ou o Deus do amor, ou da reproducção.
2Guaracy, sol. Este Deus creou o homem e os viventes; abaixo d'elle parece que haviam outros seres sobrenaturaes, especialmente adstrictos a certas ordens de animaes.
3O dos passaros ou Guirapurú; o nome quer dizer, passaro emprestado, ou passaro que não é passaro. Este Guirapurú toma a fórma de um passaro que anda sempre rodeado de muitos outros. As superstições populares do Pará, attribuem a tal passaro a virtude de conduzir a casa d'aquelle que possue um d'elles, continuado concurso de gente. Não ha no Pará, no Maranhão e Amazonas, muitos taverneiros que não tenham na soleira da porta enterrado um Guirapurú, a quem attribuem a virtude de conduzir freguezes a sua taverna. Um Guirapurú, por esse motivo, custa caro; eu possuo um morto (não é possivel apanhal-o vivo), que custou-me 30$ no Pará.
4O destino da caça do campo parece estar affecto ao Anhangá. A palavra Anhangá quer dizer sombra, espirito. A figura com que as tradições o representam é de um veado branco, com olhos de fogo. Todo aquelle que persegue um animal que amamenta, corre o risco de ver o Anhangá, e a sua vista traz febre e ás vezes a loucura.
5O destino da caça do mato parece confiado ao Cahapora. Representam-n'o como um grande homem coberto de pellos negros por todo corpo e cara, montado sempre em um grande porco de dimensões exageradas, tristonho, taciturno, e dando de quando em vez um grito para impellir a vara. Quem o encontra tem a certeza de ficar infeliz, e de ser mal succedido em tudo quanto intente; d'ahi vem a phrase portugueza: estou caipora, como synonima de: estou infeliz, mal succedido no que intento.
6A sorte dos peixes foi confiada a Uauyará. O animal em que elle se transforma é o boto. Nem um dos seres sobrenaturaes dos indigenas forneceu tantas lendas á poesia americana como o Uauyará. Ainda hoje no Pará não ha uma só povoação do interior que não tenha para narrar ao viajante uma serie de historias, ora grotescas e extravagantes, ora melancolicas e ternas, em que elle figura como heroe. O Uauyará é um grande amador das nossas indias; muitas d'ellas attribuem seu primeiro filho a alguma esperteza d'esse deus, que ora as surprendeu no banho, ora transformou-se na figura de um mortal para seduzil-as; ora arrebatou-as para debaixo d'agua, onde a infeliz foi forçada a entregar-se a elle. Nas noites de luar no Amazonas, conta o povo do Pará, que muitas vezes os lagos se illuminam e que se ouvem as cantigas das festas, e o bate-pé das danças com que o Uauyará se diverte.
7Os deuses submettidos a Jacy ou lua, que é a mãi geral dos vegetaes, são: o Saci Cererê, o Mboitatá, o Urutau, e o Curupira.
8O Saci Cererê é um dos que figura continuamente nas tradições do povo do sul do Imperio. Comtudo, eu as tenho encontrado tão confundidas com as superstições christãs, que não posso comprehender bem qual é a sua missão entre os vegetaes. As tradições representam-n'o com a figura de um pequeno Tapuio, manco de um pé, com um barrete vermelho, e com uma ferida em cada joelho.
9O Mboitatá é o genio que protege os campos contra aquelles que os incendeiam; como a palavra o diz mboitatá é: cobra de fogo; as tradições figuram-n'a como uma pequena serpente de fogo que de ordinario reside n'agua. Ás vezes transforma-se em um grosso madeiro em brasa, denominado méuan, que faz morrer por combustão aquelle que incendeia inutilmente os campos.
10Não conheço as tradições relativas ao Urutaú, ou urutau, e por isso limito-me a consignar aqui o nome, que significa: ave phantasma, de uru e táu.
11O Curupira é o deus que protege as florestas. As tradições representam-n'o como um pequeno Tapuio, com os pés voltados para traz, e sem os orificios necessarios para as secreções indispensaveis á vida, pelo que a gente do Pará diz, que elle é mussiço. O Curupira ou Currupira, como nós o chamamos do sul, figura em uma infinidade de lendas, tanto no norte como no sul do Imperio. No Pará, quando se viaja pelos rios e ouve-se alguma pancada longinqua no meio dos bosques, os remeiros dizem que é Curupira que está batendo nas sapupemas, a ver se as arvores estão sufficientemente fortes para soffrerem a acção de alguma tempestade que está proxima. A funcção do Curupira é proteger as florestas. Todo aquelle que derriba, ou por qualquer modo estraga inutilmente as arvores, é punido por elle com a pena de errar tempos immensos pelos bosques, sem poder atinar com o caminho da casa, ou meio algum de chegar entre os seus.
12A estas duas ordens de deuses, que são subordinados como disse, ao sol e a lua, e que se reputam prepostos á conservação dos viventes, segue-se um outro deus superior, é Rudá, ou o deus do amor.
13Rudá. As tradições o figuram como um guerreiro que reside nas nuvens. Sua missão é crear o amor no coração dos homens, despertar-lhes saudades, e fazel-os voltar para a tribu, de suas longas e repetidas peregrinações.
