Une Sacra

Bhagavad Gita — Capítulo 11

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1Arjuna.
Isto, para a paz da minha alma, ouvi de Ti:
O desdobrar do Mistério Supremo
Chamado Adhyatman; compreendendo-o,
A minha escuridão se dissipa; pois agora sei —
Ó de Olhos de Lótus! — de onde vem o nascimento dos homens,
E de onde a sua morte, e quais as majestades
Do Teu governo imortal. De bom grado veria,
Como Tu mesmo o declaras, Senhor Soberano!,
A semelhança daquela glória da Tua Forma
Inteiramente revelada. Ó Tu, Diviníssimo!
Se isto pode ser, se eu puder suportar a visão,
Torna-Te visível, Senhor de todas as preces!
Mostra-me o Teu próprio ser, o Deus Eterno!

2Krishna.
Contempla, então, Filho de Pritha! manifesto para ti
Aquelas cem mil milhares de formas que vestem o meu Mistério:
Mostro-te todas as minhas aparências, infinitas, ricas, divinas,
As minhas cores mutáveis, as minhas formas sem conta. Vê! neste meu rosto
Adityas, Vasus, Rudras, Aswins e Maruts; vê
Maravilhas sem número, Príncipe da Índia!, reveladas só a ti.
Eis! isto é o Universo! — Olha! o que é vivo e o que é morto
Reúno tudo num só — em Mim! Contempla, como os teus lábios disseram,
O DEUS ETERNO, O PRÓPRIO DEUS! Vê-Me! vê o que pedes!

3Não podes! — nem, com olhos humanos, Arjuna!, jamais poderás!
Por isso te dou um sentido divino. Tem outros olhos, nova luz!
E, olha! Esta é a Minha glória, desvelada à vista mortal!

4Sanjaya.
Então, ó Rei!, o Deus, assim dizendo,
Ergueu-se, mostrando ao Filho de Pritha
Todo o esplendor, a maravilha, o pavor
Da Sua vasta Divindade Todo-Poderosa.
Contemplando por olhos sem conta,
Ordenando por bocas sem conta,
Envolvendo formas místicas sem conta
Numa só Forma: erguendo-se supremo,
Vestindo glórias radiantes sem conta,
Portando armas celestes sem conta,
Coroado de grinaldas de aglomerados de estrelas,
Vestido de trajes de fulgores tecidos,
Exalando da Sua Presença perfeita
Sopros de toda essência sutil
De todos os perfumes celestes; derramando
Brilho ofuscante; cobrindo —
Sem limites, belo — todos os espaços
Com os Seus rostos que tudo olham;
Assim Ele se mostrou! Se surgisse
De súbito nos céus
O clarão de mil sóis
Inundando a terra com raios inimagináveis,
Então se poderia sonhar a majestade
E o resplendor daquele Santo!

5Assim o Filho de Pandu contemplou
Todo este universo envolver
Toda a sua imensa diversidade
Numa só forma vasta, e ser
Visível, e visto, e fundido
Num só Corpo — sutil, esplêndido,
Sem nome —, o que Tudo Compreende,
Deus dos Deuses, a Divindade
Sem Fim!

6Mas, profundamente assombrado,
Estremecido, transbordante, deslumbrado e atordoado,
Arjuna ajoelhou-se; e inclinou a cabeça,
E juntou as palmas; e clamou, e disse:

7Arjuna.
Sim! Eu vi! Eu vejo!
Senhor! tudo está envolto em Ti!
Os deuses estão na Tua forma gloriosa! as criaturas
Da terra, e do céu, e do inferno
Moram na Tua forma Divina,
E no Teu semblante brilham todos os traços

8De Brahma, sentado só
No Seu trono de lótus;
Dos santos e sábios, e das raças de serpentes,
Ananta, Vasuki;
Sim! Senhor poderosíssimo! vejo
Os Teus mil milhares de braços, e peitos, e rostos,
E olhos — de todos os lados
Perfeitos, diversificados;
E em parte alguma fim de Ti, em parte alguma princípio,
Em parte alguma centro! Desloca-se —
Para onde quer que se erga o olhar da alma —
O Teu Eu central, que tudo maneja e tudo conquista!

