O Selvagem: religião e lendas dos tupis — Lenda: o veado e a onça
Ler no Une Sacra1A lenda seguinte, dividida em dous pequenos episodios, é o desenvolvimento da seguinte maxima: Auá nhahã oikó uahá çuáizána irúmo intí opituú quáu. — Quem mora com o seu inimigo não póde viver tranquillo.
2A maxima é desenvolvida com grande habilidade, sem lhe faltar o interesse de uma acção dramatica muito simples, mas muito propria para fixal-a na intelligencia infantil de povos que não haviam ainda transposto o periodo da idade de pedra.
3Como não seria natural que dous inimigos fossem voluntariamente morar juntos, o bardo indigena suppôz que o veado, depois de haver escolhido um lugar para casa, retirou-se; e que a onça, ignorando a escolha prévia do veado, escolheu o mesmo lugar; que aquelle veio depois que a onça retirou-se, roçou e limpou o lugar; que a onça, vindo depois que o veado se havia retirado, julgou que Tupã a estava ajudando, e assim trabalharam successivamente, cada um suppondo que era Tupã quem fazia o trabalho do outro, até que, concluida a casa, quando deram pelo engano, para não perder o trabalho, resignaram-se a morar juntos, resultando d'ahi uma situação de reciprocas desconfianças, que é descripta com tanta singeleza quanta felicidade de factos.
4O veado disse: eu estou passando muito trabalho e por isso vou ver um lugar para fazer minha casa. Foi pela beira do rio, achou um lugar bom e disse: É aqui mesmo.
5A onça tambem disse: eu estou passando muito trabalho, e por isso vou procurar lugar para fazer minha casa. Sahiu e, chegando ao mesmo lugar que o veado havia escolhido, disse: Que bom lugar: aqui vou fazer minha casa.
6No dia seguinte veio o veado, capinou e roçou o lugar.
7No outro dia veiu a onça e disse: Tupã me está ajudando. Afincou as forquilhas, armou a casa.
8No outro dia veiu o veado e disse: Tupã me está ajudando. Cobriu a casa e fez dous commodos: um para si, outro para Tupã.
9No outro dia a onça, achando a casa prompta, mudou-se para ahi, occupou um commodo, e poz-se a dormir.
10No outro dia veiu o veado, e occupou outro commodo.
11No outro dia se acordaram, e quando se avistaram, a onça disse ao veado: — Era você que estava me ajudando? O veado respondeu: Era eu mesmo. A onça disse: Pois bem, agora vamos morar juntos. O veado disse: Vamos.
12No outro dia a onça disse: — Eu vou caçar. Você limpe os tocos, veja agua, lenha, que eu hei de chegar com fome.
13Foi caçar, matou um veado muito grande, trouxe para casa e disse ao seu companheiro: — Aprompta para nós jantarmos.
14O veado apromptou, mas estava triste, não quiz comer, e de noite não dormiu com medo de que a onça o pegasse.
15No outro dia o veado foi caçar, encontrou-se com outra onça grande e depois com um tamanduá; disse ao tamanduá: Onça está ali fallando mal de você.
16O tamanduá veiu, achou a onça arranhando um páu, chegou por detraz devagar, deu-lhe um abraço, metteu-lhe a unha, a onça morreu.
17O veado a levou para casa, e disse a sua companheira: — Aqui está; apromta para nós jantarmos.
18A onça apromptou, mas não jantou e estava triste.
19Quando chegou a noite os dous não dormiam, a onça espiando o veado, o veado espiando a onça. A meia noite elles estavam com muito somno; a cabeça do veado esbarrou no giráu, fez: tá! A onça, pensando que era o veado que já a ia matar, deu um pulo. O veado assustou-se tambem e ambos fugiram, um correndo para um lado, outro correndo para o outro.
20O veado foi morar em companhia do cachorro.
21Passado muito tempo, a onça tambem foi morar lá, porque o veado já se tinha esquecido d'ella.
22No outro dia foram caçar. A onça queria pegar o cachorro. O cachorro de tarde, quando voltou, trouxe caça pequena, cutia, paca, tatú e inambú. Jantaram e depois de jantar foram jogar. A onça jogava e dizia: — O que eu cacei não pude pegar. O cachorro jogava e dizia: — Quem tem perna curta não deve caçar. Assim jogaram até que a onça saltou no cachorro.
23O cachorro e o veado fugiram, a onça seguiu atraz e, quando pegou o veado, este virou pedra.
24O cachorro atravessou um rio, e disse para onça: — Agora se me queres pegar, só se me jogares uma pedra. A onça agarrou na pedra e jogou. Quando a pedra cahiu na outra banda gritou: mé! e virou outra vez em veado. Foi d'ahi que gerou-se a raiva do cachorro contra a onça.
Versão: Couto de Magalhães (1876)
Edição: 1
Fonte: O Selvagem (1876) — Internet Archive e Wikisource
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