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O Selvagem: religião e lendas dos tupis — Lenda: como a noite apareceu

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1Esta lenda é provavelmente um fragmento do Genesis dos antigos selvagens sul-americanos. E' talvez o éco degradado e corrompido das crenças que elles tinham, do como se formou esta ordem de cousas no meio da qual nós vivemos, e, despida das fórmas grosseiras com que provavelmente a vestiram as avós e as amas de leite, ella mostra que por toda a parte o homem se propôz resolver este problema — de onde é que nós viemos? Aqui, como nos Vedas, como no Genesis, a questão é no fundo resolvida pela mesma fórma, isto é: no principio todos eram felizes; uma desobediencia n'um episodio de amor, uma fruta prohibida, trouxe a degradação.

2A lenda é em resumo a seguinte: no principio não havia distincção entre animaes, o homem e as plantas; tudo fallava. Tambem não havia trevas. Tendo a filha da Cobra Grande se casado, não quiz cohabitar com o seu marido emquanto não houvesse noite sobre o mundo, assim como havia no fundo das aguas. O marido mandou buscar a noite, que lhe foi remettida encerrada dentro de um caroço de tucumã, bem cerrado, com prohibição expressa aos conductores de que o abrissem, pena de perderem-se a si e a seus descendentes, e a todas as cousas. A principio resistem á tentação, mas depois, a curiosidade de saber o que havia dentro da fruta os fez violar a prohibição, e assim se perderam. Substituindo a fruta de tucumã pela arvore prohibida, a curiosidade de saber pela tentação do espirito maligno, parece-me haver no fundo do episodio tanta semelhança com o pensamento asiatico que vacillo e pergunto se não será um éco degradado e transformado desse pensamento?

3No principio não havia noite — dia sómente havia em todo tempo. A noite estava adormecida no fundo das aguas. Não havia animaes; todas as cousas fallavam.

4A filha da Cobra Grande, contam, casara-se com um moço.

5Este moço tinha tres famulos fieis. Um dia elle chamou os tres famulos e lhes disse: — Ide passear porque minha mulher não quer dormir comigo.

6Os famulos foram-se, e então elle chamou sua mulher para dormir com elle. A filha da Cobra Grande respondeu-lhe: — Ainda não é noite.

7O moço disse-lhe: — Não ha noite; sómente ha dia.

8A moça fallou: — Meu pai tem noite. Se queres dormir comigo manda buscal-a lá, pelo grande rio.

9O moço chamou os tres famulos; a moça mandou-os a casa de seu pai para trazerem um caroço de tucumã.

10Os famulos foram, chegaram em casa da Cobra Grande, esta lhes entregou um caroço de tucumã muito bem fechado, e disse-lhes: — Aqui está; levai-o. Eia! não o abraes, senão todas as cousas se perderão.

11Os famulos foram-se, e estavam ouvindo barulho dentro do coco de tucumã, assim: tem, ten, ten... era o barulho dos grillos e dos sapinhos que cantam de noite.

12Quando já estavam longe, um dos famulos disse a seus companheiros: — Vamos ver que barulho será este?

13O piloto disse: — Não, do contrario nos perderemos. Vamos embora, eia, rema!

14Elles foram-se e continuaram a ouvir aquelle barulho dentro do coco de tucumã, e não sabiam que barulho era.

15Quando já estavam muito longe, ajuntaram-se no meio da canôa, accenderam fogo, derreteram o breu que fechava o coco e o abriram. De repente tudo escureceu.

16O piloto então disse: — Nós estamos perdidos; e a moça, em sua casa, já sabe que nós abrimos o coco de tucumã! Elles seguiram viagem.

17A moça, em sua casa, disse então a seu marido: — Elles soltaram a noite; vamos esperar a manhã.

18Então todas as cousas que estavam espalhadas pelo bosque se transformaram em animaes e em passaros.

19As cousas que estavam espalhadas pelo rio se transformaram em patos, e em peixes. Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e sua canôa se transformaram em pato; de sua cabeça nasceram a cabeça e bico do pato; da canôa o corpo do pato; dos remos as pernas do pato.

20A filha da Cobra Grande, quando viu a estrella d'alva, disse a seu marido: — A madrugada vem rompendo. Vou dividir o dia da noite.

21Então ella enrolou um fio, e disse-lhe: — Tu serás cujubim. Assim ella fez o cujubim; pintou a cabeça do cujubim de branco, com tabatinga; pintou-lhe as pernas de vermelho com urucú, e então disse-lhe: — Cantarás para todo sempre quando a manhã vier raiando.

22Ella enrolou o fio, sacudiu cinza em riba d'elle, e disse: — Tu serás inambú, para cantar nos diversos tempos da noite, e de madrugada.

23De então para cá todos os passaros cantaram em seus tempos, e de madrugada para alegrar o principio do dia.

24Quando os tres famulos chegaram o moço disse-lhes: — Não fostes fiéis — abristes o caroço de tucumã, soltastes a noite e todas as cousas se perderam, e vós tambem, que vos metamorphoseastes em macacos, andareis para todo sempre pelos galhos dos páos.

25(A bocca preta, e a risca amarella que elles têm no braço dizem que é ainda o signal do breu que fechava o caroço de tucumã que escorreu sobre elles quando o derreteram.)

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Versão: Couto de Magalhães (1876)

Edição: 1

Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource

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