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Livro dos Mortos (Papiro de Ani) — O capítulo de não morrer uma segunda vez

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1O CAPÍTULO DE NÃO MORRER UMA SEGUNDA VEZ. O Osíris Ani, cuja palavra é verdade, diz: Salve, Tot! Que é que aconteceu aos filhos de Nut? Fizeram guerra, sustentaram contenda, fizeram o mal, criaram os demônios, fizeram matança, causaram perturbação; na verdade, em todos os seus feitos os fortes trabalharam contra os fracos. Concede, ó poder de Tot, que aquilo que o deus Tem decretou [seja feito!] E tu não olhas para o mal, nem te irritas quando eles levam os seus anos à confusão e se aglomeram e se empurram para perturbar os seus meses. Pois em tudo o que te fizeram trabalharam a iniquidade em segredo. Eu sou a tua paleta de escriba, ó Tot, e trouxe-te o teu tinteiro. Não sou dos que trabalham a iniquidade nos seus lugares secretos; que o mal não me aconteça.

2O Osíris, o escriba Ani, cuja palavra é verdade, diz: Salve, Temu! Que espécie de terra é esta a que cheguei? Não tem água, não tem ar; é profundidade insondável, é negra como a mais negra noite, e os homens vagueiam desamparados nela. Nela um homem não pode viver em sossego de coração; nem podem ser satisfeitos ali os anseios do amor. Mas que me seja dado o estado das Almas-espirituais em lugar de água e ar, e a satisfação dos anseios do amor, e que me seja dado sossego de coração em lugar de bolos e cerveja. O deus Tem decretou que eu verei o teu rosto e que não sofrerei das coisas que te causam dor. Que todo deus te transmita o seu trono por milhões de anos. O teu trono desceu a teu filho Hórus, e o deus Tem decretou que o teu curso estará entre os príncipes santos. Na verdade, ele governará a partir do teu trono e será herdeiro do trono do Habitante do Lago de fogo [Neserser]. Na verdade, foi decretado que em mim ele verá a sua semelhança, e que o meu rosto contemplará o rosto do Senhor Tem. Quanto tempo, então, tenho para viver? Está decretado que viverás por milhões de anos, uma vida de milhões de anos. Que me seja concedido passar aos príncipes santos, pois, na verdade, afastei todo o mal que cometi, desde o tempo em que esta terra veio a existir de Nu, quando brotou do abismo aquoso assim como era nos dias antigos. Eu sou o Destino e Osíris, fiz as minhas transformações à semelhança de diversas serpentes. O homem não sabe, e os deuses não podem contemplar a beleza dupla que fiz para Osíris, o maior dos deuses. Dei-lhe a região dos mortos. E, na verdade, seu filho Hórus está sentado no trono do Habitante do Lago de fogo [de Neserser], como seu herdeiro. Fi-lo ter o seu trono na Barca de Milhões de Anos. Hórus está estabelecido no seu trono [entre os seus] parentes, e tem tudo o que está com ele. Na verdade, a Alma de Set, que é maior que todos os deuses, partiu. Que me seja concedido atar a sua alma com grilhões na Barca do Deus, quando me aprouver, e que ele tema o Corpo do Deus. Ó meu pai Osíris, fizeste por mim aquilo que teu pai Rá fez por ti. Deixa-me permanecer na terra de modo duradouro. Deixa-me conservar a posse do meu trono. Que o meu herdeiro seja forte. Que o meu túmulo e os meus amigos que estão na terra floresçam. Que os meus inimigos sejam entregues à destruição e aos grilhões da deusa Serq. Eu sou teu filho. Rá é meu pai. Também a mim conferiste vida, força e saúde. Hórus está estabelecido sobre o seu túmulo. Concede que os dias da minha vida cheguem à adoração e à honra.

3APÊNDICE (Do Papiro de Leiden de Rá)

4RUBRICA: Este Capítulo será recitado sobre uma figura de Hórus, feita de lápis-lazúli, que será posta no pescoço do morto. É uma proteção na terra, e assegurará ao morto o afeto dos homens, dos deuses e das Almas-espirituais que são perfeitas. Além disso, age como encantamento no Khert-Neter, mas deve ser recitado por ti em favor do Osíris Rá, regular e continuamente, milhões de vezes.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir da versão inglesa de E. A. Wallis Budge

Fonte: Wikisource — The Papyrus of Ani (1913)

Licença: Domínio público