9Rei Infinito! vejo
O diadema em Ti,
A maça, a concha, o disco; vejo-Te ardendo
Em raios insuportáveis,
Iluminando a terra, o céu e o inferno
Com brilho flamejante, incandescente, fulgurante; tornando

10A treva em dia deslumbrante,
Para onde quer que eu olhe;
Ah, Senhor! adoro-Te, o Indiviso,
O Extremo do pensamento,
O Palácio-Tesouro feito
Para guardar a riqueza dos mundos; o Escudo provido

11Para abrigar as leis da Virtude;
A Fonte de onde a corrente da Vida tira
Todas as águas de todos os rios de todo ser:
O Único Não Nascido, Sem Fim:
Imutável e Sem Mistura!
Com poder e majestade, além do pensamento, além da vista!

12A prata da lua e o ouro
Do sol são glórias que rolam
Dos Teus grandes olhos; o Teu semblante, brilhando terno
Por entre as estrelas e os céus,
Desperta para a vida cálida
O Teu Universo. Os mundos estão cheios da maravilha

13Das Tuas perfeições! O espaço
Salpicado de estrelas, e o lugar vazio
De polo a polo do Azul, de limite a limite,
Tem-Te em cada ponto,
A Ti, a Ti! — Onde Tu não estás,
Ó Forma Santa e Maravilhosa!, não se acha em parte alguma!

14Ó Místico, Temível!
À Tua vista, dado a conhecer,
Os Três Mundos tremem; os deuses inferiores aproximam-se de Ti;
Juntam as palmas e inclinam
Corpo, e peito, e fronte,
E, sussurrando adoração, louvam-Te e engrandecem-Te!

15Rishis e Siddhas clamam:
"Salve! Altíssima Majestade!"
Do sábio e do cantor irrompe o hino de glória
Em doce harmonia,
Soando o Teu louvor;
Enquanto companhias sem conta retomam o relato,

16Rudras, que cavalgam as tempestades,
As formas brilhantes dos Adityas,
Vasus e Sadhyas, Viswas, Ushmapas;
Maruts, e aqueles grandes Gêmeos,
Os celestes, belos Aswins,
Gandharvas, Rakshasas, Siddhas e Asuras —

17Estes Te veem e reverenciam
Com medo súbito;
Sim! os Mundos — vendo-Te com forma estupenda,
Com rostos múltiplos,
Com olhos que tudo contemplam,
Olhos sem número, braços vastos, membros tremendos,

18Flancos iluminados de sol e estrela,
Pés plantados perto e longe,
Presas de terror, bocas iradas e ternas —
Os Três vastos Mundos diante de Ti
Adoram, como eu Te adoro,
Tremem, como eu tremo, ao testemunhar tanto esplendor!

19Vejo-Te tocar os céus
Com a fronte, de modo maravilhoso,
Enorme, pintada de arco-íris, cintilante; e a Tua boca
Aberta, e órbitas que veem
Todas as coisas, sejam quais forem,
Em todos os Teus mundos, leste, oeste, norte e sul.

20Ó Olhos de Deus! Ó Cabeça!
A força da minha alma fugiu,
Foi-se o vigor do coração, repreendido está o desejo da mente!
Quando Te contemplo assim,
Com sobrancelhas temíveis em brasa,
Com olhar ardente, e lábios acesos pelo fogo

21Feroz como aquelas chamas que hão de
Consumir, no fim de tudo,
A Terra e o Céu! Ai de mim! não vejo Terra nem Céu!
A Ti, Senhor dos Senhores!, vejo,
Só a Ti — só a Ti!
Agora seja-me dada a Tua misericórdia,

22Tu, Refúgio do Mundo!
Eis! lançados na caverna
Da Tua garganta escancarada, e dos lábios de presas brancas,
Vejo os nossos mais nobres,
Os filhos do grande Dhritarashtra,
Bhishma, Drona e Karna, apanhados e esmagados!

23Os Reis e Chefes atraídos
Para dentro daquela goela aberta;
Os melhores de ambos os exércitos rasgados e despedaçados!
Entre as Tuas mandíbulas jazem
Mutilados e ensanguentados,
Moídos em pó e morte! Como correntes impelidas

24Com pressa impotente, que vão
Em fluxo furioso e precipitado
Direto para as profundezas sorvedoras do oceano nunca cheio,
Assim para aquela caverna flamejante
Aqueles heróis grandes e bravos
Se precipitam, em correntes sem fim, com movimento impotente!

