Kojiki — A Era dos Deuses (seções I–XIX) — A porta da Morada Rochosa Celeste
Ler no Une Sacra1Então a Grande-Augusta-Divindade-Que-Brilha-no-Céu, aterrada com a visão, fechou [atrás de si] a porta da Morada Rochosa Celeste, trancou-a e se retirou. Então toda a Planície do Alto Céu ficou obscurecida, e toda a Terra Central das Planícies de Juncos escureceu. Por causa disso, reinou a noite eterna. Então as vozes das miríades de Divindades eram como as moscas no quinto mês quando enxameiam, e miríades de presságios de desgraça surgiram todos.
2Por isso as oitocentas miríades de Divindades se reuniram numa assembleia divina no leito do Rio Tranquilo do Céu, e pediram à Divindade Que-Inclui-o-Pensamento, filho da Divindade-Alta-Augusta-Produtora-Maravilhosa, que pensasse num plano: reunindo os pássaros de canto longo da noite eterna e fazendo-os cantar, tomando as rochas duras do Céu do leito do Rio Tranquilo do Céu, e tomando o ferro das Montanhas-de-Metal Celestes, chamando o ferreiro Ama-tsu-ma-ra, encarregando Sua Augustidade I-shi-ko-ri-do-me de fazer um espelho, e encarregando Sua Augustidade Antepassado-das-Joias de fazer um fio augustamente completo de joias curvas de oito pés [de comprimento] — de quinhentas joias — e convocando Sua Augustidade Senhor-Antepassado-Que-Acena-Celeste e Sua Augustidade Grande-Joia, e fazendo-os arrancar com um arranque completo a omo[plata] de um verdadeiro cervo do Monte Kagu Celeste, e tomar casca de cerejeira do Monte Kagu Celeste, e fazer a adivinhação, e arrancando pelas raízes uma verdadeira cleyera japonica de quinhentos [ramos] do Monte Kagu Celeste, e tomando e pondo nos seus ramos de cima o fio augustamente completo de joias curvas de oito pés [de comprimento] — de quinhentas joias — e tomando e atando aos ramos do meio o espelho de oito pés [de comprimento], e tomando e pendurando nos seus ramos de baixo as oferendas pacificadoras brancas e as oferendas pacificadoras azuis, Sua Augustidade Grande-Joia tomando estas diversas coisas e segurando-as junto com as grandes augustas oferendas, e Sua Augustidade Senhor-Antepassado-Que-Acena-Celeste recitando em oração grandes liturgias, e a Divindade-Macho-da-Força-das-Mãos Celeste de pé, escondida ao lado da porta, e Sua Augustidade Fêmea-Que-Alarma-Celeste pendurando [à sua volta] o licopódio celeste do Monte Kagu Celeste como faixa, e fazendo do evônimo celeste o seu toucado, e atando as folhas do capim-bambu do Monte Kagu Celeste num ramalhete para as suas mãos, e pondo uma tábua sonora diante da porta da Morada Rochosa Celeste, e batendo os pés até fazê-la ressoar e agindo como possuída por uma Divindade, e pondo para fora os mamilos dos seus seios, e baixando o cordão da saia usque ad privatas partes.
3Então a Planície do Alto Céu tremeu, e as oitocentas miríades de Divindades riram juntas. Então a Grande-Augusta-Divindade-Que-Brilha-no-Céu ficou espantada e, abrindo ligeiramente a porta da Morada Rochosa Celeste, falou assim de dentro: "Eu pensava que, por causa do meu retiro, a Planície do Céu estaria escura, e também a Terra Central das Planícies de Juncos estaria toda escura: como é então que a Fêmea-Que-Alarma-Celeste se diverte, e também as oitocentas miríades de Divindades riem todas?" Então a Fêmea-Que-Alarma-Celeste falou, dizendo: "Alegramo-nos e estamos contentes porque há uma Divindade mais ilustre do que Tua Augustidade."
4Enquanto ela assim falava, Sua Augustidade Senhor-Antepassado-Que-Acena-Celeste e Sua Augustidade Grande-Joia empurraram para a frente o espelho e o mostraram respeitosamente à Grande-Augusta-Divindade-Que-Brilha-no-Céu, e então a Grande-Augusta-Divindade-Que-Brilha-no-Céu, cada vez mais espantada, saiu pouco a pouco pela porta e contemplou-o; e então a Divindade-Macho-da-Força-das-Mãos Celeste, que estava escondida, tomou-lhe a augusta mão e puxou-a para fora, e então Sua Augustidade Grande-Joia estendeu a corda atada no fundo atrás das suas augustas costas, e falou, dizendo: "Não deves voltar para dentro além disto!" Assim, quando a Grande-Augusta-Divindade-Que-Brilha-no-Céu saiu, tanto a Planície do Alto Céu como a Terra-Central-das-Planícies-de-Juncos naturalmente ficaram de novo iluminadas.
Versão: Tradução (edição 1) — Tradução popular, a partir da versão inglesa de Basil Hall Chamberlain
Fonte: Wikisource — Kojiki (Chamberlain, 1882)
Licença: Domínio público