14Como os outros deuses, parece que tinha deuses inferiores, a saber: Cairé ou lua cheia, Catiti ou lua nova, cuja missão é despertar saudades no amante ausente. Parece que os indios consideravam cada fórma da lua como um ente distincto.
15Ha incontestavelmente propriedade e poesia n'esta concepção da lua nova e lua cheia como fonte e origem de saudades.
16A mesma senhora a quem devo a lenda que deixei escripta acima, deu-me a letra e musica das invocações que os Tupis faziam a Rudá e a seus dois satellites.
17Como são curtas, aqui as transcrevo taes quaes as ouvi, parecendo-me que, ou a lingua está adulterada, ou é algum fragmento de tupi anterior ás transformações porque já tinha passado a lingua, quando nos foi conhecida, porque palavras ha que não entendo.
18Estas invocações eram feitas ao pôr do sol ou da lua, e o canto, como quasi todos os dos indios, era pausado, monotono e melancolico.
19A joven india, que se sentia opprimida de saudades pela ausencia do amante n'aquellas peregrinações continuas em que a caça e a guerra traziam os guerreiros; a joven india, dizemos, devia dirigir-se a Rudá, ao morrer do sol ou ao nascer da lua, e estendendo o braço direito na direcção em que suppunha que o amante devia estar, cantava:
20Rudá, Rudá,
Iuáka pinaié,
Amãna reçaiçu...
Iuáka pinaié,
Aiuetê cunhã
Puxiuéra oikó
Ne mumanuára ce recé
Quahá caarúca pupé.
21Não entendo a palavra — pinaié —; pelo sentido porém presumo que quer dizer que estaes, ou que residis; as outras entendem-se perfeitamente, e pois a traducção é a seguinte:
22— O' Rudá, tu que estaes nos céos, e que amaes as chuvas... Tu que estaes no céo... fazei com que elle (o amante) por mais mulheres que tenha as ache todas feias; fazei com que elle se lembre de mim esta tarde quando o sol se ausentar no occidente.
23Como disse acima, as luas cheia e nova, que eram segundo os Tupis, cousas distinctas, e seres diversos, constituiam auxiliares de Rudá, e tinham invocações semelhantes ás que se cantavam áquelle deus, e para o mesmo fim de trazer os amantes ao lar domestico pelo poder da saudade.
24A invocação á lua cheia, era a seguinte:
25Cairé, cairé nú
Manuára danú çanú.
Eré ci, erú cika
Piápe amú
Omanuára ce recé
Quahá pitúna pupé.
26Não entendo os dous primeiros versos; os outros dizem:
27Eia, ó minha mãi (a lua); fazei chegar esta noite ao coração d'elle (do amante) a lembrança de mim.
28O nome da lua cheia era Cairé, o da lua nova Catiti; esta tinha sua invocação distincta da que dirigiam á lua cheia, si bem que com o mesmo fim.
29A invocação á lua nova é a seguinte:
30Catiti, Catiti,
Iamára notiá,
Notiá iamára,
Epejú (fulano)
Erú manuára
Ce recé (fulana),
Cuçukúi xa ikó
Ixé anhú i piá póra.
31Não entendo o 3º e 4º verso; o 1º e os ultimos dizem o seguinte:
32Lua Nova, ó Lua Nova! assoprai em fulano lembrança de mim; eis-me aqui estou em tua presença; fazei com que eu tão sómente occupe o seu coração.
33Estes cantos são ainda repetidos nas populações mestiças do interior do Pará, e, como disse, conservo d'elles tambem a musica.
34O deus do amôr tinha tambem a seu serviço uma serpente que reconhecia as moças que se conservavam virgens, recebendo d'ellas os presentes que lhe levavam, e devorando as que haviam perdido a virgindade.
35Os Tupinambás do Pará acreditavam que haviam d'estas serpentes no lago Juá, pouco acima de Santarém. Quando alguma donzella (cunhãtãí) era suspeita de ter perdido a virgindade, seus pais levavam-n'a ao lago, e ahi deixando-a a sós em uma ilhota, com os presentes destinados á serpente, retiravam-se para a margem fronteira, e começavam a cantar:
36Arara, arara mbóia,
Cuçucui ne remiú.
37Que quer dizer: Arara, oh cobra arara! Eis aqui está o teu sustento.
38A serpente começava a boiar e a cantar até avistar a moça, e, ou recebia os presentes, si a moça estava effectivamente virgem, e n'esse caso percorria o lago cantando suavemente, o que fazia adormecer os peixes, e dava lugar a que os viajantes fizessem provisão para a viagem; ou, no caso contrario, devorava a moça, dando roncos medonhos.
39Aqui, como nas outras lendas, ha um pensamento moral. O fim da lenda era provavelmente proteger a innocencia, influindo salutarmente no espirito das donzellas indias, pelo terror que lhes devia inspirar a perspectiva de poderem ser devoradas pela serpente, desde que perdessem a virgindade.
Versão: Couto de Magalhães (1876)
Edição: 1
Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource
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