25Como as mariposas que de noite
Esvoaçam em direção a uma luz,
Atraídas para o seu destino ígneo, voando e morrendo,
Assim para a sua morte ainda se apinham,
Cegas, deslumbradas, arrastadas
Sem cessar, todas aquelas multidões, em voo selvagem!

26Tu, que formaste os homens,
Devora-los de novo,
Uns com os outros, grandes e pequenos, igualmente!
As criaturas que fazes,
Com mandíbulas flamejantes as tomas,
Lambendo-as! Senhor Deus! Os Teus terrores ferem

27De um extremo ao outro da terra,
Enchendo a vida, do nascimento
À morte, de pavor mortal, ardente, sinistro!
Ah, Vishnu! faze-me saber
Por que é assim o Teu semblante?
Quem és Tu, banqueteando-Te assim com os Teus mortos?

28Quem? Divindade temível!
Inclino-me diante de Ti,
Namostu Te, Devavara! Prasid!
Ó Senhor Poderosíssimo! dize
Por que tens um rosto tão feroz?
De onde procede este aspecto horrível?

29Krishna.
Vês-Me como o Tempo que mata,
O Tempo que leva tudo à perdição,
O Tempo Matador, Antigo de Dias, vindo aqui para consumir;
Exceto tu, de todas estas hostes de chefes inimigos em formação,
Não há um só que sairá vivo do campo de batalha! Não fiques
Mais consternado! Levanta-te! obtém renome! destrói os teus inimigos!
Luta pelo reino que te espera quando os tiveres vencido.
Por Mim eles caem — não por ti! o golpe da morte já lhes é dado,
Ainda que se mostrem tão galhardos; tu és o Meu instrumento!
Fere, Príncipe de braço forte, Drona! fere Bhishma! dá a morte
A Karna, a Jyadratha; detém todo o seu sopro guerreiro!
Sou Eu quem os manda perecer! Tu só matarás os já mortos;
Luta! eles devem cair, e tu deves viver, vencedor nesta planície!

30Sanjaya.
Ouvindo a palavra do poderoso Keshav,
Trêmulo, aquele Senhor de elmo
Juntou as palmas erguidas e — pedindo
A graça de Krishna — ali ficou, dizendo,
Com a fronte inclinada e a voz entrecortada,
Estas palavras, timidamente proferidas:

31Arjuna.
Com razão, Senhor do Poder!,
O mundo inteiro se deleita
No Teu poder sem igual, obedecendo-Te;
Os Rakshasas, com pavor
À Tua vista, fogem apressados
Para os quatro cantos; e a companhia

32Dos Siddhas soa o Teu nome.
Como não proclamariam
As Tuas Majestades, Diviníssimo, Poderosíssimo?
Tu, Brahm, maior que Brahma!
Tu, Criador Infinito!
Tu, Deus dos deuses, Morada e Repouso da Vida!

33Tu, Alma de todas as almas!
O Todo que Tudo Compreende!
Do ser formado, e do ser sem forma o Formador;
Ó Supremo! Ó Senhor!
Mais antigo que a antiguidade, que encheste
Os mundos com a riqueza da vida! Ó Senhor do Tesouro,

34Que sabes tudo, e és
Tu mesmo a Sabedoria! Ó Parte
Em tudo, e Tudo; pois tudo de Ti surgiu!
Sem número agora vejo
Que são os Teus aspectos!
Tu és Vayu, e Aquele que guarda a prisão

35De Narak, o escuro Yama;
E a centelha brilhante de Agni;
As ondas de Varuna são as Tuas ondas. A lua e a luz das estrelas
São Tuas! Prajapati
És Tu, e foi a Ti
Que se ajoelharam adorando a luz distante do mundo antigo,

36O primeiro dos homens mortais.
De novo, ó Deus! de novo
Sê engrandecido mil milhares de vezes!
Honra e adoração sejam —
Glória e louvor — a Ti,
Namo, Namaste, clamado de todos os lados;

37Clamado aqui, em cima, embaixo,
Proferido quando partes,
Proferido onde chegas! Namo! clamamos;
Namostu! Deus adorado!
Namostu! Senhor sem nome!
Salve! Louvor a Ti! Tu, Um em tudo;

38Pois Tu és Tudo! Sim, Tu!
Ah! se agora, irado,
Te lembrares de que Te tive por Amigo,
Falando com fala familiar,
Como os homens usam uns com os outros;
De que Te chamei "Krishna", "Príncipe", sem compreender

39A Tua majestade oculta,
O poder, o temor de Ti;
De que, na minha desatenção, ou no meu amor,
Em viagem, ou por gracejo,
Ou quando estávamos em repouso,
Sentados em conselho, vagueando pelo bosque,

40Sós, ou na multidão,
Te fiz, Santíssimo!, alguma ofensa,
Seja-me concedida a Tua graça por esse pecado insensato!
Pois Tu és, agora sei,
Pai de tudo o que está embaixo,
De tudo o que está em cima, de todos os mundos dentro,

41Guru dos Gurus; mais
Para reverenciar e adorar
Do que tudo o que é adorável e alto!
Como, nos três vastos mundos,
Haveria algum igual?
Haveria outro que partilhasse a Tua Majestade?

42Portanto, com o corpo curvado
E intenção reverente,
Louvo-Te, e sirvo-Te, e busco-Te, pedindo graça.
Como pai para o filho,
Como amigo para o amigo, como aquele
Que ama para o seu amado, volta o Teu rosto

43Com brandura para mim!
Foi bom eu ter visto
Esta maravilha desconhecida da Tua Forma! Mas o medo
Mistura-se com a alegria! Retoma,
Querido Senhor!, por piedade,
A Tua forma terrena, que olhos terrenos podem suportar!

44Sê misericordioso e mostra
O semblante que conheço;
Deixa-me olhar-Te, como outrora, adornado
Com o disco e a gema na fronte,
Com a maça e o diadema,
Tu que sustentas todas as coisas! Sem pavor

45Deixa-me contemplar mais uma vez
A forma que amei outrora,
Tu dos mil braços e dos olhos sem conta!
Este coração assustado deseja
Ver restituído de novo
O meu Cocheiro, no amável disfarce de Krishna.

46Krishna.
Sim! viste, Arjuna!, porque te amei muito,
O semblante secreto de Mim, revelado por encanto místico,
Brilhante, e maravilhoso, e vasto, majestoso, múltiplo,
Que ninguém senão tu em todos os anos teve o favor de contemplar;
Pois não pelos Vedas vem isto, nem pelo sacrifício, nem pela esmola,
Nem pelas obras bem feitas, nem pela longa penitência, nem pelas preces, nem pelos salmos
cantados,
Que olhos mortais suportem ver a Alma Imortal desnudada,
Príncipe dos Kurus! Isto foi guardado só para ti! Alegra-te!
Que nenhuma perturbação abale mais o teu coração, porque os teus olhos viram
O Meu terror com a Minha glória. Como fui antes,
Assim serei de novo para ti; com o coração aliviado, contempla!
De novo sou o teu Krishna, a forma que conhecias outrora!

47Sanjaya.
Estas palavras a Arjuna disse
Vasudev, e logo retomou
De novo a aparência querida
Do bem-amado cocheiro;
Paz e alegria ela restituiu
Quando o Príncipe contemplou mais uma vez
A forma e o rosto do poderoso BRAHMA
Vestidos da graça gentil de Krishna.

48Arjuna.
Agora que vejo voltar, Janardana!,
Esta forma humana amiga, a minha mente pode ter
De novo pensamentos calmos; o meu coração bate tranquilo outra vez!

49Krishna.
Sim! foi maravilhoso e terrível
Ver-me como viste, querido Príncipe! Os deuses
Temem e desejam continuamente vê-lo!
Contudo, nem pelos Vedas, nem pelo sacrifício,
Nem pela penitência, nem pela dádiva, nem pela prece
Alguém assim contemplará, como tu viste!
Só pelo serviço mais pleno, pela fé perfeita
E pela entrega extrema sou conhecido,
E visto, e alcançado, Príncipe da Índia!
Quem faz tudo por Mim; quem Me acha
Em tudo; adora sempre; ama tudo
O que Eu fiz, e a Mim, só por amor do Amor,
Esse homem, Arjuna!, a Mim se encaminha.

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Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir da versão inglesa de Edwin Arnold

Fonte: Project Gutenberg — The Song Celestial

Licença: Domínio público